Vitaminas do Complexo B — B2, B3, B5 e B6 — Guia para Prova de Título
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Introdução
Capa Vitaminas do Complexo B
Nutro-TEN

Vitaminas do Complexo B

Guia Completo de Estudo e Revisão das Vitaminas B2, B3, B5 e B6 focado na preparação para a Prova de Título de Especialista em Nutrologia (ABN/ABRAN).

Diretrizes Base: ESPEN 2022 / ESPEN 2024 / ASPEN
Status de Cobrança: Altamente Relevante (Questões Reais Comentadas)
Formato: Apostila Digital Interativa
Capítulo 1

Riboflavina (Vitamina B2)

Riboflavin · FMN · FAD · Ariboflavinose

1. Funções e Bioquímica

A riboflavina é convertida intracelularmente em dois cofatores fundamentais: FMN (flavina mononucleotídeo) e FAD (flavina adenina dinucleotídeo). Essas formas representam a grande maioria da riboflavina nos tecidos e no plasma. Elas sustentam dezenas de flavoenzimas envolvidas nas principais vias metabólicas do organismo.

A riboflavina também se destaca por ser a "vitamina que ajuda outras vitaminas" — ela é cofator necessário para o metabolismo de niacina (B3), B6, B12 e folato. Isso significa que a deficiência de B2 frequentemente coexiste e amplifica deficiências de outras vitaminas do complexo B.

1.1 Principais flavoenzimas e vias dependentes de riboflavina

Enzima / Via Função Clínica Relevante
Succinato desidrogenase Cadeia respiratória mitocondrial (complexo II / Complexo II)
Glutationa redutase Defesa antioxidante — também base do teste EGRAC
MTHFR (metilenotetra-hidrofolato redutase) Metabolismo do folato e homocisteína
Piridoxina fosfato oxidase Ativação da vitamina B6 (PLP) — conexão entre B2 e B6
Xantina oxidase Metabolismo de purinas
β-oxidação de ácidos graxos (acil-CoA DH) Oxidação de ácidos graxos — base da MADD (def. múltipla acil-CoA DH)
Conversão triptofano → niacina B2 é necessária para síntese endógena de niacina

2. Absorção, Distribuição e Particularidades Farmacológicas

A absorção ocorre predominantemente no intestino delgado proximal por processo ativo, mediado por carreador e saturável. A riboflavina não é armazenada em grandes quantidades no organismo, o que torna necessária uma oferta contínua pela dieta ou pelo suporte nutricional.

Ponto crítico para prova: Fotossensibilidade

Todas as flavinas são fotossensíveis e se degradam com irradiação. Isso tem implicações diretas para:

  1. Manuseio de amostras laboratoriais — armazenar a −20 °C protegidas da luz;
  2. Soluções de nutrição parenteral — proteger da fotodegradação.

A microbiota do intestino grosso também pode produzir riboflavina, embora a contribuição quantitativa para os estoques corporais seja limitada.

3. Necessidades, DRI e Recomendações em Suporte Nutricional

Situação Dose de Referência Fonte
Adultos (homens) 1,3 mg/dia DRI/RDA
Adultos (mulheres) 1,1 mg/dia DRI/RDA
Gestação 1,4 mg/dia DRI
Lactação 1,6 mg/dia DRI
Nutrição Enteral (1500 kcal/d) ≥ 1,2 mg/dia ESPEN 2022 — Grau A
Nutrição Parenteral 3,6 – 5 mg/dia ESPEN 2022
Nutrição Parenteral — ASPEN 3,6 mg/dia ASPEN Position Paper

4. Avaliação Laboratorial e Biomarcadores

O status de riboflavina exige atenção especial à escolha do biomarcador, pois a inflamação interfere significativamente nos valores plasmáticos.

PEGADINHA DE PROVA — INFLAMAÇÃO E RIBOFLAVINA PLASMÁTICA

A B2 plasmática CAI na inflamação (reduções de 30–40% documentadas em revisão sistemática). Em contraste, a concentração eritrocitária (em hemácias) não apresenta a mesma queda. Portanto, em pacientes graves ou com resposta inflamatória ativa, SEMPRE preferir marcadores em hemácias. Esta distinção já foi cobrada indiretamente e é clássica para a prova.

Biomarcador Método / Interpretação Preferência Clínica
EGRAC (Atividade da Glutationa Redutase Eritrocitária) Mede atividade antes e após adição de FAD. RAZÃO: <1,2 = normal; 1,2–1,4 = subnormal; >1,4 = deficiência. Teste funcional clássico — longo prazo.
FAD eritrocitário Dosagem direta de FAD em hemácias. Mais moderno, confiável na inflamação e no paciente crítico. PREFERENCIAL no doente grave / inflamado (ESPEN 2022).
Riboflavina plasmática Cai 30–40% na inflamação; não reflete status tecidual real. NÃO CONFIÁVEL em paciente inflamado.

Cuidados pré-analíticos: armazenar amostras a −20 °C e proteger da luz (fotodegradação das flavinas).

5. Deficiência: Quadro Clínico e Grupos de Risco

5.1 Manifestações clínicas — Ariboflavinose

A deficiência isolada de riboflavina é denominada ariboflavinose. O quadro é dominado por lesões orais, cutâneas e oculares.

Sistema Manifestações
Oral/Mucosas Queilose (fissuras labiais), estomatite angular, glossite (língua magenta).
Cutâneo Dermatite seborreica (face, sulco nasolabial, tronco, escroto).
Ocular Fotofobia, prurido ocular, ardor, ressecamento, vascularização e inflamação corneana.
Hematológico Anemia normocítica normocrômica; aplasia de medula (formas graves); interferência na absorção e mobilização de ferro → pode causar anemia quando ingestão de ferro é baixa.
Ponto Importante para Memorização

A deficiência de B2 frequentemente coexiste com deficiências de B6, folato e niacina — exatamente porque a riboflavina é cofator do metabolismo dessas vitaminas. Nas provas, as questões podem apresentar quadros 'mistos' onde múltiplas deficiências do complexo B se sobrepõem.

5.2 Grupos de risco para deficiência

  • Má absorção: síndrome do intestino curto, doença celíaca.
  • Disfunção tireoidiana (hipertireoidismo aumenta o catabolismo das flavinas).
  • Diabetes mellitus.
  • Doença renal: pré-diálise, hemodiálise e diálise peritoneal.
  • Alcoolismo crônico.
  • Gestação e lactação.
  • Idosos.
  • Pós-cirurgia, trauma, queimaduras, fraturas.
  • Medicações: psicotrópicos, antidepressivos tricíclicos, barbitúricos.

6. Tratamento e Doses Terapêuticas

Situação Dose / Conduta
Deficiência leve/moderada 5–10 mg/dia VO até recuperação clínica.
Deficiência grave / caso clínico relatado 160 mg/dia IV por 4 dias (cura clínica em ~10 dias — caso descrito no guideline).
MADD (Multiple Acyl-CoA Dehydrogenase Deficiency) 50–200 mg/dia (ESPEN GPP).

7. Toxicidade

O consumo oral usual raramente causa efeitos adversos — no máximo urina amarelo-intensa (sem significado clínico). Não há UL estabelecido para doses fisiológicas. Doses farmacológicas repetidas acima de 100 mg podem reagir com a luz, formando peróxidos potencialmente tóxicos e um aduto triptofano-riboflavina com potencial hepato/citotóxico — cautela com megadoses crônicas sem indicação clínica clara.

8. Quadro-Resumo para Prova — B2

Tema O que fixar NÚMERO de prova
Formas ativas FMN e FAD (maior parte da B2 no organismo está como flavinas)
NE (ESPEN) Meta mínima em 1500 kcal/dia ≥ 1,2 mg/dia
NP (ESPEN) Nutrição parenteral adulto 3,6 – 5 mg/dia
EGRAC (melhor teste) Glutationa redutase eritrocitária; ativação por FAD <1,2 ok; 1,2–1,4 sub-normal; >1,4 def.
 Inflamação (PEGADINHA) Plasmática cai 30–40%; preferir FAD/EGRAC em hemácia Queda pode chegar 30–40%
Deficiência — sinais Queilose, estomatite angular, glossite, dermatite seborreica, fotofobia, anemia
Tratamento deficiência VO: 5–10 mg/dia. Grave documentado: 160 mg/dia IV × 4 dias VO 5–10 mg/d; IV 160 mg/d
Análise de Banca — O que esperar

A B2 ainda não foi cobrada diretamente nas provas analisadas, mas seu conteúdo é altamente esperado. O padrão de banca valoriza: (1) diferenciação entre vitaminas do complexo B por quadro clínico; (2) doses para suporte nutricional (ESPEN); (3) a pegadinha da inflamação — plasmático cai, eritrocitário é mais confiável. Espere questões que confundam o quadro oral de B2 (queilose/glossite) com o de B3 (pelagra) ou de B6 (dermatite), exigindo diagnóstico diferencial preciso.

Capítulo 2

Niacina (Vitamina B3)

Ácido nicotínico · Nicotinamida · NAD · NADP · Pelagra

1. Formas, Funções e Bioquímica

O termo niacina engloba duas formas vitamínicas: ácido nicotínico e nicotinamida. Ambas são convertidas pelo organismo nos cofatores NAD (nicotinamida adenina dinucleotídeo) e NADP, essenciais para mais de 400 reações enzimáticas — o que posiciona a niacina como um dos micronutrientes de maior abrangência metabólica. As principais vias dependentes de NAD/NADP incluem: produção de energia (ciclo de Krebs, cadeia respiratória), metabolismo de lipídios (síntese e oxidação de ácidos graxos, síntese de colesterol), síntese e reparo de DNA (via PARP — poli-ADP-ribose polimerase) e funções de defesa antioxidante.

Síntese Endógena — Ponto Clássico de Prova

A niacina pode ser sintetizada endogenamente a partir do triptofano (principalmente no fígado). A relação é de 67 mg de triptofano = 1 mg de Equivalente de Niacina (NE). Esta conversão depende de B1, B2 e B6 como cofatores — por isso, em desnutrição global e alcoolismo, há deficiência 'em bloco' do complexo B que amplifica o risco de pelagra.

Absorção e biodisponibilidade

A niacina dietética é bem absorvida no trato gastrointestinal. Na prática, o problema raramente é “má absorção de niacina isolada”; quando há deficiência clínica, quase sempre existe um contexto de baixa ingestão global, dietas monotônicas com baixa densidade de micronutrientes, alcoolismo, diarreia crônica/má absorção generalizada, ou condições que desviam triptofano/niacina para outras vias metabólicas.

2. Necessidades, DRI e Recomendações em Suporte Nutricional

Situação Dose Fonte
Adultos homens 16 mg NE/dia DRI/RDA
Adultas mulheres 14 mg NE/dia DRI/RDA
Gestação 18 mg NE/dia DRI
Lactação 16 mg NE/dia DRI
NE — ESPEN 2022 (1500 kcal/d) 18 – 40 mg/dia ESPEN 2022
NP — ESPEN 2022 ≥ 40 mg/dia ESPEN 2022

3. Avaliação Laboratorial

O status de niacina é difícil de medir com exame único simples. Os métodos mais usados são:

  • Metabólitos urinários em 24h: N-metilnicotinamida (NMN) e N-metil-2-piridona-5-carboxamida (2-Pyr) — refletem ingestão recente.
  • Índice NAD/NADP em sangue total/hemácias — limitações na interpretação clínica.
  • Na prática clínica: correlação com quadro clínico + TESTE TERAPÊUTICO quando o quadro é sugestivo.

4. Deficiência: Pelagra

PELAGRA — OS 3Ds (DIAGNÓSTICO CLÁSSICO DE PROVA)

A pelagra se manifesta classicamente pela tríade: DERMATITE (fotoinduzida, áreas expostas ao sol — colar de Casal no pescoço) + DIARREIA (persistente, pode ser grave) + DEMÊNCIA (quadro neuropsiquiátrico: irritabilidade, confusão, psicose, podendo evoluir para óbito se não tratada). Atenção: em quadros graves, pode evoluir para um quarto D — DEATH (morte). A dermatite é simétrica, nas áreas expostas, com hiperpigmentação e descamação.

A deficiência de vitamina B3, conhecida como Pelagra (do italiano pelle agra, ou "pele áspera"), representa um dos exemplos mais contundentes de como uma falha bioquímica específica pode se traduzir em colapso sistêmico. Para compreender a clínica dos "4 Ds", o médico deve primeiro olhar para o nível celular: a niacina é a precursora direta do NAD e NADP. Como essas coenzimas são fundamentais em mais de 400 reações de oxirredução, reparo de DNA e sinalização de cálcio, sua ausência afeta prioritariamente tecidos com alto turnover (renovação celular) ou alta demanda energética.

I. Dermatite: A Falha no Reparo Genômico

A dermatite da pelagra não é uma simples irritação cutânea, mas sim uma manifestação de insuficiência de reparo ao dano actínico.

  • Fisiopatologia: A radiação ultravioleta causa danos constantes ao DNA das células expostas. Em condições normais, a enzima PARP (Poli-ADP-ribose polimerase) utiliza o NAD como substrato para sinalizar e reparar essas quebras. Na deficiência de B3, as reservas de NAD se esgotam, impedindo o reparo celular.
  • A Apresentação Clínica: O resultado é a morte celular programada (apoptose) e uma cascata inflamatória exacerbada. Isso explica a simetria e a localização em áreas fotoexpostas.
  • Sinal Patognomônico: O Colar de Casal surge pela exposição da região cervical, onde a pele torna-se hiperpigmentada, endurecida e descamativa (hiperceratose), refletindo a incapacidade do epitélio de manter sua integridade sob estresse radiativo.
Dermatite e Colar de Casal na Pelagra

II. Diarreia: O Colapso da Barreira Gastrointestinal

O trato gastrointestinal possui uma taxa de renovação epitelial altíssima, exigindo um fluxo constante de ATP e precursores biossintéticos dependentes de NAD.

  • Fisiopatologia: Sem niacina, os enterócitos não conseguem realizar a mitose adequada nem manter as junções intercelulares. Isso leva à atrofia das vilosidades e inflamação transmural.
  • Consequência: A inflamação estende-se da boca (glossite e estomatite) até o cólon. A diarreia é multifatorial: é malabsortiva (pela atrofia), secretora (pela inflamação) e frequentemente associada à acloridria, que altera a microbiota e piora o quadro nutricional em um ciclo vicioso.

III. Demência: Disfunção Neuroenergética e Excitotoxicidade

O sistema nervoso central, embora não possua o mesmo turnover celular da pele ou intestino, é o maior consumidor de energia metabólica do corpo.

  • Fisiopatologia: A deficiência de NAD compromete a cadeia transportadora de elétrons na mitocôndria, resultando em um estado de "fome energética" neuronal. Além disso, ocorre o desvio metabólico do Triptofano: em vez de produzir Serotonina, o corpo tenta (ineficazmente) converter o pouco triptofano disponível em niacina via via das quinureninas.
  • Neurotoxicidade: Esse desvio gera um excesso de ácido quinolínico, um agonista dos receptores NMDA, causando excitotoxicidade neuronal.
  • Evolução Clínica: O quadro inicia com irritabilidade e insônia, evoluindo para psicose, desorientação e perda cognitiva profunda (demência), refletindo o dano estrutural e funcional difuso no córtex e tronco cerebral.

IV. Death (Óbito): O Desfecho Sistêmico

Se não houver intervenção com reposição de nicotinamida, a pelagra é invariavelmente fatal. A morte (o quarto "D") não decorre de um único evento, mas da falência múltipla de órgãos gerada pela incapacidade celular de realizar o metabolismo básico, somada à desidratação grave pelo quadro intestinal e à imunodeficiência secundária, já que o NADPH é indispensável para a função bactericida dos leucócitos.

DIFERENCIAL CLÍNICO COBRADO EM PROVA

PELAGRA (3Ds) = deficiência de NIACINA (B3). Não confundir com deficiência de B6 (piridoxina), que causa dermatite, mas sem a tríade clássica, e com quadro predominantemente de anemia microcítica, convulsões e neuropatia. Esta distinção foi cobrada na prova de 2024.

4.1 Causas e grupos de risco para pelagra

  • Desnutrição com dieta monotônica baseada em milho não tratado alcalinamente (a niacina no milho está biologicamente indisponível — ligada à niacitina).
  • Alcoolismo crônico — causa mais comum em países desenvolvidos.
  • Má absorção generalizada / diarreia crônica prolongada.
  • Vulnerabilidade social, transtornos alimentares.
  • Síndrome carcinoide (desvio do triptofano para serotonina).
  • Doença de Hartnup (deficiência no transporte intestinal de triptofano).
  • Uso de isoniazida (aumenta excreção de B6, essencial para conversão triptofano → niacina).

5. Tratamento e Toxicidade

Situação Conduta / Dose
Pelagra / deficiência clínica Ácido nicotínico 15–20 mg/dia VO OU Nicotinamida 300 mg/dia VO.
Má absorção / sem via enteral Via parenteral com multivitamínico ± ajuste conforme necessidade clínica.
Toxicidade — ácido nicotínico FLUSH (rubor/vasodilatação) mesmo em doses baixas. UL = 10 mg/dia (como nutriente isolado). Hepatotoxicidade em gramas/dia.
Toxicidade — nicotinamida NÃO causa flush. UL = 12,5 mg/kg/dia (~900 mg/dia em adulto). Hepatotoxicidade apenas com doses muito altas (gramas/dia prolongado).

6. Quadro-Resumo para Prova — B3

Tema O que fixar NÚMERO de prova
Síntese endógena Triptofano → niacina (fígado); depende B1/B2/B6 67 mg Trp = 1 mg NE
NE — ESPEN (1500 kcal/d) Nutrição enteral 18 – 40 mg/dia
NP — ESPEN Nutrição parenteral adulto ≥ 40 mg/dia
Deficiência clínica 3Ds: Dermatite + Diarreia + Demência (PELAGRA) COBRADO 2024
Toxicidade — Ác. Nicotínico vs Nicotinamida Ác. nicotínico → flush (UL 10 mg/d); Nicotinamida → sem flush (UL 12,5 mg/kg/d) PEGADINHA CLÁSSICA
Tratamento da pelagra VO/enteral preferencial quando intestino funcionante Ác. nicotínico 15–20 mg/d OU Nicotinamida 300 mg/d
Análise de Banca — O que esperar

A B3/Niacina foi cobrada indiretamente em 2024 via alternativa D (incorreta) que confundia os 3Ds da pelagra com deficiência de B6. Esse é o padrão da banca: usar alternativas erradas para testar diferenciação entre vitaminas do complexo B. Espere: (1) questão direta sobre pelagra e seus 3Ds; (2) diferencial com B6 (anemia microcítica, convulsões); (3) doses de suporte nutricional NE/NP; (4) toxicidade diferencial entre ácido nicotínico (flush, UL baixo) e nicotinamida (sem flush, UL maior).

Capítulo 3

Ácido Pantotênico (Vitamina B5)

Pantothenate · Coenzima A · ACP · Deficiência rara

1. Funções e Bioquímica

O ácido pantotênico é componente estrutural obrigatório de duas moléculas centrais da bioquímica humana: Coenzima A (CoA) e Proteína Carreadora de Acila (ACP). Como o organismo não sintetiza CoA e ACP de precursores mais simples sem B5, a sua presença é indispensável para uma lista extensíssima de processos metabólicos.

Vias dependentes de CoA/B5: respiração oxidativa e produção de ATP; metabolismo e síntese de lipídios; síntese de esteroides e hormônios; síntese de neurotransmissores; reações de acetilação de aminoácidos e carboidratos; metabolismo de prostaglandinas. Em resumo: sem B5 não há CoA suficiente, e sem CoA o organismo perde eficiência para operar praticamente todas as rotas energéticas e anabólicas.

2. Absorção

Na dieta, o ácido pantotênico é ingerido principalmente como derivados (CoA, fosfopanteteína, ACP), que são hidrolisados por enzimas pancreáticas antes da absorção. A absorção ocorre ao longo do intestino delgado por combinação de transporte ativo e difusão passiva. A deficiência isolada por má absorção é incomum — quando ocorre, geralmente há contexto de desnutrição grave ou doença sistêmica associada.

3. Necessidades, DRI e Recomendações em Suporte Nutricional

Situação Dose Fonte
Adultos (≥14 anos) 5 mg/dia AI (DRI)
Gestação / Lactação 6 – 7 mg/dia AI
Nutrição Enteral (1500 kcal/d) — ESPEN 2022 ≥ 5 mg/dia ESPEN 2022
Nutrição Parenteral — ESPEN 2022 ≥ 15 mg/dia ESPEN 2022

4. Avaliação Laboratorial

A dosagem de B5 é realizada em sangue total e/ou urina de 24h por métodos microbiológicos (clássico) ou cromatografia líquida com detecção óptica/espectrométrica de massa. Não é exame de rotina; é solicitado como investigação dirigida em sintomas neurológicos sem causa clara — conforme recomenda o ESPEN 2022.

B5 E INFLAMAÇÃO — DIFERENCIAL CHAVE

Diferentemente de vários micronutrientes, o ácido pantotênico NÃO tem impacto conhecido da inflamação sistêmica sobre seus níveis circulantes. Esta ausência de interferência inflamatória diferencia a B5 de vitaminas como B2, B6 e outros micronutrientes que sofrem forte queda plasmática na fase aguda.

5. Deficiência

A deficiência natural de B5 é muito rara e ocorre praticamente apenas em desnutrição grave. Quando induzida experimentalmente, manifesta-se com:

  • Instabilidade pressórica (hipotensão postural, vertigem).
  • Fadiga fácil e irritabilidade.
  • Distúrbios do sono e sintomas gastrointestinais.
  • Parestesias e sensação de queimação em extremidades (formas mais intensas — historicamente chamada de "síndrome dos pés ardentes").
  • Manifestações neurológicas inespecíficas.

Indicação de investigação (ESPEN 2022): A diretriz orienta considerar a dosagem de B5 em sangue na investigação de sintomas neurológicos quando outras causas não explicam o quadro.

6. Toxicidade

A toxicidade por B5 é rara. Não existe UL (Limite Superior Tolerável) estabelecido. Mesmo doses muito altas por via oral raramente causam efeitos relevantes — quando ocorrem, tendem a ser leves (diarreia, dor muscular em ingestões maciças).

7. Quadro-Resumo para Prova — B5

Tema O que fixar NÚMERO de prova
Função central Componente de CoA e ACP → metabolismo energético, lipídios, esteroides, acetilação
NE (ESPEN) 1500 kcal/dia — mínimo ≥ 5 mg/dia
NP (ESPEN) Nutrição parenteral adulto ≥ 15 mg/dia
Inflamação SEM interferência inflamatória conhecida — diferencial de B2 e B6 PEGADINHA
Quando investigar Sintomas neurológicos sem causa clara — dosagem em sangue (ESPEN GPP)
Toxicidade Rara; sem UL estabelecido; efeitos leves com doses altas (diarreia) Sem UL
Análise de Banca — O que esperar

A B5 ainda não foi cobrada diretamente nas provas analisadas. Por ser uma vitamina cuja deficiência é muito rara, o enfoque da banca, quando for cobrar B5, provavelmente será: (1) diferencial entre as vitaminas cujos níveis caem na inflamação (B2, B6) versus a B5 que não sofre esse efeito; (2) doses corretas para NE e NP segundo ESPEN; (3) a indicação de investigação de B5 em contexto de sintomas neurológicos sem causa clara. O candidato que domina as doses e a ausência de interferência inflamatória estará preparado.

Capítulo 4

Piridoxina (Vitamina B6)

PLP · Transaminações · Heme · Neurotransmissores · Neuropatia periférica

1. Formas, Funções e Bioquímica

O termo vitamina B6 compreende 6 vitâmeros: piridoxina, piridoxamina, piridoxal e suas formas 5'-fosforiladas. A forma biologicamente ativa mais relevante é o piridoxal-5-fosfato (PLP), que atua como coenzima em mais de 160 reações enzimáticas. Na prática, isso coloca a B6 no centro do metabolismo de aminoácidos, carboidratos e lipídios, com destaque para reações de transaminação (síntese e degradação de aminoácidos), além de descarboxilações e outras vias essenciais.

Via / Função Relevância Clínica
Transaminações (síntese/degradação de AA) Central no metabolismo de aminoácidos (AST/ALT são transaminases dependentes de B6)
Gliconeogênese (glicogênio fosforilase) PLP ativa a glicogênio fosforilase muscular e hepática
Síntese de neurotransmissores Serotonina, dopamina, GABA, norepinefrina — explica sintomas neuropsiquiátricos na deficiência
Biossíntese do heme (ALA sintase) ⚠ Anemia MICROCÍTICA (diferente de B12/folato que causam macrocitose)
Metabolismo da homocisteína Via transulfuração da homocisteína → cistationina (junto com B12 e folato na regulação da homocisteína)
Ligação a receptores esteroidais Modulação da resposta hormonal — relevância em uso de contraceptivos e corticosteroides

2. Absorção e Transporte

A vitamina B6 alimentar precisa ter o grupo fosfato removido antes de ser absorvida — a absorção no intestino delgado ocorre por difusão passiva. Após absorção, no fígado, o PLP circula fortemente ligado à albumina — o que tem implicação laboratorial direta: a hipoalbuminemia causa queda artificial do PLP plasmático, independente do status vitamínico real.

3. Necessidades, DRI e Recomendações em Suporte Nutricional

Situação Dose Fonte
Adultos (19–50 anos) 1,3 mg/dia DRI/RDA
Gestação / Lactação 1,9 – 2,0 mg/dia DRI
NE — ESPEN 2022 (1500 kcal/d) ≥ 1,5 mg/dia ESPEN 2022
NP — ESPEN 2022 4 – 6 mg/dia ESPEN 2022

4. Avaliação Laboratorial e Biomarcadores

O biomarcador mais útil é o PLP plasmático, que se correlaciona com a ingestão e estoques corporais (estabiliza em 6–10 dias após ajuste de ingestão). Faixa de normalidade: 5–50 µg/L (aproximadamente 20–200 nmol/L), conforme o método.

PEGADINHA DE PROVA — B6 E INFLAMAÇÃO (Similar à B2)

O PLP plasmático CAI na inflamação. Além disso, a albumina baixa (hipoalbuminemia — comum no doente grave) reduz artificialmente o PLP plasmático, pois o PLP circula ligado à albumina. A fosfatase alcalina elevada também pode desfosforilá-lo. Em paciente grave/inflamado: PREFERIR PLP em hemácias (eritrocitário) para avaliar o status real e diferenciar 'queda por fase aguda' de deficiência verdadeira.

Biomarcador Interferências Preferência Clínica
PLP plasmático Cai na inflamação, hipoalbuminemia e fosfatase alcalina elevada. Estável refrigerado, degrada à temperatura ambiente e com a luz. Principal em paciente estável.
PLP em hemácias (eritrocitário) Muito menos afetado pela inflamação e pela albumina. PREFERENCIAL em doente grave / inflamado.

5. Deficiência: Manifestações Clínicas

DIFERENCIAL CRUCIAL — B6 vs B3 (PELAGRA)

A B6 NÃO causa a tríade dos 3Ds (Dermatite + Diarreia + Demência) — isso é exclusivo da deficiência de B3 (Niacina). A deficiência de B6 causa: dermatite seborreica, queilose/glossite, ANEMIA MICROCÍTICA (não megaloblástica), convulsões/epileptiformes (pela queda de síntese de GABA e serotonina), confusão, depressão. Este diferencial foi cobrado na prova de 2024.

Sistema Manifestações da Deficiência de B6
Mucocutâneo Dermatite seborreica, queilose (fissuras labiais), glossite, estomatite angular.
Hematológico Anemia MICROCÍTICA (por comprometimento da síntese de heme via ALA sintase) — diferente de B12/folato (macrocítica).
Neurológico Convulsões/episódios epileptiformes, confusão mental, depressão, irritabilidade (queda de síntese de GABA e serotonina).

6. Grupos de Risco e Medicamentos Antagonistas

6.1 Grupos de risco clínico

  • Alcoolismo crônico.
  • Idosos.
  • Gestação (êmese gravídica intratável — B6 IV é indicada).
  • Pós-operatório e trauma.
  • Infecções e doenças críticas.
  • Diálise — especialmente terapia renal substitutiva contínua (TRSC).

6.2 Medicamentos antagonistas / que esgotam B6

Medicamento Mecanismo / Relevância
Isoniazida (INH) Principal antagonista de B6. Inibe a piridoxal quinase. Overdose de INH com convulsões: B6 IV (dose baseada na quantidade ingerida) é ANTÍDOTO. Profilaxia durante tratamento da tuberculose: 25 mg/dia de B6.
Penicilamina Forma complexo com PLP, inativando-o. Risco em artrite reumatoide, doença de Wilson.
Anticonvulsivantes (fenitoína, fenobarbital) Aumentam catabolismo hepático do PLP.
Corticosteroides Uso prolongado aumenta necessidade de B6.
Contraceptivos orais (estrogênios) Aumentam demanda de B6 pelo metabolismo do triptofano e efeito hormonal.

7. Usos Terapêuticos Específicos — Além da Nutrição

ANTÍDOTO TOXICOLÓGICO — ISONIAZIDA E ETILENOGLICOL

1) OVERDOSE DE ISONIAZIDA com convulsões: piridoxina em alta dose por via IV é tratamento específico. A dose é calculada com base na quantidade de INH ingerida (dose equimolar ou protocolo local). PONTO DE PROVA: B6 é ANTÍDOTO em intoxicação por isoniazida.

2) INTOXICAÇÃO POR ETILENOGLICOL: piridoxina 50 mg IV a cada 6h pode ser usada como adjuvante (junto com fomepizol ou etanol) para desviar o metabolismo do glicolato. Esses usos são terapêuticos (não nutricionais) e caem como pegadinha em provas de intensivismo/toxicologia.

B6 na Êmese Gravídica

A piridoxina (sozinha ou em combinação com doxilamina) é recomendada como tratamento de primeira linha para náuseas e vômitos da gravidez (NVG), inclusive pelo ACOG e SBFe. Dose típica: 10–25 mg VO 3–4x/dia. Em casos graves (hiperêmese gravídica) pode ser necessária administração IV.

8. Tratamento e Doses Terapêuticas

Situação Dose / Conduta
Deficiência por baixa ingestão crônica 50–100 mg/dia VO por 1–2 semanas.
Profilaxia em uso de isoniazida 25 mg/dia VO durante todo o tratamento de tuberculose.
Overdose INH com convulsões (antídoto) B6 IV em dose baseada na quantidade ingerida de INH (dose equimolar) — IM/IV repetido até controle das convulsões.
Intoxicação por etilenoglicol (adjuvante) 50 mg IV a cada 6h (conforme protocolo clínico).

9. Toxicidade

NEUROPATIA SENSITIVA — TOXICIDADE REAL POR EXCESSO DE B6

O excesso crônico de vitamina B6 pode causar NEUROPATIA SENSITIVA periférica — parestesias, dormência, ataxia sensitiva. Há relatos com doses relativamente baixas quando mantidas por tempo prolongado. NOAEL geralmente citado: 100 mg/dia em adultos. Suplementação prolongada em altas doses sem indicação clara deve ser EVITADA. Este é um dos poucos casos em que uma vitamina hidrossolúvel tem toxicidade clínica relevante.

10. Quadro-Resumo para Prova — B6

Tema O que fixar NÚMERO de prova
NE — ESPEN 1500 kcal/dia ≥ 1,5 mg/dia
NP — ESPEN Nutrição parenteral adulto 4 – 6 mg/dia
B6 ≠ PELAGRA Pelagra (3Ds) = B3, não B6. B6 → anemia microcítica, convulsões, dermatite COBRADO 2024
Inflamação (PEGADINHA) PLP plasmático cai na inflamação e hipoalbuminemia → preferir PLP eritrocitário no doente grave PEGADINHA
Antídoto — Isoniazida B6 IV em overdose de INH com convulsões — ANTÍDOTO ESPECÍFICO ALTAMENTE COBRADO
Toxicidade Neuropatia sensitiva periférica com megadoses crônicas (>100 mg/dia prolongado) NOAEL ~100 mg/dia
Análise de Banca — O que esperar

A B6 foi cobrada indiretamente em 2024 via distinção com B3/pelagra (alternativa D incorreta). A banca demonstrou que dominar os diferenciais entre vitaminas do complexo B é essencial. Padrões esperados em provas futuras: (1) anemia microcítica por B6 × anemia megaloblástica por B12/folato; (2) PLP como biomarcador principal + interferência da inflamação (preferir eritrocitário no doente grave); (3) isoniazida como antagonista e antídoto em overdose; (4) medicamentos que esgotam B6 (penicilamina, anticonvulsivantes, corticosteroides); (5) toxicidade com neuropatia sensitiva — excepcional entre as hidrossolúveis.

Capítulo 5

Tabela Comparativa: B2, B3, B5 e B6

Esta visão integrada auxilia no diagnóstico diferencial rápido para a prova de título e na fixação das principais doses e biomarcadores recomendados pelos consensos ESPEN e ASPEN.

Critério B2 — Riboflavina B3 — Niacina B5 — Ác. Pantotênico B6 — Piridoxina
Forma ativa FMN e FAD NAD e NADP CoA e ACP PLP (piridoxal-5-fosfato)
NE — ESPEN ≥ 1,2 mg/d 18–40 mg/d ≥ 5 mg/d ≥ 1,5 mg/d
NP — ESPEN 3,6–5 mg/d ≥ 40 mg/d ≥ 15 mg/d 4–6 mg/d
Biomarcador preferencial EGRAC / FAD eritrocitário NMN urinário / NAD-NADP / clínica Sangue total / urina 24h PLP plasmático (eritrocitário se inflamação)
Inflamação nos marcadores ↓ PLASMÁTICO 30–40% Difícil de avaliar SEM interferência conhecida ↓ PLASMÁTICO + hipoalbuminemia
Deficiência clínica Queilose, glossite, dermatite seborreica, fotofobia, anemia normo PELAGRA: Dermatite + Diarreia + Demência (3Ds) Muito rara; neurológico inespecífico, parestesias Dermatite seborreica, anemia MICROCÍTICA, convulsões, depressão
Toxicidade relevante Rara; megadoses: fototoxicidade Flush (ác. nicotínico); Hepatotoxicidade em altas doses Rara; sem UL NEUROPATIA SENSITIVA (megadoses crônicas >100 mg/d)

Referências Bibliográficas

  1. Berger MM, Shenkin A, Schweinlin A, et al. ESPEN micronutrient guideline. Clin Nutr. 2022;41(6):1357-1424. doi:10.1016/j.clnu.2022.02.015
  2. Berger MM, Shenkin A, Cuerda C, et al. ESPEN practical short micronutrient guideline. Clin Nutr. 2024;43(4):847-885. doi:10.1016/j.clnu.2024.01.030
  3. ASPEN. A.S.P.E.N. Position Paper: Recommendations for Changes in Commercially Available Parenteral Multivitamin and Multi-Trace Element Products. Nutr Clin Pract. 2012.
  4. Powers HJ. Riboflavin (vitamin B-2) and health. Am J Clin Nutr. 2003;77(6):1352-1360.
  5. Bâ A. Metabolic and structural role of thiamine in nervous tissues. Cell Mol Neurobiol. 2008;28(7):923-931.
  6. Jacobson EL, Jacobson MK. Tissue NAD as a biochemical measure of niacin status in humans. Methods Enzymol. 1997;280:221-230.
  7. Leklem JE. Vitamin B-6: a status report. J Nutr. 1990;120(Suppl 11):1503-1507.
  8. Spinneker A, Sola R, Lemmen V, et al. Vitamin B6 status, deficiency and its consequences — an overview. Nutr Hosp. 2007;22(1):7-24.
  9. Institute of Medicine (IOM). Dietary Reference Intakes for Thiamin, Riboflavin, Niacin, Vitamin B6, Folate, Vitamin B12, Pantothenic Acid, Biotin, and Choline. Washington, DC: National Academies Press; 1998.
  10. ESPEN Practical Short Micronutrient Guideline — Tabela 3: Doses recomendadas para NE e NP. 2024.
Capítulo 6

Simulado Interativo

Responda às questões reais da Prova de Título de Especialista em Nutrologia para consolidar o conhecimento e testar sua capacidade de fazer diagnósticos diferenciais entre as vitaminas do complexo B.

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