Fisiopatologia, avaliação, terapia nutricional e questões comentadas da Prova de Título de Nutrologia (ABN/ABRAN)
Provas de 2022, 2023, 2024 e 2025
Apostila de aprofundamento teórico com correlação integral às 26 questões da banca sobre o tema
26 questões interativas
Conteúdo contínuo por tópicos
Introdução e incidência
Introdução e relevância do tema para o TEN
Paciente crítico é, ano após ano, um dos blocos mais previsíveis e mais decisivos da prova de título. Previsível porque a banca repete um punhado restrito de eixos de raciocínio (quando iniciar a terapia nutricional, qual via escolher, quanto ofertar de energia e proteína, e como interpretar calorimetria indireta), e decisível porque esses eixos aparecem disfarçados em casos clínicos longos, cheios de dados que parecem irrelevantes (dose de
vasopressor, FiO2, propofol em mL por hora) mas que, na verdade, são a pista que resolve a questão. Quem entende o raciocínio por trás de cada um desses eixos consegue resolver praticamente qualquer variação de enunciado que a banca construa em cima deles. Quem apenas decorou "a resposta certa" de uma prova antiga costuma errar quando o cenário muda um detalhe.
Antes de entrar na fisiopatologia e nos protocolos, vale entender exatamente como esse tema tem sido cobrado, porque isso orienta onde investir mais tempo de estudo.
Levantamento histórico: o que já caiu (2022 a 2025)
Foram revisadas as quatro últimas provas de título (2022, 2023, 2024 e 2025), considerando como cobrança direta de paciente crítico todo enunciado ancorado em UTI,
choque, sepse, ventilação mecânica, uso de drogas vasoativas, grandes queimados, pancreatite aguda grave, terapia renal substitutiva ou qualquer decisão de terapia nutricional própria da doença crítica. Foram identificadas 20 questões diretas dentro desse recorte, mais 6 questões correlatas (ferramentas e complicações, sobretudo calorimetria indireta e complicações de nutrição enteral, que são cobradas de forma recorrente dentro e fora do contexto estrito de UTI). No total, 26 questões, um volume que por si só justifica tratar este tema como prioridade de estudo.
Ano
Questões diretas
Ênfase predominante
2022
4
Propofol e pancreatite, momento da nutrição parenteral pós-COVID, oferta proteica na insuficiência renal aguda e na diálise.
2023
3
Escolha entre via enteral e parenteral diante de fístula, nutrição enteral precoce pós-neurocirúrgica, contraindicações formais da nutrição enteral.
2024
5
Composição corporal por ultrassom, propofol como emulsão lipídica, fístula de alto débito no obeso crítico, EFFORT Trial, infecção fulminante por C. difficile.
2025
8
Fases metabólicas do trauma (Ebb e Flow), calorimetria indireta e quociente respiratório em casos evolutivos, NUTRIC score, insuficiência renal aguda em CRRT, pancreatite grave, íleo paralítico em choque séptico, diarreia na nutrição enteral.
Padrões recorrentes: os eixos de raciocínio que a banca repete
Olhando as 26 questões em conjunto, cinco eixos concentram a grande maioria da cobrança. Vale memorizá-los como um roteiro mental para qualquer enunciado novo de paciente crítico que aparecer na sua prova.
Escolha da via e momento da terapia nutricional. É o eixo mais constante de todos: quando iniciar nutrição enteral, quando suspendê-la temporariamente, e quando (e como) recorrer à nutrição parenteral. A banca gosta de construir cenários com fístula, íleo, pancreatite grave e intolerância gastrointestinal exatamente para testar se o candidato sabe hierarquizar oral, depois enteral, depois parenteral, e sabe reconhecer as contraindicações formais de cada uma.
Estabilidade hemodinâmica como pré-requisito. A prova exige diferenciar com precisão choque não ressuscitado (contraindicação a nutrir) de paciente já estabilizado, mesmo que ainda em vasopressor, porém em dose baixa e decrescente (situação em que iniciar nutrição enteral trófica é seguro e recomendado). Esse é o detalhe que separa quem lê o enunciado com atenção de quem responde no automático.
Energia, calorimetria indireta e quociente respiratório. O tema evoluiu claramente ao longo dos anos: das provas de 2022 e 2023, que cobravam conceitos mais isolados de calorimetria, para as provas de 2024 e 2025, que passaram a exigir interpretação integrada de casos evolutivos (o mesmo paciente reavaliado em dois momentos diferentes, com a
conduta mudando conforme o quociente respiratório e a fase metabólica). Proteína na doença crítica. A cobrança inclui injúria renal aguda em tratamento conservador, paciente em diálise intermitente, paciente em terapia renal substitutiva contínua, paciente obeso crítico, e o EFFORT Trial, que introduziu na prova a ideia
(contraintuitiva para muitos candidatos) de que ofertar mais proteína nem sempre é melhor em subgrupos específicos. Propofol como fonte calórica oculta. Aparece de forma repetida como causa de
pancreatite aguda, como emulsão lipídica que precisa entrar no cálculo do aporte total de lipídios, e como pegadinha de densidade calórica (o valor correto é 1,1 kcal por mL, e a banca já tentou substituir esse número por 1,25 kcal por mL mais de uma vez).
Além desses cinco eixos, a avaliação da composição corporal (ultrassonografia muscular e bioimpedância) ganhou espaço crescente, sempre testando se o candidato entende as limitações de cada método diante de edema, inflamação e oscilação volêmica, que são a regra, e não a exceção, no paciente crítico.
Evolução da cobrança ao longo dos anos
Entre 2022 e 2024, as questões se concentravam principalmente em via de alimentação, nutrição parenteral, propofol e oferta proteica, quase sempre em formato de caso clínico
relativamente direto, com um único conceito central a ser identificado. Em 2025, a cobrança tornou-se nitidamente mais integrada e mais fisiopatológica: passou a combinar, numa mesma questão, fase metabólica do trauma, calorimetria indireta, quociente respiratório, risco nutricional calculado por escore e terapia renal substitutiva contínua, tudo dentro de um único cenário clínico complexo. Isso significa que decorar respostas isoladas rende cada vez menos: a prova está exigindo que o candidato monte o raciocínio fisiopatológico
completo e o aplique a cenários com múltiplas variáveis simultâneas, exatamente como você vai construir estudando esta apostila do início ao fim.
🎯 PONTO DE PROVA
Se você tiver que escolher onde investir mais tempo dentro do tema paciente crítico, priorize nesta ordem: (1) o algoritmo completo de via e timing de terapia nutricional, (2) interpretação de calorimetria indireta e quociente respiratório em casos evolutivos, (3) proteína em populações especiais (renal agudo, CRRT, obeso, EFFORT Trial), (4) propofol como fonte calórica. Esses quatro pontos, sozinhos, respondem à maioria das 26 questões já mapeadas.
Nota editorial sobre as questões reproduzidas: todas as 26 questões desta apostila foram extraídas dos PDFs de prova enviados, com gabarito e comentário originais preservados. Onde o comentário-fonte continha uma imprecisão factual relevante, isso é sinalizado explicitamente no texto explicativo que antecede cada questão, para que você entenda tanto o que a banca cobrou quanto o racional fisiopatológico completo por trás da resposta.
Fisiopatologia
Fisiopatologia do paciente crítico: o mecanismo que a prova cobra
Todo enunciado de paciente crítico na prova de título parte de uma premissa fisiopatológica
que raramente é explicitada, mas que precisa estar automatizada na sua cabeça: o organismo em estado crítico não está simplesmente "doente", ele está reprogramado metabolicamente para sobreviver a uma agressão aguda, e essa reprogramação segue uma sequência temporal previsível. Entender essa sequência é o que permite ao candidato responder corretamente mesmo quando a banca troca o cenário clínico (trauma, sepse, queimadura, pancreatite, cirurgia de grande porte), porque a resposta metabólica de base é sempre a mesma, e o que muda é apenas a intensidade e a causa do gatilho.
O desvio metabólico central: proteólise como fonte de energia
O estado crítico desencadeia uma resposta fisiopatológica que desvia o metabolismo para o consumo preferencial de proteínas teciduais como fonte de energia, em vez de depender predominantemente de reservas de gordura, como aconteceria num jejum simples não complicado por inflamação. Esse desvio é mediado por um conjunto de hormônios contrarreguladores (cortisol, glucagon, catecolaminas) e por citocinas pró-inflamatórias (IL- 6, TNF-alfa, entre outras) que, em conjunto, promovem proteólise muscular acelerada, mesmo na presença de oferta calórica e proteica adequada. É por isso que o paciente crítico perde massa muscular de forma rápida e clinicamente relevante (a perda pode
chegar a até 1 kg de massa magra por dia nos quadros mais graves), e é por isso também que a nutrição sozinha não é capaz de impedir completamente essa perda: ela reduz o dano, mas não neutraliza o mecanismo inflamatório que o desencadeia.
Um suporte nutricional inadequado, seja por atraso no início da terapia nutricional, seja por subalimentação prolongada, empurra o paciente para uma fase crônica de falência nutricional. Essa fase tem nome na literatura mais recente: PICS, a sigla para síndrome de inflamação e catabolismo persistentes (persistent inflammation, immunosuppression and catabolism syndrome). O paciente que entra em PICS pode evoluir para CARS, a síndrome de resposta anti-inflamatória compensatória, que representa um estado de esgotamento do sistema imune. Nesse último estágio, a capacidade do organismo de se defender de infecções secundárias e de reparar tecido fica tão comprometida que a mortalidade se torna extremamente elevada.
🩺 PÉROLA CLÍNICA
PICS e CARS não são "detalhes decorativos" de uma explicação de fisiopatologia: eles explicam por que o paciente crítico que fica muito tempo internado, com múltiplos ciclos de infecção, sedação prolongada e déficit nutricional acumulado, frequentemente morre não do evento inicial (o trauma, a sepse original), mas de uma complicação tardia, numa fase em que o organismo simplesmente não tem mais reserva imunológica e proteica para se defender. Isso reforça, na prática clínica e na lógica da prova, por que a terapia nutricional precoce e adequada não é luxo: é prevenção direta da trajetória PICS/CARS.
As duas grandes fases do estado crítico: Ebb e Flow
Independentemente da etiologia (trauma, queimadura, sepse, grande cirurgia), a evolução metabólica do estado crítico pode ser dividida, de forma didática e clinicamente útil, em duas grandes fases: a fase Ebb (também chamada de fase de refluxo ou fase de choque) e a fase Flow (fase de fluxo). Essa divisão, descrita originalmente por Cuthbertson e retomada por praticamente todos os guidelines modernos de nutrição em terapia intensiva, é provavelmente o conceito fisiopatológico mais cobrado da prova dentro do tema paciente crítico, porque ele determina diretamente a conduta nutricional em cada momento.
Fase Ebb: economia metabólica para sobreviver ao choque
A fase Ebb representa o momento inicial de instabilidade hemodinâmica, tipicamente as primeiras 12 a 24 horas após o insulto agudo. Nessa fase, o fluxo sanguíneo cessa ou diminui de forma significativa na microcirculação, reduzindo a oferta de nutrientes e de oxigênio às células. Se a ressuscitação hemodinâmica não for realizada de forma oportuna
e adequada, o paciente evolui diretamente para falência orgânica múltipla e óbito. Do ponto de vista de gasto energético, a fase Ebb é paradoxalmente uma fase de redução, e não de aumento, do metabolismo: há queda do débito cardíaco, queda do consumo de oxigênio, queda da perfusão tecidual, queda da temperatura corporal (hipotermia relativa) e queda da taxa metabólica basal. O organismo entra num estado de "economia" para preservar os órgãos nobres à custa da periferia.
Clinicamente, a fase Ebb se reconhece por um conjunto característico de achados: lactato elevado, acidose metabólica (pH reduzido), uso crescente de vasopressores para sustentar a pressão arterial média, e temperatura central reduzida. Esse é exatamente o quadro que a prova descreve quando quer testar o reconhecimento da fase Ebb, e a implicação prática é categórica: nessa fase, a terapia nutricional está formalmente contraindicada ou deve ser postergada até a estabilização hemodinâmica. O foco absoluto do tratamento é
ressuscitação volêmica, controle do foco (se infeccioso ou hemorrágico) e suporte hemodinâmico e ventilatório. Tentar nutrir um paciente ainda na fase Ebb, especialmente por via enteral, tende a ser prejudicial, porque a perfusão esplâncnica já está comprometida pelo choque, e a digestão representa uma carga de trabalho metabólico extra que pode agravar ainda mais a isquemia intestinal.
Questão 1TEN 2025 |
Fase Ebb no trauma e choque hemorrágico
Um adulto politraumatizado chega à unidade de terapia intensiva (UTI) em choque hemorrágico. Nas primeiras 12 horas, encontra-se sob reposição volêmica, em uso crescente de vasoativos, lactato 2,8 a 3,0 mmol/L e pH 7,24 a 7,26. Temperatura central 35,6 °C. Do ponto de vista metabólico/energético, qual alternativa descreve mais adequadamente essa fase inicial?
Gabarito: letra C
Este é o retrato clínico canônico da fase Ebb, e vale memorizar cada achado do enunciado como uma bandeira vermelha que aponta para essa fase: uso crescente (não decrescente) de vasoativos indica que a ressuscitação ainda não teve sucesso; lactato elevado e pH reduzido confirmam hipoperfusão tecidual e acidose metabólica; temperatura central de 35,6 graus é hipotermia relativa, coerente com a queda da taxa metabólica basal que caracteriza essa fase. As alternativas A e B descrevem, na verdade, a fase Flow (hipermetabolismo, aumento de temperatura, consumo de oxigênio elevado, citocinas pró-inflamatórias em ascensão), que só se instala depois que a ressuscitação hemodinâmica é bem- sucedida, geralmente entre 24 e 48 horas após o insulto. É o distrator mais comum e mais perigoso desta questão: o candidato que reconhece "paciente grave, deve estar hipermetabólico" sem prestar atenção aos números do enunciado (vasoativos em ascensão, não em queda; temperatura baixa, não febre) cai direto nessa armadilha. A alternativa D tenta desviar a explicação para o efeito dos sedativos isoladamente, ignorando que as alterações descritas são uma resposta neuroendócrina orquestrada ao choque, não um efeito farmacológico isolado.
Fase Flow: hipermetabolismo e catabolismo intenso
A fase Flow só ocorre nos pacientes que foram ressuscitados com sucesso do ponto de vista hemodinâmico, ou seja, naqueles em que o fluxo sanguíneo foi restaurado para níveis minimamente satisfatórios. É nesse momento que sobrevém uma intensa instabilidade metabólica, caracterizada por múltiplas reações catabólicas simultâneas: glicogenólise hepática, lipólise, proteólise e gliconeogênese. O objetivo fisiológico desses processos catabólicos é disponibilizar uma grande quantidade de combustível energético a partir das reservas endógenas, combustível que será necessário para que as células realizem os
processos de defesa imunológica e de reparo tecidual. A taxa metabólica basal aumenta de forma expressiva nessa fase, chegando, nos quadros mais extremos como o grande queimado, a valores de 100 a 200 por cento acima do basal previsto, configurando um verdadeiro estado de hipermetabolismo.
Característica
Fase Ebb (refluxo)
Fase Flow (fluxo)
Tempo aproximado
Primeiras 8 a 24 horas
Dias a semanas após a estabilização
Débito cardíaco
Diminuído
Aumentado
Consumo de oxigênio (VO2)
Diminuído
Aumentado
Temperatura corporal
Diminuída (hipotermia relativa)
Aumentada (febre, hipertermia)
Taxa metabólica
Diminuída
Muito aumentada (hipermetabolismo, até 100 a 200 por cento do basal)
Hormônios contrarreguladores
Elevados, mas com resposta tecidual limitada pela hipoperfusão
Elevados e plenamente atuantes (glicocorticoides, glucagon, catecolaminas, citocinas)
Conduta nutrológica
Não nutrir; foco em volume e vasoativos
Iniciar e progredir a terapia nutricional após estabilidade
Um exemplo clássico de hipermetabolismo extremo na fase Flow, e que a prova adora usar como cenário, é o grande queimado, situação em que a resposta inflamatória sistêmica é particularmente intensa e prolongada. Trataremos desse cenário com profundidade na seção de populações especiais, mas o ponto a fixar aqui é conceitual: a fase Flow é o momento em que a terapia nutricional deixa de ser contraindicada e passa a ser mandatória, porém progressiva, respeitando a lógica de introdução gradual que veremos na seção de gasto energético.
⚠️ ARMADILHA DIAGNÓSTICA
O erro mais comum de quem estuda esse tema de forma superficial é assumir que "paciente grave = hipermetabólico = precisa de muita caloria já". Isso é verdadeiro apenas na fase Flow, e mesmo assim de forma progressiva, nunca plena e imediata. Nas primeiras horas do estado crítico (fase Ebb, ou nas primeiras 48 a 72 horas mesmo já em fase Flow inicial), nutrir de forma plena e precoce é prejudicial: o paciente não aproveita adequadamente os nutrientes exógenos ofertados, que acabam se somando aos produtos do catabolismo endógeno, e o resultado é hiperglicemia, hipertrigliceridemia e distúrbios eletrolíticos que podem, paradoxalmente, aumentar a mortalidade. Essa lógica será aprofundada e quantificada na seção de gasto energético.
Por que essa fisiopatologia sustenta praticamente todo o restante da apostila
Guarde esta ideia como fio condutor: cada uma das próximas seções, avaliação nutricional, momento de início da terapia, metas calóricas e proteicas, populações especiais, é uma tradução prática desta fisiopatologia de base. Quando a ESPEN recomenda não nutrir na fase Ebb, é porque está aplicando exatamente o que você acabou de estudar. Quando a diretriz recomenda hipocaloria nas primeiras 72 horas mesmo já em fase Flow, é porque está reconhecendo que a produção endógena de energia (estimada entre 500 e 1400 kcal por dia, vinda do próprio catabolismo) já está suprindo boa parte da demanda energética, e ofertar 100 por cento das necessidades por via exógena, além disso, configura sobrecarga.
Toda vez que você tiver dúvida sobre uma conduta nutrológica no paciente crítico, volte a este raciocínio de base: em que fase metabólica esse paciente está, e o que essa fase permite ou proíbe.
Avaliação nutricional
Avaliação nutricional e risco no paciente crítico
Por que todo paciente crítico com mais de 48 horas de UTI deve ser
considerado em risco
A desnutrição no paciente crítico raramente é um evento de instalação lenta, do tipo que se desenvolve ao longo de semanas de ingestão insuficiente em ambulatório. Na UTI, ela emerge como parte do próprio fenótipo da doença grave: um estado hipercatabólico sustentado por inflamação sistêmica, resistência anabólica, imobilização, e, não raramente, interrupções repetidas da oferta nutricional por instabilidade hemodinâmica, procedimentos, intolerância gastrointestinal ou simplesmente prioridades concorrentes do cuidado intensivo (o paciente vai para exame, para cirurgia, fica em jejum por precaução, e assim por diante). Nesse contexto, o risco nutricional deixa de ser uma característica estática do indivíduo (como seria, por exemplo, avaliar se alguém chegou desnutrido ao hospital) e passa a ser
uma consequência previsível da própria trajetória clínica. É exatamente por essa previsibilidade que o guideline da ESPEN de nutrição clínica em terapia intensiva adota uma afirmação simples e extremamente operacional, e que você
deve gravar como regra de ouro: todo paciente crítico que permanece mais de 48 horas na UTI deve ser considerado em risco de desnutrição. Essa recomendação carrega força prática porque reconhece duas realidades do dia a dia assistencial. A primeira é que não existe, até o momento, um escore nutricional específico para UTI que seja devidamente validado para orientar condutas de rotina; os instrumentos clássicos de triagem (como o NRS-2002 e o MUST) foram desenvolvidos para contextos hospitalares gerais, não para a fisiopatologia particular do paciente criticamente enfermo. A segunda é que, mesmo na ausência de um número definitivo que capture o risco de forma precisa, a permanência além de 48 horas funciona como um marcador clínico robusto de exposição a um ambiente
de alto risco metabólico e de provável déficit energético-proteico acumulado. Do ponto de vista fisiopatológico, a lógica é direta e conecta-se diretamente com o que você acabou de estudar sobre as fases Ebb e Flow: nas primeiras 24 a 72 horas de doença
crítica há intensa produção endógena de energia, mobilização de substratos e perda acelerada de massa magra, fenômeno amplificado por catecolaminas, cortisol, citocinas e pela queda abrupta de estímulos mecânicos e funcionais sobre o músculo esquelético (o paciente sedado e imóvel não contrai a musculatura, e isso por si só acelera a atrofia). Clinicamente, isso se traduz em perda de força, piora da função muscular e fragilidade adquirida, com impacto direto em desfechos relevantes como tempo de ventilação mecânica, sucesso da reabilitação e qualidade de vida após a alta.
🩺 PÉROLA CLÍNICA
O guideline reforça um ponto muitas vezes negligenciado, e que é ouro puro para a prova: peso e IMC isolados não refletem bem desnutrição no paciente crítico, inclusive no obeso. Edema, deslocamentos de fluido entre compartimentos e alterações agudas de composição corporal tornam essas medidas tradicionais pouco confiáveis. O que realmente importa, na prática, é reconhecer perda ou baixa reserva de massa muscular (sarcopenia) e redução funcional, achados que estão frequentemente presentes mesmo quando o IMC calculado é alto. Toda vez que uma questão apresentar um paciente
obeso crítico e a alternativa sugerir usar o IMC como parâmetro isolado de estado
nutricional, desconfie: a resposta provavelmente está em outro lugar, olhando para massa muscular e função.
Triagem nutricional na UTI: NRS-2002, MUST e NUTRIC
A ESPEN reconhece explicitamente que o NRS-2002 e o MUST não foram desenhados para pacientes críticos, mas ainda assim aparecem como ferramentas com capacidade preditiva razoável de mortalidade, e sobretudo por serem simples e rápidas de aplicar à
beira do leito. Em paralelo, foi proposto um instrumento específico para esse cenário: o NUTRIC score (Nutrition Risk in the Critically Ill), ancorado majoritariamente na gravidade da própria doença. A lógica por trás do NUTRIC é uma ideia-chave que vale internalizar: na UTI, o risco nutricional é frequentemente inseparável do risco inflamatório e da carga de disfunção orgânica. Um paciente gravemente inflamado e com múltiplas disfunções orgânicas está, quase por definição, em alto risco nutricional, independentemente de qualquer medida antropométrica prévia.
O NUTRIC score original incorpora seis variáveis: idade, escore APACHE II, escore SOFA, número de comorbidades, dias de internação hospitalar antes da admissão na UTI, e interleucina 6 (IL-6). Como a dosagem de IL-6 não é rotineiramente disponível na maioria dos serviços, foi proposta uma versão modificada, o mNUTRIC, que exclui essa variável e mantém capacidade preditiva equivalente. No mNUTRIC, que é a versão efetivamente
usada na prática clínica e a mais cobrada em prova, o ponto de corte para alto risco nutricional é escore maior ou igual a 5 (numa escala de 0 a 9). Pacientes com mNUTRIC igual ou maior que 5 são considerados de alto risco nutricional e se beneficiam de intervenção nutricional mais precoce e mais agressiva; pacientes com escore abaixo desse valor são considerados de baixo risco, e a estratégia terapêutica pode ser menos assertiva na fase inicial, como você verá em detalhe na seção sobre nutrição parenteral.
Critérios GLIM: transformando triagem em diagnóstico
Enquanto NRS-2002, MUST e NUTRIC funcionam como ferramentas de triagem (rastreamento de risco), o diagnóstico formal de desnutrição segue hoje, na literatura internacional, os critérios GLIM (Global Leadership Initiative on Malnutrition), publicados em 2019 por consenso entre as principais sociedades mundiais de nutrição clínica, incluindo representação brasileira. A lógica do GLIM é construída em duas etapas: primeiro faz-se a
triagem de risco com qualquer instrumento validado (por exemplo, o NRS-2002), e depois, nos pacientes identificados como em risco, avalia-se a presença de critérios fenotípicos e critérios etiológicos. Para confirmar o diagnóstico de desnutrição, é necessária a combinação de pelo menos um critério fenotípico com pelo menos um critério etiológico.
Critérios fenotípicos
Critérios etiológicos
Perda de peso não intencional (percentual e período definidos)
Redução da ingestão ou da absorção alimentar
Baixo índice de massa corporal (ajustado por idade e etnia)
Carga de doença ou inflamação (aguda ou crônica)
Redução de massa muscular (avaliada objetivamente quando possível)
No paciente crítico, esse enquadramento é particularmente valioso porque evita dois erros comuns que a prova adora explorar. O primeiro erro é tratar hipoalbuminemia isoladamente como sinônimo de desnutrição: a albumina cai na doença crítica principalmente por
redistribuição para o espaço extravascular e por redução da síntese hepática num contexto de resposta de fase aguda, não necessariamente por depleção proteica nutricional, de modo que usá-la como marcador nutricional isolado é um raciocínio ultrapassado. O segundo erro é o oposto: negligenciar desnutrição em pacientes com IMC alto, exatamente o cenário do obeso crítico com sarcopenia, que discutiremos em profundidade na seção de populações especiais. Quando o fenótipo aponta perda muscular e a etiologia é inflamatória ou catabólica, como acontece por definição no paciente crítico, a desnutrição relacionada à doença torna-se altamente plausível e clinicamente acionável, mesmo sem perda de peso documentada ou IMC baixo.
Avaliação de massa muscular e fragilidade: ultrassom, tomografia e bioimpedância
Se a avaliação nutricional útil na UTI não é aquela que "mede peso", mas a que identifica perda de músculo, sarcopenia e declínio funcional em tempo hábil para mudar conduta, então o eixo prático da avaliação passa a ser: quais ferramentas estão disponíveis para quantificar massa muscular à beira do leito, e quais são as limitações de cada uma? A ESPEN reconhece três métodos principais, ultrassom, tomografia computadorizada e
bioimpedância elétrica, cada um com vantagens e armadilhas de interpretação que a prova cobra com frequência crescente.
Ultrassonografia muscular: monitorização seriada à beira do leito
O ultrassom muscular é atraente na UTI porque é portátil, repetível e aplicável mesmo em pacientes hemodinamicamente instáveis, permitindo acompanhar a tendência de perda muscular ao longo dos dias sem precisar mobilizar o paciente para outro setor do hospital. Em termos de raciocínio clínico, o ultrassom é particularmente útil quando a pergunta não é "quanto músculo o paciente tem" (uma medida estática, de valor absoluto), mas sim "quanto músculo ele está perdendo, e em que velocidade" (uma medida dinâmica, de tendência). Como a perda muscular é rápida na doença crítica, o valor real do ultrassom é transformar o catabolismo, que de outra forma seria um conceito abstrato, em dado observável e seriado, ajudando a calibrar tanto o plano de proteína e energia quanto a urgência da mobilização
precoce e da fisioterapia motora.
Questão 2TEN 2024 |
Ultrassonografia muscular no paciente crítico
Avaliar a composição corporal de pacientes críticos é crucial para uma melhor conduta nutricional. Em relação ao uso da ultrassonografia para este fim, assinale a alternativa correta:
Gabarito: letra C
A ecogenicidade é um parâmetro de qualidade muscular, e não apenas de quantidade: ela indica a proporção de tecido fibroso ou de gordura infiltrada dentro do próprio músculo (o que a literatura chama de mionecrose ou substituição gordurosa intramuscular). Aumentos de ecogenicidade frequentemente indicam alterações patológicas, entre elas a sarcopenia, mesmo quando a espessura muscular medida ainda parece preservada. É essa distinção entre quantidade (espessura, área de secção transversa) e qualidade (ecogenicidade) que a banca está testando aqui, e é um conceito que costuma escapar de quem estuda o tema apenas superficialmente. A alternativa A erra num detalhe sutil e importante: embora o método seja de fato rápido, seguro, não invasivo e reprodutível, ainda não existem valores de referência bem definidos e universalmente validados para detecção de baixa massa muscular especificamente em pacientes críticos, justamente pela heterogeneidade de populações, técnicas de medida e pontos anatômicos usados nos estudos disponíveis. A alternativa B erra o músculo mais estudado: a literatura de ultrassom muscular em UTI concentra-se predominantemente no reto femoral e no quadríceps como um todo (medido pela espessura do complexo do quadríceps), não especificamente no vasto medial e vasto lateral isolados, que têm aplicabilidade clínica menor no protocolo padrão. A alternativa D erra o transdutor: o transdutor adequado para avaliação de estruturas superficiais como os músculos da coxa é o transdutor linear, que oferece maior resolução para essa profundidade. O transdutor convexo é reservado para estruturas mais profundas, como órgãos abdominais.
Tomografia computadorizada: precisão elevada e valor prognóstico incorporado
A tomografia computadorizada tem excelente capacidade de estimar massa e qualidade muscular, e frequentemente já está disponível na UTI porque muitos pacientes críticos realizam tomografias por outros motivos clínicos (investigação de foco infeccioso, trauma, avaliação abdominal), o que permite reaproveitar a imagem para análise de composição corporal sem exame adicional. O guideline da ESPEN destaca um ponto clinicamente
relevante e frequentemente cobrado: pacientes com baixa massa muscular detectada na admissão por tomografia apresentam maior tempo de internação e maior mortalidade. Isso significa que, quando a tomografia está disponível, ela não deve ser encarada apenas como uma "medida corporal" acessória, mas como um verdadeiro marcador de risco e uma janela
para a reserva funcional prévia do paciente. Na prática, quando a tomografia mostra baixa reserva muscular, a equipe deve assumir maior risco de fraqueza adquirida na UTI, prolongamento de ventilação mecânica e reabilitação mais difícil, o que justifica priorizar precocemente uma estratégia de proteína mais assertiva, progressão nutricional estruturada e integração com mobilização e fisioterapia desde os primeiros dias.
Bioimpedância elétrica: útil apenas em estabilidade hídrica, e a armadilha do edema
A bioimpedância elétrica (BIA) pode estimar composição corporal, mas o guideline faz uma ressalva crítica que se tornou, nos últimos anos, um dos pontos mais cobrados da prova: ela deve ser usada apenas em paciente estável, sem grandes mudanças de compartimento hídrico, justamente porque edema e deslocamentos de fluido distorcem profundamente a
leitura. Entender o mecanismo desse erro é essencial, porque a prova não se contenta em cobrar "a BIA erra no paciente edemaciado", ela cobra a direção exata do erro. A bioimpedância elétrica baseia-se na resistência que os tecidos corporais oferecem à passagem de uma corrente elétrica de baixa intensidade. Água e eletrólitos são excelentes
condutores de eletricidade: quanto maior a quantidade de água presente em um tecido, menor será a impedância (resistência) medida naquele tecido. O erro do equipamento surge porque os algoritmos de BIA utilizam equações que assumem uma hidratação constante da massa magra, tipicamente ao redor de 73 por cento. Em um paciente com sepse grave e balanço hídrico positivo, há acúmulo maciço de fluido no compartimento extracelular (edema), e o corpo fica, na prática, "mais úmido" do que a equação pressupõe. Como resultado, a corrente elétrica passa com muito mais facilidade (baixa impedância), e o software do aparelho interpreta essa facilidade de condução como se o paciente possuísse
uma grande quantidade de massa muscular (tecido rico em água), levando à superestimação da massa magra. Como o percentual de gordura é calculado por exclusão ou proporção em relação ao peso total, ele acaba sendo subestimado.
Questão 3TEN 2025 |
Bioimpedância na sepse com sobrecarga hídrica
Um paciente em unidade de terapia intensiva (UTI), com sepse grave e balanço hídrico positivo nas últimas 72 horas é submetido à avaliação por bioimpedância elétrica. O exame revela aumento expressivo da massa magra estimada e redução da gordura corporal em comparação à avaliação basal. Como interpretar corretamente esse achado?
Gabarito: letra C
Esta questão é a aplicação direta do mecanismo que acabamos de descrever: excesso de fluido extracelular reduz a impedância, e o algoritmo do aparelho traduz essa baixa impedância em "muita massa magra" e, por consequência matemática, em "pouca gordura". É exatamente o padrão descrito no enunciado (aumento expressivo de massa magra estimada, redução de gordura corporal), e a explicação correta está na condutividade elétrica da água, não em qualquer ganho biológico real de tecido. A alternativa A erra a direção do erro: a retenção hídrica não superestima a gordura, ela faz exatamente o oposto, subestima a gordura, porque a baixa resistência elétrica é interpretada pelo software como tecido magro. A alternativa B contém um erro de localização do edema (fala em edema intracelular, quando o que ocorre na sepse com balanço hídrico positivo é predominantemente edema do compartimento extracelular) e também erra a direção do efeito sobre a gordura estimada, que cai, e não aumenta. A alternativa D é a mais perigosa por parecer clinicamente plausível à primeira vista, mas é biologicamente impossível: um paciente em sepse grave está em estado hipercatabólico extremo, com proteólise acelerada. Não existe, em 72 horas, nem mesmo com suporte nutricional perfeito, ganho real de massa muscular nesse contexto. A variação observada é puramente um artefato técnico provocado pelo edema, e reconhecer essa impossibilidade fisiológica é o que separa quem realmente entendeu o mecanismo de quem está apenas adivinhando entre alternativas que soam plausíveis.
🎯 PONTO DE PROVA
Regra de ouro da bioimpedância na UTI, para gravar de forma definitiva: muita água no compartimento extracelular (edema, balanço hídrico positivo) gera baixa impedância, o que aumenta falsamente a massa magra estimada e diminui falsamente o percentual de gordura estimado. Pouca água (desidratação) gera o efeito inverso: alta impedância, o que diminui falsamente a massa magra estimada e aumenta falsamente o percentual de gordura estimado. A conclusão prática e testável é sempre a mesma: a BIA tem baixa validade em pacientes com grandes oscilações volêmicas, que é exatamente o perfil da maioria dos pacientes de UTI nos primeiros dias de internação.
Função muscular: dinamometria de preensão palmar
Sarcopenia não é apenas perda de massa, é massa associada à perda de função. Por isso, sempre que o paciente estiver acordado, cooperativo e capaz de colaborar com o teste, medir função agrega um nível de relevância clínica que muitas vezes supera a quantificação puramente estrutural (o quanto de músculo existe). A ESPEN menciona especificamente a dinamometria de preensão palmar (handgrip strength) como ferramenta validada para avaliação de função muscular no ambiente crítico. A utilidade dessa medida é dupla:
primeiro, ela traduz a reserva funcional do paciente de maneira objetiva e reprodutível; segundo, ela permite acompanhar a recuperação ao longo da internação, conectando terapia nutricional e reabilitação num mesmo desfecho mensurável, que é a força muscular.
Fragilidade: o terreno biológico que amplifica o risco nutricional
A ESPEN descreve fragilidade como um conceito bem definido na literatura geriátrica e de terapia intensiva, relacionado ao peso das comorbidades e à vulnerabilidade fisiológica prévia do paciente, passível de diagnóstico por observações clínicas e, quando disponíveis, por exames complementares. No paciente crítico, a fragilidade funciona como uma espécie de lupa prognóstica: ela antecipa quais pacientes terão pior tolerância ao estresse metabólico agudo, maior risco de declínio funcional definitivo, e maior dificuldade em recuperar massa e força mesmo após a estabilização clínica plena. Pacientes frágeis podem ser diagnosticados já na admissão, ou identificados ao longo da própria internação
na UTI, e a fragilidade é definida operacionalmente como uma síndrome clínica na qual ocorrem três ou mais dos seguintes cinco critérios: perda de peso não intencional, exaustão autorrelatada, fraqueza medida pela força de preensão, velocidade de caminhada lenta e baixo nível de atividade física habitual.
Clinicamente, o valor prático de identificar fragilidade é orientar prioridade e cautela: pacientes frágeis não são apenas "mais velhos" no sentido cronológico, são aqueles cuja reserva fisiológica já era limitada antes mesmo do início da doença crítica atual. Isso justifica uma avaliação muscular mais sistemática nesse subgrupo, metas nutricionais mais cautelosas e individualizadas, e atenção redobrada ao timing da progressão da terapia nutricional e ao início precoce da reabilitação motora.
Quando e como iniciar a terapia nutricional: o algoritmo que resolve a maioria das questões
Se existe um único algoritmo que, sozinho, resolve a maior fração das questões de paciente
crítico na prova de título, é este: em que fase metabólica o paciente está, o trato gastrointestinal está funcionante, e a hemodinâmica está estabilizada? A resposta a essas três perguntas define, quase sempre, a via correta (oral, enteral ou parenteral) e o momento correto de iniciar. Vamos construir esse algoritmo peça por peça, porque é sobre ele que a banca constrói praticamente todos os casos clínicos deste tema.
O momento de iniciar: nem cedo demais, nem tarde demais Nutrir o paciente nas primeiras horas do estado crítico, ainda na fase hiperaguda (fase Ebb,
como você estudou na seção anterior), é prejudicial. Nesse momento, o paciente não aproveita adequadamente os nutrientes exógenos ministrados, que acabam se acumulando junto aos produtos do catabolismo endógeno já elevado. O resultado é o paciente apresentar distúrbios metabólicos como hiperglicemia, hipertrigliceridemia e alterações eletrolíticas, o que pode, em última análise, aumentar a mortalidade. Por outro lado, adiar demais o início da terapia nutricional também é prejudicial, porque o déficit calórico-proteico se acumula de forma progressiva e silenciosa, com impacto direto sobre massa muscular, função imune e desfechos de reabilitação.
O equilíbrio entre esses dois extremos está bem definido: em via de regra, a terapia de nutrição médica deve ser iniciada dentro das primeiras 48 a 72 horas desde que o paciente tenha sido hemodinamicamente e metabolicamente estabilizado. Essa janela de 48 a 72 horas não é arbitrária, ela corresponde exatamente à transição esperada da fase Ebb para
a fase Flow que você estudou na seção de fisiopatologia, e é por isso que os dois conceitos (fases metabólicas e momento de início da nutrição) precisam estar conectados na sua cabeça, nunca estudados isoladamente.
Passo 1: a via oral é sempre a primeira escolha, quando segura
No paciente crítico, a nutrição oral deve ser sempre a primeira escolha quando o doente está apto a se alimentar com segurança, por ser a via mais fisiológica e, em geral, a que melhor preserva a dinâmica de deglutição e a autonomia alimentar. O guideline da ESPEN
recomenda que a dieta oral seja preferida em relação à nutrição enteral ou parenteral nos pacientes criticamente enfermos capazes de comer, desde que não haja risco relevante de vômitos ou de aspiração. Na prática, isso desloca a pergunta clínica de "o paciente pode comer?" para uma pergunta mais exigente e mais útil: "o paciente consegue comer o suficiente, e com segurança?", porque via oral inadequada é situação muito comum na UTI, sobretudo em pacientes em ventilação não invasiva, no período pós-extubação e no pós- traqueostomia, nos quais fadiga, dispneia e disfagia podem limitar de forma relevante a ingestão real, mesmo com a dieta liberada e disponível.
Como critério operacional de adequação da via oral, a ESPEN define que ela é considerada suficiente quando o paciente cobre pelo menos 70 por cento das necessidades nutricionais entre o dia 3 e o dia 7 de tentativa, sem risco de vômito ou de aspiração. Abaixo desse patamar de 70 por cento, a abordagem deve ser escalonada, priorizando primeiro
Via e momento da terapia
suplementos nutricionais orais (os chamados ONS) e, se ainda assim insuficiente, avançando para nutrição enteral por sonda. Esse corte numérico de 70 por cento ajuda a evitar dois erros simétricos: a complacência com uma via oral apenas "prescrita", mas na prática inefetiva, e o atraso desnecessário no suporte nutricional mais assertivo, atraso que se torna cumulativamente deletério.
Passo 2: se a via oral não é suficiente, nutrição enteral precoce em até 48 horas
Se a ingestão oral não é possível ou não é suficiente, o guideline da ESPEN recomenda iniciar nutrição enteral precocemente, idealmente dentro de 48 horas, em vez de postergar o suporte. A lógica é pragmática e retoma diretamente a fisiopatologia: após as primeiras 24 a 48 horas, o paciente crítico já está exposto a um ambiente de catabolismo intenso e déficit nutricional acumulativo, e a nutrição enteral passa a ser a via de escolha sempre que o trato gastrointestinal estiver funcionante. É importante frisar que, mesmo iniciando precocemente, a progressão deve ser gradual nessa fase inicial, evitando perseguir metas plenas de forma
abrupta nas primeiras 48 a 72 horas, justamente para reduzir o risco de sobrealimentação (overfeeding) e suas consequências metabólicas, que serão detalhadas na seção de gasto energético. Quanto aos desfechos que sustentam essa recomendação, a evidência resumida no
guideline sugere um benefício infeccioso associado à nutrição enteral precoce: em comparações entre nutrição enteral precoce e nutrição enteral tardia, observou-se redução de complicações infecciosas em metanálise, ainda que esse sinal seja mais consistente quando se incluem estudos fora do ambiente estrito de UTI, e se atenue quando se excluem os trabalhos mais antigos, o que indica que parte do efeito protetor observado pode depender de contexto e de metodologia dos estudos originais. Já nas comparações entre nutrição enteral e nutrição parenteral, independentemente do momento de início, uma metanálise citada pela ESPEN encontrou redução de infecções na UTI com a via enteral em
relação à parenteral, mas com um detalhe clinicamente crucial que a prova gosta de explorar: essa diferença desaparece quando a carga calórica ofertada é semelhante entre os dois grupos comparados, sugerindo que o risco infeccioso classicamente atribuído à via parenteral em si pode refletir, na verdade, sobrealimentação, e não a via de administração isoladamente.
Características técnicas da nutrição enteral no paciente crítico
Alguns detalhes técnicos sobre como administrar a nutrição enteral no paciente crítico são cobrados com regularidade, e vale sistematizá-los. A administração deve ser contínua, e não em bolus. O acesso gástrico deve ser usado como abordagem padrão para iniciar a nutrição enteral; a alimentação pós-pilórica (transpilórica) deve ser reservada para pacientes com intolerância à alimentação gástrica não resolvida com o uso de agentes procinéticos, e também pode ser considerada em pacientes de alto risco para aspiração,
priorizando nesse caso a posição jejunal. Isso ocorre porque a colocação do tubo pós- pilórico requer maior experiência técnica, está comumente associada a algum atraso no início da terapia, e é considerada menos fisiológica em comparação com a nutrição enteral gástrica; além disso, a alimentação pós-pilórica pode ser prejudicial em casos de problemas de motilidade gastrointestinal distais ao estômago. Em conjunto, a recomendação prática é
usar o acesso gástrico como padrão universal, e implementar o acesso pós-pilórico apenas no caso de intolerância à alimentação gástrica por gastroparesia comprovada.
Em pacientes gravemente enfermos com intolerância à alimentação gástrica, a eritromicina intravenosa deve ser usada como terapia procinética de primeira linha. Alternativamente, a metoclopramida intravenosa, isolada ou em combinação com eritromicina, pode ser usada como terapia procinética. A medição do volume residual gástrico (VRG) para avaliação de disfunção gastrointestinal é uma prática comum e pode ajudar a identificar intolerância à nutrição enteral durante o início e a progressão da dieta; no entanto, o monitoramento estabelecido com medições contínuas e rotineiras de VRG não é considerado necessário, e a recomendação é adiar (não interromper definitivamente) a alimentação enteral apenas quando o VRG for superior a 500 mL em 6 horas.
Questão 4TEN 2022 (correlata) |
Complicações da nutrição enteral: VRG, síndrome de realimentação
e posicionamento Em relação às complicações da terapia nutrológica enteral, assinale a alternativa incorreta:
Gabarito: letra B (alternativa incorreta, portanto a resposta pedida pelo
enunciado) Atenção ao comando do enunciado: ele pede a alternativa incorreta, e é a letra B. As diretrizes baseadas em evidências atuais não apoiam o uso rotineiro do volume gástrico residual como medida confiável e isolada de intolerância à nutrição enteral, tampouco como estratégia eficaz para reduzir a incidência de pneumonia associada à ventilação mecânica. Monitorar clinicamente o paciente (distensão abdominal, vômitos, dor) tem mais valor do que perseguir um número de VRG a cada poucas horas, e esse é exatamente o mesmo raciocínio que sustenta a alternativa correta na Questão 67 de 2025, que veremos logo adiante. As demais alternativas estão corretas e valem ser memorizadas em bloco: infusão rápida e fórmulas com alto teor de lipídeo retardam o esvaziamento gástrico (alternativa A); a síndrome de realimentação, apesar de poder ocorrer com qualquer forma de nutrição artificial, é mais frequente na nutrição enteral, justamente por ser a via mais utilizada e por permitir reintrodução mais rápida de nutrientes em pacientes previamente desnutridos (alternativa C); o diagnóstico de síndrome de realimentação exige queda de fósforo, potássio e/ou magnésio dentro de 5 dias do início ou do aumento substancial da oferta energética (alternativa D, e voltaremos a esse critério com mais detalhe na seção de eletrólitos); e, quando a elevação da cabeceira está contraindicada por alguma razão clínica, a posição de Trendelenburg reverso é uma alternativa válida para reduzir risco de aspiração em pacientes recebendo dieta gástrica (alternativa E).
Questão 5TEN 2025 (correlata) |
Progressão da infusão enteral, via transpilórica e resíduo gástrico
(Shils, 11ª edição) De acordo com a obra Tratado de Nutrição Moderna na Saúde e na Doença (Shils, 11ª edição), sobre a terapia nutricional enteral, é correto afirmar que:
Gabarito: letra D
A progressão da nutrição enteral deve ser cautelosa para permitir adaptação do trato gastrointestinal, especialmente em pacientes críticos ou já desnutridos. O protocolo descrito pelo Shils é: iniciar com taxas baixas, tróficas, tipicamente entre 10 e 40 mL por hora; se o paciente não apresentar sinais de intolerância (distensão, náuseas, dor abdominal), a taxa pode ser aumentada em incrementos de 10 a 20 mL por hora a cada 8 a 12 horas, até atingir a meta calórico-proteica calculada. Essa abordagem gradual minimiza tanto o risco de síndrome de realimentação quanto o risco de intolerância gastrointestinal severa. A alternativa A erra a via: a administração transpilórica (pós-pilórica) exige obrigatoriamente infusão contínua. Como duodeno e jejuno não possuem a capacidade de reservatório que o estômago tem, administrar em bolus ou de forma intermitente nessa via causaria distensão súbita, cólicas e diarreia, um quadro semelhante à síndrome de dumping. A alternativa B erra o ponto de corte: tanto o Shils quanto as diretrizes modernas (ASPEN/SCCM, ESPEN) desencorajam suspender a dieta baseando-se apenas num volume de resíduo gástrico baixo, como 200 mL. A recomendação atual é não suspender a dieta a menos que o VRG seja superior a 500 mL, ou que existam sinais clínicos evidentes de intolerância, exatamente o mesmo limiar de 500 mL em 6 horas que você já viu na questão anterior e que vai reaparecer ao longo de toda esta apostila. A alternativa C inverte a lógica de tolerância no ambiente hospitalar: embora a nutrição em bolus seja mais próxima do padrão fisiológico de alimentação e mais prática para pacientes estáveis em reabilitação domiciliar, a infusão contínua é, de fato, a melhor tolerada no ambiente hospitalar e em pacientes críticos, porque reduz o risco de aspiração pulmonar e de flutuações glicêmicas abruptas.
Passo 3: quando adiar a nutrição enteral, e quando usar dose baixa com cautela
Existe um conjunto bem definido de situações em que a nutrição enteral deve ser formalmente adiada, e memorizar essa lista é indispensável porque a prova constrói casos clínicos inteiros só para testar se você reconhece essas contraindicações escondidas no meio de um enunciado longo. A nutrição enteral deve ser adiada em: choque não compensado, com metas hemodinâmicas e de perfusão tecidual ainda não alcançadas; sangramento ativo do trato gastrointestinal superior; hipoxemia não controlada, hipercapnia e acidose mantida; isquemia intestinal evidente; obstrução intestinal; síndrome do
compartimento abdominal; fístula intestinal de alto débito sem acesso alimentar confiável distal à fístula; e volume de aspirado gástrico superior a 500 mL em 6 horas. É importante notar que "adiar" não significa "jamais nutrir por essa via": quando a causa da contraindicação é resolvida (por exemplo, o choque se torna controlado com fluidos e
vasopressores), a nutrição enteral em baixa dose pode ser iniciada, mantendo-se vigilância ativa para sinais de isquemia intestinal. Da mesma forma, em caso de hipoxemia descontrolada com risco de vida, a nutrição enteral pode ser iniciada assim que o paciente atingir hipoxemia estável e hipercapnia/acidose compensadas ou permissivas; em hemorragia digestiva alta ativa, a nutrição enteral pode ser iniciada quando o sangramento parar e não houver sinais de ressangramento.
Existem ainda cenários específicos em que a nutrição enteral em baixa dose é explicitamente recomendada, mesmo em situações que, à primeira vista, pareceriam contraindicações: pacientes recebendo hipotermia terapêutica (aumentando a dose apenas após o reaquecimento); pacientes com hipertensão intra-abdominal sem síndrome compartimental abdominal estabelecida (considerando redução temporária ou descontinuação apenas se a pressão intra-abdominal aumentar ainda mais sob a dieta); e
pacientes com insuficiência hepática aguda, uma vez controlados os distúrbios metabólicos agudos e potencialmente fatais, independentemente do grau de encefalopatia hepática presente.
Por outro lado, existe também um conjunto de cenários em que a nutrição enteral precoce deve ser especificamente buscada, e não apenas tolerada: pacientes em ECMO; traumatismo cranioencefálico; acidente vascular cerebral isquêmico ou hemorrágico; lesão medular; pancreatite aguda grave (com as ressalvas que veremos na seção de populações especiais); pós-operatório de cirurgia gastrointestinal e de cirurgia de aorta abdominal; trauma abdominal, quando a continuidade do trato gastrointestinal está confirmada ou restaurada; pacientes recebendo agentes bloqueadores neuromusculares; pacientes em decúbito ventral (posição prona); e pacientes com abdome aberto, independentemente da presença de ruídos intestinais, a menos que haja suspeita de isquemia ou obstrução
intestinal.
⚠️ ARMADILHA DIAGNÓSTICA
Um erro recorrente é assumir que posição prona contraindica nutrição enteral. É exatamente o oposto: a posição prona, mesmo sendo desconfortável de manejar do ponto de vista de enfermagem, não é, por si só, contraindicação à dieta enteral. Isso foi diretamente testado na Questão 48 de 2022, que você verá a seguir, onde a alternativa que afirmava que a posição prona "impede" a dieta por sonda estava incorreta.
Contraindicações formais segundo a ESPEN: a lista que a prova cobra literalmente
A questão 38 de 2023 cobrou, de forma quase literal, a lista de contraindicações formais da nutrição enteral segundo a ESPEN, e por isso vale destacá-la separadamente antes de seguir para o timing da nutrição parenteral.
Questão 6TEN 2023 |
Contraindicações da nutrição enteral no paciente crítico
Sobre nutrição enteral, suas características e indicações, assinale a alternativa correta:
Gabarito: letra C
A alternativa C reproduz exatamente a lista de contraindicações da ESPEN que você acabou de estudar em detalhe: sangramento gastrointestinal superior descontrolado, síndrome compartimental abdominal e aspirado gástrico superior a 500 mL em 6 horas. Quando um enunciado citar qualquer um desses três achados como parte do quadro clínico, a via enteral está, no mínimo, temporariamente contraindicada até resolução da causa. A alternativa B inverte propositalmente as definições de osmolalidade (número de partículas osmoticamente ativas por quilograma de solvente, água) e osmolaridade (número de partículas osmoticamente ativas por litro de solução). Vale gravar essa inversão como uma pegadinha recorrente de nomenclatura, porque a banca gosta de trocar essas duas definições exatamente nessa direção. As alternativas A e D trazem valores numéricos da RDC número 21 de 2015 (regulação sanitária brasileira sobre fórmulas para nutrição enteral) que, no gabarito original desta questão, foram considerados incorretos, com a densidade energética normal definida como maior ou igual a 1,0 e menor ou igual a 2,0 kcal por mL, e não a faixa de 0,9 a 1,5 apresentada na alternativa D.
Passo 4: quando a nutrição parenteral entra em cena
A nutrição parenteral entra como estratégia quando a via oral e a via enteral estão contraindicadas ou são inviáveis. Nessa situação, a recomendação geral é que a nutrição parenteral seja implementada dentro de 3 a 7 dias, evitando a tentação de "nutrição plena precoce", porque o guideline enfatiza que alimentação plena precoce, por qualquer via, pode piorar desfechos, sobretudo pelo risco de sobrealimentação na fase aguda da doença crítica. Esse é o ponto central de toda a lógica de timing da nutrição parenteral, e conecta-
se diretamente com o conceito de produção endógena de energia que você já estudou na fisiopatologia: nos primeiros dias, o organismo já está produzindo entre 500 e 1400 kcal por dia através do próprio catabolismo, e ofertar 100 por cento das necessidades por via exógena, além disso, é sobrecarga desnecessária e potencialmente perigosa.
Além do timing geral, o guideline delimita com precisão o papel da nutrição parenteral suplementar: quando o paciente não tolera nutrição enteral em dose plena durante a primeira semana de internação, a decisão de iniciar nutrição parenteral complementar deve ser individualizada, mas há consenso de que, diante de déficit prolongado, a suplementação se torna necessária. O melhor momento exato para essa suplementação, visando cobrir as necessidades completas, não está totalmente fechado na literatura, mas costuma ser sugerido entre o 4º e o 7º dia de internação.
Existe ainda um cenário particular em que a nutrição parenteral pode ser antecipada, mesmo respeitando a lógica de cautela: o paciente gravemente desnutrido, com contraindicação formal à nutrição enteral. Nesse caso específico, a ESPEN admite nutrição parenteral precoce e progressiva, em vez da alternativa de "nenhuma nutrição", desde que
administrada em baixa dose, cuidadosamente balanceada contra o risco simultâneo de síndrome de realimentação e de sobrealimentação.
Questão 7TEN 2022 |
Momento da nutrição parenteral no paciente crítico pós-COVID
Paciente masculino de 55 anos, previamente hígido, Índice de Massa Corpórea (IMC) 24,5 kg/m2, há 7 dias iniciou com quadro respiratório e foi confirmado COVID-19, no momento gravemente enfermo, internado em Unidade de Terapia Intensiva (UTI), recebendo sedação com fentanil e midazolam, entubado em Assistência Ventilatória controlada, curarizado e recebendo noradrenalina na dose de 1 mcg/kg/min por 4 dias e hoje, no 5º dia de UTI, manteve pressão arterial média (PAM) estável maior que 70 mmHg com noradrenalina a 0,4 mcg/kg/min. Mantém jejum enteral desde a admissão em UTI. Baseado nas últimas recomendações do Guideline de Paciente Crítico da Sociedade Americana de Nutrição Enteral e Parenteral (ASPEN) de 2022, marque a alternativa correta.
Gabarito: letra C
Este caso é praticamente um manual de armadilhas. O paciente está no 5º dia de UTI, previamente hígido (sem desnutrição prévia, dado explicitamente fornecido no enunciado e que muda a conduta), hemodinamicamente estável há um dia com noradrenalina em dose baixa e decrescente (0,4 mcg/kg/min, vindo de 1,0), e permanece em jejum enteral desde a admissão, sem explicação no enunciado de por que a via enteral não foi sequer tentada. A resposta correta reconhece que, em paciente grave sem desnutrição prévia, a nutrição parenteral pode ser avaliada entre o 5º e o 7º dia de UTI, caso não seja possível iniciar a via enteral, exatamente a janela de 3 a 7 dias que você acabou de estudar. A alternativa A erra por antecipar demais a nutrição parenteral: iniciar nas primeiras 48 horas não é recomendação geral, e muito menos em paciente sem desnutrição prévia, para quem a prioridade deveria ter sido, antes de tudo, tentar a via enteral. A alternativa B tenta associar COVID-19 a uma regra especial de estabilização hemodinâmica antes da nutrição parenteral, mas essa exigência de estabilidade hemodinâmica não é específica de COVID-19: ela é a mesma regra geral aplicável a qualquer paciente crítico. A alternativa D constrói uma falsa obrigatoriedade: a via pós-pilórica não é obrigatória em pacientes ventilados mecanicamente (o acesso gástrico continua sendo o padrão, como você viu), então a dificuldade técnica de passar sonda pós-pilórica em paciente com COVID-19 não justifica, isoladamente, uso precoce de nutrição parenteral. A alternativa E repete a armadilha da posição prona: ela não impede, por si só, o uso de dieta enteral por sonda gástrica, e não é indicação de nutrição parenteral precoce. Fixe esse ponto porque ele já apareceu de forma quase idêntica em mais de uma prova.
Nutrição enteral pós-cirúrgica: o caso do paciente neurocirúrgico
Questão 8TEN 2023 |
Nutrição enteral precoce e nutrição parenteral na UTI (paciente neurocirúrgico)
Sobre terapia nutricional no paciente crítico marque a alternativa correta?
Gabarito: letra A
Em pacientes neurológicos críticos, principalmente após procedimentos como drenagem de hematoma subdural, a colocação de sonda em posição pós-pilórica pode ser preferível justamente pelo risco aumentado de aspiração pulmonar e pelo atraso comum no esvaziamento gástrico nesse subgrupo (frequentemente relacionado a hipertensão intracraniana, sedação profunda e disfunção autonômica). Isso não contradiz a regra geral de que o acesso gástrico é o padrão universal: é justamente a exceção prevista dentro dessa mesma regra, aplicada a um paciente com fator de risco específico para gastroparesia e aspiração. As alternativas C e D tentam criar uma regra fixa e automática de "nutrição parenteral obrigatória no terceiro dia", o que não existe como recomendação rígida: a decisão de suplementar com nutrição parenteral depende do estado nutricional prévio do paciente, da eficácia real da tolerância à via enteral, e da gravidade da doença crítica em curso, nunca de um calendário fixo aplicado de forma automática independentemente do contexto clínico. A alternativa B cita um estudo (Nutrire-2) associado a uma conclusão que não corresponde ao que a literatura estabelece: não existe recomendação universalmente aceita de que nutrição enteral precoce, isoladamente, evite isquemia intestinal em pacientes com disfunção intestinal e uso de drogas vasoativas; pelo contrário, esse é justamente um subgrupo em que a introdução da dieta enteral exige cautela redobrada, como você verá na seção sobre choque séptico.
Consolidando o algoritmo de via e timing
Situação clínica
Conduta recomendada
Paciente capaz de comer com segurança
Via oral como primeira escolha; considerar insuficiente se cobrir menos de 70% da meta entre o dia 3 e o dia 7
Via oral insuficiente ou impossível, trato gastrointestinal funcionante
Nutrição enteral precoce, idealmente em até 48 horas, progressão gradual
Choque não controlado, hipoxemia/acidose descompensadas, sangramento GI alto ativo, isquemia ou obstrução intestinal, síndrome compartimental abdominal, VRG maior que 500 mL/6h
Adiar nutrição enteral; reavaliar assim que a causa for controlada
Contraindicação absoluta ou prolongada à via oral e enteral
Nutrição parenteral, idealmente iniciada entre o 3º e o 7º dia
Nutrição enteral tolerada, mas insuficiente na 1ª semana
Avaliação individualizada de nutrição parenteral suplementar, tipicamente entre o 4º e o 7º dia
Paciente gravemente desnutrido com contraindicação à via enteral
Nutrição parenteral precoce e progressiva, em baixa dose, vigiando refeeding e overfeeding
Gasto energético
Gasto energético, calorimetria indireta e quociente respiratório
Este é, provavelmente, o subtema mais denso e mais recorrente de toda a prova dentro do
bloco de paciente crítico, e a razão é simples: calorimetria indireta e quociente respiratório permitem à banca construir questões numéricas e interpretativas, não apenas questões de memorização de listas. Se as seções anteriores exigiam saber o que fazer, esta seção exige saber calcular e interpretar, e é exatamente aí que a maioria dos candidatos perde pontos. Vamos construir o raciocínio de forma sequencial, dos fundamentos até os casos evolutivos mais complexos que apareceram em 2025.
Por que a quantidade exata de calorias é difícil de definir
A quantidade exata de calorias a ser administrada a pacientes críticos é difícil de definir e varia ao longo do tempo, e vários parâmetros precisam ser considerados simultaneamente para chegar a uma recomendação justa: o estado nutricional do paciente antes da admissão (magro, peso normal, sobrepeso ou obeso), eventual perda de peso significativa antes da admissão, o número de dias de internação prévia à admissão na UTI, a produção endógena de nutrientes por catabolismo e autofagia, o balanço energético do paciente ao longo da internação, e a ocorrência (ou risco) de síndrome de realimentação no momento da alimentação.
Em pacientes criticamente enfermos e ventilados mecanicamente, o gasto energético deve ser determinado por calorimetria indireta, considerada o método padrão-ouro justamente porque mede diretamente o consumo de oxigênio (VO2) e a produção de dióxido de carbono (VCO2) em tempo real, eliminando os erros sistemáticos das equações preditivas
(como Harris-Benedict), que falham em estimar corretamente o gasto energético em até 60 por cento dos pacientes críticos, seja subestimando, seja superestimando o valor real. Se a calorimetria indireta não estiver disponível, o uso do VO2 medido por cateter arterial pulmonar, ou do VCO2 derivado do próprio ventilador mecânico, fornece uma estimativa melhor do gasto energético do que as equações preditivas clássicas.
O quociente respiratório: a fórmula e o que ela realmente significa O quociente respiratório (QR) é a razão entre o volume de dióxido de carbono produzido
(VCO2) e o volume de oxigênio consumido (VO2): QR igual a VCO2 dividido por VO2. Essa razão não mede diretamente "quanta energia" o paciente está produzindo, nem está ligada à taxa metabólica basal como um valor absoluto; ela reflete, isso sim, qual substrato energético está sendo predominantemente oxidado pelo organismo naquele momento. Esse é o primeiro ponto de confusão que a banca explora com frequência: QR não é sinônimo de gasto energético, é um indicador de composição do substrato metabólico.
Substrato predominante
Valor de QR esperado
Interpretação prática
Lipídios (beta-oxidação)
Próximo de 0,7
Predomina em jejum prolongado, estresse metabólico intenso, subalimentação
Mistura equilibrada de substratos
Entre 0,7 e 0,85 (tipicamente cerca de 0,8 para proteínas)
Faixa fisiológica esperada na maioria dos pacientes críticos bem manejados
Carboidratos
Próximo de 1,0
Consumo predominante de glicose; VCO2 e VO2 em proporções praticamente iguais
Lipogênese de novo (sobrealimentação)
Maior que 1,0
Excesso calórico sendo convertido em gordura; sinal de overfeeding
Álcool
Entre aproximadamente 0,67 e 0,9
Intermediário e variável conforme condições metabólicas associadas
Um erro fisiológico importante para desfazer logo de início: no metabolismo predominante de gorduras (beta-oxidação), o QR é baixo, próximo de 0,7, e não alto. A beta-oxidação consome uma quantidade relativamente maior de oxigênio para cada molécula de dióxido de carbono produzida, exatamente porque a molécula de ácido graxo tem uma proporção de átomos de carbono para átomos de oxigênio muito menor do que a glicose, o que exige mais O2 externo para completar a oxidação. Já os carboidratos, por já conterem uma proporção maior de oxigênio na própria molécula, geram CO2 e consomem O2 em proporções praticamente equivalentes, resultando em QR próximo de 1.
Questão 9TEN 2022 (correlata) |
Calorimetria indireta e gasto energético: fundamentos do QR
Com relação à calorimetria indireta e gasto energético, assinale a alternativa correta:
Gabarito: letra E
A alternativa correta acerta a fórmula (QR igual a VCO2 sobre VO2) e descreve corretamente que, num consumo misto e equilibrado de substratos, o VO2 consumido é cerca de 15 por cento maior do que o VCO2 produzido, o que é matematicamente coerente com um QR fisiológico em torno de 0,8 a 0,85 (se VO2 é 15 por cento maior que VCO2, a razão VCO2/VO2 fica, de fato, abaixo de 1, na faixa esperada para metabolismo misto). A alternativa A contém um erro conceitual grave: no consumo predominante de carboidratos, o QR se aproxima de 1 devido a um aumento no VCO2 produzido em relação ao VO2 consumido (não uma diminuição, como afirma a alternativa). A alternativa B descreve exatamente o oposto do que ocorre na fase Flow do paciente grave: nessa fase espera-se aumento (não diminuição) do gasto energético, por aumento de temperatura, de consumo de oxigênio e de atividade enzimática. Se você já internalizou bem a seção de fisiopatologia (Ebb e Flow), esse erro salta aos olhos imediatamente. A alternativa C erra o valor de QR esperado na beta-oxidação: deveria ser menor que 0,7 (predomínio de gordura), não maior ou igual a 0,85, que já seria compatível com metabolismo misto tendendo a carboidratos. A alternativa D cria uma restrição inexistente sobre PEEP: a calorimetria indireta pode ser realizada em pacientes com diferentes níveis de PEEP, desde que sejam tomadas precauções técnicas para evitar vazamentos de ar no circuito e garantir a precisão das medições, sem um limite fixo de 5 cmH2O.
Questão 10TEN 2023 (correlata) |
Calorimetria indireta em condições clínicas específicas
A Calorimetria Indireta é o padrão ouro clínico para a estimativa do gasto energético. Considerando o exame, assinale a alternativa correta:
Gabarito: letra D
A alternativa correta descreve corretamente que, na alcalose metabólica e na cetose, há menor produção de CO2 e, portanto, QR reduzido, coerente com as alterações no metabolismo dos substratos e na ventilação que acompanham esses dois estados. A alternativa A erra a direção do efeito na fibrose cística: o esperado é aumento (não diminuição) da taxa metabólica de repouso, por conta do estado inflamatório crônico e do maior trabalho respiratório característico da doença. A alternativa B erra a direção do efeito na acidose metabólica: a produção de CO2 geralmente aumenta, e não diminui, porque a ventilação aumenta compensatoriamente para tentar corrigir o pH (mecanismo de Kussmaul, por exemplo). A alternativa C mistura três condições com respostas metabólicas opostas dentro de uma mesma afirmação: na sepse, o VO2 tipicamente aumenta pela resposta hipermetabólica ao estresse infeccioso, mas no coma e na hipotermia o metabolismo tende a diminuir, resultando em menor consumo de oxigênio. É um exemplo clássico de alternativa que junta um fato verdadeiro (sepse) com dois fatos falsos (coma e hipotermia) na mesma frase, esperando que o candidato generalize incorretamente a partir do primeiro termo.
Questão 11TEN 2024 (correlata) |
Fórmula do QR e comparação entre substratos
Com relação à Calorimetria Indireta, marque a opção correta:
Gabarito: letra D
Esta questão consolida exatamente o raciocínio bioquímico por trás da tabela que você acabou de estudar: para um mesmo volume de oxigênio consumido, a oxidação de gorduras produz menos CO2 do que a oxidação de carboidratos, o que explica por que o QR de gorduras (cerca de 0,7) é mais baixo que o de carboidratos (cerca de 1,0). Proteínas ficam numa posição intermediária, com QR médio próximo de 0,8. A alternativa A erra o denominador da fórmula: o QR é VCO2 sobre VO2, e não VCO2 sobre o volume total de gás inspirado (VT), que é um parâmetro ventilatório completamente diferente. A alternativa B tenta transformar o QR num indicador de energia total e de taxa metabólica basal, mas ele não mede diretamente energia produzida nem está ligado à TMB: ele reflete apenas o substrato metabólico predominante, exatamente a distinção conceitual que abre esta seção. A alternativa C erra o valor do QR do álcool, que fica entre aproximadamente 0,67 e 0,9 dependendo das condições metabólicas associadas, e não próximo de 1.
🎯 PONTO DE PROVA
Estas três questões correlatas (2022, 2023 e 2024) formam, juntas, um verdadeiro simulado de fundamentos de calorimetria indireta. Se você conseguir responder as três
de memória, sem hesitação, já está à frente da maioria dos candidatos neste subtema.
Grave a fórmula (QR = VCO2/VO2), os três valores de referência (gordura próxima de 0,7, misto entre 0,7 e 0,85, carboidrato próximo de 1,0, e sobrealimentação acima de 1,0), e o fato de que QR não mede energia total, mede substrato predominante.
Hipocaloria na fase aguda: quanto ofertar e por quê
Se há consenso de que a sobrealimentação deve ser evitada, permanece mais difícil definir exatamente quais metas calóricas devem ser propostas em cada fase da doença crítica. O
ponto de partida conceitual é este: o gasto energético real não deve ser o alvo durante as primeiras 72 horas da doença crítica aguda. A alimentação completa e precoce causa sobrealimentação justamente porque, nesse período, a produção endógena de energia (pelo próprio catabolismo, como você estudou na fisiopatologia) já é elevada, podendo chegar a 500 a 1400 kcal por dia. Somar a isso uma oferta exógena plena resulta em excesso calórico real, mesmo que a prescrição pareça, à primeira vista, "adequada" para o peso do paciente.
A alimentação completa precoce também aumenta o risco de síndrome de realimentação (que você verá em detalhe na seção específica de eletrólitos). Por outro lado, uma ingestão muito baixa, abaixo de 50 por cento das necessidades, também é prejudicial: pode levar a um grave déficit calórico, esvaziar as reservas energéticas, reduzir a massa corporal magra e aumentar as complicações infecciosas. O objetivo, portanto, não é "alimentar pouco" por
princípio, é acertar a dose certa em cada fase, evitando os dois extremos. A diretriz recomenda, na fase aguda inicial, nutrição hipocalórica, com oferta energética não excedendo 70 por cento do gasto energético medido por calorimetria indireta, deixando
explícito que o gasto energético real não deve ser o alvo nas primeiras 72 horas. Se equações preditivas forem usadas (na ausência de calorimetria indireta) para estimar a necessidade de energia, a nutrição hipocalórica, definida como abaixo de 70 por cento das necessidades estimadas, deve ser preferida à nutrição isocalórica durante toda a primeira semana de internação na UTI, e não apenas nos primeiros três dias.
À medida que o paciente evolui para uma fase de maior estabilidade, orienta-se uma transição gradual para um perfil mais próximo do isocalórico, preferencialmente guiado por medida objetiva quando disponível. Após o terceiro dia, se a calorimetria indireta estiver sendo usada, a oferta energética pode ser aumentada para 80 a 100 por cento do gasto energético medido, reconhecendo que tanto a subalimentação quanto a sobrealimentação persistentes são igualmente deletérias nessa fase mais avançada.
💊 PRESCRIÇÃO PRÁTICA
Como regra prática geral no paciente crítico, iniciar o aporte calórico com 8 a 10 kcal por kg por dia, progredindo para 18 a 25 kcal por kg por dia após 5 a 7 dias. O conceito central a memorizar é: iniciar a terapia nutrológica nas primeiras 48 a 72 horas com aporte baixo, e progredir gradualmente a partir daí. Fonte: ESPEN Practical Guideline, Clinical Nutrition in the Intensive Care Unit.
Interpretando calorimetria indireta em casos evolutivos: o par de questões da prova de 2025
As questões 69 e 70 de 2025 formam, juntas, o exemplo mais sofisticado de cobrança de calorimetria indireta já visto na prova, porque tratam do mesmo paciente em dois momentos evolutivos diferentes, exigindo que o candidato reinterprete a conduta conforme o quadro muda. Vale estudar as duas em sequência, exatamente como a banca as apresentou, porque o contraste entre elas é o verdadeiro objeto de ensino aqui.
Questão 12TEN 2025 |
Calorimetria indireta no grande queimado: fase de déficit calórico
Paciente do sexo masculino, 23 anos, internado por queimadura que acomete 57% da superfície corporal. No 5º dia de internação, encontra-se em ventilação mecânica com fração inspirada de oxigênio (FiO2) de 45%, sedado, hemodinamicamente estável e sem uso de drogas vasoativas. Está em terapia nutrológica enteral, recebendo 2.200 kcal e 120 g de proteína por dia. Faz uso de insulina em bomba de infusão contínua (BIC) a 0,5 UI/h. Peso atual: 95 kg; peso habitual: 78 kg (índice de massa corporal habitual: 24,9 kg/m²). Foi realizada calorimetria indireta (CI) com os seguintes resultados: gasto energético de repouso (GER) de 2.571 kcal e quociente respiratório (QR) de 0,75. Com base no resultado da CI, qual a melhor conduta para a terapia nutrológica neste momento?
Gabarito: letra B
No 5º dia de internação, já dentro da fase Flow e após a fase aguda inicial de 72 horas, o alvo passa a ser aproximar-se de 100 por cento do gasto energético de repouso medido. O paciente recebe 2.200 kcal e o GER medido é 2.571 kcal, ou seja, ele está em déficit calórico de cerca de 370 kcal por dia. A conduta correta é ajustar o aporte para próximo do valor medido, cerca de 2.600 kcal por dia. O quociente respiratório de 0,75 reforça essa leitura e não indica nenhum erro do exame: um QR próximo de 0,7 a 0,75 indica oxidação predominante de lipídios, exatamente o que se espera num paciente que está recebendo menos energia exógena do que gasta, e que precisa mobilizar reservas endógenas de gordura para compensar o déficit. Um QR nessa faixa confirma que o paciente não está sendo sobrealimentado (o que geraria QR acima de 1,0). A alternativa A foca em proteína (2,0 g/kg de peso atual) quando a pergunta pede especificamente a conduta baseada no resultado da calorimetria indireta, que mede energia, não proteína. Além disso, usar o peso atual de 95 kg (inflado por edema e reposição volêmica extensa, muito acima do peso habitual de 78 kg) para calcular a meta proteica tenderia a superestimar a necessidade real. A alternativa C está errada porque o exame é tecnicamente confiável: FiO2 de 45 por cento está dentro do limite operacional da maioria dos calorímetros modernos (geralmente confiáveis até cerca de 60 por cento de FiO2), e o QR de 0,75 é biologicamente plausível e consistente com o quadro clínico descrito. A alternativa D reproduz uma prática em desuso: multiplicar o valor medido pela calorimetria por um "fator de injúria" arbitrário (como 1,2 ou 1,5). A recomendação atual é não aplicar fatores de correção sobre um valor já medido diretamente em pacientes sedados e ventilados mecanicamente, justamente para não induzir sobrealimentação iatrogênica.
Questão 13TEN 2025 |
Quociente respiratório e sobrealimentação: mesmo paciente, fase de recuperação
Ainda sobre o caso anterior. O paciente encontra-se no 21º dia de internação, em ventilação espontânea e hemodinamicamente estável sem uso de drogas vasoativas. Foi iniciado propranolol. Ainda recebendo terapia nutrológica enteral que oferta 2.700 kcal e 140 g de proteína. Peso atual: 78,2 kg. Realizada nova calorimetria indireta (CI) com os seguintes resultados: Gasto energético de repouso (GER): 2.139 kcal e Quociente Respiratório (QR): 1,1. Com base no resultado da CI qual a melhor conduta para a terapia nutrológica neste momento?
Gabarito: letra C
Entre a questão 69 e esta, dois dados fundamentais mudaram: o quociente respiratório subiu de 0,75 para 1,1, e o paciente iniciou uso de propranolol. Um QR maior que 1,0 é o sinal clássico de sobrealimentação: quando a oferta calórica excede a capacidade de oxidação do organismo, ocorre lipogênese de novo, ou seja, conversão do excesso de glicose em gordura. Esse processo produz uma quantidade excessiva de CO2, o que eleva o QR acima de 1, e no contexto clínico pode sobrecarregar o sistema respiratório e dificultar o desmame da ventilação mecânica (embora, neste caso, o paciente já esteja em ventilação espontânea). O propranolol explica a queda do gasto energético medido: em grandes queimados, o uso de betabloqueadores é uma estratégia terapêutica reconhecida para atenuar a resposta hipermetabólica severa característica da fase Flow, reduzindo frequência cardíaca e gasto energético de repouso. Isso explica por que o GER caiu de 2.571 kcal (na questão anterior) para 2.139 kcal agora, mesmo o paciente estando clinicamente mais recuperado. Como o paciente está recebendo 2.700 kcal e seu gasto medido é de apenas 2.139 kcal, com sinal claro de sobrecarga metabólica no QR, a conduta correta é reduzir o aporte calórico, aproximando-o do gasto medido (cerca de 2.300 kcal, um pouco acima de 100 por cento do GER, permitindo margem mínima para termogênese sem manter o estado de sobrealimentação). A alternativa A está errada pelo mesmo motivo da questão anterior: QR de 1,1 não indica erro técnico, é uma resposta biológica esperada ao excesso de calorias; erros técnicos verdadeiros do exame costumam gerar valores fora da faixa fisiológica plausível (abaixo de 0,6 ou acima de aproximadamente 1,3). A alternativa B agravaria drasticamente a esteatose hepática, a hiperglicemia e a produção de CO2, sendo uma conduta perigosa justamente no sentido oposto ao que o exame está indicando. A alternativa D foca em proteína quando o problema identificado pela calorimetria é especificamente energético (excesso de calorias, provavelmente de carboidratos e/ou lipídios), não proteico. A prioridade clínica imediata é corrigir o excesso calórico responsável pelo QR elevado.
Parâmetro
5º dia (fase aguda tardia)
21º dia (fase de recuperação)
GER medido
2.571 kcal (relativamente alto)
2.139 kcal (reduzido pelo propranolol)
QR
0,75 (oxidação de gordura, coerente com déficit)
1,1 (lipogênese, sobrealimentação)
Oferta recebida
2.200 kcal (déficit)
2.700 kcal (excesso)
Situação
Déficit calórico
Excesso calórico (overfeeding)
Conduta correta
Aumentar a oferta para próximo do GER medido
Reduzir a oferta para próximo do GER medido
🎯 PONTO DE PROVA
O padrão de raciocínio que resolve qualquer questão de calorimetria evolutiva na prova é sempre o mesmo: compare a oferta atual com o GER medido, e use o QR como confirmação da direção do erro. Oferta abaixo do GER com QR baixo (perto de 0,7) confirma déficit calórico, oxidação de gordura endógena, e a conduta é aumentar a oferta. Oferta acima do GER com QR alto (acima de 1,0) confirma excesso calórico, lipogênese, e a conduta é reduzir a oferta. Nunca desconsidere o exame como erro técnico só porque o valor de QR parece "estranho": só cogite erro técnico diante de valores biologicamente implausíveis, fora da faixa aproximada de 0,6 a 1,3, e mesmo assim apenas quando não houver explicação clínica coerente para o achado.
Proteína no paciente crítico
Proteína no paciente crítico: metas, timing e o EFFORT Trial
Por que a proteína segue uma lógica diferente da energia
Um dos pontos mais importantes deste bloco inteiro, e que a prova cobra explicitamente, é que os requisitos de energia e de proteína não podem mudar de forma paralela: eles precisam ser considerados separadamente. Embora uma entrega de energia muito grande possa levar à sobrealimentação e à síndrome de realimentação, sendo por isso deletéria (como você viu em detalhe na seção anterior), o aumento da entrega de proteína pode ser benéfico em pacientes gravemente enfermos, mesmo enquanto a oferta calórica permanece
controlada e hipocalórica. Essa dissociação entre a curva de progressão de energia (cautelosa, gradual, hipocalórica na fase aguda) e a curva de progressão de proteína (mais assertiva desde cedo) é um conceito que separa quem entende a fisiologia de quem apenas memorizou números soltos.
O racional fisiológico para essa dissociação está diretamente ligado ao que você estudou na fisiopatologia: o músculo compreende o maior reservatório de proteínas do corpo, e a doença crítica está associada a proteólise acentuada e perda muscular que pode chegar a até 1 kg por dia nos quadros mais graves, perda que está diretamente associada à fraqueza adquirida na UTI. Uma maior ingestão de proteína, combinada com atividade física precoce (mobilização e fisioterapia), pode ser necessária para superar a resistência anabólica que acompanha tanto a idade avançada quanto a própria doença crítica em curso.
A meta geral: 1,3 g/kg/dia, entregue progressivamente
Durante a doença crítica, cerca de 1,3 g/kg equivalentes de proteína por dia pode ser entregue de forma progressiva, e não em bolo único desde o primeiro dia. O momento ideal exato de início da oferta proteica plena ainda não é totalmente claro na literatura: um estudo retrospectivo de Weijs e colaboradores encontrou que a ingestão precoce de proteína, na ordem de 1,2 g/kg/dia já a partir do quarto dia, esteve associada a melhor sobrevida em pacientes não sépticos e não sobrealimentados, sugerindo que, nesse subgrupo específico, antecipar a proteína pode trazer benefício real.
💊 PRESCRIÇÃO PRÁTICA
Meta proteica geral no paciente crítico: aproximadamente 1,3 g/kg/dia, entregue de forma progressiva ao longo dos primeiros dias de internação. Fonte: ESPEN Practical Guideline, Clinical Nutrition in the Intensive Care Unit. Em populações especiais (renal agudo em terapia dialítica, obeso crítico, grande queimado), essa meta se altera de forma relevante, como você verá na seção de populações especiais.
O EFFORT Trial: quando mais proteína deixa de ser sinônimo de melhor
O EFFORT Trial ("The effect of higher protein dosing in critically ill patients with high nutritional risk"), publicado na revista The Lancet em janeiro de 2023, é hoje uma das
referências mais cobradas neste subtema, e por um motivo pedagogicamente interessante:
ele desafia a intuição de que "mais proteína é sempre melhor" no paciente crítico, pelo menos em determinados subgrupos de risco. Trata-se de um estudo multicêntrico randomizado, e não de centro único como alguma alternativa de prova já tentou insinuar, que comparou desfechos entre uma estratégia de oferta proteica elevada e uma estratégia de oferta proteica moderada em pacientes críticos classificados como de alto risco nutricional.
O resultado geral do estudo, considerando a população completa, não demonstrou vantagem significativa de sobrevida ou de outros desfechos primários com a oferta elevada de proteína, em comparação com a oferta moderada. Mas o achado mais relevante, e mais cobrado em prova, veio de uma análise de subgrupo: pacientes que receberam oferta proteica maior ou igual a 2,2 g/kg/dia e que se apresentavam, já na admissão, com
insuficiência renal aguda (estágios I a III) associada a escore SOFA maior ou igual a 9, tiveram piores desfechos clínicos quando comparados aos que receberam oferta proteica menor. Esse achado sugere que o suporte proteico excessivo pode ser francamente prejudicial em condições de comprometimento metabólico severo e disfunção orgânica múltipla, como acontece nessa combinação específica de injúria renal aguda com gravidade elevada medida pelo SOFA.
Questão 14TEN 2024 |
EFFORT Trial e alta oferta proteica
Em relação ao estudo científico Effort Trial (The effect of higher protein dosing in critically ill patients with high nutritional risk), publicado na revista "The Lancet" em Janeiro de 2023, responda a alternativa correta:
Gabarito: letra B
Já detalhamos acima exatamente o racional desta alternativa: subgrupo de insuficiência renal aguda em estágios I a III combinado a SOFA maior ou igual a 9, recebendo oferta proteica maior ou igual a 2,2 g/kg/dia, apresentou piores desfechos. Grave essa combinação de três elementos (IRA + SOFA alto + proteína muito elevada) como o núcleo exato do que a prova cobra sobre este estudo. A alternativa A erra dois fatos estruturais do desenho do estudo: o EFFORT Trial foi multicêntrico, não de centro único, e a comparação não se limitou a um grupo com oferta tão baixa quanto 0,8 g/kg/dia como referência de comparação principal. A alternativa C inverte o resultado geral do estudo: não houve demonstração de melhora significativa em alta hospitalar com vida associada a doses maiores de proteína; na verdade, como você acabou de ver, doses mais elevadas se associaram a piores desfechos no subgrupo de maior gravidade renal e sistêmica. A alternativa D erra a composição da amostra: a população do EFFORT Trial foi heterogênea, e não predominantemente composta por pacientes politraumatizados e grandes queimados.
⚠️ ARMADILHA DIAGNÓSTICA
A armadilha central do EFFORT Trial em prova é o candidato responder "mais proteína é sempre melhor" de forma automática, porque essa é a lógica que domina a maior parte do restante do tema (o guideline geral recomenda progressão da proteína, populações como renal em diálise e grande queimado recebem metas ainda mais altas, como você verá adiante). O EFFORT Trial é justamente a exceção que prova que essa lógica tem limite: em pacientes com disfunção orgânica múltipla grave (SOFA muito elevado) combinada a injúria renal aguda, empurrar a proteína para valores muito altos (2,2 g/kg/dia ou mais) pode piorar, e não melhorar, o desfecho.
Guardando o raciocínio completo sobre proteína
Feche este subtema com a seguinte síntese mental: a meta geral de proteína no paciente crítico gira em torno de 1,3 g/kg/dia, entregue progressivamente e de forma independente da curva de energia (que é hipocalórica na fase aguda). Em populações especiais de maior perda proteica (diálise, terapia renal substitutiva contínua, grande queimado), essa meta sobe, como você verá na próxima seção. Mas essa lógica de "quanto mais proteína, melhor" tem um limite claro e demonstrado pelo EFFORT Trial: em pacientes com disfunção orgânica múltipla grave e injúria renal aguda associadas, ofertas muito elevadas (2,2 g/kg/dia ou mais) podem ser prejudiciais, e a individualização da meta proteica conforme o
perfil de gravidade do paciente é, hoje, parte central do raciocínio esperado pela banca.
Lipídios, propofol e carboidratos
Carboidratos, lipídios e propofol: a fonte calórica que costuma passar despercebida
Limites de carboidratos e lipídios na terapia nutricional
A quantidade de glicose administrada na nutrição parenteral, ou de carboidratos administrados na nutrição enteral, não deve exceder 5 mg por kg por minuto em pacientes de UTI. Esse limite existe por causa da resistência insulínica característica do estresse metabólico agudo: ultrapassá-lo aumenta o risco de hiperglicemia e de lipogênese excessiva, o mesmo fenômeno que você viu elevando o quociente respiratório acima de 1,0 na seção anterior.
As emulsões lipídicas intravenosas geralmente devem fazer parte da nutrição parenteral desde o início. Os lipídios intravenosos, incluindo fontes lipídicas não nutricionais (e aqui entra o propofol, como você verá a seguir), não devem exceder 1,5 g de lipídios por kg por dia, com a recomendação de referência situando-se em torno de 1,0 g por kg por dia como
meta central e tolerância de até 1,5 g por kg por dia, sempre adaptada à tolerância individual do paciente. A composição ideal de macronutrientes é, portanto, definida por requisitos mínimos e por limites superiores bem estabelecidos, e não apenas por um valor único fixo.
Propofol: sedativo, mas também fonte calórica lipídica
Este é um dos pontos mais repetidos da prova dentro de todo o bloco de paciente crítico, e por uma razão prática muito concreta: o propofol é formulado como uma emulsão lipídica a
10 por cento, composta principalmente por triglicerídeos de cadeia média e longa, para viabilizar sua administração intravenosa. Isso significa que a infusão contínua de propofol para sedação, extremamente comum em pacientes ventilados mecanicamente, contribui de forma direta e muitas vezes esquecida para a ingestão lipídica e calórica total do paciente, e esse aporte precisa ser contabilizado no cálculo total de lipídios, especialmente em pacientes que já estão recebendo emulsões lipídicas como parte da nutrição parenteral.
💊 PRESCRIÇÃO PRÁTICA
Densidade energética do propofol: 1,1 kcal por mL (não 1,25 kcal por mL, valor que a banca já usou mais de uma vez como distrator). Para conversão prática de doses de infusão contínua em kcal por dia: multiplique a taxa de infusão em mL por hora por 1,1 kcal, e depois por 24 horas. O aporte lipídico total do paciente, incluindo o propofol, não deve exceder o limite recomendado de 1,5 g de lipídios por kg por dia, e a monitorização de triglicerídeos séricos é indicada em uso prolongado ou de altas doses.
Além de representar uma fonte calórica lipídica relevante, o propofol tem sido associado a casos de pancreatite aguda, especialmente em pacientes que recebem infusões prolongadas e em altas doses. O mecanismo exato pelo qual o propofol causa pancreatite ainda não é totalmente compreendido, mas há hipóteses relacionando esse efeito à indução de disfunção mitocondrial nas células pancreáticas, possivelmente potencializada pela própria carga lipídica sustentada que a infusão contínua representa.
Questão 15TEN 2022 |
Propofol, hipertrigliceridemia e pancreatite na UTI
Homem de 46 anos internado em UTI devido Síndrome do Desconforto Respiratório Agudo grave por COVID-19, sob ventilação mecânica invasiva, desenvolve quadro de pancreatite aguda. Exames laboratoriais: amilase 970 U/L, lipase 710 U/L, triglicerídeos 1400 mg/dL. Qual das medicações abaixo tem maior associação a este quadro clínico?
Gabarito: letra D
Os três achados laboratoriais do enunciado (amilase e lipase muito elevadas, confirmando pancreatite aguda, e triglicerídeos em 1400 mg/dL, uma hipertrigliceridemia grave) apontam diretamente para o propofol como causa mais provável: a infusão prolongada e em altas doses, comum em pacientes com SDRA grave por COVID-19 sob ventilação mecânica invasiva, gera exatamente esse padrão de hipertrigliceridemia grave associada a pancreatite aguda. Nenhuma das outras opções tem associação relevante com pancreatite aguda pelo mesmo mecanismo: midazolam (benzodiazepínico), fentanil (opioide) e quetamina (anestésico dissociativo) são usados para sedação e analgesia, mas não carregam carga lipídica significativa nem êm associação estabelecida com pancreatite; norepinefrina é um vasoconstritor usado no tratamento de hipotensão e choque, sem relação com esse quadro.
Propofol como emulsão lipídica: o cálculo obrigatório na nutrição
parenteral A mesma lógica de "propofol como fonte lipídica oculta" reaparece de forma explícita em
uma questão pediátrica, reforçando que esse conceito não é restrito ao adulto: sempre que houver infusão contínua de propofol num paciente que também recebe (ou pode vir a receber) nutrição parenteral, o aporte lipídico do sedativo precisa ser somado ao aporte lipídico da própria fórmula parenteral, sob risco de ultrapassar o limite seguro de 1,5 g por kg por dia sem que a equipe perceba.
Questão 16TEN 2024 |
Propofol como emulsão lipídica na UTI pediátrica
Pacientes internados em UTIP (Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica) que estão em uso de infusão contínua para sedação, deve-se lembrar que existe um medicamento que é considerado uma emulsão lipídica a 10%, e isto deve ser considerado no cálculo da Nutrição Parenteral. Qual é o medicamento?
Gabarito: letra C
Repetição direta do conceito: propofol é formulado em emulsão lipídica a 10 por cento e, por isso, contribui para a ingestão lipídica total do paciente, precisando entrar no cálculo do aporte de lipídios da nutrição parenteral. Nenhum dos outros três fármacos (cetamina, midazolam, fentanil) possui formulação em emulsão lipídica, e nenhum deles interfere no cálculo de lipídios da prescrição nutricional. Vale reforçar, como consideração clínica prática associada a esta questão: o aporte lipídico total, incluindo o proveniente do propofol, não deve exceder o recomendado, geralmente entre 0,8 e 1,5 g por kg por dia, dependendo da condição clínica do paciente. A superdosagem de lipídios pode levar a complicações metabólicas relevantes, como hipertrigliceridemia e esteatose hepática.
🎯 PONTO DE PROVA
Sempre que um caso clínico de UTI mencionar propofol em mL por hora, isso não é um detalhe decorativo do enunciado, é um dado matemático que provavelmente precisa entrar no seu cálculo de aporte calórico e lipídico total. Grave o número 1,1 kcal por mL como a densidade energética correta do propofol (a banca já tentou substituir esse valor por 1,25 kcal por mL em mais de uma prova), e lembre que o limite de segurança para lipídios totais, incluindo o propofol, gira em torno de 1,5 g por kg por dia.
Obesidade e fístulas
Populações especiais: o paciente obeso crítico e a fístula enterocutânea
Por que o obeso crítico exige um raciocínio nutricional próprio
Pacientes obesos têm risco nutricional sistematicamente subestimado na prática clínica, e essa subestimação é justamente o que a prova mais gosta de explorar. O raciocínio de base é o mesmo que você já viu na seção de avaliação nutricional: IMC alto não significa reserva muscular preservada, e o obeso crítico costuma esconder sarcopenia relevante por trás de um peso corporal elevado, configurando o quadro de obesidade sarcopênica. Por isso, a estratégia nutricional no obeso crítico segue uma lógica deliberadamente diferente
da lógica aplicada ao paciente eutrófico: dissocia-se a meta calórica (calculada por peso ideal ou ajustado, e reduzida em relação ao peso real) da meta proteica (calculada por peso ideal, mas proporcionalmente mais alta que no paciente eutrófico). Uma dieta hiperproteica isocalórica pode ser administrada a pacientes obesos,
preferencialmente guiada por medidas de calorimetria indireta e por perdas urinárias de nitrogênio. Quando essas ferramentas não estão disponíveis, a ingestão de proteína pode ser calculada em 1,3 g por kg de "peso corporal ajustado" por dia. Segundo a BRASPEN, a meta calórica não deve ultrapassar 60 a 70 por cento do alvo medido por calorimetria indireta; se a calorimetria não estiver disponível, deve-se utilizar 11 a 14 kcal por kg por dia do peso real para pacientes com IMC entre 30 e 50 kg/m2, e 22 a 25 kcal por kg por dia do peso ideal para pacientes eutróficos, caso o IMC seja maior que 50 kg/m2. Em termos de proteína, a recomendação da BRASPEN é fornecer 2 g de proteína por kg de peso ideal por
dia quando o IMC estiver entre 30 e 40 kg/m2, chegando a até 2,5 g por kg de peso ideal por dia quando o IMC for superior a 40 kg/m2. Vários autores defendem uma estratégia de "desnutrição controlada" no indivíduo obeso crítico, fornecendo uma dose relativamente maior de proteína (entre 2 e 2,5 g por kg por dia,
usando o peso corporal ideal como referência) enquanto se restringe deliberadamente a oferta calórica. Uma perda de peso observada de até 2,7 kg por semana é considerada vantajosa nesse contexto, desde que o balanço nitrogenado positivo (ou ao menos equilibrado) possa ser mantido. Um detalhe fisiológico importante para calcular o peso corporal de referência ajustado: quando o IMC indica sobrepeso ou obesidade (IMC maior que 25 kg/m2), o tecido adiposo consome cerca de 4,5 kcal por kg por dia, enquanto o tecido muscular consome cerca de 13 kcal por kg por dia, o que justifica não simplesmente usar o peso real na equação, sob pena de superestimar de forma relevante a necessidade
calórica real.
Parâmetro
Recomendação no obeso crítico
Meta calórica com calorimetria indireta disponível
60 a 70% do gasto energético medido (BRASPEN)
Meta calórica sem calorimetria, IMC 30 a 50 kg/m2
11 a 14 kcal/kg/dia de peso real
Meta calórica sem calorimetria, IMC maior que 50 kg/m2
22 a 25 kcal/kg/dia de peso ideal
Meta proteica, IMC 30 a 40 kg/m2
2,0 g/kg/dia de peso ideal
Meta proteica, IMC maior que 40 kg/m2
Até 2,5 g/kg/dia de peso ideal
Meta proteica geral (sem dado de perda urinária de N)
1,3 g/kg/dia de peso corporal ajustado (ESPEN)
A fístula enterocutânea de alto débito no paciente crítico obeso
A banca tem repetido, com pequenas variações, um mesmo cenário clínico ao longo de duas provas seguidas: paciente obeso, em ventilação mecânica, sedado com propofol, em pós-operatório de ressecção de tumor intestinal, evoluindo com fístula enterocutânea de débito elevado. Vale estudar esse padrão de caso com atenção total, porque ele reúne, numa única questão, praticamente todos os conceitos das seções anteriores: propofol como fonte lipídica, meta proteica e calórica do obeso, e a lógica de decisão entre via enteral e via
parenteral diante de complicação cirúrgica gastrointestinal.
Questão 17TEN 2023 |
Fístula enterocutânea de alto débito no paciente ventilado
Paciente obesa do sexo feminino, em terapia intensiva, entubada sob ventilação mecânica, hemodinamicamente estável, sem drogas vasoativas, sedada com propofol 25 mL/h, pós-operatório de ressecção de tumor intestinal, evoluiu com fístula entero- cutânea, débito de 1300 mL nas 24h. Em relação à terapia nutricional, assinale a alternativa correta:
Gabarito: letra B
Diante de fístula enterocutânea, a hierarquia de decisão segue exatamente o algoritmo geral de via que você estudou: nutrição enteral continua sendo preferida sempre que possível, porque preserva a integridade do trato gastrointestinal e previne translocação bacteriana. A diferença específica neste cenário é onde posicionar a sonda: distal à fístula, para que o débito da fístula não comprometa a absorção da dieta nem seja agravado pela própria infusão. Somente se essa passagem distal à fístula não for tecnicamente possível é que se recorre à nutrição parenteral central como alternativa. A alternativa A comete dois erros simultâneos: a paciente está entubada e sedada, portanto não pode receber dieta por via oral, e a velocidade de infusão de glicose em nutrição parenteral é convencionalmente expressa em mg por kg por minuto, não em mcg por kg por minuto, um erro de unidade que muda o valor numérico em três ordens de grandeza. A alternativa C erra a densidade energética do propofol, que é 1,1 kcal por mL, e não 1,25 kcal por mL (o mesmo distrator que você já viu na seção anterior). A dosagem de triglicerídeos, embora relevante durante uso prolongado de propofol, não substitui a decisão central sobre a via de terapia nutricional que a questão está, de fato, testando. A alternativa D acerta a meta proteica (2 g por kg de peso ideal, coerente com o IMC entre 30 e 40 kg/m2 que você acabou de estudar), mas erra ao não abordar a decisão prática mais urgente do caso, que é a escolha de via diante da fístula; além disso, a faixa de oferta calórica apresentada mistura valores de forma pouco precisa em relação à referência da BRASPEN.
Questão 18TEN 2024 |
Obesidade, ventilação mecânica e fístula de alto débito
Paciente obeso do sexo masculino, IMC 39 kg/m2, em terapia intensiva, entubado sob ventilação mecânica, hemodinamicamente estável, sem drogas vasoativas, sedado com propofol 30ml/h, pós operatório de ressecção de tumor intestinal, evoluiu com fístula enterocutânea, débito de 1500mL nas 24h. Em relação à terapia nutricional, assinale a alternativa correta.
Gabarito: letra D
Praticamente o mesmo caso da questão de 2023, agora com um IMC explícito de 39 kg/m2 e débito de fístula ainda maior (1500 mL em 24 horas, confirmando alto débito). A lógica de decisão permanece idêntica: a alta perda de líquidos e nutrientes pela fístula torna a nutrição enteral proximal inviável, especialmente quando não é possível posicionar a sonda distal à fístula; nessas situações, a nutrição parenteral central se torna essencial para garantir suporte nutricional adequado e evitar desnutrição severa e desequilíbrios hidroeletrolíticos. Caso seja possível posicionar a sonda distal e o débito for controlado, a nutrição enteral distal permanece como primeira escolha, com a parenteral entrando apenas como suporte complementar. As alternativas A, B e C repetem exatamente os mesmos três erros já vistos na questão de 2023 (via oral impossível em paciente entubado mais erro de unidade de glicose; densidade energética incorreta do propofol; meta proteica de 2,5 g por kg de peso ideal, que na verdade é a recomendada quando o IMC ultrapassa 40 kg/m2, não sendo o valor mais preciso para este IMC de 39). É um padrão de repetição de distratores que vale a pena reconhecer, porque a banca reaproveita a mesma arquitetura de erro de uma prova para outra.
🩺 PÉROLA CLÍNICA
Perceba como estas duas questões (2023 e 2024) são, na prática, a mesma questão com números levemente diferentes. Isso não é coincidência: é exatamente o padrão de repetição que você deve buscar ao estudar provas antigas. Uma vez identificado o padrão (obeso crítico, ventilado, propofol, pós-operatório intestinal, fístula de alto débito), toda a árvore de decisão fica memorizada de uma vez só, e deixa de importar se o IMC exato é 30, 35 ou 39, ou se o débito é 1300 ou 1500 mL.
Insuficiência renal
Populações especiais: insuficiência renal aguda e terapia renal substitutiva
Por que a proteína no renal crítico segue uma lógica oposta à do renal crônico ambulatorial
Este é um dos pontos em que candidatos mais erram por transporte incorreto de conhecimento entre contextos: a lógica de restringir proteína, familiar no manejo do doente renal crônico em fase pré-dialítica ambulatorial (onde reduzir proteína ajuda a controlar ureia e postergar diálise), é exatamente o oposto do que se recomenda no paciente crítico com injúria renal aguda, sobretudo quando já em terapia dialítica. No paciente crítico,
restringir proteína é um erro grave, porque o catabolismo da doença crítica já está, por si só, promovendo proteólise acentuada, e reduzir ainda mais a oferta proteica só acelera a perda de massa magra e piora o prognóstico funcional.
A regra geral que resolve a grande maioria das questões deste subtema é: quanto maior a perda de nitrogênio (seja pelo catabolismo da doença de base, seja pela perda física de aminoácidos no próprio filtro dialítico), maior deve ser a oferta proteica compensatória. Isso cria uma escada bem definida de necessidade proteica, do renal crônico conservador (proteína restrita) até o renal agudo em terapia renal substitutiva contínua (proteína elevada, entre as mais altas de toda a nutrologia clínica).
0,6 a 0,8 g/kg/dia (podendo chegar a 0,3 a 0,4 g/kg/dia com suplementação de cetoanálogos em protocolos específicos)
Adiar a necessidade de diálise e reduzir a produção de ureia
Injúria renal aguda, paciente crítico, tratamento conservador (sem diálise)
1,0 a 1,3 g/kg/dia
Equilibrar o estresse metabólico da doença crítica sem sobrecarregar ainda mais a função renal residual
Injúria renal aguda, paciente crítico, em diálise intermitente ou terapia renal substitutiva contínua
1,5 a 1,7 g/kg/dia (podendo chegar a mais em situações de perda extrema)
Repor as perdas de aminoácidos no filtro dialítico e compensar o catabolismo intenso da doença crítica
Questão 19TEN 2022 |
Injúria renal aguda no choque séptico, tratamento conservador
Mulher de 68 anos encontra-se internada devido choque séptico de foco urinário. Atualmente, encontra-se em ventilação mecânica e infusão de noradrenalina 0,2 mcg/kg/min. Evolui com injúria renal aguda, devido a insultos isquêmicos, séptico e medicamentoso, em tratamento conservador. A recomendação proteica para esta paciente deve ser:
Gabarito: letra C
O detalhe que define esta questão é "tratamento conservador", ou seja, sem terapia dialítica em curso. Para injúria renal aguda em tratamento conservador e em contexto crítico, a recomendação proteica é de 1,0 a 1,3 g por kg por dia, quantidade necessária para atender às demandas metabólicas aumentadas da doença crítica, promovendo balanço nitrogenado o mais próximo possível de positivo e preservando massa muscular, sem sobrecarregar excessivamente a função renal residual que ainda não está sendo suportada por diálise. Se esta mesma paciente evoluísse para necessidade de terapia renal substitutiva, a meta proteica subiria imediatamente para a faixa de 1,5 a 1,7 g por kg por dia (alternativa D), exatamente a diferença que separa esta questão da próxima que veremos, sobre paciente já em diálise intermitente.
Questão 20TEN 2022 |
Oferta proteica na diálise intermitente em UTI
Paciente masculino, Índice de Massa Corpórea (IMC) de 18,5 kg/m2, portador de doença renal crônica, em diálise intermitente (3 vezes na semana), apresentou sepse vascular e endocardite, foi encaminhado a Unidade de Terapia Intensiva (UTI), necessitando nesta internação de terapia dialítica diária. Sobre o cálculo e oferta calórica e proteica deste paciente portador de falência renal em UTI, marque a opção correta, baseando-se no Guideline de Nutrição Clínica em Pacientes hospitalizados com doenças renais crônicas ou agudas da Sociedade Europeia de Nutrição Enteral e Parenteral (ESPEN) de 2021.
Gabarito: letra E
De acordo com o guideline ESPEN 2021 de nutrição clínica em doenças renais crônicas ou agudas, a oferta proteica recomendada para pacientes em terapia dialítica na UTI é de 1,5 a 1,7 g por kg por dia, exatamente a faixa consolidada na tabela acima para o paciente renal agudo em diálise. A alternativa A erra ao propor uma oferta calórica fixa de 35 kcal baseada num IMC ideal genérico de 25 kg/m2, ignorando a individualização que a nutrologia de terapia intensiva exige (e que já discutimos em detalhe na seção de gasto energético). A alternativa B está factualmente errada: a calorimetria indireta pode, sim, ser realizada em pacientes de UTI em hemodiálise, embora a medição possa ser tecnicamente mais desafiadora pela instabilidade clínica associada ao procedimento dialítico; ainda assim, ela continua sendo considerada o padrão-ouro para determinar necessidades energéticas nesses pacientes. As alternativas C e D subestimam a necessidade proteica real desse subgrupo: 0,8 g por kg por dia é a meta de um renal crônico conservador, claramente insuficiente para um paciente crítico em diálise diária; e 1,3 a 1,5 g por kg por dia, embora mais próximo, ainda fica abaixo do piso recomendado de 1,5 g por kg por dia para este contexto.
Terapia renal substitutiva contínua: perdas proteicas no filtro e via de escolha
A terapia renal substitutiva contínua (CRRT, na sigla em inglês) acrescenta uma dimensão adicional ao raciocínio proteico: além do catabolismo já acelerado pela própria doença crítica, o método dialítico contínuo promove perda significativa de aminoácidos e pequenos peptídeos diretamente no efluente dialítico, perda que é estimada em cerca de 10 a 15 g de proteína por dia. Essa perda física, somada ao catabolismo de base, é o que justifica a meta proteica elevada (1,3 a 1,7 g por kg por dia, podendo chegar a mais em situações de catabolismo extremo) nesse subgrupo específico.
Questão 21TEN 2025 |
Sepse, injúria renal aguda e terapia renal substitutiva contínua
Paciente do sexo masculino, 32 anos, previamente hígido, internado na unidade de terapia intensiva com diagnóstico de sepse de origem pulmonar, evolui com disfunção renal aguda, com oligúria persistente e elevação progressiva da creatinina. A equipe médica iniciou terapia de substituição renal contínua e solicita avaliação nutrológica para início de suporte nutricional. O paciente encontra-se em ventilação mecânica, hemodinamicamente estável com uso de noradrenalina em baixa dose e não apresenta contraindicações para nutrição enteral. Com base nas diretrizes da European Society for Clinical Nutrition and Metabolism (ESPEN) 2021 para suporte nutricional em pacientes com insuficiência renal aguda, qual é a conduta nutrológica mais apropriada para este paciente?
Gabarito: letra B
Este caso reúne, de forma quase didática, todos os elementos que você já estudou: paciente hemodinamicamente estável (noradrenalina em dose baixa, sem contraindicação abdominal), o que autoriza nutrição enteral precoce como primeira escolha, para preservar a barreira intestinal; e paciente em terapia renal substitutiva contínua, o que eleva a meta proteica para 1,5 a 1,7 g por kg por dia, exatamente pela combinação de hipercatabolismo séptico com perda física de aminoácidos no filtro dialítico. A meta energética de 20 a 30 kcal por kg por dia corresponde ao padrão já estudado para a fase aguda tardia do paciente crítico, evitando tanto subnutrição quanto sobrealimentação. A alternativa A erra ao propor nutrição parenteral exclusiva, que só seria indicada diante de contraindicação absoluta ao uso do trato gastrointestinal (obstrução, isquemia mesentérica, fístulas de altíssimo débito sem acesso distal), nenhuma das quais está presente neste caso; além disso, a meta energética de 30 a 35 kcal por kg por dia seria excessiva para a fase inicial de sepse. A alternativa C contraria diretamente o conceito de nutrição enteral precoce (início em 24 a 48 horas) que percorre toda esta apostila: o paciente já está "estável" dentro do contexto de gravidade (vasoativo em dose baixa), e o jejum prolongado apenas aumenta mortalidade e risco de translocação bacteriana, sem qualquer benefício renal comprovado em compensação. A alternativa D transporta, de forma equivocada, a lógica de restrição proteica e cetoanálogos do renal crônico conservador para um paciente crítico em terapia dialítica, exatamente o erro conceitual que abre esta seção: no paciente dialítico, restringir proteína é grave, porque leva à depleção acelerada de massa magra e piora o prognóstico.
🎯 PONTO DE PROVA
Memorize esta escada de proteína renal como uma progressão lógica, e não como números soltos: renal crônico conservador (0,6 a 0,8 g/kg/dia, podendo usar cetoanálogos), renal agudo crítico sem diálise (1,0 a 1,3 g/kg/dia), renal agudo crítico em diálise intermitente ou CRRT (1,5 a 1,7 g/kg/dia, podendo chegar a mais em catabolismo extremo). Cada degrau reflete um aumento de perda proteica real (catabolismo mais intenso, e depois perda física no filtro dialítico), e é essa lógica fisiológica, não a memorização isolada dos números, que permite acertar variações do enunciado que a prova certamente vai criar.
Pancreatite aguda grave
Populações especiais: pancreatite aguda grave
Por que a pancreatite aguda grave é um cenário nutrológico particular
A pancreatite aguda grave (PAG) combina dois problemas que, juntos, tornam a decisão
nutricional mais delicada do que na maioria dos outros pacientes críticos: primeiro, a inflamação retroperitoneal intensa e o edema de alças intestinais frequentemente elevam a pressão intra-abdominal, criando um espectro de hipertensão intra-abdominal que pode, nos casos mais graves, evoluir para síndrome compartimental abdominal; segundo, existe uma tentação histórica (hoje considerada ultrapassada) de manter o pâncreas "em repouso" através do jejum prolongado, prática que a evidência atual demonstrou ser prejudicial, e não protetora.
Pressão intra-abdominal e a decisão sobre nutrição enteral
O guideline da ESPEN sobre nutrição clínica em pancreatite aguda e crônica, publicado em 2020, estabelece condutas específicas baseadas no grau de hipertensão intra-abdominal (HIA), medido pela pressão intra-abdominal (PIA). Essa graduação numérica é exatamente o tipo de detalhe que a banca gosta de testar com valores muito próximos entre si, então
vale memorizar a tabela completa.
Pressão intra- abdominal (PIA)
Grau de HIA
Conduta nutrológica recomendada
Menor que 12 mmHg
Normal
Início precoce da nutrição enteral, dieta polimérica padrão via sonda, nas primeiras 24 a 48 horas
12 a 15 mmHg
Grau I
Manter ou iniciar nutrição enteral; monitorar resíduo gástrico e distensão abdominal
16 a 20 mmHg
Grau II
Cautela extrema; iniciar apenas com dieta trófica, em taxas baixas (cerca de 10 a 20 mL/h)
Maior que 20 mmHg
Grau III/IV
Suspender ou adiar a nutrição enteral; considerar nutrição parenteral
Questão 22TEN 2025 |
Pancreatite aguda grave e pressão intra-abdominal
De acordo com as recomendações da European Society for Clinical Nutrition and Metabolism (ESPEN) sobre pancreatite (ESPEN guideline on clinical nutrition in acute and chronic pancreatitis, 2020), no paciente com pancreatite aguda grave (PAG), é correto afirmar:
Gabarito: letra A
Uma PIA de 14 mmHg enquadra-se no Grau I de hipertensão intra-abdominal (12 a 15 mmHg), faixa em que a nutrição enteral é considerada segura e recomendada, desde que acompanhada de monitoramento clínico para sinais de intolerância, como distensão abdominal ou aumento do resíduo gástrico. A introdução precoce da dieta enteral, mesmo nesse cenário de hipertensão intra-abdominal leve, ajuda a manter a integridade da barreira intestinal, reduzindo a translocação bacteriana, que é a principal causa de infecção da necrose pancreática e de mortalidade na pancreatite aguda grave. A alternativa B erra em dois pontos: uma PIA de 17 mmHg já corresponde ao Grau II (16 a 20 mmHg), faixa em que a nutrição deve ser iniciada ou mantida com cautela extrema, em baixas doses tróficas, não em dose plena; além disso, a diretriz recomenda iniciar com fórmulas poliméricas padrão, reservando fórmulas elementares ou semi-elementares apenas para casos comprovados de má absorção ou intolerância persistente, não como escolha automática baseada só no grau de HIA. A alternativa C descreve uma prática ultrapassada: mesmo em abdome aberto após laparotomia descompressiva, a recomendação atual é iniciar a nutrição enteral de forma precoce, geralmente dentro das primeiras 24 a 48 horas após estabilização hemodinâmica, e não adiar por 7 a 10 dias, prática que aumenta o risco de sepse e de desnutrição sem qualquer benefício comprovado. A alternativa D contraria diretamente a diretriz ESPEN 2020, que é explícita ao afirmar que a suplementação de glutamina, seja enteral, seja parenteral, não é recomendada em pacientes com pancreatite aguda, por não demonstrar redução consistente de mortalidade ou de taxas de infecção nos grandes estudos clínicos disponíveis.
🎯 PONTO DE PROVA
Resumo definitivo para a pancreatite aguda grave: a via enteral sempre supera a parenteral, sempre que tecnicamente possível. Até 15 mmHg de PIA, dieta enteral normal. Entre 16 e 20 mmHg, dieta enteral apenas em taxas baixas, com extrema cautela. Sempre iniciar com fórmula polimérica padrão, nunca semi-elementar de saída. E nunca suplementar glutamina neste contexto específico, mesmo sabendo que ela é recomendada em outras populações, como você verá na seção de micronutrientes.
Estratégia de nutrição parenteral quando a via enteral falha: o papel do NUTRIC score
Quando a via enteral está de fato impossibilitada na pancreatite aguda grave, a decisão sobre como conduzir a nutrição parenteral depende diretamente do risco nutricional do paciente, calculado por instrumentos como o NUTRIC score, que você já estudou na seção
de avaliação nutricional. Essa é a aplicação prática mais direta daquele conceito: o escore de risco não serve apenas para "classificar" o paciente academicamente, ele muda a estratégia real de progressão calórica e proteica da nutrição parenteral.
Questão 23TEN 2025 |
Alto NUTRIC e nutrição parenteral na pancreatite grave
Um paciente adulto, admitido na unidade de terapia intensiva (UTI) há 5 dias com diagnóstico de pancreatite aguda grave complicada, apresenta impossibilidade de uso da via enteral (NE). A avaliação de risco nutricional indica alto risco (ex: The Nutrition Risk in Critically Ill (NUTRIC) score maior ou igual a 5). De acordo com as diretrizes da American Society for Parenteral and Enteral Nutrition e da Society of Critical Care Medicine (ASPEN/SCCM) de 2016, qual estratégia de Nutrição Parenteral (NP) é sugerida para este paciente na fase aguda da doença crítica?
Gabarito: letra A
O paciente é classificado como alto risco nutricional (NUTRIC maior ou igual a 5, ou NRS- 2002 maior ou igual a 5), e a via enteral não é viável. Segundo a ASPEN/SCCM 2016, pacientes de alto risco nesse cenário devem iniciar nutrição parenteral precocemente, logo após a estabilização inicial, mas seguindo a mesma lógica de hipocaloria/hiperproteína que você já estudou em profundidade na seção de gasto energético: a NP deve fornecer, na primeira semana, no máximo 80 por cento das necessidades estimadas ou 20 kcal por kg por dia, exatamente para evitar as complicações da sobrealimentação (hiperglicemia, esteatose hepática, produção excessiva de CO2), enquanto o aporte proteico é mantido em níveis adequados (maior ou igual a 1,2 g por kg por dia) desde o início, para atenuar o balanço nitrogenado negativo, intenso na pancreatite aguda grave. A alternativa B erra ao propor 100 por cento das metas energéticas já desde o início, o que aumenta o risco de síndrome de realimentação e de disfunções metabólicas induzidas pela sobrecarga de nutrientes numa fase de estresse metabólico agudo ainda instável. A alternativa C usa a expressão "NP trófica", que não é uma nomenclatura padronizada nas diretrizes da forma como "nutrição enteral trófica" é; além disso, uma oferta proteica maior ou igual a 2,0 g por kg por dia é reservada para situações de perda extrema (grande queimado, terapia dialítica contínua), não sendo a recomendação de base para a fase aguda da pancreatite. A alternativa D aplica a regra dos pacientes de baixo risco nutricional (NUTRIC menor que 5), para quem de fato se recomenda aguardar cerca de 7 dias antes de iniciar nutrição parenteral, caso a via enteral continue inviável. Para pacientes de alto risco, como o deste caso, essa espera de 7 dias é o erro central da alternativa: o suporte parenteral hipocalórico e hiperproteico deve começar assim que possível após a estabilidade inicial, não ser adiado por uma semana inteira.
Risco nutricional (NUTRIC/NRS)
Conduta se a via enteral falhar
Estratégia na 1ª semana
Baixo risco (NUTRIC menor que 5)
Aguardar cerca de 7 dias antes de iniciar NP
Progressão gradual, sem urgência
Alto risco (NUTRIC maior ou igual a 5)
Iniciar NP precocemente, logo após estabilidade
Hipocalórica (até 80% das necessidades ou ≤20 kcal/kg/dia) e hiperproteica (≥1,2 g/kg/dia)
Sepse e escolha da via
Populações especiais: sepse, choque séptico e o grande queimado
Sepse e choque séptico: a fração de abertura da via enteral
Você já estudou, na fisiopatologia, que a fase Ebb (choque não ressuscitado) contraindica formalmente a nutrição enteral, e que a fase Flow (paciente estabilizado, mesmo que ainda em vasopressor em dose baixa e decrescente) autoriza o início. No paciente séptico especificamente, essa transição ganha um refinamento adicional: a nutrição enteral precoce e progressiva deve ser utilizada após a estabilização hemodinâmica, mas de forma deliberadamente cautelosa nos primeiros dias.
As diretrizes da campanha de sobrevivência à sepse (Surviving Sepsis Campaign) não recomendam nutrição enteral completa na fase inicial, e sugerem a administração de dieta enteral em baixa dose durante a primeira semana de internação na UTI, com grau de evidência 2B. Como os resultados de diferentes estudos sobre o uso de nutrição enteral nas
primeiras 48 horas em choque não controlado permanecem conflitantes, uma abordagem pragmática, e bastante cobrada em prova, é a seguinte: iniciar uma fração inicial (entre 20 e 50 por cento) do suporte nutricional completo o mais cedo possível, com o objetivo específico de "abrir" a via enteral e manter a integridade da mucosa intestinal, e então aumentar progressivamente a quantidade de acordo com a tolerância gastrointestinal, buscando atingir o suporte nutricional pleno assim que o paciente tiver superado as alterações hemodinâmicas relacionadas à sepse, geralmente alguns dias após a admissão.
Do ponto de vista fisiopatológico, essa cautela inicial se justifica porque a perfusão esplâncnica prejudicada relacionada ao choque pode ser potencialmente agravada pela própria administração de nutrição enteral: a digestão representa uma carga de trabalho metabólico extra, teoricamente capaz de contribuir para isquemia ou necrose intestinal num intestino já mal perfundido. De fato, o uso de nutrição enteral durante as primeiras 48 horas
após a admissão em pacientes com choque ainda não controlado mostrou-se, em estudos observacionais, menos favorável em termos de sobrevida do que seu uso mais tardio (após 48 horas) em pacientes já ressuscitados com sucesso e com parâmetros hemodinâmicos estáveis.
Falência gastrointestinal em choque séptico: quando a via muda para parenteral
Existe um subgrupo de pacientes sépticos em que, apesar de já estabilizados hemodinamicamente, a via enteral simplesmente não é viável por falência mecânica ou funcional do próprio trato gastrointestinal. Reconhecer esses sinais de falha gastrointestinal, e saber que eles mudam a via de escolha mesmo num paciente já hemodinamicamente estável, é o ponto central desta questão.
Questão 24TEN 2025 |
Choque séptico, íleo paralítico e escolha da via nutricional
Paciente de 67 anos, previamente hígido, encontra-se na unidade de terapia intensiva (UTI) por choque séptico secundário à perfuração intestinal, tratado com antibioticoterapia e controle da fonte. Após 72 horas, permanece hemodinamicamente estável com uso decrescente de vasopressores. Evolui com íleo paralítico e débito gástrico de 700ml/24h por sonda nasogástrica. Qual a conduta mais apropriada em relação ao suporte nutricional?
Gabarito: letra D
Apesar da estabilização hemodinâmica (vasopressores em dose decrescente), este paciente apresenta dois sinais claros de falência gastrointestinal: íleo paralítico, que por definição significa ausência de motilidade intestinal, impedindo trânsito e absorção de qualquer dieta administrada por qualquer ponto do tubo digestivo; e débito gástrico de 700 mL em 24 horas, valor que ultrapassa o limiar de 500 mL em 6 horas que você já viu como marcador clássico de intolerância gástrica grave e risco aumentado de aspiração (o limiar do enunciado está em 24 horas, mas o volume absoluto já sinaliza problema relevante de esvaziamento). Diante desses dois sinais, e já estando no 3º dia de internação (janela de 48 a 72 horas em que, se a nutrição enteral for impossível ou insuficiente, a nutrição parenteral deve ser iniciada para evitar déficit calórico-proteico acumulado), a conduta correta é iniciar nutrição parenteral de forma progressiva. A alternativa A propõe manter jejum absoluto por até 7 dias, uma conduta ultrapassada num paciente séptico pós-operatório: o catabolismo na sepse é extremo, e esperar uma semana inteira para iniciar qualquer suporte nutricional levaria a desnutrição iatrogênica grave, comprometendo a cicatrização da anastomose intestinal recente e a função imune do paciente. A alternativa B está errada porque a sepse, isoladamente, não contraindica a nutrição parenteral. O risco de infecção de cateter é real e deve ser minimizado com técnica asséptica rigorosa, mas a desnutrição grave decorrente do jejum prolongado representa um risco de mortalidade muito maior do que o próprio uso da nutrição parenteral bem indicada e bem monitorada. A alternativa C tenta usar a via jejunal (pós-pilórica) como solução, mas comete um erro anatômico e fisiopatológico importante: a sonda jejunal é uma opção válida para casos de gastroparesia isolada (estômago que não esvazia, mas intestino delgado funcionante), não para íleo paralítico, condição em que todo o trânsito intestinal está comprometido, e infundir dieta diretamente no jejuno poderia causar distensão abdominal severa, isquemia de alça, ou até deiscência da anastomose recente.
Sinal de falência gastrointestinal
Conduta sugerida
Resíduo gástrico maior que 500 mL/dia (ou em 6h)
Suspender ou reduzir a nutrição enteral e considerar nutrição parenteral
Contraindicação absoluta à nutrição enteral; Isquemia mesentérica usar nutrição parenteral Fase aguda da sepse, já estável Iniciar nutrição de forma progressiva, hemodinamicamente hipocalórica, nos primeiros dias
O grande queimado: o modelo mais extremo de hipermetabolismo
Você já trabalhou o caso do grande queimado em profundidade na seção de gasto energético, através das questões 69 e 70 de 2025 (o paciente com 57 por cento de superfície corporal queimada, avaliado em dois momentos evolutivos diferentes por calorimetria indireta). Vale agora consolidar, de forma isolada, o que torna essa população
especial dentro da nutrologia de terapia intensiva, porque ela representa o modelo mais extremo de hipermetabolismo sustentado descrito na literatura, com taxa metabólica basal podendo chegar a 100 a 200 por cento acima do previsto, e por período prolongado, muito além dos poucos dias de hipermetabolismo agudo observados em outras etiologias de doença crítica.
Três pontos práticos merecem destaque específico no manejo do grande queimado, além do que você já estudou em calorimetria: primeiro, a resposta hipermetabólica sustentada torna a calorimetria indireta seriada especialmente valiosa nesse grupo, porque as necessidades calóricas mudam de forma relevante ao longo das semanas de internação, exatamente como ilustrado pela queda do GER entre o 5º e o 21º dia no caso que você estudou; segundo, o uso de betabloqueadores, como o propranolol, é uma estratégia terapêutica reconhecida especificamente nesse contexto para atenuar a resposta
hipermetabólica excessiva, reduzindo frequência cardíaca e gasto energético de repouso, embora essa redução do GER medido exija reavaliação e ajuste imediato da oferta calórica, sob risco de sobrealimentação, como você viu na questão 70; terceiro, a suplementação de glutamina enteral tem indicação específica e bem estabelecida nesse grupo, ao contrário do que ocorre na maioria dos demais pacientes críticos, questão que será detalhada na seção de micronutrientes a seguir.
🩺 PÉROLA CLÍNICA
Sempre que um enunciado mencionar propranolol (ou outro betabloqueador) num grande queimado, entenda isso como uma pista dupla: primeiro, é um sinal de que a resposta hipermetabólica está sendo tratada farmacologicamente; segundo, e mais importante para a prova, é um sinal de que o gasto energético medido provavelmente caiu em relação a avaliações anteriores, exigindo redução proporcional da oferta calórica para não configurar sobrealimentação, exatamente o raciocínio da questão 70 de 2025 que você já estudou.
Complicações gastrointestinais
Complicações gastrointestinais na nutrição enteral: diarreia e infecção por C. difficile
Diarreia na nutrição enteral: raramente é culpa da dieta
Um dos reflexos mais comuns, e mais equivocados, da equipe assistencial à beira do leito é interromper a nutrição enteral assim que o paciente apresenta diarreia, atribuindo o sintoma automaticamente à fórmula administrada. O guideline da ASPEN sobre diarreia e nutrição enteral (JPEN, 2019) é categórico ao afirmar que a interrupção da dieta raramente é necessária para o manejo da diarreia, e que manter a oferta nutricional preserva a integridade da barreira intestinal, além de garantir o aporte calórico-proteico necessário para
a recuperação do quadro de base que levou o paciente à internação. A razão fisiopatológica para essa recomendação é que, na grande maioria dos casos, existem causas muito mais prováveis de diarreia do que a própria fórmula enteral: uso de antibióticos (que alteram a microbiota intestinal, causando disbiose e diarreia osmótica ou
infecciosa), medicações com veículo contendo sorbitol, e infecções entéricas, com destaque especial para a infecção por Clostridioides difficile em pacientes idosos, institucionalizados ou sob antibioticoterapia prolongada, subgrupo em que essa deve ser a primeira suspeita diagnóstica diante de diarreia nova.
Questão 25TEN 2025 (correlata) |
Diarreia na nutrição enteral: manter ou suspender a dieta
Mulher de 80 anos, institucionalizada, internada em enfermaria por pneumonia, em antibioticoterapia há 10 dias, evolui há 24 horas com quatro episódios diários de evacuação líquida, sem sangue, muco ou pus. Recebe nutrição enteral polimérica padrão (1,5 kcal/mL), administrada por sonda nasoenteral à taxa de 40 mL/h. A equipe de enfermagem solicita a interrupção da dieta devido à diarreia. Com base nas recomendações do guideline da American Society for Parenteral and Enteral Nutrition, Tutorial on Diarrhea and Enteral Nutrition: A Comprehensive Step-By-Step Approach (JPEN, 2019), qual a conduta inicial mais apropriada?
Gabarito: letra D
A conduta inicial correta é manter a fórmula atual, exatamente pelo racional que você acabou de estudar: a interrupção da dieta raramente é indicada como primeira medida diante de diarreia em paciente recebendo nutrição enteral. No caso desta paciente idosa, institucionalizada e há 10 dias em antibioticoterapia, os gatilhos mais prováveis para a diarreia são a própria disbiose induzida pelo antibiótico e, principalmente, a possibilidade de infecção por Clostridioides difficile, que deve ser a primeira suspeita diagnóstica investigada nesse perfil de paciente, antes mesmo de qualquer intervenção sobre a dieta em si. A conduta correta, portanto, é manter a oferta nutricional enquanto se investiga clinicamente a causa: revisão de medicamentos em uso, exclusão de impactação fecal com diarreia por transbordamento, e coleta de toxinas para C. difficile. A alternativa A poderia ser considerada num segundo momento, apenas após excluídas causas infecciosas, e mesmo assim o guideline sugere preferencialmente fibras solúveis (como a goma guar parcialmente hidrolisada), que ajudam a dar consistência às fezes, e não fibras insolúveis, que poderiam, em alguns pacientes, aumentar volume fecal e distensão abdominal. A alternativa B está formalmente contraindicada como conduta inicial em paciente sob antibioticoterapia até que se exclua infecção por C. difficile: o uso de agentes antimotilidade como a loperamida nesse contexto carrega risco real de precipitar megacólon tóxico, ao retardar a eliminação da toxina bacteriana. A alternativa C propõe nutrição parenteral suplementar de forma desproporcional: quatro episódios de diarreia em 24 horas não justificam, isoladamente, migrar para uma via de maior risco infeccioso e metabólico, contrariando o princípio de "enteral first" (via enteral em primeiro lugar) que orienta toda a terapia nutricional do paciente crítico ou hospitalizado.
🎯 PONTO DE PROVA
Grave esta sequência de raciocínio para qualquer questão de diarreia associada à nutrição enteral: primeiro, não suspenda a dieta automaticamente; segundo, investigue causas mais prováveis do que a fórmula (antibióticos, medicações com sorbitol, C. difficile, sobretudo em idosos institucionalizados); terceiro, se for necessário ajustar a fórmula, prefira fibra solúvel à insolúvel; quarto, nunca use antimotilidade (loperamida) antes de excluir infecção por C. difficile.
Infecção fulminante por Clostridioides difficile: quando o transplante de microbiota fecal entra em cena
Quando a infecção por C. difficile evolui para um quadro refratário ao tratamento farmacológico padrão (vancomicina, e depois fidaxomicina, ambos sem sucesso) e o paciente desenvolve sinais de gravidade sistêmica (choque, leucocitose acentuada, elevação de creatinina), o quadro se caracteriza como infecção fulminante, e o transplante de microbiota fecal (TMF) passa a ser uma opção terapêutica formal, com uma exigência técnica específica quanto à via de administração que a prova já cobrou de forma detalhada.
Questão 26TEN 2024 |
Choque séptico e infecção fulminante por C. difficile
Paciente masculino internado em UTI para tratamento de choque séptico de foco pulmonar em uso de terapia nutrológica enteral evolui com diarreia persistente. Em investigação, presença de glutamato desidrogenase (GDH) nas fezes e posteriormente confirmado com toxina A e B. Iniciado tratamento com vancomicina por 10 dias, sem sucesso, permanecendo com sintomas e com detecção de toxina A e B nas fezes, sendo tentado novo ciclo com fidaxomicina, mais uma vez sem sucesso. O paciente evolui com choque, leucocitose de 19.000/mm3 e elevação de creatinina sérica para 2,1 mg/dL. Sobre o tratamento neste momento é CORRETO afirmar:
Gabarito: letra C
Em quadros graves ou fulminantes de infecção por C. difficile, a colonoscopia é a via mais recomendada para o transplante de microbiota fecal, porque permite administração direta da microbiota diretamente no cólon, local onde a infecção está concentrada, maximizando o alcance da microbiota transplantada por todo o segmento acometido. Diretrizes de referência, como as da IDSA (Infectious Diseases Society of America) e da ESCMID (European Society of Clinical Microbiology and Infectious Diseases), reforçam que, em casos graves e refratários, o transplante por colonoscopia é a via preferencial, pela alta taxa de sucesso e melhor distribuição do material fecal transplantado. Vias alternativas têm limitações relevantes neste contexto específico: cápsulas, embora práticas e bem toleradas em pacientes estáveis ambulatoriais, não são recomendadas em quadros críticos pela possibilidade de trânsito intestinal alterado ou dificuldade de liberação adequada no cólon; enema tem menor eficácia em quadros graves, pois a microbiota pode não alcançar todo o cólon acometido, especialmente o cólon proximal; sonda enteral, embora viável em alguns cenários, é menos utilizada em situações graves, já que o trânsito gastrointestinal até o cólon pode estar comprometido pelo próprio choque séptico. A alternativa A erra ao contraindicar de forma absoluta o transplante de microbiota fecal em favor direto da colectomia: embora a colectomia possa, sim, ser considerada em quadros extremamente graves e refratários de colite fulminante, o transplante de microbiota fecal deve ser tentado antes de se optar por uma intervenção cirúrgica tão invasiva, desde que o paciente esteja clinicamente estável o suficiente para o procedimento. A alternativa B, embora mencione elementos reais da preparação para o transplante (preparo colônico e ciclo prévio de antibióticos), não especifica a via de administração preferida, deixando margem para interpretações menos eficazes num quadro grave. A alternativa D superestima a eficácia de uma única aplicação: embora o transplante de microbiota fecal frequentemente seja eficaz com administração única, especialmente por colonoscopia, nem todos os casos respondem a apenas uma aplicação, e em quadros graves pode ser necessária repetição ou combinação de estratégias terapêuticas.
Eletrólitos e controle glicêmico
Eletrólitos, síndrome de realimentação e controle glicêmico
Síndrome de realimentação: definição, critérios e conduta
A síndrome de realimentação é uma das complicações mais temidas, e mais cobradas, do início da terapia nutricional em qualquer paciente com risco de desnutrição prévia ou de jejum prolongado, e o paciente crítico reúne frequentemente vários desses fatores de risco simultaneamente. Ela pode ocorrer com qualquer forma de nutrição artificial, mas é mais frequente em pacientes recebendo nutrição enteral, justamente por ser a via mais utilizada e por permitir reintrodução relativamente rápida de nutrientes em indivíduos previamente
desnutridos ou com ingestão inadequada prolongada. O critério diagnóstico central, segundo o guideline ESPEN de terapia intensiva, é a redução do nível sérico de qualquer um dos três eletrólitos-chave (fósforo, potássio e/ou magnésio), ocorrendo dentro de 5 dias após a introdução ou o aumento substancial da oferta
energética. O consenso da ASPEN de 2020 detalha ainda mais essa definição, estratificando a gravidade conforme o percentual de queda de um, dois ou três desses eletrólitos: queda de 10 a 20 por cento é classificada como leve, queda de 20 a 30 por cento como moderada, e queda maior que 30 por cento, e/ou presença de disfunção orgânica decorrente dessa queda, e/ou deficiência de tiamina, como grave. É importante notar, e a prova costuma explorar esse detalhe, que os eletrólitos podem estar dentro da faixa normal mesmo diante de uma depleção corporal total real, o que reforça que a decisão de risco deve considerar o contexto clínico completo (grau de desnutrição prévia, tempo de jejum,
comorbidades), não apenas o valor absoluto do exame laboratorial isolado no momento zero.
Hipofosfatemia de realimentação: o marcador mais sensível na prática Especificamente na fisiopatologia da síndrome de realimentação, o fósforo costuma ser o
eletrólito que primeiro sinaliza o problema na prática clínica, porque o reinício da oferta de carboidratos estimula a liberação de insulina, que por sua vez desloca fósforo (junto com potássio e magnésio) do compartimento extracelular para o intracelular, ao mesmo tempo em que o fósforo é intensamente consumido na síntese de ATP e de 2,3-difosfoglicerato pelas células que voltam a receber substrato energético em abundância. Em pacientes com hipofosfatemia de realimentação, definida operacionalmente como fósforo sérico abaixo de 0,65 mmol/L ou uma queda maior que 0,16 mmol/L em relação ao valor basal, os eletrólitos devem ser medidos de 2 a 3 vezes ao dia, com suplementação ativa sempre que
necessário.
💊 PRESCRIÇÃO PRÁTICA
Conduta prática diante de hipofosfatemia de realimentação: restringir o suprimento de energia por 48 horas, e depois aumentar gradativamente a oferta calórica, ao mesmo tempo em que se corrige o distúrbio eletrolítico. Em pacientes sem hipofosfatemia de realimentação, ainda assim recomenda-se medir potássio, magnésio e fósforo pelo menos uma vez ao dia durante toda a primeira semana de internação, exatamente pelo risco de instalação tardia do distúrbio. Fonte: ESPEN Practical Guideline, Clinical
Nutrition in the Intensive Care Unit; ASPEN Consensus Recommendations for
Refeeding Syndrome, 2020.
⚠️ ARMADILHA DIAGNÓSTICA
Não confunda o critério diagnóstico da síndrome de realimentação (queda de eletrólitos, não valores fixos e universais de corte usados igualmente em todos os guidelines) com os fatores de risco que determinam quem deve ser monitorado com mais intensidade antes mesmo de começar a nutrir (desnutrição prévia grave, perda de peso recente significativa, jejum prolongado, alcoolismo, uso crônico de diuréticos ou antiácidos, entre outros). São duas perguntas diferentes: uma pergunta "este paciente já desenvolveu a síndrome?", a outra pergunta "este paciente tem risco elevado de desenvolvê-la, e por isso preciso iniciar a nutrição de forma ainda mais cautelosa e com monitorização eletrolítica mais frequente desde o primeiro dia?".
Controle glicêmico no paciente crítico em terapia nutricional O controle glicêmico é outro pilar de monitoramento indissociável da terapia nutricional em
UTI, e a lógica aqui também segue um raciocínio de equilíbrio entre dois extremos igualmente perigosos: hiperglicemia grave de um lado, hipoglicemia do outro, com a variabilidade glicêmica acentuada representando um terceiro fator de risco independente. A glicemia deve ser medida inicialmente, logo após a admissão na UTI ou após o início da nutrição artificial, e pelo menos a cada 4 horas nos primeiros dois dias, de forma geral.
Vários estudos observacionais confirmaram uma associação forte e consistente entre hiperglicemia grave (acima de 180 mg/dL), variabilidade glicêmica acentuada (coeficiente de variação maior que 20 por cento), hipoglicemia leve (abaixo de 70 mg/dL) e aumento de mortalidade. O alvo glicêmico associado ao melhor resultado ajustado, segundo essas coortes, varia numa faixa ampla, entre aproximadamente 80 e 150 mg/dL nalguns estudos e entre 140 e 180 mg/dL noutros, o que é diferente dos níveis de glicose realmente alcançados na prática assistencial cotidiana. Por essa razão, as recomendações práticas
atuais sugerem iniciar terapia com insulina quando a glicemia sanguínea exceder 150 a 180 mg/dL, mantendo a meta operacional geral entre 140 e 180 mg/dL para pacientes clínicos e cirúrgicos sob cuidados intensivos, tanto em uso de nutrição enteral quanto de nutrição parenteral.
💊 PRESCRIÇÃO PRÁTICA
Meta glicêmica prática recomendada em pacientes críticos, clínicos e cirúrgicos, em terapia nutricional: 140 a 180 mg/dL, com insulina indicada quando a glicemia ultrapassa 150 a 180 mg/dL. Evitar infusão intravenosa de grandes quantidades de glicose, acima de 3 a 4 mg/kg/min, e reavaliar sempre a adequação da oferta de carboidratos quando as necessidades de insulina excederem 6 UI por hora por mais de 24 horas consecutivas, considerando, nesse cenário específico, uma redução temporária da oferta calórica em vez de apenas escalar a dose de insulina indefinidamente.
Vale reforçar dois números que já apareceram em contexto de fórmula de nutrição parenteral e que costumam ser cobrados junto do controle glicêmico e da carga calórica total: a glicose a 5 por cento fornece 0,2 kcal por mL, e o citrato (presente em algumas soluções e anticoagulantes usados em terapia renal substitutiva contínua) fornece cerca de 3 kcal por grama, uma fonte calórica adicional frequentemente esquecida no cálculo total do paciente em CRRT com anticoagulação regional por citrato.
Nutrição parenteral e micronutrientes
Nutrição parenteral: emulsões lipídicas e glutamina; micronutrientes e suplementos
Qual emulsão lipídica utilizar no paciente grave
A terapia nutricional parenteral deve ser abrangente desde o início, incluindo a emulsão lipídica dentro do plano nutricional completo, e não como um componente opcional a ser adicionado depois. Existem diversas emulsões disponíveis no mercado, desde as formulações à base exclusiva de óleo de soja até aquelas que combinam diferentes fontes lipídicas (óleo de coco, azeite de oliva, óleo de peixe), mas a superioridade clínica entre elas permanece incerta, principalmente pela falta de estudos claros e comparativos de boa
qualidade sobre as diferenças reais entre emulsões não-soja em termos de desfechos clínicos relevantes. A recomendação prática, e a mais cobrada em prova, é não utilizar emulsões lipídicas baseadas exclusivamente em óleo de soja, favorecendo emulsões que incluam gorduras
ômega-3 dentro da composição. É importante notar, porém, que a diretriz mais recente da ASPEN não encontrou diferenças estatisticamente significativas entre emulsões à base de óleo de soja isolado e emulsões mistas em termos de desfechos clínicos duros, o que reflete uma divergência real e ainda não totalmente resolvida entre as duas principais sociedades de referência (ESPEN e ASPEN), e reforça a necessidade de mais evidências de alta qualidade e de considerar diferentes tipos de estudos e opiniões especializadas antes de tratar este ponto como definitivamente fechado.
Emulsões lipídicas parenterais enriquecidas com EPA e DHA (óleo de peixe), em dose de 0,1 a 0,2 g por kg por dia, podem ser fornecidas em pacientes recebendo nutrição parenteral, dentro do contexto de composição mista da emulsão total, sem que isso configure uma recomendação de suplementação isolada de ômega-3 em altas doses (que veremos com mais detalhe adiante, e que não é recomendada rotineiramente).
Glutamina parenteral: contraindicação na fase aguda de instabilidade
O uso parenteral de glutamina está formalmente contraindicado em pacientes na fase aguda de doença grave, especialmente na presença de disfunção orgânica múltipla, disfunção renal, disfunção hepática, ou instabilidade hemodinâmica, e também em doses acima de 0,5 g por kg por dia, independentemente do contexto clínico. Em pacientes de UTI instáveis e complexos, particularmente aqueles que sofrem de insuficiência hepática e renal, a glutamina parenteral não deve ser administrada em hipótese alguma. Esse
posicionamento é o contraponto direto do que você verá a seguir sobre glutamina enteral, e a distinção entre via enteral e via parenteral, e entre paciente estável e instável, é exatamente o que a prova costuma testar neste ponto.
Glutamina enteral: contraindicada na maioria dos pacientes de UTI, exceto queimados e trauma
A orientação da ESPEN sobre glutamina enteral é direta e categórica: em pacientes de UTI
em geral, exceto pacientes queimados e traumatizados, não se deve administrar glutamina enteral de forma rotineira. O racional pedagógico por trás dessa recomendação vale
entender, e não apenas memorizar: na UTI clínica geral, o benefício da suplementação de glutamina não se mostrou consistente nos estudos disponíveis, e, portanto, suplementar por rotina tende apenas a aumentar complexidade e custo sem ganho comprovado de desfecho. Já em queimaduras extensas e em trauma crítico, o balanço risco-benefício muda de direção, por conta de perdas e demandas metabólicas específicas e muito mais intensas nesses dois cenários particulares.
Situação clínica
Recomendação de glutamina enteral
Grandes queimados (mais de 20% de superfície corporal queimada)
0,3 a 0,5 g/kg/dia, por 10 a 15 dias, assim que a nutrição enteral for iniciada
Trauma grave
0,2 a 0,3 g/kg/dia, nos primeiros 5 dias com nutrição enteral; período mais longo (10 a 15 dias) em cicatrização de feridas complicadas
Demais pacientes de UTI
Não administrar glutamina enteral adicional de forma rotineira
Pancreatite aguda grave (via enteral ou parenteral)
Não recomendada, conforme já visto na seção de populações especiais
Do ponto de vista fisiológico, a glutamina transporta nitrogênio entre células e órgãos e
serve como combustível metabólico preferencial para células de proliferação rápida (enterócitos, células do sistema imune). Sob condições fisiológicas normais, as reservas endógenas de glutamina são mantidas tanto pela ingestão nutricional diária (80 g de proteína mista contêm aproximadamente 10 g de glutamina) quanto pela síntese endógena, principalmente no músculo esquelético e no fígado. Em situações de estresse metabólico intenso e prolongado, como grandes queimaduras, essa capacidade de síntese endógena pode ser superada pela demanda, justificando a suplementação exógena específica nesse subgrupo.
Ômega-3 em altas doses: não usar como rotina imunomoduladora
A diretriz recomenda que fórmulas enterais enriquecidas com ômega-3 em altas doses não sejam usadas rotineiramente, e também orienta que altas doses de fórmulas com ômega-3 não sejam administradas em bolus. A razão dessa cautela é que a evidência agregada não demonstra benefício clínico consistente quando se misturam diferentes doses e diferentes estratégias de administração entre os estudos disponíveis, e análises específicas sugerem inclusive potencial de risco em populações de UTI clínica geral quando combinações
"imunomoduladoras" são usadas de forma indiscriminada, fora de um contexto específico bem definido. Isso não significa que o ômega-3 esteja proibido de forma absoluta: a diretriz admite que ômega-3 em doses nutricionais (não farmacológicas em altas doses) pode ser administrado
normalmente, seja por via enteral dentro de uma fórmula padrão, seja por via parenteral dentro de uma emulsão lipídica mista, como você viu na seção anterior. A mensagem central para a prova é clara: evite a prescrição automática de fórmulas imunomoduladoras como conduta padrão, principalmente na fase aguda da doença crítica, momento em que o determinante mais importante de segurança nutricional continua sendo o acerto da dose energética total e a prevenção da sobrealimentação, não a escolha de aditivos imunomoduladores específicos.
Vitamina D: reposição em altas doses no paciente com deficiência confirmada
Em pacientes criticamente enfermos com níveis plasmáticos baixos de vitamina D confirmados por dosagem (25-hidroxivitamina D abaixo de 12,5 ng/mL, equivalente a 50 nmol/L), uma dose alta de vitamina D3, na ordem de 500.000 UI em dose única, pode ser administrada dentro da primeira semana após a admissão na UTI. A vitamina D também pode ser suplementada em esquema de manutenção nesses mesmos pacientes com deficiência plasmática documentada, mas a indicação central e mais cobrada em prova é essa dose de ataque única de 500.000 UI, reservada especificamente para deficiência
bioquimicamente confirmada, não para reposição empírica e indiscriminada de todo paciente crítico.
Antioxidantes: não usar em monoterapia sem deficiência comprovada
Antioxidantes em monoterapia e em altas doses não devem ser administrados sem deficiência comprovada. Esse ponto, embora mais curto que os demais, costuma aparecer como distrator em questões de suplementação no paciente crítico: a ideia intuitiva de que "mais antioxidante deve proteger mais contra o estresse oxidativo da doença crítica" não é
sustentada pela evidência disponível quando aplicada de forma empírica e sem diagnóstico bioquímico prévio de deficiência específica.
🎯 PONTO DE PROVA
Resumo definitivo de suplementos no paciente crítico para a prova: glutamina enteral, sim, apenas em grande queimado e trauma grave; glutamina parenteral, praticamente nunca (contraindicada na instabilidade e em disfunção orgânica); ômega-3 em altas doses e de forma imunomoduladora isolada, não; ômega-3 em doses nutricionais dentro de fórmula padrão, sim; vitamina D em dose de ataque (500.000 UI), apenas com deficiência bioquímica confirmada; antioxidantes em monoterapia e alta dose, não, a menos que exista deficiência específica comprovada.
Consolidação final
Pontos de prova: consolidação final
Chegamos ao fechamento estratégico da apostila. Esta seção não repete o conteúdo já explicado, ela organiza tudo o que você estudou em forma de mapa de revisão rápida, para os últimos dias antes da prova. Use-a como checklist final, não como primeira leitura.
Mapa completo das 26 questões: conceito, ano e onde estudar
Questão / Ano
Conceito central cobrado
Seção desta apostila
Q68 / 2025
Fase Ebb: hipometabolismo no choque não ressuscitado
Fisiopatologia
Q24 / 2024
Ecogenicidade muscular no ultrassom (qualidade, não só quantidade)
Avaliação nutricional
Q48 / 2025
Bioimpedância superestima massa magra no paciente edemaciado
Avaliação nutricional
Q48 / 2022
Timing de nutrição parenteral pós-COVID, 5º a 7º dia sem desnutrição prévia
Via e timing
Q38 / 2023
Contraindicações formais da nutrição enteral (ESPEN)
Via e timing
Q34 / 2023
Nutrição enteral precoce pós-neurocirurgia, sonda pós-pilórica
Via e timing
Q67 / 2025 (correlata)
Progressão de infusão enteral, VRG e via transpilórica (Shils)
Via e timing
Q47 / 2022 (correlata)
VRG de rotina não recomendado; síndrome de realimentação; posicionamento
Via e timing
Q20 / 2022 (correlata)
Fórmula do QR e hipermetabolismo do paciente grave
Gasto energético
Q21 / 2023 (correlata)
QR em acidose, alcalose, cetose, sepse, coma e hipotermia
Gasto energético
Q20 / 2024 (correlata)
QR de gorduras versus carboidratos versus álcool
Gasto energético
Q69 / 2025
Interpretação de calorimetria em déficit calórico (queimado, 5º dia)
Gasto energético
Q70 / 2025
Interpretação de calorimetria em sobrealimentação (queimado, 21º dia)
Gasto energético
Q74 / 2024
EFFORT Trial: alta proteína piora desfecho em IRA + SOFA alto
Proteína
Q41 / 2022
Propofol como causa de pancreatite aguda
Lipídios e propofol
Q67 / 2024
Propofol como emulsão lipídica a 10% em UTIP
Lipídios e propofol
Q28 / 2023
Fístula enterocutânea de alto débito no obeso crítico ventilado
Obesidade e fístula
Q72 / 2024
Mesmo cenário de fístula, IMC 39, débito 1500 mL/24h
Obesidade e fístula
Q61 / 2022
Proteína na injúria renal aguda em tratamento conservador
Insuficiência renal e CRRT
Q58 / 2022
Proteína no renal crônico em diálise intermitente na UTI
Insuficiência renal e CRRT
Q89 / 2025
Proteína e via na sepse com IRA em CRRT
Insuficiência renal e CRRT
Q66 / 2025
Pressão intra-abdominal e nutrição enteral na pancreatite grave
Pancreatite aguda grave
Q72 / 2025
NUTRIC alto e estratégia de nutrição parenteral na pancreatite grave
Pancreatite aguda grave
Q97 / 2025
Íleo paralítico e débito gástrico elevado indicando NP em choque séptico
Sepse e choque séptico
Q53 / 2025 (correlata)
Diarreia na NE: manter a dieta, investigar C. difficile
Complicações gastrointestinais
Q39 / 2024
C. difficile fulminante: TMF por colonoscopia
Complicações gastrointestinais
Números que a banca cobra de forma literal (decore estes valores)
Parâmetro
Valor a memorizar
Janela para considerar todo paciente crítico em risco nutricional
Mais de 48 horas de UTI
Ponto de corte de alto risco no mNUTRIC
Maior ou igual a 5 (escala de 0 a 9)
Critérios GLIM para diagnóstico de desnutrição
1 critério fenotípico + 1 critério etiológico
Adequação de via oral considerada suficiente
≥70% da meta entre o dia 3 e o dia 7
Janela para iniciar nutrição enteral precoce
Até 48 horas após estabilização
Volume de resíduo/aspirado gástrico que adia a NE
Maior que 500 mL em 6 horas
Janela para iniciar nutrição parenteral se NE inviável
Entre o 3º e o 7º dia
Janela para NP suplementar se NE plena não tolerada
Entre o 4º e o 7º dia
Meta energética na fase aguda (primeiras 72h)
Não exceder 70% do gasto energético medido
Meta energética após o 3º dia (com calorimetria)
80 a 100% do GER medido
Aporte calórico inicial, regra prática geral
8 a 10 kcal/kg/dia, progredindo para 18 a 25 kcal/kg/dia após 5 a 7 dias
Meta proteica geral no paciente crítico
Cerca de 1,3 g/kg/dia, progressiva
Limite de carboidratos/glicose
Não exceder 5 mg/kg/min
Limite de lipídios intravenosos totais (incluindo propofol)
Até 1,5 g/kg/dia (meta central próxima de 1,0 g/kg/dia)
Densidade energética do propofol
1,1 kcal/mL
QR de gordura / carboidrato / sobrealimentação
≈0,7 / ≈1,0 / >1,0
Meta glicêmica geral em terapia nutricional
140 a 180 mg/dL; insulina se >150 a 180 mg/dL
Diagnóstico de síndrome de realimentação
Queda de P, K e/ou Mg dentro de 5 dias do início/aumento da oferta
Hipofosfatemia de realimentação (definição operacional)
P sérico <0,65 mmol/L ou queda >0,16 mmol/L
Proteína em IRA crítica sem diálise
1,0 a 1,3 g/kg/dia
Proteína em IRA/DRC crítica em diálise ou CRRT
1,5 a 1,7 g/kg/dia
Proteína no obeso crítico, IMC 30 a 40
2,0 g/kg de peso ideal/dia
Proteína no obeso crítico, IMC >40
Até 2,5 g/kg de peso ideal/dia
Glutamina enteral em grande queimado (>20% SCQ)
0,3 a 0,5 g/kg/dia por 10 a 15 dias
Vitamina D3 em deficiência confirmada (<12,5 ng/mL)
Dose única de 500.000 UI na 1ª semana
PIA e nutrição enteral na pancreatite grave (ESPEN 2020)
As cinco armadilhas mais repetidas da banca neste tema
1. Trocar fase Ebb por fase Flow. Paciente com vasoativo em ascensão, lactato alto, hipotermia relativa, é fase Ebb (não nutrir). Paciente com vasoativo em queda, já estabilizado, é candidato à fase Flow (nutrir progressivamente).
2. Confundir a direção do erro na bioimpedância. Edema e balanço hídrico positivo SUBESTIMAM gordura e SUPERESTIMAM massa magra, nunca o contrário.
3. Achar que posição prona ou colocação de sonda pós-pilórica difícil justificam nutrição parenteral precoce. Nenhuma das duas é, isoladamente, indicação de NP; o acesso gástrico continua sendo o padrão mesmo em prona. 4. Errar a densidade energética do propofol. É 1,1 kcal/mL, não 1,25 kcal/mL, valor que a
banca já usou como distrator em pelo menos três questões diferentes. 5. Aplicar a lógica do renal crônico conservador (restringir proteína) ao renal agudo crítico ou dialítico. No crítico em diálise, a proteína sobe, não desce; restringir proteína
nesse contexto é erro grave.
📋 PROTOCOLO
Roteiro mental para qualquer caso novo de paciente crítico na prova, aplicável em segundos: (1) em que fase metabólica o paciente está, Ebb ou Flow; (2) o trato gastrointestinal está funcionante, existe alguma das contraindicações formais à nutrição enteral; (3) qual o tempo de internação e a estabilidade hemodinâmica atual, crescente ou decrescente de vasoativo; (4) existe população especial envolvida, obeso, renal, queimado, séptico com falência GI, pancreatite grave; (5) existe calorimetria indireta disponível, e o que o QR está dizendo sobre a direção do ajuste necessário. Respondendo essas cinco perguntas, na maioria dos casos, a alternativa correta se torna evidente.
Referências
Referências
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2021;49(11):e1063-e1143. 13. Kavanagh BP, McCowen KC. Glycemic control in the ICU. N Engl J Med. 2010;363(26):2540-2546.
14. Ross DA, Shulman RJ. Ultrassonografia muscular e avaliação de composição corporal no paciente crítico: revisão de métodos (US, TC e bioimpedância). Clin Nutr ESPEN. 2020- 2024 (compilação de literatura corrente citada no guideline ESPEN 2023).
15. Shils ME, Shike M, Ross AC, Caballero B, Cousins RJ, eds. Modern Nutrition in Health and Disease. 11th ed. Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins. 16. Kelly CR, Fischer M, Allegretti JR, et al. ACG Clinical Guidelines: Prevention, Diagnosis,
and Treatment of Clostridioides difficile Infections. Am J Gastroenterol. 2021;116(6):1124- 1147. 17. Associação Brasileira de Nutrologia (ABRAN). Provas de Título de Especialista em
Nutrologia, 2022, 2023, 2024 e 2025 (material-fonte das questões comentadas nesta apostila). 18. Sociedade Brasileira de Nutrição Parenteral e Enteral (BRASPEN). Diretriz Braspen de
Terapia Nutricional no Paciente Grave, edições vigentes no período 2022 a 2025.
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NUTROSCHOOL
Nutro-TEN
NUTROLOGIA NO PACIENTE CRÍTICO
Fisiopatologia, avaliação, terapia nutricional e questões comentadas da Prova de
Título de Nutrologia (ABN/ABRAN)
Provas de 2022, 2023, 2024 e 2025
Apostila de aprofundamento teórico com correlação integral às 26 questões da banca sobre o tema
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Introdução e relevância do tema para o TEN
Paciente crítico é, ano após ano, um dos blocos mais previsíveis e mais decisivos da prova
de título. Previsível porque a banca repete um punhado restrito de eixos de raciocínio
(quando iniciar a terapia nutricional, qual via escolher, quanto ofertar de energia e proteína,
e como interpretar calorimetria indireta), e decisível porque esses eixos aparecem
disfarçados em casos clínicos longos, cheios de dados que parecem irrelevantes (dose de
vasopressor, FiO2, propofol em mL por hora) mas que, na verdade, são a pista que resolve
a questão. Quem entende o raciocínio por trás de cada um desses eixos consegue resolver
praticamente qualquer variação de enunciado que a banca construa em cima deles. Quem
apenas decorou "a resposta certa" de uma prova antiga costuma errar quando o cenário
muda um detalhe.
Antes de entrar na fisiopatologia e nos protocolos, vale entender exatamente como esse
tema tem sido cobrado, porque isso orienta onde investir mais tempo de estudo.
Levantamento histórico: o que já caiu (2022 a 2025)
Foram revisadas as quatro últimas provas de título (2022, 2023, 2024 e 2025),
considerando como cobrança direta de paciente crítico todo enunciado ancorado em UTI,
choque, sepse, ventilação mecânica, uso de drogas vasoativas, grandes queimados,
pancreatite aguda grave, terapia renal substitutiva ou qualquer decisão de terapia nutricional
própria da doença crítica. Foram identificadas 20 questões diretas dentro desse recorte,
mais 6 questões correlatas (ferramentas e complicações, sobretudo calorimetria indireta e
complicações de nutrição enteral, que são cobradas de forma recorrente dentro e fora do
contexto estrito de UTI). No total, 26 questões, um volume que por si só justifica tratar este
tema como prioridade de estudo.
Ano Questões diretas Ênfase predominante
Propofol e pancreatite, momento da nutrição parenteral
2022 4 pós-COVID, oferta proteica na insuficiência renal aguda
e na diálise.
Escolha entre via enteral e parenteral diante de fístula,
2023 3 nutrição enteral precoce pós-neurocirúrgica,
contraindicações formais da nutrição enteral.
Composição corporal por ultrassom, propofol como
2024 5 emulsão lipídica, fístula de alto débito no obeso crítico,
EFFORT Trial, infecção fulminante por C. difficile.
Fases metabólicas do trauma (Ebb e Flow), calorimetria
indireta e quociente respiratório em casos evolutivos,
2025 8 NUTRIC score, insuficiência renal aguda em CRRT,
pancreatite grave, íleo paralítico em choque séptico,
diarreia na nutrição enteral.
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Padrões recorrentes: os eixos de raciocínio que a banca repete
Olhando as 26 questões em conjunto, cinco eixos concentram a grande maioria da
cobrança. Vale memorizá-los como um roteiro mental para qualquer enunciado novo de
paciente crítico que aparecer na sua prova.
Escolha da via e momento da terapia nutricional. É o eixo mais constante de todos:
quando iniciar nutrição enteral, quando suspendê-la temporariamente, e quando (e como)
recorrer à nutrição parenteral. A banca gosta de construir cenários com fístula, íleo,
pancreatite grave e intolerância gastrointestinal exatamente para testar se o candidato sabe
hierarquizar oral, depois enteral, depois parenteral, e sabe reconhecer as contraindicações
formais de cada uma.
Estabilidade hemodinâmica como pré-requisito. A prova exige diferenciar com precisão
choque não ressuscitado (contraindicação a nutrir) de paciente já estabilizado, mesmo que
ainda em vasopressor, porém em dose baixa e decrescente (situação em que iniciar
nutrição enteral trófica é seguro e recomendado). Esse é o detalhe que separa quem lê o
enunciado com atenção de quem responde no automático.
Energia, calorimetria indireta e quociente respiratório. O tema evoluiu claramente ao
longo dos anos: das provas de 2022 e 2023, que cobravam conceitos mais isolados de
calorimetria, para as provas de 2024 e 2025, que passaram a exigir interpretação integrada
de casos evolutivos (o mesmo paciente reavaliado em dois momentos diferentes, com a
conduta mudando conforme o quociente respiratório e a fase metabólica).
Proteína na doença crítica. A cobrança inclui injúria renal aguda em tratamento
conservador, paciente em diálise intermitente, paciente em terapia renal substitutiva
contínua, paciente obeso crítico, e o EFFORT Trial, que introduziu na prova a ideia
(contraintuitiva para muitos candidatos) de que ofertar mais proteína nem sempre é melhor
em subgrupos específicos.
Propofol como fonte calórica oculta. Aparece de forma repetida como causa de
pancreatite aguda, como emulsão lipídica que precisa entrar no cálculo do aporte total de
lipídios, e como pegadinha de densidade calórica (o valor correto é 1,1 kcal por mL, e a
banca já tentou substituir esse número por 1,25 kcal por mL mais de uma vez).
Além desses cinco eixos, a avaliação da composição corporal (ultrassonografia muscular e
bioimpedância) ganhou espaço crescente, sempre testando se o candidato entende as
limitações de cada método diante de edema, inflamação e oscilação volêmica, que são a
regra, e não a exceção, no paciente crítico.
Evolução da cobrança ao longo dos anos
Entre 2022 e 2024, as questões se concentravam principalmente em via de alimentação,
nutrição parenteral, propofol e oferta proteica, quase sempre em formato de caso clínico
relativamente direto, com um único conceito central a ser identificado. Em 2025, a cobrança
tornou-se nitidamente mais integrada e mais fisiopatológica: passou a combinar, numa
mesma questão, fase metabólica do trauma, calorimetria indireta, quociente respiratório,
risco nutricional calculado por escore e terapia renal substitutiva contínua, tudo dentro de
um único cenário clínico complexo. Isso significa que decorar respostas isoladas rende cada
vez menos: a prova está exigindo que o candidato monte o raciocínio fisiopatológico
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completo e o aplique a cenários com múltiplas variáveis simultâneas, exatamente como
você vai construir estudando esta apostila do início ao fim.
🎯 PONTO DE PROVA
Se você tiver que escolher onde investir mais tempo dentro do tema paciente crítico,
priorize nesta ordem: (1) o algoritmo completo de via e timing de terapia nutricional, (2)
interpretação de calorimetria indireta e quociente respiratório em casos evolutivos, (3)
proteína em populações especiais (renal agudo, CRRT, obeso, EFFORT Trial), (4)
propofol como fonte calórica. Esses quatro pontos, sozinhos, respondem à maioria das
26 questões já mapeadas.
Nota editorial sobre as questões reproduzidas: todas as 26 questões desta apostila foram
extraídas dos PDFs de prova enviados, com gabarito e comentário originais preservados.
Onde o comentário-fonte continha uma imprecisão factual relevante, isso é sinalizado
explicitamente no texto explicativo que antecede cada questão, para que você entenda
tanto o que a banca cobrou quanto o racional fisiopatológico completo por trás da resposta.
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Fisiopatologia do paciente crítico: o mecanismo que a
prova cobra
Todo enunciado de paciente crítico na prova de título parte de uma premissa fisiopatológica
que raramente é explicitada, mas que precisa estar automatizada na sua cabeça: o
organismo em estado crítico não está simplesmente "doente", ele está reprogramado
metabolicamente para sobreviver a uma agressão aguda, e essa reprogramação segue
uma sequência temporal previsível. Entender essa sequência é o que permite ao candidato
responder corretamente mesmo quando a banca troca o cenário clínico (trauma, sepse,
queimadura, pancreatite, cirurgia de grande porte), porque a resposta metabólica de base é
sempre a mesma, e o que muda é apenas a intensidade e a causa do gatilho.
O desvio metabólico central: proteólise como fonte de energia
O estado crítico desencadeia uma resposta fisiopatológica que desvia o metabolismo para o
consumo preferencial de proteínas teciduais como fonte de energia, em vez de depender
predominantemente de reservas de gordura, como aconteceria num jejum simples não
complicado por inflamação. Esse desvio é mediado por um conjunto de hormônios
contrarreguladores (cortisol, glucagon, catecolaminas) e por citocinas pró-inflamatórias (IL-
6, TNF-alfa, entre outras) que, em conjunto, promovem proteólise muscular acelerada,
mesmo na presença de oferta calórica e proteica adequada. É por isso que o paciente
crítico perde massa muscular de forma rápida e clinicamente relevante (a perda pode
chegar a até 1 kg de massa magra por dia nos quadros mais graves), e é por isso também
que a nutrição sozinha não é capaz de impedir completamente essa perda: ela reduz o
dano, mas não neutraliza o mecanismo inflamatório que o desencadeia.
Um suporte nutricional inadequado, seja por atraso no início da terapia nutricional, seja por
subalimentação prolongada, empurra o paciente para uma fase crônica de falência
nutricional. Essa fase tem nome na literatura mais recente: PICS, a sigla para síndrome de
inflamação e catabolismo persistentes (persistent inflammation, immunosuppression and
catabolism syndrome). O paciente que entra em PICS pode evoluir para CARS, a síndrome
de resposta anti-inflamatória compensatória, que representa um estado de esgotamento do
sistema imune. Nesse último estágio, a capacidade do organismo de se defender de
infecções secundárias e de reparar tecido fica tão comprometida que a mortalidade se torna
extremamente elevada.
🩺 PÉROLA CLÍNICA
PICS e CARS não são "detalhes decorativos" de uma explicação de fisiopatologia: eles
explicam por que o paciente crítico que fica muito tempo internado, com múltiplos ciclos
de infecção, sedação prolongada e déficit nutricional acumulado, frequentemente morre
não do evento inicial (o trauma, a sepse original), mas de uma complicação tardia,
numa fase em que o organismo simplesmente não tem mais reserva imunológica e
proteica para se defender. Isso reforça, na prática clínica e na lógica da prova, por que
a terapia nutricional precoce e adequada não é luxo: é prevenção direta da trajetória
PICS/CARS.
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As duas grandes fases do estado crítico: Ebb e Flow
Independentemente da etiologia (trauma, queimadura, sepse, grande cirurgia), a evolução
metabólica do estado crítico pode ser dividida, de forma didática e clinicamente útil, em
duas grandes fases: a fase Ebb (também chamada de fase de refluxo ou fase de choque) e
a fase Flow (fase de fluxo). Essa divisão, descrita originalmente por Cuthbertson e retomada
por praticamente todos os guidelines modernos de nutrição em terapia intensiva, é
provavelmente o conceito fisiopatológico mais cobrado da prova dentro do tema paciente
crítico, porque ele determina diretamente a conduta nutricional em cada momento.
Fase Ebb: economia metabólica para sobreviver ao choque
A fase Ebb representa o momento inicial de instabilidade hemodinâmica, tipicamente as
primeiras 12 a 24 horas após o insulto agudo. Nessa fase, o fluxo sanguíneo cessa ou
diminui de forma significativa na microcirculação, reduzindo a oferta de nutrientes e de
oxigênio às células. Se a ressuscitação hemodinâmica não for realizada de forma oportuna
e adequada, o paciente evolui diretamente para falência orgânica múltipla e óbito. Do ponto
de vista de gasto energético, a fase Ebb é paradoxalmente uma fase de redução, e não de
aumento, do metabolismo: há queda do débito cardíaco, queda do consumo de oxigênio,
queda da perfusão tecidual, queda da temperatura corporal (hipotermia relativa) e queda da
taxa metabólica basal. O organismo entra num estado de "economia" para preservar os
órgãos nobres à custa da periferia.
Clinicamente, a fase Ebb se reconhece por um conjunto característico de achados: lactato
elevado, acidose metabólica (pH reduzido), uso crescente de vasopressores para sustentar
a pressão arterial média, e temperatura central reduzida. Esse é exatamente o quadro que a
prova descreve quando quer testar o reconhecimento da fase Ebb, e a implicação prática é
categórica: nessa fase, a terapia nutricional está formalmente contraindicada ou deve ser
postergada até a estabilização hemodinâmica. O foco absoluto do tratamento é
ressuscitação volêmica, controle do foco (se infeccioso ou hemorrágico) e suporte
hemodinâmico e ventilatório. Tentar nutrir um paciente ainda na fase Ebb, especialmente
por via enteral, tende a ser prejudicial, porque a perfusão esplâncnica já está comprometida
pelo choque, e a digestão representa uma carga de trabalho metabólico extra que pode
agravar ainda mais a isquemia intestinal.
TEN 2025 | Fase Ebb no trauma e choque hemorrágico
Um adulto politraumatizado chega à unidade de terapia intensiva (UTI) em choque
hemorrágico. Nas primeiras 12 horas, encontra-se sob reposição volêmica, em uso
crescente de vasoativos, lactato 2,8 a 3,0 mmol/L e pH 7,24 a 7,26. Temperatura
central 35,6 °C. Do ponto de vista metabólico/energético, qual alternativa descreve
mais adequadamente essa fase inicial?
A) Estado hipermetabólico com aumento do consumo de oxigênio, temperatura corporal
e atividade enzimática.
B) Instalação da fase catabólica, com elevação do gasto energético e ação de citocinas
pró-inflamatórias.
C) Redução do gasto energético, do consumo de oxigênio, da temperatura
corporal e da atividade enzimática, típica da fase de refluxo (aproximadamente 8
a 24 horas), com foco na ressuscitação.
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D) Gasto energético estável, sendo as alterações decorrentes apenas do uso de
sedativos, sem relação com a resposta fisiológica ao trauma.
Gabarito: letra C
Este é o retrato clínico canônico da fase Ebb, e vale memorizar cada achado do
enunciado como uma bandeira vermelha que aponta para essa fase: uso crescente
(não decrescente) de vasoativos indica que a ressuscitação ainda não teve sucesso;
lactato elevado e pH reduzido confirmam hipoperfusão tecidual e acidose metabólica;
temperatura central de 35,6 graus é hipotermia relativa, coerente com a queda da taxa
metabólica basal que caracteriza essa fase.
As alternativas A e B descrevem, na verdade, a fase Flow (hipermetabolismo, aumento
de temperatura, consumo de oxigênio elevado, citocinas pró-inflamatórias em
ascensão), que só se instala depois que a ressuscitação hemodinâmica é bem-
sucedida, geralmente entre 24 e 48 horas após o insulto. É o distrator mais comum e
mais perigoso desta questão: o candidato que reconhece "paciente grave, deve estar
hipermetabólico" sem prestar atenção aos números do enunciado (vasoativos em
ascensão, não em queda; temperatura baixa, não febre) cai direto nessa armadilha.
A alternativa D tenta desviar a explicação para o efeito dos sedativos isoladamente,
ignorando que as alterações descritas são uma resposta neuroendócrina orquestrada
ao choque, não um efeito farmacológico isolado.
Fase Flow: hipermetabolismo e catabolismo intenso
A fase Flow só ocorre nos pacientes que foram ressuscitados com sucesso do ponto de
vista hemodinâmico, ou seja, naqueles em que o fluxo sanguíneo foi restaurado para níveis
minimamente satisfatórios. É nesse momento que sobrevém uma intensa instabilidade
metabólica, caracterizada por múltiplas reações catabólicas simultâneas: glicogenólise
hepática, lipólise, proteólise e gliconeogênese. O objetivo fisiológico desses processos
catabólicos é disponibilizar uma grande quantidade de combustível energético a partir das
reservas endógenas, combustível que será necessário para que as células realizem os
processos de defesa imunológica e de reparo tecidual. A taxa metabólica basal aumenta de
forma expressiva nessa fase, chegando, nos quadros mais extremos como o grande
queimado, a valores de 100 a 200 por cento acima do basal previsto, configurando um
verdadeiro estado de hipermetabolismo.
Característica Fase Ebb (refluxo) Fase Flow (fluxo)
Dias a semanas após a
Tempo aproximado Primeiras 8 a 24 horas
estabilização
Débito cardíaco Diminuído Aumentado
Consumo de oxigênio
Diminuído Aumentado
(VO2)
Temperatura corporal Diminuída (hipotermia relativa) Aumentada (febre, hipertermia)
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Característica Fase Ebb (refluxo) Fase Flow (fluxo)
Muito aumentada
Taxa metabólica Diminuída (hipermetabolismo, até 100 a
200 por cento do basal)
Elevados e plenamente
Elevados, mas com resposta
Hormônios atuantes (glicocorticoides,
tecidual limitada pela
contrarreguladores glucagon, catecolaminas,
hipoperfusão
citocinas)
Não nutrir; foco em volume e Iniciar e progredir a terapia
Conduta nutrológica
vasoativos nutricional após estabilidade
Um exemplo clássico de hipermetabolismo extremo na fase Flow, e que a prova adora usar
como cenário, é o grande queimado, situação em que a resposta inflamatória sistêmica é
particularmente intensa e prolongada. Trataremos desse cenário com profundidade na
seção de populações especiais, mas o ponto a fixar aqui é conceitual: a fase Flow é o
momento em que a terapia nutricional deixa de ser contraindicada e passa a ser
mandatória, porém progressiva, respeitando a lógica de introdução gradual que veremos na
seção de gasto energético.
⚠️ ARMADILHA DIAGNÓSTICA
O erro mais comum de quem estuda esse tema de forma superficial é assumir que
"paciente grave = hipermetabólico = precisa de muita caloria já". Isso é verdadeiro
apenas na fase Flow, e mesmo assim de forma progressiva, nunca plena e imediata.
Nas primeiras horas do estado crítico (fase Ebb, ou nas primeiras 48 a 72 horas mesmo
já em fase Flow inicial), nutrir de forma plena e precoce é prejudicial: o paciente não
aproveita adequadamente os nutrientes exógenos ofertados, que acabam se somando
aos produtos do catabolismo endógeno, e o resultado é hiperglicemia,
hipertrigliceridemia e distúrbios eletrolíticos que podem, paradoxalmente, aumentar a
mortalidade. Essa lógica será aprofundada e quantificada na seção de gasto energético.
Por que essa fisiopatologia sustenta praticamente todo o restante da
apostila
Guarde esta ideia como fio condutor: cada uma das próximas seções, avaliação nutricional,
momento de início da terapia, metas calóricas e proteicas, populações especiais, é uma
tradução prática desta fisiopatologia de base. Quando a ESPEN recomenda não nutrir na
fase Ebb, é porque está aplicando exatamente o que você acabou de estudar. Quando a
diretriz recomenda hipocaloria nas primeiras 72 horas mesmo já em fase Flow, é porque
está reconhecendo que a produção endógena de energia (estimada entre 500 e 1400 kcal
por dia, vinda do próprio catabolismo) já está suprindo boa parte da demanda energética, e
ofertar 100 por cento das necessidades por via exógena, além disso, configura sobrecarga.
Toda vez que você tiver dúvida sobre uma conduta nutrológica no paciente crítico, volte a
este raciocínio de base: em que fase metabólica esse paciente está, e o que essa fase
permite ou proíbe.
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Avaliação nutricional e risco no paciente crítico
Por que todo paciente crítico com mais de 48 horas de UTI deve ser
considerado em risco
A desnutrição no paciente crítico raramente é um evento de instalação lenta, do tipo que se
desenvolve ao longo de semanas de ingestão insuficiente em ambulatório. Na UTI, ela
emerge como parte do próprio fenótipo da doença grave: um estado hipercatabólico
sustentado por inflamação sistêmica, resistência anabólica, imobilização, e, não raramente,
interrupções repetidas da oferta nutricional por instabilidade hemodinâmica, procedimentos,
intolerância gastrointestinal ou simplesmente prioridades concorrentes do cuidado intensivo
(o paciente vai para exame, para cirurgia, fica em jejum por precaução, e assim por diante).
Nesse contexto, o risco nutricional deixa de ser uma característica estática do indivíduo
(como seria, por exemplo, avaliar se alguém chegou desnutrido ao hospital) e passa a ser
uma consequência previsível da própria trajetória clínica.
É exatamente por essa previsibilidade que o guideline da ESPEN de nutrição clínica em
terapia intensiva adota uma afirmação simples e extremamente operacional, e que você
deve gravar como regra de ouro: todo paciente crítico que permanece mais de 48 horas na
UTI deve ser considerado em risco de desnutrição. Essa recomendação carrega força
prática porque reconhece duas realidades do dia a dia assistencial. A primeira é que não
existe, até o momento, um escore nutricional específico para UTI que seja devidamente
validado para orientar condutas de rotina; os instrumentos clássicos de triagem (como o
NRS-2002 e o MUST) foram desenvolvidos para contextos hospitalares gerais, não para a
fisiopatologia particular do paciente criticamente enfermo. A segunda é que, mesmo na
ausência de um número definitivo que capture o risco de forma precisa, a permanência
além de 48 horas funciona como um marcador clínico robusto de exposição a um ambiente
de alto risco metabólico e de provável déficit energético-proteico acumulado.
Do ponto de vista fisiopatológico, a lógica é direta e conecta-se diretamente com o que você
acabou de estudar sobre as fases Ebb e Flow: nas primeiras 24 a 72 horas de doença
crítica há intensa produção endógena de energia, mobilização de substratos e perda
acelerada de massa magra, fenômeno amplificado por catecolaminas, cortisol, citocinas e
pela queda abrupta de estímulos mecânicos e funcionais sobre o músculo esquelético (o
paciente sedado e imóvel não contrai a musculatura, e isso por si só acelera a atrofia).
Clinicamente, isso se traduz em perda de força, piora da função muscular e fragilidade
adquirida, com impacto direto em desfechos relevantes como tempo de ventilação
mecânica, sucesso da reabilitação e qualidade de vida após a alta.
🩺 PÉROLA CLÍNICA
O guideline reforça um ponto muitas vezes negligenciado, e que é ouro puro para a
prova: peso e IMC isolados não refletem bem desnutrição no paciente crítico, inclusive
no obeso. Edema, deslocamentos de fluido entre compartimentos e alterações agudas
de composição corporal tornam essas medidas tradicionais pouco confiáveis. O que
realmente importa, na prática, é reconhecer perda ou baixa reserva de massa muscular
(sarcopenia) e redução funcional, achados que estão frequentemente presentes mesmo
quando o IMC calculado é alto. Toda vez que uma questão apresentar um paciente
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Nutro-TEN | Nutrologia no Paciente Crítico
obeso crítico e a alternativa sugerir usar o IMC como parâmetro isolado de estado
nutricional, desconfie: a resposta provavelmente está em outro lugar, olhando para
massa muscular e função.
Triagem nutricional na UTI: NRS-2002, MUST e NUTRIC
A ESPEN reconhece explicitamente que o NRS-2002 e o MUST não foram desenhados
para pacientes críticos, mas ainda assim aparecem como ferramentas com capacidade
preditiva razoável de mortalidade, e sobretudo por serem simples e rápidas de aplicar à
beira do leito. Em paralelo, foi proposto um instrumento específico para esse cenário: o
NUTRIC score (Nutrition Risk in the Critically Ill), ancorado majoritariamente na gravidade
da própria doença. A lógica por trás do NUTRIC é uma ideia-chave que vale internalizar: na
UTI, o risco nutricional é frequentemente inseparável do risco inflamatório e da carga de
disfunção orgânica. Um paciente gravemente inflamado e com múltiplas disfunções
orgânicas está, quase por definição, em alto risco nutricional, independentemente de
qualquer medida antropométrica prévia.
O NUTRIC score original incorpora seis variáveis: idade, escore APACHE II, escore SOFA,
número de comorbidades, dias de internação hospitalar antes da admissão na UTI, e
interleucina 6 (IL-6). Como a dosagem de IL-6 não é rotineiramente disponível na maioria
dos serviços, foi proposta uma versão modificada, o mNUTRIC, que exclui essa variável e
mantém capacidade preditiva equivalente. No mNUTRIC, que é a versão efetivamente
usada na prática clínica e a mais cobrada em prova, o ponto de corte para alto risco
nutricional é escore maior ou igual a 5 (numa escala de 0 a 9). Pacientes com mNUTRIC
igual ou maior que 5 são considerados de alto risco nutricional e se beneficiam de
intervenção nutricional mais precoce e mais agressiva; pacientes com escore abaixo desse
valor são considerados de baixo risco, e a estratégia terapêutica pode ser menos assertiva
na fase inicial, como você verá em detalhe na seção sobre nutrição parenteral.
Critérios GLIM: transformando triagem em diagnóstico
Enquanto NRS-2002, MUST e NUTRIC funcionam como ferramentas de triagem
(rastreamento de risco), o diagnóstico formal de desnutrição segue hoje, na literatura
internacional, os critérios GLIM (Global Leadership Initiative on Malnutrition), publicados em
2019 por consenso entre as principais sociedades mundiais de nutrição clínica, incluindo
representação brasileira. A lógica do GLIM é construída em duas etapas: primeiro faz-se a
triagem de risco com qualquer instrumento validado (por exemplo, o NRS-2002), e depois,
nos pacientes identificados como em risco, avalia-se a presença de critérios fenotípicos e
critérios etiológicos. Para confirmar o diagnóstico de desnutrição, é necessária a
combinação de pelo menos um critério fenotípico com pelo menos um critério etiológico.
Critérios fenotípicos Critérios etiológicos
Perda de peso não intencional (percentual e Redução da ingestão ou da absorção
período definidos) alimentar
Baixo índice de massa corporal (ajustado por Carga de doença ou inflamação (aguda ou
idade e etnia) crônica)
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Nutro-TEN | Nutrologia no Paciente Crítico
Critérios fenotípicos Critérios etiológicos
Redução de massa muscular (avaliada
objetivamente quando possível)
No paciente crítico, esse enquadramento é particularmente valioso porque evita dois erros
comuns que a prova adora explorar. O primeiro erro é tratar hipoalbuminemia isoladamente
como sinônimo de desnutrição: a albumina cai na doença crítica principalmente por
redistribuição para o espaço extravascular e por redução da síntese hepática num contexto
de resposta de fase aguda, não necessariamente por depleção proteica nutricional, de
modo que usá-la como marcador nutricional isolado é um raciocínio ultrapassado. O
segundo erro é o oposto: negligenciar desnutrição em pacientes com IMC alto, exatamente
o cenário do obeso crítico com sarcopenia, que discutiremos em profundidade na seção de
populações especiais. Quando o fenótipo aponta perda muscular e a etiologia é inflamatória
ou catabólica, como acontece por definição no paciente crítico, a desnutrição relacionada à
doença torna-se altamente plausível e clinicamente acionável, mesmo sem perda de peso
documentada ou IMC baixo.
Avaliação de massa muscular e fragilidade: ultrassom, tomografia e
bioimpedância
Se a avaliação nutricional útil na UTI não é aquela que "mede peso", mas a que identifica
perda de músculo, sarcopenia e declínio funcional em tempo hábil para mudar conduta,
então o eixo prático da avaliação passa a ser: quais ferramentas estão disponíveis para
quantificar massa muscular à beira do leito, e quais são as limitações de cada uma? A
ESPEN reconhece três métodos principais, ultrassom, tomografia computadorizada e
bioimpedância elétrica, cada um com vantagens e armadilhas de interpretação que a prova
cobra com frequência crescente.
Ultrassonografia muscular: monitorização seriada à beira do leito
O ultrassom muscular é atraente na UTI porque é portátil, repetível e aplicável mesmo em
pacientes hemodinamicamente instáveis, permitindo acompanhar a tendência de perda
muscular ao longo dos dias sem precisar mobilizar o paciente para outro setor do hospital.
Em termos de raciocínio clínico, o ultrassom é particularmente útil quando a pergunta não é
"quanto músculo o paciente tem" (uma medida estática, de valor absoluto), mas sim "quanto
músculo ele está perdendo, e em que velocidade" (uma medida dinâmica, de tendência).
Como a perda muscular é rápida na doença crítica, o valor real do ultrassom é transformar o
catabolismo, que de outra forma seria um conceito abstrato, em dado observável e seriado,
ajudando a calibrar tanto o plano de proteína e energia quanto a urgência da mobilização
precoce e da fisioterapia motora.
TEN 2024 | Ultrassonografia muscular no paciente crítico
Avaliar a composição corporal de pacientes críticos é crucial para uma melhor conduta
nutricional. Em relação ao uso da ultrassonografia para este fim, assinale a alternativa
correta:
A) Trata-se de um método rápido, não invasivo, reprodutível e seguro, além de possuir
valores de referência definidos para a detecção de baixa massa muscular em pacientes
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críticos.
B) A espessura dos músculos da coxa vasto medial e vasto lateral são as medidas
mais comumente estudadas e utilizadas na prática clínica.
C) A ecogenicidade dos músculos da coxa é uma das ferramentas do ultrassom
que pode nos ajudar a determinar a qualidade muscular.
D) Para avaliação dos músculos da coxa de pacientes críticos deve-se utilizar o
transdutor convexo do ultrassom.
Gabarito: letra C
A ecogenicidade é um parâmetro de qualidade muscular, e não apenas de quantidade:
ela indica a proporção de tecido fibroso ou de gordura infiltrada dentro do próprio
músculo (o que a literatura chama de mionecrose ou substituição gordurosa
intramuscular). Aumentos de ecogenicidade frequentemente indicam alterações
patológicas, entre elas a sarcopenia, mesmo quando a espessura muscular medida
ainda parece preservada. É essa distinção entre quantidade (espessura, área de
secção transversa) e qualidade (ecogenicidade) que a banca está testando aqui, e é
um conceito que costuma escapar de quem estuda o tema apenas superficialmente.
A alternativa A erra num detalhe sutil e importante: embora o método seja de fato
rápido, seguro, não invasivo e reprodutível, ainda não existem valores de referência
bem definidos e universalmente validados para detecção de baixa massa muscular
especificamente em pacientes críticos, justamente pela heterogeneidade de
populações, técnicas de medida e pontos anatômicos usados nos estudos disponíveis.
A alternativa B erra o músculo mais estudado: a literatura de ultrassom muscular em
UTI concentra-se predominantemente no reto femoral e no quadríceps como um todo
(medido pela espessura do complexo do quadríceps), não especificamente no vasto
medial e vasto lateral isolados, que têm aplicabilidade clínica menor no protocolo
padrão.
A alternativa D erra o transdutor: o transdutor adequado para avaliação de estruturas
superficiais como os músculos da coxa é o transdutor linear, que oferece maior
resolução para essa profundidade. O transdutor convexo é reservado para estruturas
mais profundas, como órgãos abdominais.
Tomografia computadorizada: precisão elevada e valor prognóstico
incorporado
A tomografia computadorizada tem excelente capacidade de estimar massa e qualidade
muscular, e frequentemente já está disponível na UTI porque muitos pacientes críticos
realizam tomografias por outros motivos clínicos (investigação de foco infeccioso, trauma,
avaliação abdominal), o que permite reaproveitar a imagem para análise de composição
corporal sem exame adicional. O guideline da ESPEN destaca um ponto clinicamente
relevante e frequentemente cobrado: pacientes com baixa massa muscular detectada na
admissão por tomografia apresentam maior tempo de internação e maior mortalidade. Isso
significa que, quando a tomografia está disponível, ela não deve ser encarada apenas como
uma "medida corporal" acessória, mas como um verdadeiro marcador de risco e uma janela
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para a reserva funcional prévia do paciente. Na prática, quando a tomografia mostra baixa
reserva muscular, a equipe deve assumir maior risco de fraqueza adquirida na UTI,
prolongamento de ventilação mecânica e reabilitação mais difícil, o que justifica priorizar
precocemente uma estratégia de proteína mais assertiva, progressão nutricional estruturada
e integração com mobilização e fisioterapia desde os primeiros dias.
Bioimpedância elétrica: útil apenas em estabilidade hídrica, e a armadilha do
edema
A bioimpedância elétrica (BIA) pode estimar composição corporal, mas o guideline faz uma
ressalva crítica que se tornou, nos últimos anos, um dos pontos mais cobrados da prova:
ela deve ser usada apenas em paciente estável, sem grandes mudanças de compartimento
hídrico, justamente porque edema e deslocamentos de fluido distorcem profundamente a
leitura. Entender o mecanismo desse erro é essencial, porque a prova não se contenta em
cobrar "a BIA erra no paciente edemaciado", ela cobra a direção exata do erro.
A bioimpedância elétrica baseia-se na resistência que os tecidos corporais oferecem à
passagem de uma corrente elétrica de baixa intensidade. Água e eletrólitos são excelentes
condutores de eletricidade: quanto maior a quantidade de água presente em um tecido,
menor será a impedância (resistência) medida naquele tecido. O erro do equipamento surge
porque os algoritmos de BIA utilizam equações que assumem uma hidratação constante da
massa magra, tipicamente ao redor de 73 por cento. Em um paciente com sepse grave e
balanço hídrico positivo, há acúmulo maciço de fluido no compartimento extracelular
(edema), e o corpo fica, na prática, "mais úmido" do que a equação pressupõe. Como
resultado, a corrente elétrica passa com muito mais facilidade (baixa impedância), e o
software do aparelho interpreta essa facilidade de condução como se o paciente possuísse
uma grande quantidade de massa muscular (tecido rico em água), levando à
superestimação da massa magra. Como o percentual de gordura é calculado por exclusão
ou proporção em relação ao peso total, ele acaba sendo subestimado.
TEN 2025 | Bioimpedância na sepse com sobrecarga hídrica
Um paciente em unidade de terapia intensiva (UTI), com sepse grave e balanço hídrico
positivo nas últimas 72 horas é submetido à avaliação por bioimpedância elétrica. O
exame revela aumento expressivo da massa magra estimada e redução da gordura
corporal em comparação à avaliação basal. Como interpretar corretamente esse
achado?
A) A bioimpedância elétrica tende a superestimar a gordura corporal em pacientes com
retenção hídrica e inflamação sistêmica, conforme paciente em questão.
B) O edema intracelular reduz a impedância e aumenta falsamente o percentual de
gordura corporal estimado, devendo-se atentar para tal possibilidade nesse paciente.
C) O excesso de fluido extracelular aumenta a condutividade elétrica, podendo
levar à superestimação da massa magra e subestimação da massa de gordura.
D) A variação observada reflete ganho real de massa magra secundário ao suporte
nutricional parenteral iniciado na UTI, ratificando a importância do mesmo.
Gabarito: letra C
Esta questão é a aplicação direta do mecanismo que acabamos de descrever: excesso
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de fluido extracelular reduz a impedância, e o algoritmo do aparelho traduz essa baixa
impedância em "muita massa magra" e, por consequência matemática, em "pouca
gordura". É exatamente o padrão descrito no enunciado (aumento expressivo de massa
magra estimada, redução de gordura corporal), e a explicação correta está na
condutividade elétrica da água, não em qualquer ganho biológico real de tecido.
A alternativa A erra a direção do erro: a retenção hídrica não superestima a gordura,
ela faz exatamente o oposto, subestima a gordura, porque a baixa resistência elétrica é
interpretada pelo software como tecido magro.
A alternativa B contém um erro de localização do edema (fala em edema intracelular,
quando o que ocorre na sepse com balanço hídrico positivo é predominantemente
edema do compartimento extracelular) e também erra a direção do efeito sobre a
gordura estimada, que cai, e não aumenta.
A alternativa D é a mais perigosa por parecer clinicamente plausível à primeira vista,
mas é biologicamente impossível: um paciente em sepse grave está em estado
hipercatabólico extremo, com proteólise acelerada. Não existe, em 72 horas, nem
mesmo com suporte nutricional perfeito, ganho real de massa muscular nesse contexto.
A variação observada é puramente um artefato técnico provocado pelo edema, e
reconhecer essa impossibilidade fisiológica é o que separa quem realmente entendeu o
mecanismo de quem está apenas adivinhando entre alternativas que soam plausíveis.
🎯 PONTO DE PROVA
Regra de ouro da bioimpedância na UTI, para gravar de forma definitiva: muita água no
compartimento extracelular (edema, balanço hídrico positivo) gera baixa impedância, o
que aumenta falsamente a massa magra estimada e diminui falsamente o percentual de
gordura estimado. Pouca água (desidratação) gera o efeito inverso: alta impedância, o
que diminui falsamente a massa magra estimada e aumenta falsamente o percentual de
gordura estimado. A conclusão prática e testável é sempre a mesma: a BIA tem baixa
validade em pacientes com grandes oscilações volêmicas, que é exatamente o perfil da
maioria dos pacientes de UTI nos primeiros dias de internação.
Função muscular: dinamometria de preensão palmar
Sarcopenia não é apenas perda de massa, é massa associada à perda de função. Por isso,
sempre que o paciente estiver acordado, cooperativo e capaz de colaborar com o teste,
medir função agrega um nível de relevância clínica que muitas vezes supera a quantificação
puramente estrutural (o quanto de músculo existe). A ESPEN menciona especificamente a
dinamometria de preensão palmar (handgrip strength) como ferramenta validada para
avaliação de função muscular no ambiente crítico. A utilidade dessa medida é dupla:
primeiro, ela traduz a reserva funcional do paciente de maneira objetiva e reprodutível;
segundo, ela permite acompanhar a recuperação ao longo da internação, conectando
terapia nutricional e reabilitação num mesmo desfecho mensurável, que é a força muscular.
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Fragilidade: o terreno biológico que amplifica o risco nutricional
A ESPEN descreve fragilidade como um conceito bem definido na literatura geriátrica e de
terapia intensiva, relacionado ao peso das comorbidades e à vulnerabilidade fisiológica
prévia do paciente, passível de diagnóstico por observações clínicas e, quando disponíveis,
por exames complementares. No paciente crítico, a fragilidade funciona como uma espécie
de lupa prognóstica: ela antecipa quais pacientes terão pior tolerância ao estresse
metabólico agudo, maior risco de declínio funcional definitivo, e maior dificuldade em
recuperar massa e força mesmo após a estabilização clínica plena. Pacientes frágeis
podem ser diagnosticados já na admissão, ou identificados ao longo da própria internação
na UTI, e a fragilidade é definida operacionalmente como uma síndrome clínica na qual
ocorrem três ou mais dos seguintes cinco critérios: perda de peso não intencional, exaustão
autorrelatada, fraqueza medida pela força de preensão, velocidade de caminhada lenta e
baixo nível de atividade física habitual.
Clinicamente, o valor prático de identificar fragilidade é orientar prioridade e cautela:
pacientes frágeis não são apenas "mais velhos" no sentido cronológico, são aqueles cuja
reserva fisiológica já era limitada antes mesmo do início da doença crítica atual. Isso
justifica uma avaliação muscular mais sistemática nesse subgrupo, metas nutricionais mais
cautelosas e individualizadas, e atenção redobrada ao timing da progressão da terapia
nutricional e ao início precoce da reabilitação motora.
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Quando e como iniciar a terapia nutricional: o algoritmo
que resolve a maioria das questões
Se existe um único algoritmo que, sozinho, resolve a maior fração das questões de paciente
crítico na prova de título, é este: em que fase metabólica o paciente está, o trato
gastrointestinal está funcionante, e a hemodinâmica está estabilizada? A resposta a essas
três perguntas define, quase sempre, a via correta (oral, enteral ou parenteral) e o momento
correto de iniciar. Vamos construir esse algoritmo peça por peça, porque é sobre ele que a
banca constrói praticamente todos os casos clínicos deste tema.
O momento de iniciar: nem cedo demais, nem tarde demais
Nutrir o paciente nas primeiras horas do estado crítico, ainda na fase hiperaguda (fase Ebb,
como você estudou na seção anterior), é prejudicial. Nesse momento, o paciente não
aproveita adequadamente os nutrientes exógenos ministrados, que acabam se acumulando
junto aos produtos do catabolismo endógeno já elevado. O resultado é o paciente
apresentar distúrbios metabólicos como hiperglicemia, hipertrigliceridemia e alterações
eletrolíticas, o que pode, em última análise, aumentar a mortalidade. Por outro lado, adiar
demais o início da terapia nutricional também é prejudicial, porque o déficit calórico-proteico
se acumula de forma progressiva e silenciosa, com impacto direto sobre massa muscular,
função imune e desfechos de reabilitação.
O equilíbrio entre esses dois extremos está bem definido: em via de regra, a terapia de
nutrição médica deve ser iniciada dentro das primeiras 48 a 72 horas desde que o paciente
tenha sido hemodinamicamente e metabolicamente estabilizado. Essa janela de 48 a 72
horas não é arbitrária, ela corresponde exatamente à transição esperada da fase Ebb para
a fase Flow que você estudou na seção de fisiopatologia, e é por isso que os dois conceitos
(fases metabólicas e momento de início da nutrição) precisam estar conectados na sua
cabeça, nunca estudados isoladamente.
Passo 1: a via oral é sempre a primeira escolha, quando segura
No paciente crítico, a nutrição oral deve ser sempre a primeira escolha quando o doente
está apto a se alimentar com segurança, por ser a via mais fisiológica e, em geral, a que
melhor preserva a dinâmica de deglutição e a autonomia alimentar. O guideline da ESPEN
recomenda que a dieta oral seja preferida em relação à nutrição enteral ou parenteral nos
pacientes criticamente enfermos capazes de comer, desde que não haja risco relevante de
vômitos ou de aspiração. Na prática, isso desloca a pergunta clínica de "o paciente pode
comer?" para uma pergunta mais exigente e mais útil: "o paciente consegue comer o
suficiente, e com segurança?", porque via oral inadequada é situação muito comum na UTI,
sobretudo em pacientes em ventilação não invasiva, no período pós-extubação e no pós-
traqueostomia, nos quais fadiga, dispneia e disfagia podem limitar de forma relevante a
ingestão real, mesmo com a dieta liberada e disponível.
Como critério operacional de adequação da via oral, a ESPEN define que ela é considerada
suficiente quando o paciente cobre pelo menos 70 por cento das necessidades nutricionais
entre o dia 3 e o dia 7 de tentativa, sem risco de vômito ou de aspiração. Abaixo desse
patamar de 70 por cento, a abordagem deve ser escalonada, priorizando primeiro
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suplementos nutricionais orais (os chamados ONS) e, se ainda assim insuficiente,
avançando para nutrição enteral por sonda. Esse corte numérico de 70 por cento ajuda a
evitar dois erros simétricos: a complacência com uma via oral apenas "prescrita", mas na
prática inefetiva, e o atraso desnecessário no suporte nutricional mais assertivo, atraso que
se torna cumulativamente deletério.
Passo 2: se a via oral não é suficiente, nutrição enteral precoce em até
48 horas
Se a ingestão oral não é possível ou não é suficiente, o guideline da ESPEN recomenda
iniciar nutrição enteral precocemente, idealmente dentro de 48 horas, em vez de postergar o
suporte. A lógica é pragmática e retoma diretamente a fisiopatologia: após as primeiras 24 a
48 horas, o paciente crítico já está exposto a um ambiente de catabolismo intenso e déficit
nutricional acumulativo, e a nutrição enteral passa a ser a via de escolha sempre que o trato
gastrointestinal estiver funcionante. É importante frisar que, mesmo iniciando precocemente,
a progressão deve ser gradual nessa fase inicial, evitando perseguir metas plenas de forma
abrupta nas primeiras 48 a 72 horas, justamente para reduzir o risco de sobrealimentação
(overfeeding) e suas consequências metabólicas, que serão detalhadas na seção de gasto
energético.
Quanto aos desfechos que sustentam essa recomendação, a evidência resumida no
guideline sugere um benefício infeccioso associado à nutrição enteral precoce: em
comparações entre nutrição enteral precoce e nutrição enteral tardia, observou-se redução
de complicações infecciosas em metanálise, ainda que esse sinal seja mais consistente
quando se incluem estudos fora do ambiente estrito de UTI, e se atenue quando se excluem
os trabalhos mais antigos, o que indica que parte do efeito protetor observado pode
depender de contexto e de metodologia dos estudos originais. Já nas comparações entre
nutrição enteral e nutrição parenteral, independentemente do momento de início, uma
metanálise citada pela ESPEN encontrou redução de infecções na UTI com a via enteral em
relação à parenteral, mas com um detalhe clinicamente crucial que a prova gosta de
explorar: essa diferença desaparece quando a carga calórica ofertada é semelhante entre
os dois grupos comparados, sugerindo que o risco infeccioso classicamente atribuído à via
parenteral em si pode refletir, na verdade, sobrealimentação, e não a via de administração
isoladamente.
Características técnicas da nutrição enteral no paciente crítico
Alguns detalhes técnicos sobre como administrar a nutrição enteral no paciente crítico são
cobrados com regularidade, e vale sistematizá-los. A administração deve ser contínua, e
não em bolus. O acesso gástrico deve ser usado como abordagem padrão para iniciar a
nutrição enteral; a alimentação pós-pilórica (transpilórica) deve ser reservada para
pacientes com intolerância à alimentação gástrica não resolvida com o uso de agentes
procinéticos, e também pode ser considerada em pacientes de alto risco para aspiração,
priorizando nesse caso a posição jejunal. Isso ocorre porque a colocação do tubo pós-
pilórico requer maior experiência técnica, está comumente associada a algum atraso no
início da terapia, e é considerada menos fisiológica em comparação com a nutrição enteral
gástrica; além disso, a alimentação pós-pilórica pode ser prejudicial em casos de problemas
de motilidade gastrointestinal distais ao estômago. Em conjunto, a recomendação prática é
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usar o acesso gástrico como padrão universal, e implementar o acesso pós-pilórico apenas
no caso de intolerância à alimentação gástrica por gastroparesia comprovada.
Em pacientes gravemente enfermos com intolerância à alimentação gástrica, a eritromicina
intravenosa deve ser usada como terapia procinética de primeira linha. Alternativamente, a
metoclopramida intravenosa, isolada ou em combinação com eritromicina, pode ser usada
como terapia procinética. A medição do volume residual gástrico (VRG) para avaliação de
disfunção gastrointestinal é uma prática comum e pode ajudar a identificar intolerância à
nutrição enteral durante o início e a progressão da dieta; no entanto, o monitoramento
estabelecido com medições contínuas e rotineiras de VRG não é considerado necessário, e
a recomendação é adiar (não interromper definitivamente) a alimentação enteral apenas
quando o VRG for superior a 500 mL em 6 horas.
TEN 2022 (correlata) | Complicações da nutrição enteral: VRG, síndrome de realimentação
e posicionamento
Em relação às complicações da terapia nutrológica enteral, assinale a alternativa
incorreta:
A) Características relacionadas à fórmula enteral que contribuem para o esvaziamento
gástrico retardado são: infusão rápida da fórmula e uso de fórmula com alto teor de
lipídeo.
B) Diretrizes baseadas em evidências atuais sugerem o uso do volume gástrico
residual de rotina porque se correlaciona com a intolerância à nutrição enteral e
diminui a incidência de pneumonia associada ao ventilador.
C) A síndrome de realimentação pode ocorrer com todas as formas de nutrição
artificial, entretanto é mais frequente em pacientes em nutrição enteral.
D) O diagnóstico da síndrome de realimentação é caracterizado pela redução do nível
sérico de qualquer um dos eletrólitos fósforo, potássio e/ou magnésio, ocorrendo dentro
de 5 dias após a introdução ou aumento substancial da oferta energética.
E) Se a elevação da cabeceira da cama for contraindicada, a posição de Trendelenburg
reverso deve ser considerada para pacientes em alimentação gástrica.
Gabarito: letra B (alternativa incorreta, portanto a resposta pedida pelo
enunciado)
Atenção ao comando do enunciado: ele pede a alternativa incorreta, e é a letra B. As
diretrizes baseadas em evidências atuais não apoiam o uso rotineiro do volume
gástrico residual como medida confiável e isolada de intolerância à nutrição enteral,
tampouco como estratégia eficaz para reduzir a incidência de pneumonia associada à
ventilação mecânica. Monitorar clinicamente o paciente (distensão abdominal, vômitos,
dor) tem mais valor do que perseguir um número de VRG a cada poucas horas, e esse
é exatamente o mesmo raciocínio que sustenta a alternativa correta na Questão 67 de
2025, que veremos logo adiante.
As demais alternativas estão corretas e valem ser memorizadas em bloco: infusão
rápida e fórmulas com alto teor de lipídeo retardam o esvaziamento gástrico (alternativa
A); a síndrome de realimentação, apesar de poder ocorrer com qualquer forma de
nutrição artificial, é mais frequente na nutrição enteral, justamente por ser a via mais
utilizada e por permitir reintrodução mais rápida de nutrientes em pacientes
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previamente desnutridos (alternativa C); o diagnóstico de síndrome de realimentação
exige queda de fósforo, potássio e/ou magnésio dentro de 5 dias do início ou do
aumento substancial da oferta energética (alternativa D, e voltaremos a esse critério
com mais detalhe na seção de eletrólitos); e, quando a elevação da cabeceira está
contraindicada por alguma razão clínica, a posição de Trendelenburg reverso é uma
alternativa válida para reduzir risco de aspiração em pacientes recebendo dieta gástrica
(alternativa E).
TEN 2025 (correlata) | Progressão da infusão enteral, via transpilórica e resíduo gástrico
(Shils, 11ª edição)
De acordo com a obra Tratado de Nutrição Moderna na Saúde e na Doença (Shils, 11ª
edição), sobre a terapia nutricional enteral, é correto afirmar que:
A) A dieta enteral por via transpilórica pode ser administrada em bolus ou de forma
intermitente, com boa tolerância na maioria dos pacientes.
B) A dieta enteral deve ser suspensa se o resíduo gástrico estiver em torno de 200 mL,
mesmo na ausência de outros sinais de intolerância.
C) A nutrição enteral em bolus é considerada melhor tolerada que a infusão contínua,
pois respeita a liberação dos enterohormônios.
D) A infusão da dieta enteral pode ser progressivamente aumentada com
incrementos de 10 a 20 mL/h a cada 8 a 12 horas, desde que haja boa tolerância.
Gabarito: letra D
A progressão da nutrição enteral deve ser cautelosa para permitir adaptação do trato
gastrointestinal, especialmente em pacientes críticos ou já desnutridos. O protocolo
descrito pelo Shils é: iniciar com taxas baixas, tróficas, tipicamente entre 10 e 40 mL
por hora; se o paciente não apresentar sinais de intolerância (distensão, náuseas, dor
abdominal), a taxa pode ser aumentada em incrementos de 10 a 20 mL por hora a cada
8 a 12 horas, até atingir a meta calórico-proteica calculada. Essa abordagem gradual
minimiza tanto o risco de síndrome de realimentação quanto o risco de intolerância
gastrointestinal severa.
A alternativa A erra a via: a administração transpilórica (pós-pilórica) exige
obrigatoriamente infusão contínua. Como duodeno e jejuno não possuem a capacidade
de reservatório que o estômago tem, administrar em bolus ou de forma intermitente
nessa via causaria distensão súbita, cólicas e diarreia, um quadro semelhante à
síndrome de dumping.
A alternativa B erra o ponto de corte: tanto o Shils quanto as diretrizes modernas
(ASPEN/SCCM, ESPEN) desencorajam suspender a dieta baseando-se apenas num
volume de resíduo gástrico baixo, como 200 mL. A recomendação atual é não
suspender a dieta a menos que o VRG seja superior a 500 mL, ou que existam sinais
clínicos evidentes de intolerância, exatamente o mesmo limiar de 500 mL em 6 horas
que você já viu na questão anterior e que vai reaparecer ao longo de toda esta apostila.
A alternativa C inverte a lógica de tolerância no ambiente hospitalar: embora a nutrição
em bolus seja mais próxima do padrão fisiológico de alimentação e mais prática para
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pacientes estáveis em reabilitação domiciliar, a infusão contínua é, de fato, a melhor
tolerada no ambiente hospitalar e em pacientes críticos, porque reduz o risco de
aspiração pulmonar e de flutuações glicêmicas abruptas.
Passo 3: quando adiar a nutrição enteral, e quando usar dose baixa com
cautela
Existe um conjunto bem definido de situações em que a nutrição enteral deve ser
formalmente adiada, e memorizar essa lista é indispensável porque a prova constrói casos
clínicos inteiros só para testar se você reconhece essas contraindicações escondidas no
meio de um enunciado longo. A nutrição enteral deve ser adiada em: choque não
compensado, com metas hemodinâmicas e de perfusão tecidual ainda não alcançadas;
sangramento ativo do trato gastrointestinal superior; hipoxemia não controlada, hipercapnia
e acidose mantida; isquemia intestinal evidente; obstrução intestinal; síndrome do
compartimento abdominal; fístula intestinal de alto débito sem acesso alimentar confiável
distal à fístula; e volume de aspirado gástrico superior a 500 mL em 6 horas.
É importante notar que "adiar" não significa "jamais nutrir por essa via": quando a causa da
contraindicação é resolvida (por exemplo, o choque se torna controlado com fluidos e
vasopressores), a nutrição enteral em baixa dose pode ser iniciada, mantendo-se vigilância
ativa para sinais de isquemia intestinal. Da mesma forma, em caso de hipoxemia
descontrolada com risco de vida, a nutrição enteral pode ser iniciada assim que o paciente
atingir hipoxemia estável e hipercapnia/acidose compensadas ou permissivas; em
hemorragia digestiva alta ativa, a nutrição enteral pode ser iniciada quando o sangramento
parar e não houver sinais de ressangramento.
Existem ainda cenários específicos em que a nutrição enteral em baixa dose é
explicitamente recomendada, mesmo em situações que, à primeira vista, pareceriam
contraindicações: pacientes recebendo hipotermia terapêutica (aumentando a dose apenas
após o reaquecimento); pacientes com hipertensão intra-abdominal sem síndrome
compartimental abdominal estabelecida (considerando redução temporária ou
descontinuação apenas se a pressão intra-abdominal aumentar ainda mais sob a dieta); e
pacientes com insuficiência hepática aguda, uma vez controlados os distúrbios metabólicos
agudos e potencialmente fatais, independentemente do grau de encefalopatia hepática
presente.
Por outro lado, existe também um conjunto de cenários em que a nutrição enteral precoce
deve ser especificamente buscada, e não apenas tolerada: pacientes em ECMO;
traumatismo cranioencefálico; acidente vascular cerebral isquêmico ou hemorrágico; lesão
medular; pancreatite aguda grave (com as ressalvas que veremos na seção de populações
especiais); pós-operatório de cirurgia gastrointestinal e de cirurgia de aorta abdominal;
trauma abdominal, quando a continuidade do trato gastrointestinal está confirmada ou
restaurada; pacientes recebendo agentes bloqueadores neuromusculares; pacientes em
decúbito ventral (posição prona); e pacientes com abdome aberto, independentemente da
presença de ruídos intestinais, a menos que haja suspeita de isquemia ou obstrução
intestinal.
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⚠️ ARMADILHA DIAGNÓSTICA
Um erro recorrente é assumir que posição prona contraindica nutrição enteral. É
exatamente o oposto: a posição prona, mesmo sendo desconfortável de manejar do
ponto de vista de enfermagem, não é, por si só, contraindicação à dieta enteral. Isso foi
diretamente testado na Questão 48 de 2022, que você verá a seguir, onde a alternativa
que afirmava que a posição prona "impede" a dieta por sonda estava incorreta.
Contraindicações formais segundo a ESPEN: a lista que a prova cobra
literalmente
A questão 38 de 2023 cobrou, de forma quase literal, a lista de contraindicações formais da
nutrição enteral segundo a ESPEN, e por isso vale destacá-la separadamente antes de
seguir para o timing da nutrição parenteral.
TEN 2023 | Contraindicações da nutrição enteral no paciente crítico
Sobre nutrição enteral, suas características e indicações, assinale a alternativa correta:
A) De acordo com a Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) nº 21, de 2015, uma dieta
enteral com alto teor de fibras é aquela com quantidade de fibra superior ou igual a 2
gramas por 100 calorias.
B) Osmolalidade refere-se ao número de milimoles por litro de fluido ou solução,
enquanto que osmolaridade refere-se ao número de milimoles por quilo de água. O
termo mais usado para comparar as dietas enterais é a osmolalidade.
C) De acordo com a European Society for Clinical Nutrition and Metabolism, é
sugerido não iniciar a nutrição enteral nos pacientes críticos com sangramento
do trato gastrointestinal superior descontrolado, síndrome compartimental
abdominal e naqueles com presença de aspirado gástrico superior a 500 mililitros
em seis horas.
D) De acordo com a Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) nº 21, de 2015, a fórmula
enteral com densidade energética normal apresenta densidade energética maior ou
igual a 0,9 quilocaloria por mililitro e menor ou igual a 1,5 quilocaloria por mililitro.
Gabarito: letra C
A alternativa C reproduz exatamente a lista de contraindicações da ESPEN que você
acabou de estudar em detalhe: sangramento gastrointestinal superior descontrolado,
síndrome compartimental abdominal e aspirado gástrico superior a 500 mL em 6 horas.
Quando um enunciado citar qualquer um desses três achados como parte do quadro
clínico, a via enteral está, no mínimo, temporariamente contraindicada até resolução da
causa.
A alternativa B inverte propositalmente as definições de osmolalidade (número de
partículas osmoticamente ativas por quilograma de solvente, água) e osmolaridade
(número de partículas osmoticamente ativas por litro de solução). Vale gravar essa
inversão como uma pegadinha recorrente de nomenclatura, porque a banca gosta de
trocar essas duas definições exatamente nessa direção.
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As alternativas A e D trazem valores numéricos da RDC número 21 de 2015 (regulação
sanitária brasileira sobre fórmulas para nutrição enteral) que, no gabarito original desta
questão, foram considerados incorretos, com a densidade energética normal definida
como maior ou igual a 1,0 e menor ou igual a 2,0 kcal por mL, e não a faixa de 0,9 a 1,5
apresentada na alternativa D.
Passo 4: quando a nutrição parenteral entra em cena
A nutrição parenteral entra como estratégia quando a via oral e a via enteral estão
contraindicadas ou são inviáveis. Nessa situação, a recomendação geral é que a nutrição
parenteral seja implementada dentro de 3 a 7 dias, evitando a tentação de "nutrição plena
precoce", porque o guideline enfatiza que alimentação plena precoce, por qualquer via,
pode piorar desfechos, sobretudo pelo risco de sobrealimentação na fase aguda da doença
crítica. Esse é o ponto central de toda a lógica de timing da nutrição parenteral, e conecta-
se diretamente com o conceito de produção endógena de energia que você já estudou na
fisiopatologia: nos primeiros dias, o organismo já está produzindo entre 500 e 1400 kcal por
dia através do próprio catabolismo, e ofertar 100 por cento das necessidades por via
exógena, além disso, é sobrecarga desnecessária e potencialmente perigosa.
Além do timing geral, o guideline delimita com precisão o papel da nutrição parenteral
suplementar: quando o paciente não tolera nutrição enteral em dose plena durante a
primeira semana de internação, a decisão de iniciar nutrição parenteral complementar deve
ser individualizada, mas há consenso de que, diante de déficit prolongado, a suplementação
se torna necessária. O melhor momento exato para essa suplementação, visando cobrir as
necessidades completas, não está totalmente fechado na literatura, mas costuma ser
sugerido entre o 4º e o 7º dia de internação.
Existe ainda um cenário particular em que a nutrição parenteral pode ser antecipada,
mesmo respeitando a lógica de cautela: o paciente gravemente desnutrido, com
contraindicação formal à nutrição enteral. Nesse caso específico, a ESPEN admite nutrição
parenteral precoce e progressiva, em vez da alternativa de "nenhuma nutrição", desde que
administrada em baixa dose, cuidadosamente balanceada contra o risco simultâneo de
síndrome de realimentação e de sobrealimentação.
TEN 2022 | Momento da nutrição parenteral no paciente crítico pós-COVID
Paciente masculino de 55 anos, previamente hígido, Índice de Massa Corpórea (IMC)
24,5 kg/m2, há 7 dias iniciou com quadro respiratório e foi confirmado COVID-19, no
momento gravemente enfermo, internado em Unidade de Terapia Intensiva (UTI),
recebendo sedação com fentanil e midazolam, entubado em Assistência Ventilatória
controlada, curarizado e recebendo noradrenalina na dose de 1 mcg/kg/min por 4 dias
e hoje, no 5º dia de UTI, manteve pressão arterial média (PAM) estável maior que 70
mmHg com noradrenalina a 0,4 mcg/kg/min. Mantém jejum enteral desde a admissão
em UTI. Baseado nas últimas recomendações do Guideline de Paciente Crítico da
Sociedade Americana de Nutrição Enteral e Parenteral (ASPEN) de 2022, marque a
alternativa correta.
A) Devido ao jejum prolongado, a equipe deveria ter iniciado a nutrição parenteral nas
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primeiras 48 horas.
B) O uso da nutrição parenteral deveria ter sido iniciado após estabilização
hemodinâmica, por tratar-se de paciente com COVID-19.
C) Em paciente grave sem desnutrição prévia, a indicação de nutrição parenteral
poderia ser avaliada após o quinto ao sétimo dia em terapia intensiva, caso não
seja possível iniciar terapia enteral.
D) A dificuldade em realizar endoscopia digestiva nos pacientes de COVID e colocar
sonda em posição pós-pilórica (obrigatória em pacientes em ventilação mecânica) nos
indica uso precoce de nutrição parenteral.
E) A posição prona, muito utilizada em pacientes com COVID-19, impede o uso de
dieta via sonda enteral e indica uso de nutrição parenteral precoce.
Gabarito: letra C
Este caso é praticamente um manual de armadilhas. O paciente está no 5º dia de UTI,
previamente hígido (sem desnutrição prévia, dado explicitamente fornecido no
enunciado e que muda a conduta), hemodinamicamente estável há um dia com
noradrenalina em dose baixa e decrescente (0,4 mcg/kg/min, vindo de 1,0), e
permanece em jejum enteral desde a admissão, sem explicação no enunciado de por
que a via enteral não foi sequer tentada. A resposta correta reconhece que, em
paciente grave sem desnutrição prévia, a nutrição parenteral pode ser avaliada entre o
5º e o 7º dia de UTI, caso não seja possível iniciar a via enteral, exatamente a janela de
3 a 7 dias que você acabou de estudar.
A alternativa A erra por antecipar demais a nutrição parenteral: iniciar nas primeiras 48
horas não é recomendação geral, e muito menos em paciente sem desnutrição prévia,
para quem a prioridade deveria ter sido, antes de tudo, tentar a via enteral.
A alternativa B tenta associar COVID-19 a uma regra especial de estabilização
hemodinâmica antes da nutrição parenteral, mas essa exigência de estabilidade
hemodinâmica não é específica de COVID-19: ela é a mesma regra geral aplicável a
qualquer paciente crítico.
A alternativa D constrói uma falsa obrigatoriedade: a via pós-pilórica não é obrigatória
em pacientes ventilados mecanicamente (o acesso gástrico continua sendo o padrão,
como você viu), então a dificuldade técnica de passar sonda pós-pilórica em paciente
com COVID-19 não justifica, isoladamente, uso precoce de nutrição parenteral.
A alternativa E repete a armadilha da posição prona: ela não impede, por si só, o uso
de dieta enteral por sonda gástrica, e não é indicação de nutrição parenteral precoce.
Fixe esse ponto porque ele já apareceu de forma quase idêntica em mais de uma
prova.
Nutrição enteral pós-cirúrgica: o caso do paciente neurocirúrgico
TEN 2023 | Nutrição enteral precoce e nutrição parenteral na UTI (paciente neurocirúrgico)
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Nutro-TEN | Nutrologia no Paciente Crítico
Sobre terapia nutricional no paciente crítico marque a alternativa correta?
A) Pacientes oncológicos submetidos à drenagem de hematoma subdural em pós
operatório recebem terapia nutricional enteral precoce com sonda em posição
pós pilórica.
B) O Estudo Nutrire-2 demonstrou superioridade do uso de nutrição enteral precoce em
pacientes com disfunção intestinal e uso de drogas vasoativas, para evitar isquemia
intestinal.
C) O uso de nutrição parenteral suplementar deve ser indicado em paciente eutrófico
previamente ao trauma após 3 dias de nutrição enteral trófica, na primeira semana de
internação em UTI para atingir meta calórica e proteica alvo.
D) O uso de nutrição parenteral deve ser recomendado no terceiro dia de internação na
UTI em pacientes eutróficos antes da doença crítica.
Gabarito: letra A
Em pacientes neurológicos críticos, principalmente após procedimentos como
drenagem de hematoma subdural, a colocação de sonda em posição pós-pilórica pode
ser preferível justamente pelo risco aumentado de aspiração pulmonar e pelo atraso
comum no esvaziamento gástrico nesse subgrupo (frequentemente relacionado a
hipertensão intracraniana, sedação profunda e disfunção autonômica). Isso não
contradiz a regra geral de que o acesso gástrico é o padrão universal: é justamente a
exceção prevista dentro dessa mesma regra, aplicada a um paciente com fator de risco
específico para gastroparesia e aspiração.
As alternativas C e D tentam criar uma regra fixa e automática de "nutrição parenteral
obrigatória no terceiro dia", o que não existe como recomendação rígida: a decisão de
suplementar com nutrição parenteral depende do estado nutricional prévio do paciente,
da eficácia real da tolerância à via enteral, e da gravidade da doença crítica em curso,
nunca de um calendário fixo aplicado de forma automática independentemente do
contexto clínico.
A alternativa B cita um estudo (Nutrire-2) associado a uma conclusão que não
corresponde ao que a literatura estabelece: não existe recomendação universalmente
aceita de que nutrição enteral precoce, isoladamente, evite isquemia intestinal em
pacientes com disfunção intestinal e uso de drogas vasoativas; pelo contrário, esse é
justamente um subgrupo em que a introdução da dieta enteral exige cautela redobrada,
como você verá na seção sobre choque séptico.
Consolidando o algoritmo de via e timing
Situação clínica Conduta recomendada
Paciente capaz de comer com Via oral como primeira escolha; considerar insuficiente
segurança se cobrir menos de 70% da meta entre o dia 3 e o dia 7
Via oral insuficiente ou
Nutrição enteral precoce, idealmente em até 48 horas,
impossível, trato gastrointestinal
progressão gradual
funcionante
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Situação clínica Conduta recomendada
Choque não controlado,
hipoxemia/acidose
descompensadas, sangramento
Adiar nutrição enteral; reavaliar assim que a causa for
GI alto ativo, isquemia ou
controlada
obstrução intestinal, síndrome
compartimental abdominal, VRG
maior que 500 mL/6h
Hipotermia terapêutica,
hipertensão intra-abdominal sem
síndrome compartimental, Nutrição enteral em baixa dose, com vigilância
insuficiência hepática aguda
controlada
Contraindicação absoluta ou Nutrição parenteral, idealmente iniciada entre o 3º e o 7º
prolongada à via oral e enteral dia
Nutrição enteral tolerada, mas Avaliação individualizada de nutrição parenteral
insuficiente na 1ª semana suplementar, tipicamente entre o 4º e o 7º dia
Paciente gravemente desnutrido Nutrição parenteral precoce e progressiva, em baixa
com contraindicação à via enteral dose, vigiando refeeding e overfeeding
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Gasto energético, calorimetria indireta e quociente
respiratório
Este é, provavelmente, o subtema mais denso e mais recorrente de toda a prova dentro do
bloco de paciente crítico, e a razão é simples: calorimetria indireta e quociente respiratório
permitem à banca construir questões numéricas e interpretativas, não apenas questões de
memorização de listas. Se as seções anteriores exigiam saber o que fazer, esta seção
exige saber calcular e interpretar, e é exatamente aí que a maioria dos candidatos perde
pontos. Vamos construir o raciocínio de forma sequencial, dos fundamentos até os casos
evolutivos mais complexos que apareceram em 2025.
Por que a quantidade exata de calorias é difícil de definir
A quantidade exata de calorias a ser administrada a pacientes críticos é difícil de definir e
varia ao longo do tempo, e vários parâmetros precisam ser considerados simultaneamente
para chegar a uma recomendação justa: o estado nutricional do paciente antes da admissão
(magro, peso normal, sobrepeso ou obeso), eventual perda de peso significativa antes da
admissão, o número de dias de internação prévia à admissão na UTI, a produção endógena
de nutrientes por catabolismo e autofagia, o balanço energético do paciente ao longo da
internação, e a ocorrência (ou risco) de síndrome de realimentação no momento da
alimentação.
Em pacientes criticamente enfermos e ventilados mecanicamente, o gasto energético deve
ser determinado por calorimetria indireta, considerada o método padrão-ouro justamente
porque mede diretamente o consumo de oxigênio (VO2) e a produção de dióxido de
carbono (VCO2) em tempo real, eliminando os erros sistemáticos das equações preditivas
(como Harris-Benedict), que falham em estimar corretamente o gasto energético em até 60
por cento dos pacientes críticos, seja subestimando, seja superestimando o valor real. Se a
calorimetria indireta não estiver disponível, o uso do VO2 medido por cateter arterial
pulmonar, ou do VCO2 derivado do próprio ventilador mecânico, fornece uma estimativa
melhor do gasto energético do que as equações preditivas clássicas.
O quociente respiratório: a fórmula e o que ela realmente significa
O quociente respiratório (QR) é a razão entre o volume de dióxido de carbono produzido
(VCO2) e o volume de oxigênio consumido (VO2): QR igual a VCO2 dividido por VO2. Essa
razão não mede diretamente "quanta energia" o paciente está produzindo, nem está ligada
à taxa metabólica basal como um valor absoluto; ela reflete, isso sim, qual substrato
energético está sendo predominantemente oxidado pelo organismo naquele momento. Esse
é o primeiro ponto de confusão que a banca explora com frequência: QR não é sinônimo de
gasto energético, é um indicador de composição do substrato metabólico.
Valor de QR
Substrato predominante Interpretação prática
esperado
Predomina em jejum prolongado,
Lipídios (beta-oxidação) Próximo de 0,7 estresse metabólico intenso,
subalimentação
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Valor de QR
Substrato predominante Interpretação prática
esperado
Entre 0,7 e 0,85
Mistura equilibrada de Faixa fisiológica esperada na maioria
(tipicamente cerca de
substratos dos pacientes críticos bem manejados
0,8 para proteínas)
Consumo predominante de glicose;
Carboidratos Próximo de 1,0 VCO2 e VO2 em proporções
praticamente iguais
Lipogênese de novo Excesso calórico sendo convertido em
Maior que 1,0
(sobrealimentação) gordura; sinal de overfeeding
Entre
Intermediário e variável conforme
Álcool aproximadamente
condições metabólicas associadas
0,67 e 0,9
Um erro fisiológico importante para desfazer logo de início: no metabolismo predominante
de gorduras (beta-oxidação), o QR é baixo, próximo de 0,7, e não alto. A beta-oxidação
consome uma quantidade relativamente maior de oxigênio para cada molécula de dióxido
de carbono produzida, exatamente porque a molécula de ácido graxo tem uma proporção
de átomos de carbono para átomos de oxigênio muito menor do que a glicose, o que exige
mais O2 externo para completar a oxidação. Já os carboidratos, por já conterem uma
proporção maior de oxigênio na própria molécula, geram CO2 e consomem O2 em
proporções praticamente equivalentes, resultando em QR próximo de 1.
TEN 2022 (correlata) | Calorimetria indireta e gasto energético: fundamentos do QR
Com relação à calorimetria indireta e gasto energético, assinale a alternativa correta:
A) Em indivíduos que estão em consumo predominante de carboidratos, espera-se o
Quociente Respiratório (QR) próximo a 1 devido à diminuição importante do VCO2
produzido em comparação ao VO2 consumido.
B) No paciente gravemente enfermo é esperado, no primeiro momento, a diminuição
fisiológica do seu consumo energético devido ao aumento da temperatura basal,
aumento do consumo de oxigênio e diminuição das atividades enzimáticas.
C) Devido à cascata metabólica de beta-oxidação, espera-se que indivíduos que
estejam predominantemente produzindo energia por essa via metabólica apresentem o
QR maior ou igual a 0,85.
D) É possível avaliar o gasto energético em pacientes em suporte ventilatório mecânico
somente se a Pressão Positiva Expiratória Final (PEEP) estiver menor do que 5
cmH2O.
E) No cálculo do QR deve-se levar em consideração o VO2 consumido e o VCO2
produzido, sendo efetuada a razão onde o VCO2 é o numerador e o VO2 é o
denominador. O consumo dos substratos energéticos de forma mista e
equilibrada indica um consumo de VO2 cerca de 15% maior do que a produção de
VCO2.
Gabarito: letra E
A alternativa correta acerta a fórmula (QR igual a VCO2 sobre VO2) e descreve
corretamente que, num consumo misto e equilibrado de substratos, o VO2 consumido é
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cerca de 15 por cento maior do que o VCO2 produzido, o que é matematicamente
coerente com um QR fisiológico em torno de 0,8 a 0,85 (se VO2 é 15 por cento maior
que VCO2, a razão VCO2/VO2 fica, de fato, abaixo de 1, na faixa esperada para
metabolismo misto).
A alternativa A contém um erro conceitual grave: no consumo predominante de
carboidratos, o QR se aproxima de 1 devido a um aumento no VCO2 produzido em
relação ao VO2 consumido (não uma diminuição, como afirma a alternativa).
A alternativa B descreve exatamente o oposto do que ocorre na fase Flow do paciente
grave: nessa fase espera-se aumento (não diminuição) do gasto energético, por
aumento de temperatura, de consumo de oxigênio e de atividade enzimática. Se você
já internalizou bem a seção de fisiopatologia (Ebb e Flow), esse erro salta aos olhos
imediatamente.
A alternativa C erra o valor de QR esperado na beta-oxidação: deveria ser menor que
0,7 (predomínio de gordura), não maior ou igual a 0,85, que já seria compatível com
metabolismo misto tendendo a carboidratos.
A alternativa D cria uma restrição inexistente sobre PEEP: a calorimetria indireta pode
ser realizada em pacientes com diferentes níveis de PEEP, desde que sejam tomadas
precauções técnicas para evitar vazamentos de ar no circuito e garantir a precisão das
medições, sem um limite fixo de 5 cmH2O.
TEN 2023 (correlata) | Calorimetria indireta em condições clínicas específicas
A Calorimetria Indireta é o padrão ouro clínico para a estimativa do gasto energético.
Considerando o exame, assinale a alternativa correta:
A) Na fibrose cística observa-se a diminuição da Taxa Metabólica de Repouso (TMR),
sendo que o Quociente Respiratório (QR) mantém-se inalterado.
B) Na acidose metabólica espera-se a diminuição da produção de Dióxido de Carbono
(VCO2) e do Quociente Respiratório (QR).
C) Na sepse, no coma e na hipotermia é comum ter o aumento do consumo de
Oxigênio (VO2).
D) Na alcalose metabólica e na cetose são esperados a diminuição da produção
de Dióxido de Carbono (VCO2) e do Quociente Respiratório (QR).
Gabarito: letra D
A alternativa correta descreve corretamente que, na alcalose metabólica e na cetose,
há menor produção de CO2 e, portanto, QR reduzido, coerente com as alterações no
metabolismo dos substratos e na ventilação que acompanham esses dois estados.
A alternativa A erra a direção do efeito na fibrose cística: o esperado é aumento (não
diminuição) da taxa metabólica de repouso, por conta do estado inflamatório crônico e
do maior trabalho respiratório característico da doença.
A alternativa B erra a direção do efeito na acidose metabólica: a produção de CO2
geralmente aumenta, e não diminui, porque a ventilação aumenta compensatoriamente
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Nutro-TEN | Nutrologia no Paciente Crítico
para tentar corrigir o pH (mecanismo de Kussmaul, por exemplo).
A alternativa C mistura três condições com respostas metabólicas opostas dentro de
uma mesma afirmação: na sepse, o VO2 tipicamente aumenta pela resposta
hipermetabólica ao estresse infeccioso, mas no coma e na hipotermia o metabolismo
tende a diminuir, resultando em menor consumo de oxigênio. É um exemplo clássico de
alternativa que junta um fato verdadeiro (sepse) com dois fatos falsos (coma e
hipotermia) na mesma frase, esperando que o candidato generalize incorretamente a
partir do primeiro termo.
TEN 2024 (correlata) | Fórmula do QR e comparação entre substratos
Com relação à Calorimetria Indireta, marque a opção correta:
A) O Quociente Respiratório (QR) é a razão entre o Volume de Dióxido de Carbono
Produzido (VCO2) e o Volume Total de Gás Inspirado (VT).
B) O Quociente Respiratório (QR) representa a quantidade total de energia produzida e
a demanda para a manutenção dos sistemas vitais, expressada em Taxa Metabólica
Basal (TMB).
C) No metabolismo do álcool é esperado que o Quociente Respiratório (QR) fique
próximo a 1.
D) No metabolismo das gorduras para geração de energia produzem-se menos
Dióxido de Carbono (VCO2) do que na metabolização dos carboidratos,
considerando o mesmo Volume de Oxigênio (VO2).
Gabarito: letra D
Esta questão consolida exatamente o raciocínio bioquímico por trás da tabela que você
acabou de estudar: para um mesmo volume de oxigênio consumido, a oxidação de
gorduras produz menos CO2 do que a oxidação de carboidratos, o que explica por que
o QR de gorduras (cerca de 0,7) é mais baixo que o de carboidratos (cerca de 1,0).
Proteínas ficam numa posição intermediária, com QR médio próximo de 0,8.
A alternativa A erra o denominador da fórmula: o QR é VCO2 sobre VO2, e não VCO2
sobre o volume total de gás inspirado (VT), que é um parâmetro ventilatório
completamente diferente.
A alternativa B tenta transformar o QR num indicador de energia total e de taxa
metabólica basal, mas ele não mede diretamente energia produzida nem está ligado à
TMB: ele reflete apenas o substrato metabólico predominante, exatamente a distinção
conceitual que abre esta seção.
A alternativa C erra o valor do QR do álcool, que fica entre aproximadamente 0,67 e 0,9
dependendo das condições metabólicas associadas, e não próximo de 1.
🎯 PONTO DE PROVA
Estas três questões correlatas (2022, 2023 e 2024) formam, juntas, um verdadeiro
simulado de fundamentos de calorimetria indireta. Se você conseguir responder as três
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Nutro-TEN | Nutrologia no Paciente Crítico
de memória, sem hesitação, já está à frente da maioria dos candidatos neste subtema.
Grave a fórmula (QR = VCO2/VO2), os três valores de referência (gordura próxima de
0,7, misto entre 0,7 e 0,85, carboidrato próximo de 1,0, e sobrealimentação acima de
1,0), e o fato de que QR não mede energia total, mede substrato predominante.
Hipocaloria na fase aguda: quanto ofertar e por quê
Se há consenso de que a sobrealimentação deve ser evitada, permanece mais difícil definir
exatamente quais metas calóricas devem ser propostas em cada fase da doença crítica. O
ponto de partida conceitual é este: o gasto energético real não deve ser o alvo durante as
primeiras 72 horas da doença crítica aguda. A alimentação completa e precoce causa
sobrealimentação justamente porque, nesse período, a produção endógena de energia
(pelo próprio catabolismo, como você estudou na fisiopatologia) já é elevada, podendo
chegar a 500 a 1400 kcal por dia. Somar a isso uma oferta exógena plena resulta em
excesso calórico real, mesmo que a prescrição pareça, à primeira vista, "adequada" para o
peso do paciente.
A alimentação completa precoce também aumenta o risco de síndrome de realimentação
(que você verá em detalhe na seção específica de eletrólitos). Por outro lado, uma ingestão
muito baixa, abaixo de 50 por cento das necessidades, também é prejudicial: pode levar a
um grave déficit calórico, esvaziar as reservas energéticas, reduzir a massa corporal magra
e aumentar as complicações infecciosas. O objetivo, portanto, não é "alimentar pouco" por
princípio, é acertar a dose certa em cada fase, evitando os dois extremos.
A diretriz recomenda, na fase aguda inicial, nutrição hipocalórica, com oferta energética não
excedendo 70 por cento do gasto energético medido por calorimetria indireta, deixando
explícito que o gasto energético real não deve ser o alvo nas primeiras 72 horas. Se
equações preditivas forem usadas (na ausência de calorimetria indireta) para estimar a
necessidade de energia, a nutrição hipocalórica, definida como abaixo de 70 por cento das
necessidades estimadas, deve ser preferida à nutrição isocalórica durante toda a primeira
semana de internação na UTI, e não apenas nos primeiros três dias.
À medida que o paciente evolui para uma fase de maior estabilidade, orienta-se uma
transição gradual para um perfil mais próximo do isocalórico, preferencialmente guiado por
medida objetiva quando disponível. Após o terceiro dia, se a calorimetria indireta estiver
sendo usada, a oferta energética pode ser aumentada para 80 a 100 por cento do gasto
energético medido, reconhecendo que tanto a subalimentação quanto a sobrealimentação
persistentes são igualmente deletérias nessa fase mais avançada.
💊 PRESCRIÇÃO PRÁTICA
Como regra prática geral no paciente crítico, iniciar o aporte calórico com 8 a 10 kcal
por kg por dia, progredindo para 18 a 25 kcal por kg por dia após 5 a 7 dias. O conceito
central a memorizar é: iniciar a terapia nutrológica nas primeiras 48 a 72 horas com
aporte baixo, e progredir gradualmente a partir daí. Fonte: ESPEN Practical Guideline,
Clinical Nutrition in the Intensive Care Unit.
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Interpretando calorimetria indireta em casos evolutivos: o par de
questões da prova de 2025
As questões 69 e 70 de 2025 formam, juntas, o exemplo mais sofisticado de cobrança de
calorimetria indireta já visto na prova, porque tratam do mesmo paciente em dois momentos
evolutivos diferentes, exigindo que o candidato reinterprete a conduta conforme o quadro
muda. Vale estudar as duas em sequência, exatamente como a banca as apresentou,
porque o contraste entre elas é o verdadeiro objeto de ensino aqui.
TEN 2025 | Calorimetria indireta no grande queimado: fase de déficit calórico
Paciente do sexo masculino, 23 anos, internado por queimadura que acomete 57% da
superfície corporal. No 5º dia de internação, encontra-se em ventilação mecânica com
fração inspirada de oxigênio (FiO2) de 45%, sedado, hemodinamicamente estável e
sem uso de drogas vasoativas. Está em terapia nutrológica enteral, recebendo 2.200
kcal e 120 g de proteína por dia. Faz uso de insulina em bomba de infusão contínua
(BIC) a 0,5 UI/h. Peso atual: 95 kg; peso habitual: 78 kg (índice de massa corporal
habitual: 24,9 kg/m²). Foi realizada calorimetria indireta (CI) com os seguintes
resultados: gasto energético de repouso (GER) de 2.571 kcal e quociente respiratório
(QR) de 0,75. Com base no resultado da CI, qual a melhor conduta para a terapia
nutrológica neste momento?
A) Otimizar aporte proteico para 2,0 g/kg de peso atual.
B) Otimizar o aporte energético para 2.600 kcal/dia.
C) Desconsiderar o resultado da CI pois houve erro no exame.
D) Otimizar o aporte energético para 3.100 kcal (1,2 vezes o GER).
Gabarito: letra B
No 5º dia de internação, já dentro da fase Flow e após a fase aguda inicial de 72 horas,
o alvo passa a ser aproximar-se de 100 por cento do gasto energético de repouso
medido. O paciente recebe 2.200 kcal e o GER medido é 2.571 kcal, ou seja, ele está
em déficit calórico de cerca de 370 kcal por dia. A conduta correta é ajustar o aporte
para próximo do valor medido, cerca de 2.600 kcal por dia.
O quociente respiratório de 0,75 reforça essa leitura e não indica nenhum erro do
exame: um QR próximo de 0,7 a 0,75 indica oxidação predominante de lipídios,
exatamente o que se espera num paciente que está recebendo menos energia
exógena do que gasta, e que precisa mobilizar reservas endógenas de gordura para
compensar o déficit. Um QR nessa faixa confirma que o paciente não está sendo
sobrealimentado (o que geraria QR acima de 1,0).
A alternativa A foca em proteína (2,0 g/kg de peso atual) quando a pergunta pede
especificamente a conduta baseada no resultado da calorimetria indireta, que mede
energia, não proteína. Além disso, usar o peso atual de 95 kg (inflado por edema e
reposição volêmica extensa, muito acima do peso habitual de 78 kg) para calcular a
meta proteica tenderia a superestimar a necessidade real.
A alternativa C está errada porque o exame é tecnicamente confiável: FiO2 de 45 por
cento está dentro do limite operacional da maioria dos calorímetros modernos
(geralmente confiáveis até cerca de 60 por cento de FiO2), e o QR de 0,75 é
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Nutro-TEN | Nutrologia no Paciente Crítico
biologicamente plausível e consistente com o quadro clínico descrito.
A alternativa D reproduz uma prática em desuso: multiplicar o valor medido pela
calorimetria por um "fator de injúria" arbitrário (como 1,2 ou 1,5). A recomendação atual
é não aplicar fatores de correção sobre um valor já medido diretamente em pacientes
sedados e ventilados mecanicamente, justamente para não induzir sobrealimentação
iatrogênica.
TEN 2025 | Quociente respiratório e sobrealimentação: mesmo paciente, fase de recuperação
Ainda sobre o caso anterior. O paciente encontra-se no 21º dia de internação, em
ventilação espontânea e hemodinamicamente estável sem uso de drogas vasoativas.
Foi iniciado propranolol. Ainda recebendo terapia nutrológica enteral que oferta 2.700
kcal e 140 g de proteína. Peso atual: 78,2 kg. Realizada nova calorimetria indireta (CI)
com os seguintes resultados: Gasto energético de repouso (GER): 2.139 kcal e
Quociente Respiratório (QR): 1,1. Com base no resultado da CI qual a melhor conduta
para a terapia nutrológica neste momento?
A) Desconsiderar o resultado da CI pois houve erro no exame.
B) Otimizar o aporte energético para 3.200 kcal/dia (1,5 vezes o GER).
C) Reduzir o aporte energético para 2.300 kcal/dia (cerca de 1,1 vezes o GER).
D) Otimizar o aporte proteico para 155 g/dia.
Gabarito: letra C
Entre a questão 69 e esta, dois dados fundamentais mudaram: o quociente respiratório
subiu de 0,75 para 1,1, e o paciente iniciou uso de propranolol. Um QR maior que 1,0 é
o sinal clássico de sobrealimentação: quando a oferta calórica excede a capacidade de
oxidação do organismo, ocorre lipogênese de novo, ou seja, conversão do excesso de
glicose em gordura. Esse processo produz uma quantidade excessiva de CO2, o que
eleva o QR acima de 1, e no contexto clínico pode sobrecarregar o sistema respiratório
e dificultar o desmame da ventilação mecânica (embora, neste caso, o paciente já
esteja em ventilação espontânea).
O propranolol explica a queda do gasto energético medido: em grandes queimados, o
uso de betabloqueadores é uma estratégia terapêutica reconhecida para atenuar a
resposta hipermetabólica severa característica da fase Flow, reduzindo frequência
cardíaca e gasto energético de repouso. Isso explica por que o GER caiu de 2.571 kcal
(na questão anterior) para 2.139 kcal agora, mesmo o paciente estando clinicamente
mais recuperado.
Como o paciente está recebendo 2.700 kcal e seu gasto medido é de apenas 2.139
kcal, com sinal claro de sobrecarga metabólica no QR, a conduta correta é reduzir o
aporte calórico, aproximando-o do gasto medido (cerca de 2.300 kcal, um pouco acima
de 100 por cento do GER, permitindo margem mínima para termogênese sem manter o
estado de sobrealimentação).
A alternativa A está errada pelo mesmo motivo da questão anterior: QR de 1,1 não
indica erro técnico, é uma resposta biológica esperada ao excesso de calorias; erros
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técnicos verdadeiros do exame costumam gerar valores fora da faixa fisiológica
plausível (abaixo de 0,6 ou acima de aproximadamente 1,3).
A alternativa B agravaria drasticamente a esteatose hepática, a hiperglicemia e a
produção de CO2, sendo uma conduta perigosa justamente no sentido oposto ao que o
exame está indicando.
A alternativa D foca em proteína quando o problema identificado pela calorimetria é
especificamente energético (excesso de calorias, provavelmente de carboidratos e/ou
lipídios), não proteico. A prioridade clínica imediata é corrigir o excesso calórico
responsável pelo QR elevado.
Parâmetro 5º dia (fase aguda tardia) 21º dia (fase de recuperação)
2.139 kcal (reduzido pelo
GER medido 2.571 kcal (relativamente alto)
propranolol)
0,75 (oxidação de gordura, 1,1 (lipogênese,
QR
coerente com déficit) sobrealimentação)
Oferta recebida 2.200 kcal (déficit) 2.700 kcal (excesso)
Situação Déficit calórico Excesso calórico (overfeeding)
Aumentar a oferta para próximo Reduzir a oferta para próximo
Conduta correta
do GER medido do GER medido
🎯 PONTO DE PROVA
O padrão de raciocínio que resolve qualquer questão de calorimetria evolutiva na prova
é sempre o mesmo: compare a oferta atual com o GER medido, e use o QR como
confirmação da direção do erro. Oferta abaixo do GER com QR baixo (perto de 0,7)
confirma déficit calórico, oxidação de gordura endógena, e a conduta é aumentar a
oferta. Oferta acima do GER com QR alto (acima de 1,0) confirma excesso calórico,
lipogênese, e a conduta é reduzir a oferta. Nunca desconsidere o exame como erro
técnico só porque o valor de QR parece "estranho": só cogite erro técnico diante de
valores biologicamente implausíveis, fora da faixa aproximada de 0,6 a 1,3, e mesmo
assim apenas quando não houver explicação clínica coerente para o achado.
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Proteína no paciente crítico: metas, timing e o EFFORT
Trial
Por que a proteína segue uma lógica diferente da energia
Um dos pontos mais importantes deste bloco inteiro, e que a prova cobra explicitamente, é
que os requisitos de energia e de proteína não podem mudar de forma paralela: eles
precisam ser considerados separadamente. Embora uma entrega de energia muito grande
possa levar à sobrealimentação e à síndrome de realimentação, sendo por isso deletéria
(como você viu em detalhe na seção anterior), o aumento da entrega de proteína pode ser
benéfico em pacientes gravemente enfermos, mesmo enquanto a oferta calórica permanece
controlada e hipocalórica. Essa dissociação entre a curva de progressão de energia
(cautelosa, gradual, hipocalórica na fase aguda) e a curva de progressão de proteína (mais
assertiva desde cedo) é um conceito que separa quem entende a fisiologia de quem apenas
memorizou números soltos.
O racional fisiológico para essa dissociação está diretamente ligado ao que você estudou na
fisiopatologia: o músculo compreende o maior reservatório de proteínas do corpo, e a
doença crítica está associada a proteólise acentuada e perda muscular que pode chegar a
até 1 kg por dia nos quadros mais graves, perda que está diretamente associada à fraqueza
adquirida na UTI. Uma maior ingestão de proteína, combinada com atividade física precoce
(mobilização e fisioterapia), pode ser necessária para superar a resistência anabólica que
acompanha tanto a idade avançada quanto a própria doença crítica em curso.
A meta geral: 1,3 g/kg/dia, entregue progressivamente
Durante a doença crítica, cerca de 1,3 g/kg equivalentes de proteína por dia pode ser
entregue de forma progressiva, e não em bolo único desde o primeiro dia. O momento ideal
exato de início da oferta proteica plena ainda não é totalmente claro na literatura: um estudo
retrospectivo de Weijs e colaboradores encontrou que a ingestão precoce de proteína, na
ordem de 1,2 g/kg/dia já a partir do quarto dia, esteve associada a melhor sobrevida em
pacientes não sépticos e não sobrealimentados, sugerindo que, nesse subgrupo específico,
antecipar a proteína pode trazer benefício real.
💊 PRESCRIÇÃO PRÁTICA
Meta proteica geral no paciente crítico: aproximadamente 1,3 g/kg/dia, entregue de
forma progressiva ao longo dos primeiros dias de internação. Fonte: ESPEN Practical
Guideline, Clinical Nutrition in the Intensive Care Unit. Em populações especiais (renal
agudo em terapia dialítica, obeso crítico, grande queimado), essa meta se altera de
forma relevante, como você verá na seção de populações especiais.
O EFFORT Trial: quando mais proteína deixa de ser sinônimo de melhor
O EFFORT Trial ("The effect of higher protein dosing in critically ill patients with high
nutritional risk"), publicado na revista The Lancet em janeiro de 2023, é hoje uma das
referências mais cobradas neste subtema, e por um motivo pedagogicamente interessante:
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ele desafia a intuição de que "mais proteína é sempre melhor" no paciente crítico, pelo
menos em determinados subgrupos de risco. Trata-se de um estudo multicêntrico
randomizado, e não de centro único como alguma alternativa de prova já tentou insinuar,
que comparou desfechos entre uma estratégia de oferta proteica elevada e uma estratégia
de oferta proteica moderada em pacientes críticos classificados como de alto risco
nutricional.
O resultado geral do estudo, considerando a população completa, não demonstrou
vantagem significativa de sobrevida ou de outros desfechos primários com a oferta elevada
de proteína, em comparação com a oferta moderada. Mas o achado mais relevante, e mais
cobrado em prova, veio de uma análise de subgrupo: pacientes que receberam oferta
proteica maior ou igual a 2,2 g/kg/dia e que se apresentavam, já na admissão, com
insuficiência renal aguda (estágios I a III) associada a escore SOFA maior ou igual a 9,
tiveram piores desfechos clínicos quando comparados aos que receberam oferta proteica
menor. Esse achado sugere que o suporte proteico excessivo pode ser francamente
prejudicial em condições de comprometimento metabólico severo e disfunção orgânica
múltipla, como acontece nessa combinação específica de injúria renal aguda com gravidade
elevada medida pelo SOFA.
TEN 2024 | EFFORT Trial e alta oferta proteica
Em relação ao estudo científico Effort Trial (The effect of higher protein dosing in
critically ill patients with high nutritional risk), publicado na revista "The Lancet" em
Janeiro de 2023, responda a alternativa correta:
A) Trata-se de um estudo randomizado, de centro único, que comparou os desfechos
de uma oferta proteica maior ou igual a 2,2g/Kg/dia, com uma oferta proteica menor ou
igual a 0,8g/Kg/dia em pacientes críticos.
B) Análise de subgrupo sugeriu que, aqueles pacientes que receberam oferta
proteica maior ou igual a 2,2g/Kg/dia e se apresentavam na admissão com
insuficiência renal aguda (estágios I-III) e SOFA (Sequential Organ Failure
Assessment) maior ou igual a 9, tinham piores desfechos.
C) O Effort Trial mostrou que pacientes críticos que receberam doses maiores de
proteína, quando comparado com aqueles que receberam doses menores, tiveram
maiores chances de receberem alta do hospital com vida.
D) 90% do tamanho amostral do estudo foi composto por pacientes politraumatizados e
grande queimados.
Gabarito: letra B
Já detalhamos acima exatamente o racional desta alternativa: subgrupo de insuficiência
renal aguda em estágios I a III combinado a SOFA maior ou igual a 9, recebendo oferta
proteica maior ou igual a 2,2 g/kg/dia, apresentou piores desfechos. Grave essa
combinação de três elementos (IRA + SOFA alto + proteína muito elevada) como o
núcleo exato do que a prova cobra sobre este estudo.
A alternativa A erra dois fatos estruturais do desenho do estudo: o EFFORT Trial foi
multicêntrico, não de centro único, e a comparação não se limitou a um grupo com
oferta tão baixa quanto 0,8 g/kg/dia como referência de comparação principal.
A alternativa C inverte o resultado geral do estudo: não houve demonstração de
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melhora significativa em alta hospitalar com vida associada a doses maiores de
proteína; na verdade, como você acabou de ver, doses mais elevadas se associaram a
piores desfechos no subgrupo de maior gravidade renal e sistêmica.
A alternativa D erra a composição da amostra: a população do EFFORT Trial foi
heterogênea, e não predominantemente composta por pacientes politraumatizados e
grandes queimados.
⚠️ ARMADILHA DIAGNÓSTICA
A armadilha central do EFFORT Trial em prova é o candidato responder "mais proteína
é sempre melhor" de forma automática, porque essa é a lógica que domina a maior
parte do restante do tema (o guideline geral recomenda progressão da proteína,
populações como renal em diálise e grande queimado recebem metas ainda mais altas,
como você verá adiante). O EFFORT Trial é justamente a exceção que prova que essa
lógica tem limite: em pacientes com disfunção orgânica múltipla grave (SOFA muito
elevado) combinada a injúria renal aguda, empurrar a proteína para valores muito altos
(2,2 g/kg/dia ou mais) pode piorar, e não melhorar, o desfecho.
Guardando o raciocínio completo sobre proteína
Feche este subtema com a seguinte síntese mental: a meta geral de proteína no paciente
crítico gira em torno de 1,3 g/kg/dia, entregue progressivamente e de forma independente
da curva de energia (que é hipocalórica na fase aguda). Em populações especiais de maior
perda proteica (diálise, terapia renal substitutiva contínua, grande queimado), essa meta
sobe, como você verá na próxima seção. Mas essa lógica de "quanto mais proteína,
melhor" tem um limite claro e demonstrado pelo EFFORT Trial: em pacientes com disfunção
orgânica múltipla grave e injúria renal aguda associadas, ofertas muito elevadas (2,2
g/kg/dia ou mais) podem ser prejudiciais, e a individualização da meta proteica conforme o
perfil de gravidade do paciente é, hoje, parte central do raciocínio esperado pela banca.
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Carboidratos, lipídios e propofol: a fonte calórica que
costuma passar despercebida
Limites de carboidratos e lipídios na terapia nutricional
A quantidade de glicose administrada na nutrição parenteral, ou de carboidratos
administrados na nutrição enteral, não deve exceder 5 mg por kg por minuto em pacientes
de UTI. Esse limite existe por causa da resistência insulínica característica do estresse
metabólico agudo: ultrapassá-lo aumenta o risco de hiperglicemia e de lipogênese
excessiva, o mesmo fenômeno que você viu elevando o quociente respiratório acima de 1,0
na seção anterior.
As emulsões lipídicas intravenosas geralmente devem fazer parte da nutrição parenteral
desde o início. Os lipídios intravenosos, incluindo fontes lipídicas não nutricionais (e aqui
entra o propofol, como você verá a seguir), não devem exceder 1,5 g de lipídios por kg por
dia, com a recomendação de referência situando-se em torno de 1,0 g por kg por dia como
meta central e tolerância de até 1,5 g por kg por dia, sempre adaptada à tolerância
individual do paciente. A composição ideal de macronutrientes é, portanto, definida por
requisitos mínimos e por limites superiores bem estabelecidos, e não apenas por um valor
único fixo.
Propofol: sedativo, mas também fonte calórica lipídica
Este é um dos pontos mais repetidos da prova dentro de todo o bloco de paciente crítico, e
por uma razão prática muito concreta: o propofol é formulado como uma emulsão lipídica a
10 por cento, composta principalmente por triglicerídeos de cadeia média e longa, para
viabilizar sua administração intravenosa. Isso significa que a infusão contínua de propofol
para sedação, extremamente comum em pacientes ventilados mecanicamente, contribui de
forma direta e muitas vezes esquecida para a ingestão lipídica e calórica total do paciente, e
esse aporte precisa ser contabilizado no cálculo total de lipídios, especialmente em
pacientes que já estão recebendo emulsões lipídicas como parte da nutrição parenteral.
💊 PRESCRIÇÃO PRÁTICA
Densidade energética do propofol: 1,1 kcal por mL (não 1,25 kcal por mL, valor que a
banca já usou mais de uma vez como distrator). Para conversão prática de doses de
infusão contínua em kcal por dia: multiplique a taxa de infusão em mL por hora por 1,1
kcal, e depois por 24 horas. O aporte lipídico total do paciente, incluindo o propofol, não
deve exceder o limite recomendado de 1,5 g de lipídios por kg por dia, e a
monitorização de triglicerídeos séricos é indicada em uso prolongado ou de altas doses.
Além de representar uma fonte calórica lipídica relevante, o propofol tem sido associado a
casos de pancreatite aguda, especialmente em pacientes que recebem infusões
prolongadas e em altas doses. O mecanismo exato pelo qual o propofol causa pancreatite
ainda não é totalmente compreendido, mas há hipóteses relacionando esse efeito à indução
de disfunção mitocondrial nas células pancreáticas, possivelmente potencializada pela
própria carga lipídica sustentada que a infusão contínua representa.
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TEN 2022 | Propofol, hipertrigliceridemia e pancreatite na UTI
Homem de 46 anos internado em UTI devido Síndrome do Desconforto Respiratório
Agudo grave por COVID-19, sob ventilação mecânica invasiva, desenvolve quadro de
pancreatite aguda. Exames laboratoriais: amilase 970 U/L, lipase 710 U/L, triglicerídeos
1400 mg/dL. Qual das medicações abaixo tem maior associação a este quadro clínico?
A) Midazolam
B) Fentanil
C) Quetamina
D) Propofol
E) Norepinefrina
Gabarito: letra D
Os três achados laboratoriais do enunciado (amilase e lipase muito elevadas,
confirmando pancreatite aguda, e triglicerídeos em 1400 mg/dL, uma
hipertrigliceridemia grave) apontam diretamente para o propofol como causa mais
provável: a infusão prolongada e em altas doses, comum em pacientes com SDRA
grave por COVID-19 sob ventilação mecânica invasiva, gera exatamente esse padrão
de hipertrigliceridemia grave associada a pancreatite aguda.
Nenhuma das outras opções tem associação relevante com pancreatite aguda pelo
mesmo mecanismo: midazolam (benzodiazepínico), fentanil (opioide) e quetamina
(anestésico dissociativo) são usados para sedação e analgesia, mas não carregam
carga lipídica significativa nem êm associação estabelecida com pancreatite;
norepinefrina é um vasoconstritor usado no tratamento de hipotensão e choque, sem
relação com esse quadro.
Propofol como emulsão lipídica: o cálculo obrigatório na nutrição
parenteral
A mesma lógica de "propofol como fonte lipídica oculta" reaparece de forma explícita em
uma questão pediátrica, reforçando que esse conceito não é restrito ao adulto: sempre que
houver infusão contínua de propofol num paciente que também recebe (ou pode vir a
receber) nutrição parenteral, o aporte lipídico do sedativo precisa ser somado ao aporte
lipídico da própria fórmula parenteral, sob risco de ultrapassar o limite seguro de 1,5 g por
kg por dia sem que a equipe perceba.
TEN 2024 | Propofol como emulsão lipídica na UTI pediátrica
Pacientes internados em UTIP (Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica) que estão em
uso de infusão contínua para sedação, deve-se lembrar que existe um medicamento
que é considerado uma emulsão lipídica a 10%, e isto deve ser considerado no cálculo
da Nutrição Parenteral. Qual é o medicamento?
A) Cetamina.
B) Midazolam.
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C) Propofol.
D) Fentanil.
Gabarito: letra C
Repetição direta do conceito: propofol é formulado em emulsão lipídica a 10 por cento
e, por isso, contribui para a ingestão lipídica total do paciente, precisando entrar no
cálculo do aporte de lipídios da nutrição parenteral. Nenhum dos outros três fármacos
(cetamina, midazolam, fentanil) possui formulação em emulsão lipídica, e nenhum
deles interfere no cálculo de lipídios da prescrição nutricional.
Vale reforçar, como consideração clínica prática associada a esta questão: o aporte
lipídico total, incluindo o proveniente do propofol, não deve exceder o recomendado,
geralmente entre 0,8 e 1,5 g por kg por dia, dependendo da condição clínica do
paciente. A superdosagem de lipídios pode levar a complicações metabólicas
relevantes, como hipertrigliceridemia e esteatose hepática.
🎯 PONTO DE PROVA
Sempre que um caso clínico de UTI mencionar propofol em mL por hora, isso não é um
detalhe decorativo do enunciado, é um dado matemático que provavelmente precisa
entrar no seu cálculo de aporte calórico e lipídico total. Grave o número 1,1 kcal por mL
como a densidade energética correta do propofol (a banca já tentou substituir esse valor
por 1,25 kcal por mL em mais de uma prova), e lembre que o limite de segurança para
lipídios totais, incluindo o propofol, gira em torno de 1,5 g por kg por dia.
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Populações especiais: o paciente obeso crítico e a fístula
enterocutânea
Por que o obeso crítico exige um raciocínio nutricional próprio
Pacientes obesos têm risco nutricional sistematicamente subestimado na prática clínica, e
essa subestimação é justamente o que a prova mais gosta de explorar. O raciocínio de
base é o mesmo que você já viu na seção de avaliação nutricional: IMC alto não significa
reserva muscular preservada, e o obeso crítico costuma esconder sarcopenia relevante por
trás de um peso corporal elevado, configurando o quadro de obesidade sarcopênica. Por
isso, a estratégia nutricional no obeso crítico segue uma lógica deliberadamente diferente
da lógica aplicada ao paciente eutrófico: dissocia-se a meta calórica (calculada por peso
ideal ou ajustado, e reduzida em relação ao peso real) da meta proteica (calculada por peso
ideal, mas proporcionalmente mais alta que no paciente eutrófico).
Uma dieta hiperproteica isocalórica pode ser administrada a pacientes obesos,
preferencialmente guiada por medidas de calorimetria indireta e por perdas urinárias de
nitrogênio. Quando essas ferramentas não estão disponíveis, a ingestão de proteína pode
ser calculada em 1,3 g por kg de "peso corporal ajustado" por dia. Segundo a BRASPEN, a
meta calórica não deve ultrapassar 60 a 70 por cento do alvo medido por calorimetria
indireta; se a calorimetria não estiver disponível, deve-se utilizar 11 a 14 kcal por kg por dia
do peso real para pacientes com IMC entre 30 e 50 kg/m2, e 22 a 25 kcal por kg por dia do
peso ideal para pacientes eutróficos, caso o IMC seja maior que 50 kg/m2. Em termos de
proteína, a recomendação da BRASPEN é fornecer 2 g de proteína por kg de peso ideal por
dia quando o IMC estiver entre 30 e 40 kg/m2, chegando a até 2,5 g por kg de peso ideal
por dia quando o IMC for superior a 40 kg/m2.
Vários autores defendem uma estratégia de "desnutrição controlada" no indivíduo obeso
crítico, fornecendo uma dose relativamente maior de proteína (entre 2 e 2,5 g por kg por dia,
usando o peso corporal ideal como referência) enquanto se restringe deliberadamente a
oferta calórica. Uma perda de peso observada de até 2,7 kg por semana é considerada
vantajosa nesse contexto, desde que o balanço nitrogenado positivo (ou ao menos
equilibrado) possa ser mantido. Um detalhe fisiológico importante para calcular o peso
corporal de referência ajustado: quando o IMC indica sobrepeso ou obesidade (IMC maior
que 25 kg/m2), o tecido adiposo consome cerca de 4,5 kcal por kg por dia, enquanto o
tecido muscular consome cerca de 13 kcal por kg por dia, o que justifica não simplesmente
usar o peso real na equação, sob pena de superestimar de forma relevante a necessidade
calórica real.
Parâmetro Recomendação no obeso crítico
Meta calórica com calorimetria indireta 60 a 70% do gasto energético medido
disponível (BRASPEN)
Meta calórica sem calorimetria, IMC 30 a
11 a 14 kcal/kg/dia de peso real
50 kg/m2
Meta calórica sem calorimetria, IMC maior
22 a 25 kcal/kg/dia de peso ideal
que 50 kg/m2
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Parâmetro Recomendação no obeso crítico
Meta proteica, IMC 30 a 40 kg/m2 2,0 g/kg/dia de peso ideal
Meta proteica, IMC maior que 40 kg/m2 Até 2,5 g/kg/dia de peso ideal
Meta proteica geral (sem dado de perda
1,3 g/kg/dia de peso corporal ajustado (ESPEN)
urinária de N)
A fístula enterocutânea de alto débito no paciente crítico obeso
A banca tem repetido, com pequenas variações, um mesmo cenário clínico ao longo de
duas provas seguidas: paciente obeso, em ventilação mecânica, sedado com propofol, em
pós-operatório de ressecção de tumor intestinal, evoluindo com fístula enterocutânea de
débito elevado. Vale estudar esse padrão de caso com atenção total, porque ele reúne,
numa única questão, praticamente todos os conceitos das seções anteriores: propofol como
fonte lipídica, meta proteica e calórica do obeso, e a lógica de decisão entre via enteral e via
parenteral diante de complicação cirúrgica gastrointestinal.
TEN 2023 | Fístula enterocutânea de alto débito no paciente ventilado
Paciente obesa do sexo feminino, em terapia intensiva, entubada sob ventilação
mecânica, hemodinamicamente estável, sem drogas vasoativas, sedada com propofol
25 mL/h, pós-operatório de ressecção de tumor intestinal, evoluiu com fístula entero-
cutânea, débito de 1300 mL nas 24h. Em relação à terapia nutricional, assinale a
alternativa correta:
A) Iniciar dieta via oral associada à nutrição parenteral, sendo que a velocidade de
infusão de glicose na nutrição parenteral não deve exceder 5 mcg/kg/min.
B) Iniciar nutrição enteral com sonda distal à fístula, se possível. Caso não seja
possível passagem de sonda pós-fistal, iniciar nutrição parenteral central.
C) A densidade energética do propofol é 1,25 Kcal/mL e há necessidade de dosar
triglicerídeos.
D) A oferta proteica diária recomendada para esta paciente é de 2 g por kg de peso
ideal (IMC entre 30 e 40 kg/m2) e a oferta calórica diária de 11 a 18 kcal por kg de peso
real (IMC: 30-50 kg/m2).
Gabarito: letra B
Diante de fístula enterocutânea, a hierarquia de decisão segue exatamente o algoritmo
geral de via que você estudou: nutrição enteral continua sendo preferida sempre que
possível, porque preserva a integridade do trato gastrointestinal e previne translocação
bacteriana. A diferença específica neste cenário é onde posicionar a sonda: distal à
fístula, para que o débito da fístula não comprometa a absorção da dieta nem seja
agravado pela própria infusão. Somente se essa passagem distal à fístula não for
tecnicamente possível é que se recorre à nutrição parenteral central como alternativa.
A alternativa A comete dois erros simultâneos: a paciente está entubada e sedada,
portanto não pode receber dieta por via oral, e a velocidade de infusão de glicose em
nutrição parenteral é convencionalmente expressa em mg por kg por minuto, não em
mcg por kg por minuto, um erro de unidade que muda o valor numérico em três ordens
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de grandeza.
A alternativa C erra a densidade energética do propofol, que é 1,1 kcal por mL, e não
1,25 kcal por mL (o mesmo distrator que você já viu na seção anterior). A dosagem de
triglicerídeos, embora relevante durante uso prolongado de propofol, não substitui a
decisão central sobre a via de terapia nutricional que a questão está, de fato, testando.
A alternativa D acerta a meta proteica (2 g por kg de peso ideal, coerente com o IMC
entre 30 e 40 kg/m2 que você acabou de estudar), mas erra ao não abordar a decisão
prática mais urgente do caso, que é a escolha de via diante da fístula; além disso, a
faixa de oferta calórica apresentada mistura valores de forma pouco precisa em relação
à referência da BRASPEN.
TEN 2024 | Obesidade, ventilação mecânica e fístula de alto débito
Paciente obeso do sexo masculino, IMC 39 kg/m2, em terapia intensiva, entubado sob
ventilação mecânica, hemodinamicamente estável, sem drogas vasoativas, sedado
com propofol 30ml/h, pós operatório de ressecção de tumor intestinal, evoluiu com
fístula enterocutânea, débito de 1500mL nas 24h. Em relação à terapia nutricional,
assinale a alternativa correta.
A) Iniciar dieta via oral associada à nutrição parenteral, sendo que a velocidade de
infusão de glicose na nutrição parenteral não deve exceder 5 mcg/kg/min.
B) A densidade energética do propofol é 1,25 Kcal/mL e há necessidade de dosar
triglicérides.
C) A oferta proteica diária recomendada para este paciente é de 2,5 g por kg de peso
ideal e a oferta calórica diária de 14 a 18 kcal por kg de peso real.
D) Iniciar nutrição parenteral central caso não seja possível locar sonda enteral
distal à fístula e o débito não reduzir.
Gabarito: letra D
Praticamente o mesmo caso da questão de 2023, agora com um IMC explícito de 39
kg/m2 e débito de fístula ainda maior (1500 mL em 24 horas, confirmando alto débito).
A lógica de decisão permanece idêntica: a alta perda de líquidos e nutrientes pela
fístula torna a nutrição enteral proximal inviável, especialmente quando não é possível
posicionar a sonda distal à fístula; nessas situações, a nutrição parenteral central se
torna essencial para garantir suporte nutricional adequado e evitar desnutrição severa e
desequilíbrios hidroeletrolíticos. Caso seja possível posicionar a sonda distal e o débito
for controlado, a nutrição enteral distal permanece como primeira escolha, com a
parenteral entrando apenas como suporte complementar.
As alternativas A, B e C repetem exatamente os mesmos três erros já vistos na questão
de 2023 (via oral impossível em paciente entubado mais erro de unidade de glicose;
densidade energética incorreta do propofol; meta proteica de 2,5 g por kg de peso
ideal, que na verdade é a recomendada quando o IMC ultrapassa 40 kg/m2, não sendo
o valor mais preciso para este IMC de 39). É um padrão de repetição de distratores que
vale a pena reconhecer, porque a banca reaproveita a mesma arquitetura de erro de
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uma prova para outra.
🩺 PÉROLA CLÍNICA
Perceba como estas duas questões (2023 e 2024) são, na prática, a mesma questão
com números levemente diferentes. Isso não é coincidência: é exatamente o padrão de
repetição que você deve buscar ao estudar provas antigas. Uma vez identificado o
padrão (obeso crítico, ventilado, propofol, pós-operatório intestinal, fístula de alto
débito), toda a árvore de decisão fica memorizada de uma vez só, e deixa de importar
se o IMC exato é 30, 35 ou 39, ou se o débito é 1300 ou 1500 mL.
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Populações especiais: insuficiência renal aguda e terapia
renal substitutiva
Por que a proteína no renal crítico segue uma lógica oposta à do renal
crônico ambulatorial
Este é um dos pontos em que candidatos mais erram por transporte incorreto de
conhecimento entre contextos: a lógica de restringir proteína, familiar no manejo do doente
renal crônico em fase pré-dialítica ambulatorial (onde reduzir proteína ajuda a controlar
ureia e postergar diálise), é exatamente o oposto do que se recomenda no paciente crítico
com injúria renal aguda, sobretudo quando já em terapia dialítica. No paciente crítico,
restringir proteína é um erro grave, porque o catabolismo da doença crítica já está, por si só,
promovendo proteólise acentuada, e reduzir ainda mais a oferta proteica só acelera a perda
de massa magra e piora o prognóstico funcional.
A regra geral que resolve a grande maioria das questões deste subtema é: quanto maior a
perda de nitrogênio (seja pelo catabolismo da doença de base, seja pela perda física de
aminoácidos no próprio filtro dialítico), maior deve ser a oferta proteica compensatória. Isso
cria uma escada bem definida de necessidade proteica, do renal crônico conservador
(proteína restrita) até o renal agudo em terapia renal substitutiva contínua (proteína elevada,
entre as mais altas de toda a nutrologia clínica).
Proteína
Situação clínica Racional
recomendada
0,6 a 0,8 g/kg/dia
(podendo chegar a 0,3
Doença renal crônica, manejo a 0,4 g/kg/dia com Adiar a necessidade de diálise
conservador (pré-diálise) suplementação de e reduzir a produção de ureia
cetoanálogos em
protocolos específicos)
Equilibrar o estresse
Injúria renal aguda, paciente
metabólico da doença crítica
crítico, tratamento conservador 1,0 a 1,3 g/kg/dia
sem sobrecarregar ainda mais
(sem diálise)
a função renal residual
Injúria renal aguda, paciente 1,5 a 1,7 g/kg/dia Repor as perdas de
crítico, em diálise intermitente (podendo chegar a aminoácidos no filtro dialítico
ou terapia renal substitutiva mais em situações de e compensar o catabolismo
contínua perda extrema) intenso da doença crítica
TEN 2022 | Injúria renal aguda no choque séptico, tratamento conservador
Mulher de 68 anos encontra-se internada devido choque séptico de foco urinário.
Atualmente, encontra-se em ventilação mecânica e infusão de noradrenalina 0,2
mcg/kg/min. Evolui com injúria renal aguda, devido a insultos isquêmicos, séptico e
medicamentoso, em tratamento conservador. A recomendação proteica para esta
paciente deve ser:
A) 0,6 - 0,8 g/kg/dia.
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Nutro-TEN | Nutrologia no Paciente Crítico
Proteína
Situação clínica Racional
recomendada
B) 0,8 - 1,0 g/kg/dia.
C) 1,0 - 1,3 g/kg/dia.
D) 1,5 - 2,0 g/kg/dia.
E) 2,0-2,5g/kg/dia.
Gabarito: letra C
O detalhe que define esta questão é "tratamento conservador", ou seja, sem terapia
dialítica em curso. Para injúria renal aguda em tratamento conservador e em contexto
crítico, a recomendação proteica é de 1,0 a 1,3 g por kg por dia, quantidade necessária
para atender às demandas metabólicas aumentadas da doença crítica, promovendo
balanço nitrogenado o mais próximo possível de positivo e preservando massa
muscular, sem sobrecarregar excessivamente a função renal residual que ainda não
está sendo suportada por diálise.
Se esta mesma paciente evoluísse para necessidade de terapia renal substitutiva, a
meta proteica subiria imediatamente para a faixa de 1,5 a 1,7 g por kg por dia
(alternativa D), exatamente a diferença que separa esta questão da próxima que
veremos, sobre paciente já em diálise intermitente.
TEN 2022 | Oferta proteica na diálise intermitente em UTI
Paciente masculino, Índice de Massa Corpórea (IMC) de 18,5 kg/m2, portador de
doença renal crônica, em diálise intermitente (3 vezes na semana), apresentou sepse
vascular e endocardite, foi encaminhado a Unidade de Terapia Intensiva (UTI),
necessitando nesta internação de terapia dialítica diária. Sobre o cálculo e oferta
calórica e proteica deste paciente portador de falência renal em UTI, marque a opção
correta, baseando-se no Guideline de Nutrição Clínica em Pacientes hospitalizados
com doenças renais crônicas ou agudas da Sociedade Europeia de Nutrição Enteral e
Parenteral (ESPEN) de 2021.
A) A oferta calórica deve ser baseada no IMC ideal de 25 kg/m2 e iniciar com 35
calorias.
B) A calorimetria indireta não pode ser realizada em paciente de UTI que faz
hemodiálise.
C) A oferta proteica deve ser de 0,8 g/kg/dia.
D) A oferta proteica deve ser de 1,3 a 1,5 g/kg/dia.
E) A Oferta Proteica Deve De 1,5 a 1,7g/kg/dia.
Gabarito: letra E
De acordo com o guideline ESPEN 2021 de nutrição clínica em doenças renais
crônicas ou agudas, a oferta proteica recomendada para pacientes em terapia dialítica
na UTI é de 1,5 a 1,7 g por kg por dia, exatamente a faixa consolidada na tabela acima
para o paciente renal agudo em diálise.
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Nutro-TEN | Nutrologia no Paciente Crítico
Proteína
Situação clínica Racional
recomendada
A alternativa A erra ao propor uma oferta calórica fixa de 35 kcal baseada num IMC
ideal genérico de 25 kg/m2, ignorando a individualização que a nutrologia de terapia
intensiva exige (e que já discutimos em detalhe na seção de gasto energético). A
alternativa B está factualmente errada: a calorimetria indireta pode, sim, ser realizada
em pacientes de UTI em hemodiálise, embora a medição possa ser tecnicamente mais
desafiadora pela instabilidade clínica associada ao procedimento dialítico; ainda assim,
ela continua sendo considerada o padrão-ouro para determinar necessidades
energéticas nesses pacientes. As alternativas C e D subestimam a necessidade
proteica real desse subgrupo: 0,8 g por kg por dia é a meta de um renal crônico
conservador, claramente insuficiente para um paciente crítico em diálise diária; e 1,3 a
1,5 g por kg por dia, embora mais próximo, ainda fica abaixo do piso recomendado de
1,5 g por kg por dia para este contexto.
Terapia renal substitutiva contínua: perdas proteicas no filtro e via de
escolha
A terapia renal substitutiva contínua (CRRT, na sigla em inglês) acrescenta uma dimensão
adicional ao raciocínio proteico: além do catabolismo já acelerado pela própria doença
crítica, o método dialítico contínuo promove perda significativa de aminoácidos e pequenos
peptídeos diretamente no efluente dialítico, perda que é estimada em cerca de 10 a 15 g de
proteína por dia. Essa perda física, somada ao catabolismo de base, é o que justifica a meta
proteica elevada (1,3 a 1,7 g por kg por dia, podendo chegar a mais em situações de
catabolismo extremo) nesse subgrupo específico.
TEN 2025 | Sepse, injúria renal aguda e terapia renal substitutiva contínua
Paciente do sexo masculino, 32 anos, previamente hígido, internado na unidade de
terapia intensiva com diagnóstico de sepse de origem pulmonar, evolui com disfunção
renal aguda, com oligúria persistente e elevação progressiva da creatinina. A equipe
médica iniciou terapia de substituição renal contínua e solicita avaliação nutrológica
para início de suporte nutricional. O paciente encontra-se em ventilação mecânica,
hemodinamicamente estável com uso de noradrenalina em baixa dose e não apresenta
contraindicações para nutrição enteral. Com base nas diretrizes da European Society
for Clinical Nutrition and Metabolism (ESPEN) 2021 para suporte nutricional em
pacientes com insuficiência renal aguda, qual é a conduta nutrológica mais apropriada
para este paciente?
A) Iniciar nutrição parenteral exclusiva com oferta proteica de 1,5-2,0 g/kg/dia e 30-35
kcal/kg/dia, priorizando solução de aminoácidos essenciais.
B) Iniciar nutrição enteral com oferta proteica de 1,5-1,7 g/kg/dia e energia de 20-
30 kcal/kg/dia, ajustando conforme tolerância e perdas dialíticas.
C) Aguardar estabilização hemodinâmica completa para iniciar suporte nutricional,
visando evitar sobrecarga metabólica renal.
D) Prescrever dieta enteral hipoproteica (0,6-0,8 g/kg/dia) com suplementação de
cetoanálogos, reduzindo o risco de azotemia.
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Gabarito: letra B
Este caso reúne, de forma quase didática, todos os elementos que você já estudou:
paciente hemodinamicamente estável (noradrenalina em dose baixa, sem
contraindicação abdominal), o que autoriza nutrição enteral precoce como primeira
escolha, para preservar a barreira intestinal; e paciente em terapia renal substitutiva
contínua, o que eleva a meta proteica para 1,5 a 1,7 g por kg por dia, exatamente pela
combinação de hipercatabolismo séptico com perda física de aminoácidos no filtro
dialítico. A meta energética de 20 a 30 kcal por kg por dia corresponde ao padrão já
estudado para a fase aguda tardia do paciente crítico, evitando tanto subnutrição
quanto sobrealimentação.
A alternativa A erra ao propor nutrição parenteral exclusiva, que só seria indicada
diante de contraindicação absoluta ao uso do trato gastrointestinal (obstrução, isquemia
mesentérica, fístulas de altíssimo débito sem acesso distal), nenhuma das quais está
presente neste caso; além disso, a meta energética de 30 a 35 kcal por kg por dia seria
excessiva para a fase inicial de sepse.
A alternativa C contraria diretamente o conceito de nutrição enteral precoce (início em
24 a 48 horas) que percorre toda esta apostila: o paciente já está "estável" dentro do
contexto de gravidade (vasoativo em dose baixa), e o jejum prolongado apenas
aumenta mortalidade e risco de translocação bacteriana, sem qualquer benefício renal
comprovado em compensação.
A alternativa D transporta, de forma equivocada, a lógica de restrição proteica e
cetoanálogos do renal crônico conservador para um paciente crítico em terapia dialítica,
exatamente o erro conceitual que abre esta seção: no paciente dialítico, restringir
proteína é grave, porque leva à depleção acelerada de massa magra e piora o
prognóstico.
🎯 PONTO DE PROVA
Memorize esta escada de proteína renal como uma progressão lógica, e não como
números soltos: renal crônico conservador (0,6 a 0,8 g/kg/dia, podendo usar
cetoanálogos), renal agudo crítico sem diálise (1,0 a 1,3 g/kg/dia), renal agudo crítico
em diálise intermitente ou CRRT (1,5 a 1,7 g/kg/dia, podendo chegar a mais em
catabolismo extremo). Cada degrau reflete um aumento de perda proteica real
(catabolismo mais intenso, e depois perda física no filtro dialítico), e é essa lógica
fisiológica, não a memorização isolada dos números, que permite acertar variações do
enunciado que a prova certamente vai criar.
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Populações especiais: pancreatite aguda grave
Por que a pancreatite aguda grave é um cenário nutrológico particular
A pancreatite aguda grave (PAG) combina dois problemas que, juntos, tornam a decisão
nutricional mais delicada do que na maioria dos outros pacientes críticos: primeiro, a
inflamação retroperitoneal intensa e o edema de alças intestinais frequentemente elevam a
pressão intra-abdominal, criando um espectro de hipertensão intra-abdominal que pode, nos
casos mais graves, evoluir para síndrome compartimental abdominal; segundo, existe uma
tentação histórica (hoje considerada ultrapassada) de manter o pâncreas "em repouso"
através do jejum prolongado, prática que a evidência atual demonstrou ser prejudicial, e não
protetora.
Pressão intra-abdominal e a decisão sobre nutrição enteral
O guideline da ESPEN sobre nutrição clínica em pancreatite aguda e crônica, publicado em
2020, estabelece condutas específicas baseadas no grau de hipertensão intra-abdominal
(HIA), medido pela pressão intra-abdominal (PIA). Essa graduação numérica é exatamente
o tipo de detalhe que a banca gosta de testar com valores muito próximos entre si, então
vale memorizar a tabela completa.
Pressão intra-
Grau de HIA Conduta nutrológica recomendada
abdominal (PIA)
Início precoce da nutrição enteral, dieta
Menor que 12 mmHg Normal polimérica padrão via sonda, nas primeiras 24 a
48 horas
Manter ou iniciar nutrição enteral; monitorar
12 a 15 mmHg Grau I
resíduo gástrico e distensão abdominal
Cautela extrema; iniciar apenas com dieta
16 a 20 mmHg Grau II
trófica, em taxas baixas (cerca de 10 a 20 mL/h)
Suspender ou adiar a nutrição enteral;
Maior que 20 mmHg Grau III/IV
considerar nutrição parenteral
TEN 2025 | Pancreatite aguda grave e pressão intra-abdominal
De acordo com as recomendações da European Society for Clinical Nutrition and
Metabolism (ESPEN) sobre pancreatite (ESPEN guideline on clinical nutrition in acute
and chronic pancreatitis, 2020), no paciente com pancreatite aguda grave (PAG), é
correto afirmar:
A) Com pressão intra-abdominal de 14 mmHg, é possível iniciar nutrição enteral,
desde que se mantenha monitoramento clínico adequado.
B) Quando a pressão intra-abdominal atinge 17 mmHg, deve-se iniciar nutrição enteral
com fórmula semi-elementar para melhor tolerância.
C) Em casos de síndrome compartimental abdominal com laparotomia descompressiva
e abdome aberto, a nutrição enteral deve ser adiada por 7 a 10 dias.
D) A suplementação com glutamina por via enteral está indicada para os pacientes com
pancreatite aguda grave para reduzir mortalidade e infecções.
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Pressão intra-
Grau de HIA Conduta nutrológica recomendada
abdominal (PIA)
Gabarito: letra A
Uma PIA de 14 mmHg enquadra-se no Grau I de hipertensão intra-abdominal (12 a 15
mmHg), faixa em que a nutrição enteral é considerada segura e recomendada, desde
que acompanhada de monitoramento clínico para sinais de intolerância, como
distensão abdominal ou aumento do resíduo gástrico. A introdução precoce da dieta
enteral, mesmo nesse cenário de hipertensão intra-abdominal leve, ajuda a manter a
integridade da barreira intestinal, reduzindo a translocação bacteriana, que é a principal
causa de infecção da necrose pancreática e de mortalidade na pancreatite aguda
grave.
A alternativa B erra em dois pontos: uma PIA de 17 mmHg já corresponde ao Grau II
(16 a 20 mmHg), faixa em que a nutrição deve ser iniciada ou mantida com cautela
extrema, em baixas doses tróficas, não em dose plena; além disso, a diretriz
recomenda iniciar com fórmulas poliméricas padrão, reservando fórmulas elementares
ou semi-elementares apenas para casos comprovados de má absorção ou intolerância
persistente, não como escolha automática baseada só no grau de HIA.
A alternativa C descreve uma prática ultrapassada: mesmo em abdome aberto após
laparotomia descompressiva, a recomendação atual é iniciar a nutrição enteral de
forma precoce, geralmente dentro das primeiras 24 a 48 horas após estabilização
hemodinâmica, e não adiar por 7 a 10 dias, prática que aumenta o risco de sepse e de
desnutrição sem qualquer benefício comprovado.
A alternativa D contraria diretamente a diretriz ESPEN 2020, que é explícita ao afirmar
que a suplementação de glutamina, seja enteral, seja parenteral, não é recomendada
em pacientes com pancreatite aguda, por não demonstrar redução consistente de
mortalidade ou de taxas de infecção nos grandes estudos clínicos disponíveis.
🎯 PONTO DE PROVA
Resumo definitivo para a pancreatite aguda grave: a via enteral sempre supera a
parenteral, sempre que tecnicamente possível. Até 15 mmHg de PIA, dieta enteral
normal. Entre 16 e 20 mmHg, dieta enteral apenas em taxas baixas, com extrema
cautela. Sempre iniciar com fórmula polimérica padrão, nunca semi-elementar de saída.
E nunca suplementar glutamina neste contexto específico, mesmo sabendo que ela é
recomendada em outras populações, como você verá na seção de micronutrientes.
Estratégia de nutrição parenteral quando a via enteral falha: o papel do
NUTRIC score
Quando a via enteral está de fato impossibilitada na pancreatite aguda grave, a decisão
sobre como conduzir a nutrição parenteral depende diretamente do risco nutricional do
paciente, calculado por instrumentos como o NUTRIC score, que você já estudou na seção
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Nutro-TEN | Nutrologia no Paciente Crítico
de avaliação nutricional. Essa é a aplicação prática mais direta daquele conceito: o escore
de risco não serve apenas para "classificar" o paciente academicamente, ele muda a
estratégia real de progressão calórica e proteica da nutrição parenteral.
TEN 2025 | Alto NUTRIC e nutrição parenteral na pancreatite grave
Um paciente adulto, admitido na unidade de terapia intensiva (UTI) há 5 dias com
diagnóstico de pancreatite aguda grave complicada, apresenta impossibilidade de uso da
via enteral (NE). A avaliação de risco nutricional indica alto risco (ex: The Nutrition Risk in
Critically Ill (NUTRIC) score maior ou igual a 5). De acordo com as diretrizes da American
Society for Parenteral and Enteral Nutrition e da Society of Critical Care Medicine
(ASPEN/SCCM) de 2016, qual estratégia de Nutrição Parenteral (NP) é sugerida para este
paciente na fase aguda da doença crítica?
A) Iniciar NP com ≤20 kcal/kg/dia ou 80% das necessidades com aporte proteico
adequado (≥1,2 g/kg/dia).
B) Administrar NP em quantidade suficiente para atingir 100% das metas energéticas
desde o início, com aporte proteico de ≥1,2 g/kg/dia.
C) Implementar NP trófica, com oferta energética mínima (10-20 kcal/h), mas com alta
oferta proteica (≥2,0 g/kg/dia).
D) Adiar o início da NP por 7 dias, mantendo apenas hidratação venosa.
Gabarito: letra A
O paciente é classificado como alto risco nutricional (NUTRIC maior ou igual a 5, ou NRS-
2002 maior ou igual a 5), e a via enteral não é viável. Segundo a ASPEN/SCCM 2016,
pacientes de alto risco nesse cenário devem iniciar nutrição parenteral precocemente, logo
após a estabilização inicial, mas seguindo a mesma lógica de hipocaloria/hiperproteína que
você já estudou em profundidade na seção de gasto energético: a NP deve fornecer, na
primeira semana, no máximo 80 por cento das necessidades estimadas ou 20 kcal por kg
por dia, exatamente para evitar as complicações da sobrealimentação (hiperglicemia,
esteatose hepática, produção excessiva de CO2), enquanto o aporte proteico é mantido
em níveis adequados (maior ou igual a 1,2 g por kg por dia) desde o início, para atenuar o
balanço nitrogenado negativo, intenso na pancreatite aguda grave.
A alternativa B erra ao propor 100 por cento das metas energéticas já desde o início, o que
aumenta o risco de síndrome de realimentação e de disfunções metabólicas induzidas pela
sobrecarga de nutrientes numa fase de estresse metabólico agudo ainda instável.
A alternativa C usa a expressão "NP trófica", que não é uma nomenclatura padronizada
nas diretrizes da forma como "nutrição enteral trófica" é; além disso, uma oferta proteica
maior ou igual a 2,0 g por kg por dia é reservada para situações de perda extrema (grande
queimado, terapia dialítica contínua), não sendo a recomendação de base para a fase
aguda da pancreatite.
A alternativa D aplica a regra dos pacientes de baixo risco nutricional (NUTRIC menor que
5), para quem de fato se recomenda aguardar cerca de 7 dias antes de iniciar nutrição
parenteral, caso a via enteral continue inviável. Para pacientes de alto risco, como o deste
caso, essa espera de 7 dias é o erro central da alternativa: o suporte parenteral
hipocalórico e hiperproteico deve começar assim que possível após a estabilidade inicial,
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Nutro-TEN | Nutrologia no Paciente Crítico
não ser adiado por uma semana inteira.
Conduta se a via enteral
Risco nutricional (NUTRIC/NRS) Estratégia na 1ª semana
falhar
Baixo risco (NUTRIC menor que Aguardar cerca de 7 dias Progressão gradual, sem
5) antes de iniciar NP urgência
Hipocalórica (até 80% das
Alto risco (NUTRIC maior ou igual Iniciar NP precocemente, necessidades ou ≤20
a 5) logo após estabilidade kcal/kg/dia) e hiperproteica
(≥1,2 g/kg/dia)
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Populações especiais: sepse, choque séptico e o grande
queimado
Sepse e choque séptico: a fração de abertura da via enteral
Você já estudou, na fisiopatologia, que a fase Ebb (choque não ressuscitado) contraindica
formalmente a nutrição enteral, e que a fase Flow (paciente estabilizado, mesmo que ainda
em vasopressor em dose baixa e decrescente) autoriza o início. No paciente séptico
especificamente, essa transição ganha um refinamento adicional: a nutrição enteral precoce
e progressiva deve ser utilizada após a estabilização hemodinâmica, mas de forma
deliberadamente cautelosa nos primeiros dias.
As diretrizes da campanha de sobrevivência à sepse (Surviving Sepsis Campaign) não
recomendam nutrição enteral completa na fase inicial, e sugerem a administração de dieta
enteral em baixa dose durante a primeira semana de internação na UTI, com grau de
evidência 2B. Como os resultados de diferentes estudos sobre o uso de nutrição enteral nas
primeiras 48 horas em choque não controlado permanecem conflitantes, uma abordagem
pragmática, e bastante cobrada em prova, é a seguinte: iniciar uma fração inicial (entre 20 e
50 por cento) do suporte nutricional completo o mais cedo possível, com o objetivo
específico de "abrir" a via enteral e manter a integridade da mucosa intestinal, e então
aumentar progressivamente a quantidade de acordo com a tolerância gastrointestinal,
buscando atingir o suporte nutricional pleno assim que o paciente tiver superado as
alterações hemodinâmicas relacionadas à sepse, geralmente alguns dias após a admissão.
Do ponto de vista fisiopatológico, essa cautela inicial se justifica porque a perfusão
esplâncnica prejudicada relacionada ao choque pode ser potencialmente agravada pela
própria administração de nutrição enteral: a digestão representa uma carga de trabalho
metabólico extra, teoricamente capaz de contribuir para isquemia ou necrose intestinal num
intestino já mal perfundido. De fato, o uso de nutrição enteral durante as primeiras 48 horas
após a admissão em pacientes com choque ainda não controlado mostrou-se, em estudos
observacionais, menos favorável em termos de sobrevida do que seu uso mais tardio (após
48 horas) em pacientes já ressuscitados com sucesso e com parâmetros hemodinâmicos
estáveis.
Falência gastrointestinal em choque séptico: quando a via muda para
parenteral
Existe um subgrupo de pacientes sépticos em que, apesar de já estabilizados
hemodinamicamente, a via enteral simplesmente não é viável por falência mecânica ou
funcional do próprio trato gastrointestinal. Reconhecer esses sinais de falha gastrointestinal,
e saber que eles mudam a via de escolha mesmo num paciente já hemodinamicamente
estável, é o ponto central desta questão.
TEN 2025 | Choque séptico, íleo paralítico e escolha da via nutricional
Paciente de 67 anos, previamente hígido, encontra-se na unidade de terapia intensiva
(UTI) por choque séptico secundário à perfuração intestinal, tratado com antibioticoterapia
e controle da fonte. Após 72 horas, permanece hemodinamicamente estável com uso
decrescente de vasopressores. Evolui com íleo paralítico e débito gástrico de 700ml/24h
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Nutro-TEN | Nutrologia no Paciente Crítico
por sonda nasogástrica. Qual a conduta mais apropriada em relação ao suporte
nutricional?
A) Manter jejum absoluto por até 7 dias e iniciar nutrição parenteral se houver sinais
clínicos de desnutrição ou perda ponderal significativa.
B) Contraindicar a nutrição parenteral neste cenário, devido ao risco infeccioso associado
a sepse e ao uso de cateter venoso central.
C) Instalar nutrição enteral via sonda jejunal, considerando que não há instabilidade
hemodinâmica refratária.
D) Iniciar nutrição parenteral de forma progressiva, considerando que a nutrição
enteral está contraindicada no momento.
Gabarito: letra D
Apesar da estabilização hemodinâmica (vasopressores em dose decrescente), este
paciente apresenta dois sinais claros de falência gastrointestinal: íleo paralítico, que por
definição significa ausência de motilidade intestinal, impedindo trânsito e absorção de
qualquer dieta administrada por qualquer ponto do tubo digestivo; e débito gástrico de 700
mL em 24 horas, valor que ultrapassa o limiar de 500 mL em 6 horas que você já viu como
marcador clássico de intolerância gástrica grave e risco aumentado de aspiração (o limiar
do enunciado está em 24 horas, mas o volume absoluto já sinaliza problema relevante de
esvaziamento). Diante desses dois sinais, e já estando no 3º dia de internação (janela de
48 a 72 horas em que, se a nutrição enteral for impossível ou insuficiente, a nutrição
parenteral deve ser iniciada para evitar déficit calórico-proteico acumulado), a conduta
correta é iniciar nutrição parenteral de forma progressiva.
A alternativa A propõe manter jejum absoluto por até 7 dias, uma conduta ultrapassada
num paciente séptico pós-operatório: o catabolismo na sepse é extremo, e esperar uma
semana inteira para iniciar qualquer suporte nutricional levaria a desnutrição iatrogênica
grave, comprometendo a cicatrização da anastomose intestinal recente e a função imune
do paciente.
A alternativa B está errada porque a sepse, isoladamente, não contraindica a nutrição
parenteral. O risco de infecção de cateter é real e deve ser minimizado com técnica
asséptica rigorosa, mas a desnutrição grave decorrente do jejum prolongado representa
um risco de mortalidade muito maior do que o próprio uso da nutrição parenteral bem
indicada e bem monitorada.
A alternativa C tenta usar a via jejunal (pós-pilórica) como solução, mas comete um erro
anatômico e fisiopatológico importante: a sonda jejunal é uma opção válida para casos de
gastroparesia isolada (estômago que não esvazia, mas intestino delgado funcionante), não
para íleo paralítico, condição em que todo o trânsito intestinal está comprometido, e
infundir dieta diretamente no jejuno poderia causar distensão abdominal severa, isquemia
de alça, ou até deiscência da anastomose recente.
Sinal de falência gastrointestinal Conduta sugerida
Resíduo gástrico maior que 500 mL/dia Suspender ou reduzir a nutrição enteral e
(ou em 6h) considerar nutrição parenteral
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Íleo paralítico / obstrução intestinal Nutrição parenteral
Contraindicação absoluta à nutrição enteral;
Isquemia mesentérica
usar nutrição parenteral
Fase aguda da sepse, já estável Iniciar nutrição de forma progressiva,
hemodinamicamente hipocalórica, nos primeiros dias
O grande queimado: o modelo mais extremo de hipermetabolismo
Você já trabalhou o caso do grande queimado em profundidade na seção de gasto
energético, através das questões 69 e 70 de 2025 (o paciente com 57 por cento de
superfície corporal queimada, avaliado em dois momentos evolutivos diferentes por
calorimetria indireta). Vale agora consolidar, de forma isolada, o que torna essa população
especial dentro da nutrologia de terapia intensiva, porque ela representa o modelo mais
extremo de hipermetabolismo sustentado descrito na literatura, com taxa metabólica basal
podendo chegar a 100 a 200 por cento acima do previsto, e por período prolongado, muito
além dos poucos dias de hipermetabolismo agudo observados em outras etiologias de
doença crítica.
Três pontos práticos merecem destaque específico no manejo do grande queimado, além
do que você já estudou em calorimetria: primeiro, a resposta hipermetabólica sustentada
torna a calorimetria indireta seriada especialmente valiosa nesse grupo, porque as
necessidades calóricas mudam de forma relevante ao longo das semanas de internação,
exatamente como ilustrado pela queda do GER entre o 5º e o 21º dia no caso que você
estudou; segundo, o uso de betabloqueadores, como o propranolol, é uma estratégia
terapêutica reconhecida especificamente nesse contexto para atenuar a resposta
hipermetabólica excessiva, reduzindo frequência cardíaca e gasto energético de repouso,
embora essa redução do GER medido exija reavaliação e ajuste imediato da oferta calórica,
sob risco de sobrealimentação, como você viu na questão 70; terceiro, a suplementação de
glutamina enteral tem indicação específica e bem estabelecida nesse grupo, ao contrário do
que ocorre na maioria dos demais pacientes críticos, questão que será detalhada na seção
de micronutrientes a seguir.
🩺 PÉROLA CLÍNICA
Sempre que um enunciado mencionar propranolol (ou outro betabloqueador) num
grande queimado, entenda isso como uma pista dupla: primeiro, é um sinal de que a
resposta hipermetabólica está sendo tratada farmacologicamente; segundo, e mais
importante para a prova, é um sinal de que o gasto energético medido provavelmente
caiu em relação a avaliações anteriores, exigindo redução proporcional da oferta
calórica para não configurar sobrealimentação, exatamente o raciocínio da questão 70
de 2025 que você já estudou.
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Complicações gastrointestinais na nutrição enteral:
diarreia e infecção por C. difficile
Diarreia na nutrição enteral: raramente é culpa da dieta
Um dos reflexos mais comuns, e mais equivocados, da equipe assistencial à beira do leito é
interromper a nutrição enteral assim que o paciente apresenta diarreia, atribuindo o sintoma
automaticamente à fórmula administrada. O guideline da ASPEN sobre diarreia e nutrição
enteral (JPEN, 2019) é categórico ao afirmar que a interrupção da dieta raramente é
necessária para o manejo da diarreia, e que manter a oferta nutricional preserva a
integridade da barreira intestinal, além de garantir o aporte calórico-proteico necessário para
a recuperação do quadro de base que levou o paciente à internação.
A razão fisiopatológica para essa recomendação é que, na grande maioria dos casos,
existem causas muito mais prováveis de diarreia do que a própria fórmula enteral: uso de
antibióticos (que alteram a microbiota intestinal, causando disbiose e diarreia osmótica ou
infecciosa), medicações com veículo contendo sorbitol, e infecções entéricas, com destaque
especial para a infecção por Clostridioides difficile em pacientes idosos, institucionalizados
ou sob antibioticoterapia prolongada, subgrupo em que essa deve ser a primeira suspeita
diagnóstica diante de diarreia nova.
TEN 2025 (correlata) | Diarreia na nutrição enteral: manter ou suspender a dieta
Mulher de 80 anos, institucionalizada, internada em enfermaria por pneumonia, em
antibioticoterapia há 10 dias, evolui há 24 horas com quatro episódios diários de
evacuação líquida, sem sangue, muco ou pus. Recebe nutrição enteral polimérica
padrão (1,5 kcal/mL), administrada por sonda nasoenteral à taxa de 40 mL/h. A equipe
de enfermagem solicita a interrupção da dieta devido à diarreia. Com base nas
recomendações do guideline da American Society for Parenteral and Enteral Nutrition,
Tutorial on Diarrhea and Enteral Nutrition: A Comprehensive Step-By-Step Approach
(JPEN, 2019), qual a conduta inicial mais apropriada?
A) Substituir a fórmula atual por dieta enteral com fibras insolúveis.
B) Iniciar uso de loperamida para controle da diarreia.
C) Iniciar suporte com nutrição parenteral suplementar.
D) Manter a fórmula atual de dieta enteral polimérica.
Gabarito: letra D
A conduta inicial correta é manter a fórmula atual, exatamente pelo racional que você
acabou de estudar: a interrupção da dieta raramente é indicada como primeira medida
diante de diarreia em paciente recebendo nutrição enteral. No caso desta paciente
idosa, institucionalizada e há 10 dias em antibioticoterapia, os gatilhos mais prováveis
para a diarreia são a própria disbiose induzida pelo antibiótico e, principalmente, a
possibilidade de infecção por Clostridioides difficile, que deve ser a primeira suspeita
diagnóstica investigada nesse perfil de paciente, antes mesmo de qualquer intervenção
sobre a dieta em si. A conduta correta, portanto, é manter a oferta nutricional enquanto
se investiga clinicamente a causa: revisão de medicamentos em uso, exclusão de
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impactação fecal com diarreia por transbordamento, e coleta de toxinas para C. difficile.
A alternativa A poderia ser considerada num segundo momento, apenas após
excluídas causas infecciosas, e mesmo assim o guideline sugere preferencialmente
fibras solúveis (como a goma guar parcialmente hidrolisada), que ajudam a dar
consistência às fezes, e não fibras insolúveis, que poderiam, em alguns pacientes,
aumentar volume fecal e distensão abdominal.
A alternativa B está formalmente contraindicada como conduta inicial em paciente sob
antibioticoterapia até que se exclua infecção por C. difficile: o uso de agentes
antimotilidade como a loperamida nesse contexto carrega risco real de precipitar
megacólon tóxico, ao retardar a eliminação da toxina bacteriana.
A alternativa C propõe nutrição parenteral suplementar de forma desproporcional:
quatro episódios de diarreia em 24 horas não justificam, isoladamente, migrar para uma
via de maior risco infeccioso e metabólico, contrariando o princípio de "enteral first" (via
enteral em primeiro lugar) que orienta toda a terapia nutricional do paciente crítico ou
hospitalizado.
🎯 PONTO DE PROVA
Grave esta sequência de raciocínio para qualquer questão de diarreia associada à
nutrição enteral: primeiro, não suspenda a dieta automaticamente; segundo, investigue
causas mais prováveis do que a fórmula (antibióticos, medicações com sorbitol, C.
difficile, sobretudo em idosos institucionalizados); terceiro, se for necessário ajustar a
fórmula, prefira fibra solúvel à insolúvel; quarto, nunca use antimotilidade (loperamida)
antes de excluir infecção por C. difficile.
Infecção fulminante por Clostridioides difficile: quando o transplante de
microbiota fecal entra em cena
Quando a infecção por C. difficile evolui para um quadro refratário ao tratamento
farmacológico padrão (vancomicina, e depois fidaxomicina, ambos sem sucesso) e o
paciente desenvolve sinais de gravidade sistêmica (choque, leucocitose acentuada,
elevação de creatinina), o quadro se caracteriza como infecção fulminante, e o transplante
de microbiota fecal (TMF) passa a ser uma opção terapêutica formal, com uma exigência
técnica específica quanto à via de administração que a prova já cobrou de forma detalhada.
TEN 2024 | Choque séptico e infecção fulminante por C. difficile
Paciente masculino internado em UTI para tratamento de choque séptico de foco
pulmonar em uso de terapia nutrológica enteral evolui com diarreia persistente. Em
investigação, presença de glutamato desidrogenase (GDH) nas fezes e posteriormente
confirmado com toxina A e B. Iniciado tratamento com vancomicina por 10 dias, sem
sucesso, permanecendo com sintomas e com detecção de toxina A e B nas fezes,
sendo tentado novo ciclo com fidaxomicina, mais uma vez sem sucesso. O paciente
evolui com choque, leucocitose de 19.000/mm3 e elevação de creatinina sérica para
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2,1 mg/dL. Sobre o tratamento neste momento é CORRETO afirmar:
A) Este paciente possui uma infecção recorrente fulminante por Clostridioide estando
contra indicada a realização de transplante de microbiota fecal, sendo indicado a
colectomia.
B) Pode ser realizado transplante de microbiota fecal com preparação prévia com ciclo
de antibiótico e preparo colônico com lavagem.
C) O transplante de microbiota fecal está indicado apenas por colonoscopia,
estando contra indicado a administração por cápsulas, enema ou sonda enteral.
D) O transplante de microbiota fecal está indicado, sendo resolutivo com administração
única nestes casos.
Gabarito: letra C
Em quadros graves ou fulminantes de infecção por C. difficile, a colonoscopia é a via
mais recomendada para o transplante de microbiota fecal, porque permite
administração direta da microbiota diretamente no cólon, local onde a infecção está
concentrada, maximizando o alcance da microbiota transplantada por todo o segmento
acometido. Diretrizes de referência, como as da IDSA (Infectious Diseases Society of
America) e da ESCMID (European Society of Clinical Microbiology and Infectious
Diseases), reforçam que, em casos graves e refratários, o transplante por colonoscopia
é a via preferencial, pela alta taxa de sucesso e melhor distribuição do material fecal
transplantado.
Vias alternativas têm limitações relevantes neste contexto específico: cápsulas, embora
práticas e bem toleradas em pacientes estáveis ambulatoriais, não são recomendadas
em quadros críticos pela possibilidade de trânsito intestinal alterado ou dificuldade de
liberação adequada no cólon; enema tem menor eficácia em quadros graves, pois a
microbiota pode não alcançar todo o cólon acometido, especialmente o cólon proximal;
sonda enteral, embora viável em alguns cenários, é menos utilizada em situações
graves, já que o trânsito gastrointestinal até o cólon pode estar comprometido pelo
próprio choque séptico.
A alternativa A erra ao contraindicar de forma absoluta o transplante de microbiota fecal
em favor direto da colectomia: embora a colectomia possa, sim, ser considerada em
quadros extremamente graves e refratários de colite fulminante, o transplante de
microbiota fecal deve ser tentado antes de se optar por uma intervenção cirúrgica tão
invasiva, desde que o paciente esteja clinicamente estável o suficiente para o
procedimento.
A alternativa B, embora mencione elementos reais da preparação para o transplante
(preparo colônico e ciclo prévio de antibióticos), não especifica a via de administração
preferida, deixando margem para interpretações menos eficazes num quadro grave.
A alternativa D superestima a eficácia de uma única aplicação: embora o transplante de
microbiota fecal frequentemente seja eficaz com administração única, especialmente
por colonoscopia, nem todos os casos respondem a apenas uma aplicação, e em
quadros graves pode ser necessária repetição ou combinação de estratégias
terapêuticas.
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Eletrólitos, síndrome de realimentação e controle
glicêmico
Síndrome de realimentação: definição, critérios e conduta
A síndrome de realimentação é uma das complicações mais temidas, e mais cobradas, do
início da terapia nutricional em qualquer paciente com risco de desnutrição prévia ou de
jejum prolongado, e o paciente crítico reúne frequentemente vários desses fatores de risco
simultaneamente. Ela pode ocorrer com qualquer forma de nutrição artificial, mas é mais
frequente em pacientes recebendo nutrição enteral, justamente por ser a via mais utilizada e
por permitir reintrodução relativamente rápida de nutrientes em indivíduos previamente
desnutridos ou com ingestão inadequada prolongada.
O critério diagnóstico central, segundo o guideline ESPEN de terapia intensiva, é a redução
do nível sérico de qualquer um dos três eletrólitos-chave (fósforo, potássio e/ou magnésio),
ocorrendo dentro de 5 dias após a introdução ou o aumento substancial da oferta
energética. O consenso da ASPEN de 2020 detalha ainda mais essa definição,
estratificando a gravidade conforme o percentual de queda de um, dois ou três desses
eletrólitos: queda de 10 a 20 por cento é classificada como leve, queda de 20 a 30 por cento
como moderada, e queda maior que 30 por cento, e/ou presença de disfunção orgânica
decorrente dessa queda, e/ou deficiência de tiamina, como grave. É importante notar, e a
prova costuma explorar esse detalhe, que os eletrólitos podem estar dentro da faixa normal
mesmo diante de uma depleção corporal total real, o que reforça que a decisão de risco
deve considerar o contexto clínico completo (grau de desnutrição prévia, tempo de jejum,
comorbidades), não apenas o valor absoluto do exame laboratorial isolado no momento
zero.
Hipofosfatemia de realimentação: o marcador mais sensível na prática
Especificamente na fisiopatologia da síndrome de realimentação, o fósforo costuma ser o
eletrólito que primeiro sinaliza o problema na prática clínica, porque o reinício da oferta de
carboidratos estimula a liberação de insulina, que por sua vez desloca fósforo (junto com
potássio e magnésio) do compartimento extracelular para o intracelular, ao mesmo tempo
em que o fósforo é intensamente consumido na síntese de ATP e de 2,3-difosfoglicerato
pelas células que voltam a receber substrato energético em abundância. Em pacientes com
hipofosfatemia de realimentação, definida operacionalmente como fósforo sérico abaixo de
0,65 mmol/L ou uma queda maior que 0,16 mmol/L em relação ao valor basal, os eletrólitos
devem ser medidos de 2 a 3 vezes ao dia, com suplementação ativa sempre que
necessário.
💊 PRESCRIÇÃO PRÁTICA
Conduta prática diante de hipofosfatemia de realimentação: restringir o suprimento de
energia por 48 horas, e depois aumentar gradativamente a oferta calórica, ao mesmo
tempo em que se corrige o distúrbio eletrolítico. Em pacientes sem hipofosfatemia de
realimentação, ainda assim recomenda-se medir potássio, magnésio e fósforo pelo
menos uma vez ao dia durante toda a primeira semana de internação, exatamente pelo
risco de instalação tardia do distúrbio. Fonte: ESPEN Practical Guideline, Clinical
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Nutrition in the Intensive Care Unit; ASPEN Consensus Recommendations for
Refeeding Syndrome, 2020.
⚠️ ARMADILHA DIAGNÓSTICA
Não confunda o critério diagnóstico da síndrome de realimentação (queda de eletrólitos,
não valores fixos e universais de corte usados igualmente em todos os guidelines) com
os fatores de risco que determinam quem deve ser monitorado com mais intensidade
antes mesmo de começar a nutrir (desnutrição prévia grave, perda de peso recente
significativa, jejum prolongado, alcoolismo, uso crônico de diuréticos ou antiácidos,
entre outros). São duas perguntas diferentes: uma pergunta "este paciente já
desenvolveu a síndrome?", a outra pergunta "este paciente tem risco elevado de
desenvolvê-la, e por isso preciso iniciar a nutrição de forma ainda mais cautelosa e com
monitorização eletrolítica mais frequente desde o primeiro dia?".
Controle glicêmico no paciente crítico em terapia nutricional
O controle glicêmico é outro pilar de monitoramento indissociável da terapia nutricional em
UTI, e a lógica aqui também segue um raciocínio de equilíbrio entre dois extremos
igualmente perigosos: hiperglicemia grave de um lado, hipoglicemia do outro, com a
variabilidade glicêmica acentuada representando um terceiro fator de risco independente. A
glicemia deve ser medida inicialmente, logo após a admissão na UTI ou após o início da
nutrição artificial, e pelo menos a cada 4 horas nos primeiros dois dias, de forma geral.
Vários estudos observacionais confirmaram uma associação forte e consistente entre
hiperglicemia grave (acima de 180 mg/dL), variabilidade glicêmica acentuada (coeficiente de
variação maior que 20 por cento), hipoglicemia leve (abaixo de 70 mg/dL) e aumento de
mortalidade. O alvo glicêmico associado ao melhor resultado ajustado, segundo essas
coortes, varia numa faixa ampla, entre aproximadamente 80 e 150 mg/dL nalguns estudos e
entre 140 e 180 mg/dL noutros, o que é diferente dos níveis de glicose realmente
alcançados na prática assistencial cotidiana. Por essa razão, as recomendações práticas
atuais sugerem iniciar terapia com insulina quando a glicemia sanguínea exceder 150 a 180
mg/dL, mantendo a meta operacional geral entre 140 e 180 mg/dL para pacientes clínicos e
cirúrgicos sob cuidados intensivos, tanto em uso de nutrição enteral quanto de nutrição
parenteral.
💊 PRESCRIÇÃO PRÁTICA
Meta glicêmica prática recomendada em pacientes críticos, clínicos e cirúrgicos, em
terapia nutricional: 140 a 180 mg/dL, com insulina indicada quando a glicemia
ultrapassa 150 a 180 mg/dL. Evitar infusão intravenosa de grandes quantidades de
glicose, acima de 3 a 4 mg/kg/min, e reavaliar sempre a adequação da oferta de
carboidratos quando as necessidades de insulina excederem 6 UI por hora por mais de
24 horas consecutivas, considerando, nesse cenário específico, uma redução
temporária da oferta calórica em vez de apenas escalar a dose de insulina
indefinidamente.
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Vale reforçar dois números que já apareceram em contexto de fórmula de nutrição
parenteral e que costumam ser cobrados junto do controle glicêmico e da carga calórica
total: a glicose a 5 por cento fornece 0,2 kcal por mL, e o citrato (presente em algumas
soluções e anticoagulantes usados em terapia renal substitutiva contínua) fornece cerca de
3 kcal por grama, uma fonte calórica adicional frequentemente esquecida no cálculo total do
paciente em CRRT com anticoagulação regional por citrato.
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Nutrição parenteral: emulsões lipídicas e glutamina;
micronutrientes e suplementos
Qual emulsão lipídica utilizar no paciente grave
A terapia nutricional parenteral deve ser abrangente desde o início, incluindo a emulsão
lipídica dentro do plano nutricional completo, e não como um componente opcional a ser
adicionado depois. Existem diversas emulsões disponíveis no mercado, desde as
formulações à base exclusiva de óleo de soja até aquelas que combinam diferentes fontes
lipídicas (óleo de coco, azeite de oliva, óleo de peixe), mas a superioridade clínica entre
elas permanece incerta, principalmente pela falta de estudos claros e comparativos de boa
qualidade sobre as diferenças reais entre emulsões não-soja em termos de desfechos
clínicos relevantes.
A recomendação prática, e a mais cobrada em prova, é não utilizar emulsões lipídicas
baseadas exclusivamente em óleo de soja, favorecendo emulsões que incluam gorduras
ômega-3 dentro da composição. É importante notar, porém, que a diretriz mais recente da
ASPEN não encontrou diferenças estatisticamente significativas entre emulsões à base de
óleo de soja isolado e emulsões mistas em termos de desfechos clínicos duros, o que
reflete uma divergência real e ainda não totalmente resolvida entre as duas principais
sociedades de referência (ESPEN e ASPEN), e reforça a necessidade de mais evidências
de alta qualidade e de considerar diferentes tipos de estudos e opiniões especializadas
antes de tratar este ponto como definitivamente fechado.
Emulsões lipídicas parenterais enriquecidas com EPA e DHA (óleo de peixe), em dose de
0,1 a 0,2 g por kg por dia, podem ser fornecidas em pacientes recebendo nutrição
parenteral, dentro do contexto de composição mista da emulsão total, sem que isso
configure uma recomendação de suplementação isolada de ômega-3 em altas doses (que
veremos com mais detalhe adiante, e que não é recomendada rotineiramente).
Glutamina parenteral: contraindicação na fase aguda de instabilidade
O uso parenteral de glutamina está formalmente contraindicado em pacientes na fase
aguda de doença grave, especialmente na presença de disfunção orgânica múltipla,
disfunção renal, disfunção hepática, ou instabilidade hemodinâmica, e também em doses
acima de 0,5 g por kg por dia, independentemente do contexto clínico. Em pacientes de UTI
instáveis e complexos, particularmente aqueles que sofrem de insuficiência hepática e
renal, a glutamina parenteral não deve ser administrada em hipótese alguma. Esse
posicionamento é o contraponto direto do que você verá a seguir sobre glutamina enteral, e
a distinção entre via enteral e via parenteral, e entre paciente estável e instável, é
exatamente o que a prova costuma testar neste ponto.
Glutamina enteral: contraindicada na maioria dos pacientes de UTI,
exceto queimados e trauma
A orientação da ESPEN sobre glutamina enteral é direta e categórica: em pacientes de UTI
em geral, exceto pacientes queimados e traumatizados, não se deve administrar glutamina
enteral de forma rotineira. O racional pedagógico por trás dessa recomendação vale
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entender, e não apenas memorizar: na UTI clínica geral, o benefício da suplementação de
glutamina não se mostrou consistente nos estudos disponíveis, e, portanto, suplementar por
rotina tende apenas a aumentar complexidade e custo sem ganho comprovado de
desfecho. Já em queimaduras extensas e em trauma crítico, o balanço risco-benefício muda
de direção, por conta de perdas e demandas metabólicas específicas e muito mais intensas
nesses dois cenários particulares.
Situação clínica Recomendação de glutamina enteral
Grandes queimados (mais de 20% de 0,3 a 0,5 g/kg/dia, por 10 a 15 dias, assim que a
superfície corporal queimada) nutrição enteral for iniciada
0,2 a 0,3 g/kg/dia, nos primeiros 5 dias com
Trauma grave nutrição enteral; período mais longo (10 a 15
dias) em cicatrização de feridas complicadas
Não administrar glutamina enteral adicional de
Demais pacientes de UTI
forma rotineira
Pancreatite aguda grave (via enteral ou Não recomendada, conforme já visto na seção
parenteral) de populações especiais
Do ponto de vista fisiológico, a glutamina transporta nitrogênio entre células e órgãos e
serve como combustível metabólico preferencial para células de proliferação rápida
(enterócitos, células do sistema imune). Sob condições fisiológicas normais, as reservas
endógenas de glutamina são mantidas tanto pela ingestão nutricional diária (80 g de
proteína mista contêm aproximadamente 10 g de glutamina) quanto pela síntese endógena,
principalmente no músculo esquelético e no fígado. Em situações de estresse metabólico
intenso e prolongado, como grandes queimaduras, essa capacidade de síntese endógena
pode ser superada pela demanda, justificando a suplementação exógena específica nesse
subgrupo.
Ômega-3 em altas doses: não usar como rotina imunomoduladora
A diretriz recomenda que fórmulas enterais enriquecidas com ômega-3 em altas doses não
sejam usadas rotineiramente, e também orienta que altas doses de fórmulas com ômega-3
não sejam administradas em bolus. A razão dessa cautela é que a evidência agregada não
demonstra benefício clínico consistente quando se misturam diferentes doses e diferentes
estratégias de administração entre os estudos disponíveis, e análises específicas sugerem
inclusive potencial de risco em populações de UTI clínica geral quando combinações
"imunomoduladoras" são usadas de forma indiscriminada, fora de um contexto específico
bem definido.
Isso não significa que o ômega-3 esteja proibido de forma absoluta: a diretriz admite que
ômega-3 em doses nutricionais (não farmacológicas em altas doses) pode ser administrado
normalmente, seja por via enteral dentro de uma fórmula padrão, seja por via parenteral
dentro de uma emulsão lipídica mista, como você viu na seção anterior. A mensagem
central para a prova é clara: evite a prescrição automática de fórmulas imunomoduladoras
como conduta padrão, principalmente na fase aguda da doença crítica, momento em que o
determinante mais importante de segurança nutricional continua sendo o acerto da dose
energética total e a prevenção da sobrealimentação, não a escolha de aditivos
imunomoduladores específicos.
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Vitamina D: reposição em altas doses no paciente com deficiência
confirmada
Em pacientes criticamente enfermos com níveis plasmáticos baixos de vitamina D
confirmados por dosagem (25-hidroxivitamina D abaixo de 12,5 ng/mL, equivalente a 50
nmol/L), uma dose alta de vitamina D3, na ordem de 500.000 UI em dose única, pode ser
administrada dentro da primeira semana após a admissão na UTI. A vitamina D também
pode ser suplementada em esquema de manutenção nesses mesmos pacientes com
deficiência plasmática documentada, mas a indicação central e mais cobrada em prova é
essa dose de ataque única de 500.000 UI, reservada especificamente para deficiência
bioquimicamente confirmada, não para reposição empírica e indiscriminada de todo
paciente crítico.
Antioxidantes: não usar em monoterapia sem deficiência comprovada
Antioxidantes em monoterapia e em altas doses não devem ser administrados sem
deficiência comprovada. Esse ponto, embora mais curto que os demais, costuma aparecer
como distrator em questões de suplementação no paciente crítico: a ideia intuitiva de que
"mais antioxidante deve proteger mais contra o estresse oxidativo da doença crítica" não é
sustentada pela evidência disponível quando aplicada de forma empírica e sem diagnóstico
bioquímico prévio de deficiência específica.
🎯 PONTO DE PROVA
Resumo definitivo de suplementos no paciente crítico para a prova: glutamina enteral,
sim, apenas em grande queimado e trauma grave; glutamina parenteral, praticamente
nunca (contraindicada na instabilidade e em disfunção orgânica); ômega-3 em altas
doses e de forma imunomoduladora isolada, não; ômega-3 em doses nutricionais
dentro de fórmula padrão, sim; vitamina D em dose de ataque (500.000 UI), apenas
com deficiência bioquímica confirmada; antioxidantes em monoterapia e alta dose, não,
a menos que exista deficiência específica comprovada.
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Pontos de prova: consolidação final
Chegamos ao fechamento estratégico da apostila. Esta seção não repete o conteúdo já
explicado, ela organiza tudo o que você estudou em forma de mapa de revisão rápida, para
os últimos dias antes da prova. Use-a como checklist final, não como primeira leitura.
Mapa completo das 26 questões: conceito, ano e onde estudar
Questão / Ano Conceito central cobrado Seção desta apostila
Fase Ebb: hipometabolismo no choque não
Q68 / 2025 Fisiopatologia
ressuscitado
Ecogenicidade muscular no ultrassom
Q24 / 2024 Avaliação nutricional
(qualidade, não só quantidade)
Bioimpedância superestima massa magra no
Q48 / 2025 Avaliação nutricional
paciente edemaciado
Timing de nutrição parenteral pós-COVID, 5º
Q48 / 2022 Via e timing
a 7º dia sem desnutrição prévia
Contraindicações formais da nutrição enteral
Q38 / 2023 Via e timing
(ESPEN)
Nutrição enteral precoce pós-neurocirurgia,
Q34 / 2023 Via e timing
sonda pós-pilórica
Q67 / 2025 Progressão de infusão enteral, VRG e via
Via e timing
(correlata) transpilórica (Shils)
Q47 / 2022 VRG de rotina não recomendado; síndrome
Via e timing
(correlata) de realimentação; posicionamento
Q20 / 2022 Fórmula do QR e hipermetabolismo do
Gasto energético
(correlata) paciente grave
Q21 / 2023 QR em acidose, alcalose, cetose, sepse,
Gasto energético
(correlata) coma e hipotermia
Q20 / 2024 QR de gorduras versus carboidratos versus
Gasto energético
(correlata) álcool
Interpretação de calorimetria em déficit
Q69 / 2025 Gasto energético
calórico (queimado, 5º dia)
Interpretação de calorimetria em
Q70 / 2025 Gasto energético
sobrealimentação (queimado, 21º dia)
EFFORT Trial: alta proteína piora desfecho
Q74 / 2024 Proteína
em IRA + SOFA alto
Q41 / 2022 Propofol como causa de pancreatite aguda Lipídios e propofol
Propofol como emulsão lipídica a 10% em
Q67 / 2024 Lipídios e propofol
UTIP
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Questão / Ano Conceito central cobrado Seção desta apostila
Fístula enterocutânea de alto débito no
Q28 / 2023 Obesidade e fístula
obeso crítico ventilado
Mesmo cenário de fístula, IMC 39, débito
Q72 / 2024 Obesidade e fístula
1500 mL/24h
Proteína na injúria renal aguda em Insuficiência renal e
Q61 / 2022
tratamento conservador CRRT
Proteína no renal crônico em diálise Insuficiência renal e
Q58 / 2022
intermitente na UTI CRRT
Insuficiência renal e
Q89 / 2025 Proteína e via na sepse com IRA em CRRT
CRRT
Pressão intra-abdominal e nutrição enteral na
Q66 / 2025 Pancreatite aguda grave
pancreatite grave
NUTRIC alto e estratégia de nutrição
Q72 / 2025 Pancreatite aguda grave
parenteral na pancreatite grave
Íleo paralítico e débito gástrico elevado
Q97 / 2025 Sepse e choque séptico
indicando NP em choque séptico
Q53 / 2025 Diarreia na NE: manter a dieta, investigar C. Complicações
(correlata) difficile gastrointestinais
Complicações
Q39 / 2024 C. difficile fulminante: TMF por colonoscopia
gastrointestinais
Números que a banca cobra de forma literal (decore estes valores)
Parâmetro Valor a memorizar
Janela para considerar todo paciente crítico
Mais de 48 horas de UTI
em risco nutricional
Ponto de corte de alto risco no mNUTRIC Maior ou igual a 5 (escala de 0 a 9)
Critérios GLIM para diagnóstico de
1 critério fenotípico + 1 critério etiológico
desnutrição
Adequação de via oral considerada suficiente ≥70% da meta entre o dia 3 e o dia 7
Janela para iniciar nutrição enteral precoce Até 48 horas após estabilização
Volume de resíduo/aspirado gástrico que
Maior que 500 mL em 6 horas
adia a NE
Janela para iniciar nutrição parenteral se NE
Entre o 3º e o 7º dia
inviável
Janela para NP suplementar se NE plena
Entre o 4º e o 7º dia
não tolerada
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Parâmetro Valor a memorizar
Meta energética na fase aguda (primeiras Não exceder 70% do gasto energético
72h) medido
Meta energética após o 3º dia (com
80 a 100% do GER medido
calorimetria)
8 a 10 kcal/kg/dia, progredindo para 18 a 25
Aporte calórico inicial, regra prática geral
kcal/kg/dia após 5 a 7 dias
Meta proteica geral no paciente crítico Cerca de 1,3 g/kg/dia, progressiva
Limite de carboidratos/glicose Não exceder 5 mg/kg/min
Limite de lipídios intravenosos totais Até 1,5 g/kg/dia (meta central próxima de 1,0
(incluindo propofol) g/kg/dia)
Densidade energética do propofol 1,1 kcal/mL
QR de gordura / carboidrato /
≈0,7 / ≈1,0 / >1,0
sobrealimentação
140 a 180 mg/dL; insulina se >150 a 180
Meta glicêmica geral em terapia nutricional
mg/dL
Queda de P, K e/ou Mg dentro de 5 dias do
Diagnóstico de síndrome de realimentação
início/aumento da oferta
Hipofosfatemia de realimentação (definição P sérico <0,65 mmol/L ou queda >0,16
operacional) mmol/L
Proteína em IRA crítica sem diálise 1,0 a 1,3 g/kg/dia
Proteína em IRA/DRC crítica em diálise ou
1,5 a 1,7 g/kg/dia
CRRT
Proteína no obeso crítico, IMC 30 a 40 2,0 g/kg de peso ideal/dia
Proteína no obeso crítico, IMC >40 Até 2,5 g/kg de peso ideal/dia
Glutamina enteral em grande queimado
0,3 a 0,5 g/kg/dia por 10 a 15 dias
(>20% SCQ)
Vitamina D3 em deficiência confirmada
Dose única de 500.000 UI na 1ª semana
(<12,5 ng/mL)
PIA e nutrição enteral na pancreatite grave <12: normal; 12-15: manter/iniciar; 16-20:
(ESPEN 2020) trófica cautelosa; >20: suspender/NP
As cinco armadilhas mais repetidas da banca neste tema
1. Trocar fase Ebb por fase Flow. Paciente com vasoativo em ascensão, lactato alto,
hipotermia relativa, é fase Ebb (não nutrir). Paciente com vasoativo em queda, já
estabilizado, é candidato à fase Flow (nutrir progressivamente).
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2. Confundir a direção do erro na bioimpedância. Edema e balanço hídrico positivo
SUBESTIMAM gordura e SUPERESTIMAM massa magra, nunca o contrário.
3. Achar que posição prona ou colocação de sonda pós-pilórica difícil justificam
nutrição parenteral precoce. Nenhuma das duas é, isoladamente, indicação de NP; o
acesso gástrico continua sendo o padrão mesmo em prona.
4. Errar a densidade energética do propofol. É 1,1 kcal/mL, não 1,25 kcal/mL, valor que a
banca já usou como distrator em pelo menos três questões diferentes.
5. Aplicar a lógica do renal crônico conservador (restringir proteína) ao renal agudo
crítico ou dialítico. No crítico em diálise, a proteína sobe, não desce; restringir proteína
nesse contexto é erro grave.
📋 PROTOCOLO
Roteiro mental para qualquer caso novo de paciente crítico na prova, aplicável em
segundos: (1) em que fase metabólica o paciente está, Ebb ou Flow; (2) o trato
gastrointestinal está funcionante, existe alguma das contraindicações formais à nutrição
enteral; (3) qual o tempo de internação e a estabilidade hemodinâmica atual, crescente
ou decrescente de vasoativo; (4) existe população especial envolvida, obeso, renal,
queimado, séptico com falência GI, pancreatite grave; (5) existe calorimetria indireta
disponível, e o que o QR está dizendo sobre a direção do ajuste necessário.
Respondendo essas cinco perguntas, na maioria dos casos, a alternativa correta se
torna evidente.
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Este é o retrato clínico canônico da fase Ebb, e vale memorizar cada achado do enunciado como uma bandeira vermelha que aponta para essa fase: uso crescente (não decrescente) de vasoativos indica que a ressuscitação ainda não teve sucesso; lactato elevado e pH reduzido confirmam hipoperfusão tecidual e acidose metabólica; temperatura central de 35,6 graus é hipotermia relativa, coerente com a queda da taxa metabólica basal que caracteriza essa fase. As alternativas A e B descrevem, na verdade, a fase Flow (hipermetabolismo, aumento de temperatura, consumo de oxigênio elevado, citocinas pró-inflamatórias em ascensão), que só se instala depois que a ressuscitação hemodinâmica é bem- sucedida, geralmente entre 24 e 48 horas após o insulto. É o distrator mais comum e mais perigoso desta questão: o candidato que reconhece "paciente grave, deve estar hipermetabólico" sem prestar atenção aos números do enunciado (vasoativos em ascensão, não em queda; temperatura baixa, não febre) cai direto nessa armadilha. A alternativa D tenta desviar a explicação para o efeito dos sedativos isoladamente, ignorando que as alterações descritas são uma resposta neuroendócrina orquestrada ao choque, não um efeito farmacológico isolado.