Apostila Digital: Sarcopenia - Fisiopatologia, Diagnóstico e Tratamento @import url('https://fonts.googleapis.com/css2?family=Inter:wght@300;400;500;600;700&family=Outfit:wght@400;500;600;700;800&display=swap');
Apostila Nutro-TEN Sarcopenia
TEN PREPARATÓRIO
Capítulo 1

Contexto e Relevância para o TEN

A sarcopenia é um tema recorrente nas provas de título em nutrologia. Ela é cobrada de três formas principais:

  • (a) questões sobre critérios diagnósticos com valores numéricos precisos, exigindo que o candidato saiba os pontos de corte da EWGSOP2 de memória;
  • (b) casos clínicos em que o enunciado descreve um idoso com queda, perda funcional ou baixo peso e pede a conduta; e
  • (c) questões de fisiopatologia que envolvem mioquinas, miostatina e mecanismos moleculares de atrofia.

O candidato que domina esse tema tem uma vantagem significativa, porque os enunciados são previsíveis: eles seguem o vocabulário e os critérios do consenso europeu (EWGSOP2, 2019), que é a referência adotada pela banca.

Epidemiologicamente, a sarcopenia afeta entre 10% e 27% dos indivíduos acima de 60 anos, com prevalência que ultrapassa 50% após os 80 anos. Em pacientes hospitalizados, a prevalência varia entre 20% e 47%. Em condições específicas como câncer e doença renal crônica, pode chegar a 60% dos casos. Esses números aparecem nos enunciados como contexto clínico e como fonte de alternativas de distratores sobre "qual população é mais afetada".

🎯 PONTO DE PROVA

Os três números que a prova mais usa sobre epidemiologia de sarcopenia:

  • 10 a 27% em maiores de 60 anos
  • mais de 50% após os 80 anos
  • 20 a 47% em pacientes hospitalizados

A banca usa esses dados para montar enunciados e distratores sobre prevalência.

A sarcopenia foi reconhecida como doença (CID-10: M62.84) a partir das revisões dos últimos anos. Isso tem implicação prática: deixa de ser apenas uma síndrome associada ao envelhecimento e passa a ser uma entidade diagnosticável e tratável. A EWGSOP2 (2019) é o documento que define os critérios diagnósticos vigentes adotados pela banca.

Capítulo 2

Fisiologia do Músculo Esquelético

2.1 Anatomia da Fibra Muscular e Estrutura do Sarcômero

Para compreender por que a sarcopenia causa o que causa, é preciso entender o músculo esquelético de dentro para fora. A unidade funcional do músculo é a fibra muscular (miofibra): uma célula alongada, multinucleada, organizada em feixes envolvidos por camadas de tecido conjuntivo. O epimísio envolve todo o músculo; o perimísio envolve os fascículos; e o endomísio reveste cada fibra individualmente.

Dentro de cada fibra estão as miofibrilas, que por sua vez se organizam em sarcômeros, as unidades repetitivas da contração. O sarcômero é delimitado pelas linhas Z e contém: a banda A, formada pelos filamentos grossos de miosina, e a banda I, onde predominam os filamentos finos de actina. A contração ocorre pelo deslizamento desses filamentos um sobre o outro, encurtando o sarcômero e gerando força.

O retículo sarcoplasmático armazena íons cálcio e os libera mediante estímulo elétrico transmitido pelos túbulos T a partir do sarcolema. Sem cálcio livre no sarcoplasma, a troponina e a tropomiosina impedem a ligação das cabeças de miosina à actina, e a contração não ocorre. Com a liberação do cálcio, a troponina sofre alteração conformacional, a tropomiosina se desloca, e as pontes cruzadas de miosina-actina se formam. Na sarcopenia, o retículo sarcoplasmático tem disfunção progressiva, prejudicando exatamente esse mecanismo de liberação de cálcio, o que explica parte da perda de força observada clinicamente.

🩺 PÉROLA CLÍNICA

Mecanismo de contração em 3 passos para a prova:

  1. Estímulo elétrico chega ao sarcolema pelos túbulos T
  2. Retículo sarcoplasmático libera Ca2+
  3. Ca2+ liga-se à troponina, desloca tropomiosina, permite ligação miosina-actina

Na sarcopenia, a disfunção do retículo sarcoplasmático compromete o passo 2.

2.2 Tipos de Fibras Musculares

A classificação das fibras musculares é fundamental para entender a sarcopenia porque a doença não afeta todos os tipos igualmente. Existem três tipos principais:

  • Fibras Tipo I (oxidativas, lentas, resistentes à fadiga): possuem alta densidade mitocondrial e grande quantidade de mioglobina, o que lhes confere a cor vermelha característica. Utilizam predominantemente metabolismo aeróbico e são ideais para atividades de longa duração, como marcha e manutenção postural. São as fibras responsáveis pela "performance" do dia a dia e pela locomoção contínua.
  • Fibras Tipo IIa (intermediárias, rápidas, oxidativo-glicolíticas): possuem capacidade tanto aeróbica quanto anaeróbica. São utilizadas em exercícios de intensidade moderada, como musculação e esportes intermitentes. São menos vulneráveis à sarcopenia do que as Tipo IIx.
  • Fibras Tipo IIx (glicolíticas, rápidas, pouco resistentes à fadiga): geram força rapidamente com metabolismo predominantemente anaeróbico. São as fibras essenciais para atividades explosivas: levantamento de peso, sprints, recuperação de equilíbrio abrupto. São as fibras mais suscetíveis à atrofia na sarcopenia.
🎯 PONTO DE PROVA

A banca cobra consistentemente: qual tipo de fibra é preferencialmente afetado pela sarcopenia?

Resposta: fibras Tipo II (especialmente IIx), não as Tipo I.

O mecanismo é a desnervação seletiva das unidades motoras de alto limiar (que inervam fibras Tipo II).

Consequência clínica direta: perda de força explosiva, velocidade de reação e equilíbrio rápido, aumentando o risco de quedas.

Característica Tipo I Tipo IIa Tipo IIx
Velocidade de contração Lenta Rápida Muito rápida
Metabolismo Aeróbico (oxidativo) Misto (oxidativo-glicolítico) Anaeróbico (glicolítico)
Resistência à fadiga Alta Moderada Baixa
Densidade mitocondrial Alta Moderada Baixa
Função principal Postura e locomoção contínua Exercício de intensidade moderada Força explosiva e sprints
Afetada pela sarcopenia Menos Moderadamente Preferencialmente

2.3 Função Endócrina do Músculo: Mioquinas e Miostatina

O músculo esquelético não é apenas um órgão de locomoção. Ele funciona como órgão endócrino, produzindo e liberando substâncias chamadas mioquinas, que atuam por via parácrina (local) e endócrina (sistêmica). Esse conceito aparece na prova associado a questões sobre a relação entre músculo, metabolismo e inflamação.

  • Miostatina (GDF-8): é uma proteína da família TGF-beta que atua como inibidor do crescimento e da hipertrofia muscular. Quanto maior a atividade da miostatina, menor o crescimento muscular. Com o envelhecimento e com a sarcopenia, os níveis de miostatina tendem a aumentar, contribuindo para a perda de massa. O exercício resistido reduz a expressão de miostatina. Inibidores de miostatina são objeto de pesquisa terapêutica para sarcopenia e distrofias musculares.
  • Folistatina: é uma proteína que inibe a ação da miostatina. Portanto, elevação de folistatina favorece hipertrofia muscular. O exercício resistido aumenta os níveis de folistatina. Essa relação miostatina/folistatina é um marcador emergente de sarcopenia e tem sido cobrado na prova de título.
  • Interleucina-6 (IL-6) miógena: liberada pelo músculo durante o exercício, tem efeito anti-inflamatório e estimula a mobilização e oxidação de ácidos graxos, além de aumentar a captação de glicose. Isso é diferente da IL-6 produzida pelo tecido adiposo, que tem efeito pró-inflamatório. A banca usa essa distinção para testar se o candidato entende o contexto de produção da citocina.
  • Irisina: liberada em resposta ao exercício aeróbico, promove a transformação de adipócitos brancos em adipócitos marrons (browning do tecido adiposo), aumentando a termogênese e o gasto energético. Também tem efeitos benéficos sobre a saúde óssea.
  • IGF-1 (fator de crescimento semelhante à insulina): produzido localmente pelo músculo em resposta ao exercício, promove a síntese proteica, a diferenciação e a proliferação de células musculares. Com o envelhecimento, há redução sistêmica do IGF-1, o que compromete o anabolismo muscular.
  • IL-15: estimula a oxidação de ácidos graxos, inibe a lipogênese e promove hipertrofia das fibras musculares. É um dos mecanismos pelos quais o exercício previne a deposição de gordura intramuscular (mioesteatose).

Questões de Prova - Fisiologia

Questão TEN 2023 Q.98

Consideradas como as principais reguladoras da massa muscular, sendo que a primeira diminui e a segunda aumenta com a atividade física resistida, essas substâncias também são propostas como possíveis marcadores da sarcopenia. São elas:

Justificativa do Gabarito (Letra B)

GABARITO: Letra B - Miostatina e Folistatina. Comentário: A questão testa o entendimento funcional do eixo miostatina/folistatina. A miostatina DIMINUI com o exercício resistido (e sua redução permite o crescimento muscular). A folistatina AUMENTA com o exercício resistido (ao inibir a miostatina, favorece a hipertrofia). A ativina A não é o marcador clássico cobrado pela banca nesse contexto. Irisina e GDF-15 são mioquinas com outras funções. A armadilha aqui é inverter a relação: candidatos que memorizam "miostatina inibe o músculo" sem entender o que acontece com o exercício confundem a direção da alteração.

Questão TEN 2022 Q.54

Mulher de 65 anos com adenocarcinoma de pâncreas refere perda ponderal de 15 kg em 1 ano. A neoplasia pode produzir fatores catabólicos com impacto na perda de peso. Qual alternativa descreve corretamente esse mecanismo?

Justificativa do Gabarito (Letra C)

GABARITO: Letra C. Comentário: A questão conecta miostatina ao contexto oncológico, fora do cenário clássico do envelhecimento. Neoplasias podem secretar TGF-beta e induzir expressão de miostatina, acelerando a degradação muscular. A distratora mais perigosa aqui é a D (branqueamento do adiposo), que é um mecanismo real mas de sentido oposto: o browning aumenta o gasto energético em vez de reduzir o peso. A alternativa D (estilo E original) é classicamente errada porque o adiposo PARTICIPA ativamente do catabolismo via liberação de citocinas inflamatórias.

Capítulo 3

Fisiopatologia da Sarcopenia

3.1 Visão Geral: Sarcopenia como Doença Multifatorial

A sarcopenia não resulta de um único mecanismo. A prova explora exatamente essa complexidade ao montar questões com alternativas que são "parcialmente corretas". O candidato que entende a fisiopatologia integrada consegue identificar o distrator que acerta um componente mas erra outro.

De forma simplificada, a sarcopenia resulta do desequilíbrio entre SÍNTESE e DEGRADAÇÃO proteica muscular, que se torna crônico com o envelhecimento. Esse desequilíbrio é modulado por: (a) alterações hormonais, (b) inflamação crônica de baixo grau (inflamaging), (c) desnervação neuromuscular, (d) disfunção de células satélites, (e) estresse oxidativo, e (f) desnutrição e inatividade física.

3.2 Desnervação Seletiva das Fibras Tipo II

Com o envelhecimento, ocorre degeneração progressiva dos neurônios motores alfa da medula espinhal, e os mais vulneráveis são aqueles de alto limiar, que inervam as fibras Tipo II (rápidas). Isso desencadeia uma cascata:

  • Passo 1: Perda seletiva dos neurônios motores alfa que inervam fibras Tipo II, resultando em menor número de unidades motoras disponíveis para ativar essas fibras.
  • Passo 2: O organismo compensa parcialmente por meio da "reabsorção": os neurônios motores remanescentes, que inervam fibras Tipo I, "adotam" as fibras Tipo II desnervadas. Isso leva à conversão fenotípica de fibras Tipo II para Tipo I.
  • Passo 3: O músculo se torna mais "resistente" (mais fibras Tipo I), mas perde capacidade de gerar força explosiva, velocidade de reação e potência. É exatamente esse perfil que explica o padrão clínico da sarcopenia: o idoso consegue caminhar (fibras Tipo I), mas cai quando tropeça (precisaria de fibras Tipo II para o reflexo de recuperação).
  • Passo 4: A inatividade progressiva reduz ainda mais o recrutamento das fibras Tipo II, acelerando o ciclo. Fatores neurotróficos como BDNF e NGF, que sustentam a sobrevivência dos neurônios motores, diminuem com o envelhecimento, reduzindo a capacidade de regeneração neuromuscular.
⚠ ARMADILHA DIAGNÓSTICA

A BANCA JÁ USOU ESSA ARMADILHA: alternativa dizendo que "ocorre aumento proporcional de fibras Tipo I durante a sarcopenia" como distrator incorreto.

A resposta correta é que ocorre CONVERSÃO das fibras Tipo II para fenótipo Tipo I (via reenervação pelos neurônios que inervam Tipo I), e não um aumento primário das fibras Tipo I. O músculo não cria novas fibras Tipo I. Ele converte fenotipicamente as fibras Tipo II desnervadas. Há uma diferença sutil mas cobrada.

3.3 Mioesteatose: Infiltração Gordurosa Intramuscular

A mioesteatose é o depósito de gordura dentro das fibras musculares (gordura intramuscular) e no espaço entre elas (gordura intermuscular). Ela compromete a qualidade muscular de forma desproporcional à perda de massa muscular, o que explica por que a força diminui mais rapidamente do que a massa muscular no envelhecimento.

Os mecanismos que levam à mioesteatose são:

  • Desnervação muscular: fibras atrofiadas não são totalmente recuperadas e são substituídas por tecido adiposo.
  • Redução da taxa de síntese proteica: o músculo perde capacidade de manter sua estrutura, favorecendo o acúmulo lipídico intracelular.
  • Resistência à insulina: o músculo reduz a captação de glicose e passa a armazenar mais gordura. O acúmulo de lipídios intramusculares prejudica a função mitocondrial.
  • Inflamação crônica (inflamaging): citocinas como TNF-alfa e IL-6 estimulam a infiltração de células adiposas dentro do tecido muscular e inibem a regeneração.
  • Sedentarismo: a inatividade reduz o estímulo para a oxidação de lipídios no músculo, favorecendo o acúmulo de gordura intramuscular.

Do ponto de vista funcional, a mioesteatose reduz a qualidade muscular: a mesma quantidade de massa muscular gera menos força quando há alta infiltração gordurosa. Isso é o conceito de QUALIDADE MUSCULAR cobrado pela EWGSOP2, que é distinto de quantidade muscular.

🩺 PÉROLA CLÍNICA

Qualidade muscular: força ou potência produzida por unidade de massa muscular.

A mioesteatose é o principal determinante de baixa qualidade muscular. Por isso um idoso pode ter massa muscular "normal" na DXA e ainda assim ter sarcopenia clinicamente relevante: a massa preservada é de baixa qualidade. Isso explica a introdução do parâmetro "qualidade muscular" no EWGSOP2 2019.

3.4 Miofibrose: Substituição por Tecido Conjuntivo Fibroso

A miofibrose é a substituição progressiva das fibras musculares por tecido conjuntivo fibroso, reduzindo a elasticidade e a capacidade contrátil. Os mecanismos são:

  • Desnervação + falha de regeneração: fibras desnervadas que não conseguem ser reinervadas são substituídas por fibroblastos e deposição de colágeno.
  • Superativação de fibroblastos: o excesso de deposição de colágeno resulta em músculo rígido, menos eficiente na contração.
  • TGF-beta (inflamaging): é um dos principais mediadores da miofibrose. Ele estimula a proliferação de fibroblastos e a produção de colágeno. Esse é o mesmo TGF-beta produzido pelas neoplasias que causa caquexia.
  • Redução das células satélites: essas células-tronco musculares são responsáveis pela regeneração após microlesões. Com o envelhecimento, seu número e atividade diminuem drasticamente, e as áreas que deveriam se regenerar são substituídas por fibroblastos.
  • Sedentarismo: o estímulo mecânico do exercício é necessário para manter o equilíbrio de degradação e renovação do colágeno. Sem esse estímulo, há acúmulo de colágeno desorganizado.

3.5 Desequilíbrio entre Síntese e Degradação Proteica

Em músculos jovens e saudáveis, a síntese proteica (anabolismo) e a degradação proteica (catabolismo) estão em equilíbrio. Na sarcopenia, a degradação predomina. Os mecanismos moleculares são fundamentais para a prova porque a banca os usa para testar a lógica da fisiopatologia, não a memorização de nomes:

  • Via mTOR (anabolismo): o alvo mecanístico da rapamicina (mTOR) é a via central de síntese proteica no músculo. É ativado por aminoácidos (especialmente leucina), IGF-1, insulina e exercício. Na sarcopenia, a atividade do mTOR está reduzida por estímulos anabólicos insuficientes: menos proteína na dieta, queda de IGF-1, queda de testosterona. A leucina é o aminoácido que mais potentemente ativa o mTOR, o que explica por que a ingestão de leucina é destacada no tratamento.
  • Via ubiquitina-proteassoma (catabolismo): é o sistema de degradação proteica que é hiperativado na sarcopenia. Citocinas pró-inflamatórias (TNF-alfa, IL-6) ativam essa via, que degrada proteínas estruturais e contráteis do músculo, incluindo miosina e actina. O mesmo sistema é ativado pelo cortisol (elevado no envelhecimento) e pelo estado de fome/estresse.
  • Sistema lisossomal-autofágico: contribui adicionalmente para o catabolismo muscular, especialmente na disfunção mitocondrial. A autofagia disfuncional na sarcopenia leva ao acúmulo de mitocôndrias disfuncionais, que geram mais espécies reativas de oxigênio (ROS), amplificando o dano.
  • Disfunção mitocondrial: a biogênese mitocondrial diminui com o envelhecimento, e as mitocôndrias existentes apresentam menor eficiência na produção de ATP. Isso compromete a capacidade energética do músculo para manter a síntese proteica e sustentar atividades físicas. O exercício aeróbico atua especificamente na restauração da biogênese mitocondrial.

3.6 Alterações Hormonais na Sarcopenia

O envelhecimento provoca alterações hormonais sistemáticas que contribuem para o catabolismo muscular. A banca usa esses dados para montar questões sobre "por que idosos têm maior risco" e para diferenciar sarcopenia primária de secundária:

Hormônio Alteração no Envelhecimento Efeito na Musculatura
Testosterona (homens) Redução progressiva (>1% ao ano após 40 anos) Menor estímulo anabólico, redução de síntese proteica e hipertrofia.
Estrogênio (mulheres) Redução abrupta na menopausa Perda da proteção anti-inflamatória, aumento do catabolismo muscular.
GH (hormônio do crescimento) Redução da secreção pulsátil Menor produção hepática de IGF-1, menor anabolismo muscular.
IGF-1 Redução sistêmica (correlaciona com GH) Menor ativação da via mTOR, menor síntese proteica.
Cortisol Relativo aumento (ou maior sensibilidade) Ativação da via ubiquitina-proteassoma, catabolismo proteico.
Insulina (sensibilidade) Resistência à insulina progressiva Redução da captação de glicose pelo músculo, mioesteatose, menor ativação do mTOR.
Vitamina D (forma ativa) Redução por menor exposição solar e menor conversão renal Redução da síntese proteica muscular, atrofia preferencial de fibras Tipo II.

3.7 Inflamação Crônica de Baixo Grau (Inflamaging)

O inflamaging é o estado de inflamação crônica, de baixa intensidade e persistente, que caracteriza o envelhecimento biológico. Diferente da inflamação aguda, que tem início, pico e resolução, o inflamaging é contínuo e subclínico. Seus mediadores principais são: TNF-alfa, IL-1beta, IL-6 e proteína C reativa (PCR).

No contexto da sarcopenia, o inflamaging age de duas formas:

  • Ativa diretamente a via ubiquitina-proteassoma, aumentando a degradação proteica.
  • Inibe a via mTOR (bloqueando o anabolismo) ao mesmo tempo em que estimula o catabolismo, o que resulta no chamado "desequilíbrio proteico inflamatório".

O tecido adiposo (especialmente a gordura visceral) é um dos principais produtores de citocinas pró-inflamatórias nos idosos. Isso cria um ciclo vicioso: mais gordura gera mais inflamação, que acelera a sarcopenia, que reduz o gasto energético basal, que favorece o acúmulo de gordura.

3.8 Resistência Anabólica

Um conceito central para o entendimento do tratamento nutricional da sarcopenia é a RESISTÊNCIA ANABÓLICA: o músculo do idoso responde menos eficientemente ao estímulo proteico do que o músculo de adultos jovens. Isso significa que, para obter o mesmo estímulo de síntese proteica pós-prandial, o idoso precisa de uma dose maior de proteína por refeição.

Os mecanismos da resistência anabólica incluem:

  • Redução do fluxo sanguíneo muscular pós-prandial (menor entrega de aminoácidos ao músculo)
  • Menor expressão de receptores e sensores de aminoácidos no músculo
  • Atividade reduzida da via mTOR em resposta aos aminoácidos
  • Maior atividade de vias inflamatórias que antagonizam o anabolismo

Implicação terapêutica direta: enquanto 0,24 g/kg/refeição é suficiente para estimular ao máximo a síntese proteica em adultos jovens, idosos precisam de 0,4 g/kg/refeição para o mesmo efeito (dado de Moore et al., citado na ESPEN). Isso se traduz em 25-30 g de proteína por refeição para a maioria dos idosos, e destaca a importância do whey protein como fonte de leucina em alta concentração.

🎯 PONTO DE PROVA

Resistência anabólica: o idoso precisa de MAIS proteína por refeição para o mesmo estímulo de síntese proteica.

  • 0,4 g/kg/refeição para idosos vs 0,24 g/kg/refeição para jovens (Moore et al.)

Isso justifica a meta de 25-30 g de proteína por refeição no tratamento da sarcopenia.

O Whey protein é preferencial por: alta concentração de leucina + rápida absorção + alta disponibilidade pós-prandial de aminoácidos.

Capítulo 4

Avaliação Clínica e Diagnóstico

4.1 Triagem com SARC-F e SARC-CalF

Antes de qualquer avaliação diagnóstica formal, a prova cobre os instrumentos de TRIAGEM. O SARC-F é o questionário de rastreio mais aceito e utilizado na prática clínica. Foi proposto em 2013 e consiste em 5 questões sobre autopercepção da funcionalidade muscular, cada uma pontuada de 0 a 2, com soma final de 0 a 10.

Componente (SARC-F) Pergunta Pontuação
Força (Strength) O quanto de dificuldade você tem para levantar e carregar 5 kg? Nenhuma = 0
Alguma = 1
Muita / não consegue = 2
Ajuda para caminhar (Assistance walking) O quanto de dificuldade para atravessar um cômodo? Nenhuma = 0
Alguma = 1
Muito / usa apoio / incapaz = 2
Levantar da cadeira (Rise from chair) O quanto de dificuldade para levantar de uma cama/cadeira? Nenhuma = 0
Alguma = 1
Muita / não consegue sem ajuda = 2
Subir escadas (Climb stairs) O quanto de dificuldade para subir 10 degraus? Nenhuma = 0
Alguma = 1
Muita / não consegue = 2
Quedas (Falls) Quantas vezes você caiu no último ano? Nenhuma = 0
1-3 quedas = 1
4+ quedas = 2

Interpretação SARC-F: pontuação 4 ou mais = triagem positiva, prosseguir com investigação diagnóstica completa.

O SARC-CalF incorpora a medição da circunferência da panturrilha (CP) ao SARC-F, com pontuação adicional de 10 pontos se CP igual ou menor a 33 cm em mulheres ou igual ou menor a 34 cm em homens. Pontuação total de 0 a 20; 11 ou mais = sugestivo de sarcopenia.

🩺 PÉROLA CLÍNICA

Na prática clínica, qualquer idoso com queixa de fraqueza, quedas, dificuldade de locomoção ou perda de peso deve receber o SARC-F.

Triagem positiva no SARC-F não é diagnóstico: é o sinal para começar a avaliação formal (força muscular + massa muscular). A vantagem do SARC-CalF sobre o SARC-F isolado é aumentar a sensibilidade da triagem, pois incorpora medição objetiva de massa.

4.2 Critérios Diagnósticos: EWGSOP2 2019

O EWGSOP2 (2019) é a referência que a banca utiliza. A grande mudança em relação ao EWGSOP1 (2010) foi que a FORÇA MUSCULAR passou a ser o critério PRIMÁRIO, e a massa muscular passou a ser o critério CONFIRMATÓRIO. Antes, massa muscular era o critério central.

O algoritmo diagnóstico atual tem três níveis:

  1. Sarcopenia PROVÁVEL: baixa força muscular (sem necessidade de confirmar massa).
  2. Sarcopenia CONFIRMADA: baixa força muscular + baixa massa/qualidade muscular.
  3. Sarcopenia GRAVE: baixa força muscular + baixa massa/qualidade muscular + baixo desempenho físico.

O desempenho físico passou de critério diagnóstico para critério de GRAVIDADE. Essa é uma das principais mudanças do EWGSOP2 que a banca cobra diretamente.

⚠ ARMADILHA DIAGNÓSTICA

ARMADILHA CLÁSSICA: "baixo desempenho físico (velocidade de marcha < 0,8 m/s) confirma o diagnóstico de sarcopenia".

ERRADO. No EWGSOP2 2019, baixo desempenho físico NÃO é critério diagnóstico. É critério de GRAVIDADE. O diagnóstico é feito com força + massa. O desempenho classifica como grave. A prova usa essa inversão como distrator frequente.

4.3 Avaliação da Força Muscular

Dinamometria Manual (Handgrip Strength): a força de preensão palmar medida por dinamometria é o método padrão recomendado pela EWGSOP2 para avaliação de força. O instrumento mais validado é o dinamômetro Jamar. Para a medição: devem ser feitas TRES medições e considerado o MENOR valor obtido (atenção: este é um ponto de prova frequente).

População Ponto de Corte (Baixa Força)
Homens < 27 kg (EWGSOP2, 2019)
Mulheres < 16 kg (EWGSOP2, 2019)
🎯 PONTO DE PROVA

Os pontos de corte de preensão manual são os valores MAIS COBRADOS de toda a sarcopenia:

  • Homens: < 27 kg
  • Mulheres: < 16 kg

Fonte: EWGSOP2 2019 (Cruz-Jentoft et al., Age Ageing, 2019). A prova já testou com valores errados: 26/17, 28/15, 27/17, 26/16. Apenas 27/16 é o correto.

Para a dinamometria: TRÊS medições, considera-se o MENOR valor.

Teste de Levantar da Cadeira (Chair Stand Test): o EWGSOP2 aceita o teste de sentar-levantar como alternativa a dinamometria quando esta não é viável. O protocolo clássico mede o tempo para levantar 5 vezes consecutivas sem usar os braços. O ponto de corte é: tempo MAIOR do que 15 segundos para 5 subidas indica baixa força de membros inferiores. Uma variação mede quantas vezes o paciente consegue levantar e sentar em 30 segundos.

4.4 Avaliação da Massa/Qualidade Muscular

DXA (Absorciometria de Raios X de Dupla Energia): a DXA é o método mais utilizado clinicamente para avaliação da composição corporal. Ela mede a massa magra apendicular (ALM = appendicular lean mass), que é usada como proxy da massa muscular esquelética apendicular (MASA). O índice mais utilizado é o ALM/altura² (ASM/h²).

Parâmetro Homens (DXA) Mulheres (DXA) Fonte
Massa muscular apendicular / altura² (ASM/h²) < 7,0 kg/m² < 5,5 kg/m² EWGSOP2 2019
ASM/h² (referência brasileira) < 7,5 kg/m² < 5,5 kg/m² Barbosa-Silva et al., 2016

Limitações da DXA: não é portátil; influenciada por estado de hidratação e presença de próteses; a ALM pode incluir gordura e tecido não muscular, sendo uma superestimativa da MASA real.

BIA (Bioimpedância Elétrica): a BIA é acessível, de baixo custo e amplamente disponível em ambientes ambulatoriais. Estima a massa muscular esquelética total ou apendicular através de equações de predição, que devem ser validadas para a população e para o equipamento específico.

O ÂNGULO DE FASE (phase angle) é um parâmetro derivado da BIA (razão entre reatância e resistência) que vem sendo estudado como marcador de qualidade muscular. Valores menores de ângulo de fase correlacionam com pior funcionalidade e maior mortalidade.

Limitações da BIA: sensível ao estado de hidratação; menor precisão em indivíduos com IMC > 34 kg/m² (tende a subestimar gordura e superestimar massa magra em obesos); diferentes aparelhos geram resultados incompatíveis se usadas equações de outros dispositivos.

TC e RM: Tomografia Computadorizada (TC) e Ressonância Magnética (RM) são os métodos padrão-ouro para avaliação de massa e qualidade muscular. A TC permite avaliar a densidade tecidual do músculo (atenuação muscular), que é um marcador de mioesteatose. A RM mede diretamente o conteúdo de gordura intramuscular. Na prática clínica, o uso é restrito a pacientes oncológicos (TC oportunística da L3) ou casos de pesquisa. A imagem ao nível de L3 correlaciona-se com a massa muscular esquelética total e tem valor preditivo independente para mortalidade em pacientes críticos e oncológicos.

Medidas Antropométricas - Circunferência da Panturrilha (CP): a circunferência da panturrilha é o método mais simples para estimar massa muscular em idosos quando métodos de imagem ou bioimpedância não estão disponíveis. É um proxy aceitável para triagem, com as seguintes ressalvas: não é precisa em pacientes com edema, pode ser afetada por depósito de gordura subcutânea em obesos.

Referência Ponto de Corte (Baixa Massa)
CP (Barbosa-Silva et al., 2016 - população brasileira) Homens: <= 31 cm | Mulheres: <= 31 cm
CP (SARC-CalF - para triagem) Homens: <= 34 cm | Mulheres: <= 33 cm
CP (associada a pior funcionalidade em idosos) < 31 cm para ambos os sexos
⚠ ARMADILHA DIAGNÓSTICA

A banca usa OS MESMOS VALORES com variação para confundir:

  • 31 cm: ponto de corte para DIAGNÓSTICO de baixa massa (EWGSOP2 e população brasileira)
  • 33/34 cm: ponto de corte utilizado no SARC-CalF para TRIAGEM

Quando a questão fala em TRIAGEM, pode usar 33/34 cm. Quando fala em DIAGNÓSTICO de sarcopenia, o valor é 31 cm para ambos os sexos. Ver questões das provas 2022, 2023 e 2024 que exploram exatamente essa diferença.

4.5 Avaliação do Desempenho Físico

No EWGSOP2, o desempenho físico é o critério de GRAVIDADE, não de diagnóstico. Os métodos são:

Velocidade da Marcha: é o método mais prático, simples e recomendado pela EWGSOP2. Protocolo: percurso linear de 4 metros, tempo medido manualmente ou com cronômetro. Velocidade calculada como distância/tempo (m/s). Ponto de corte para baixo desempenho (sarcopenia grave): velocidade menor ou igual a 0,8 m/s, ou seja, não completar 4 metros em menos de 5 segundos.

A velocidade da marcha é, além de critério de gravidade da sarcopenia, um PREDITOR INDEPENDENTE de sobrevivência, mortalidade, declínio cognitivo e institucionalização em idosos. Um estudo histórico publicado no JAMA mostrou que a velocidade de marcha medida aos 65 anos ou mais é um dos melhores índices para estimar sobrevivência.

SPPB (Short Physical Performance Battery): o SPPB é uma bateria que avalia três dimensões: velocidade da marcha, equilíbrio estático e força de membros inferiores (teste de sentar/levantar). Pontuação máxima de 12 pontos. Pontuação igual ou menor a 8 indica baixo desempenho físico. É mais utilizado em pesquisa do que na prática clínica devido ao tempo necessário (10+ minutos).

TUG (Timed Up and Go): o paciente levanta de uma cadeira padrão, caminha 3 metros, vira-se, retorna e senta. Tempo medido. Tempo superior a 12 segundos indica comprometimento da mobilidade em idosos que vivem na comunidade. É simples e amplamente usado na prática clínica.

Teste Ponto de Corte Uso na EWGSOP2 Limitação
Velocidade da marcha (4 metros) <= 0,8 m/s (recomendado) Critério de gravidade Requer espaço mínimo de 4 metros
SPPB <= 8 pontos Alternativa válida Demora 10+ min, mais útil em pesquisa
TUG > 12 segundos Alternativa válida Menos estudado para sarcopenia isolada

Questões de Prova - Diagnóstico e Avaliação

Questão TEN 2024 Q.64

Estimativas de sobrevivência ajudam a individualizar objetivos para pacientes geriátricos. Há parâmetros que avaliam essa condição com características individuais, e um estudo relacionou o resultado nessa avaliação, realizada aos 65 anos ou mais, com a chance de sobrevida, para ambos os gêneros. Essa avaliação foi:

Justificativa do Gabarito (Letra D)

GABARITO: Letra D - Velocidade da marcha. Comentário: A questão explora um conceito importante que vai além do diagnóstico da sarcopenia: a velocidade da marcha como preditor de sobrevivência. O distrator mais perigoso aqui é B (massa muscular), porque a intuição do candidato é que "mais músculo = mais saúde". Mas estudos clássicos (JAMA) mostraram que a FUNÇÃO muscular (velocidade da marcha) é um preditor mais forte de sobrevivência do que a QUANTIDADE de músculo. A mioesteatose (C) é um marcador de qualidade muscular ruim, mas não foi o parâmetro validado em estudos longitudinais de sobrevivência da forma como a velocidade da marcha foi.

Questão TEN 2022 Q.18

Com relação à avaliação do estado nutricional, assinale a alternativa incorreta:

Justificativa do Gabarito (Letra C - Incorreta)

GABARITO: Letra C (incorreta: valores errados). Comentário: A questão testa exatamente os valores numéricos do EWGSOP2. A alternativa C está ERRADA porque usa valores incorretos: 26 kg para homens (deveria ser 27 kg) e 17 kg para mulheres (deveria ser 16 kg). O candidato que memorizou os valores corretos (27/16) imediatamente identifica que a alternativa C está errada e é a resposta da questão (pediu a INCORRETA). As demais alternativas são corretas. Nota: a D usa 31 cm para ambos, que é o ponto de corte correto da população brasileira para diagnóstico (EWGSOP2/Barbosa-Silva).

Questão TEN 2023 Q.25

Assinale a alternativa correta com relação à avaliação antropométrica:

Justificativa do Gabarito (Letra C)

GABARITO: Letra C. Comentário: A questão confirma os mesmos valores 27/16 kg da prova 2022, reforçando que são os mais cobrados. As três outras alternativas são erradas com distratores sutis: A usa 5% (deveria ser >10% em 6 meses para grave); B diz que a CB deve ser medida com o braço FLETIDO (errado, deve ser relaxado); D usa 33 cm como ponto de corte para CP no contexto de diagnóstico, quando o correto é 31 cm (33 cm é usado no SARC-CalF para triagem).

Questão TEN 2024 Q.23

Assinale a alternativa correta:

Justificativa do Gabarito (Letra B)

GABARITO: Letra B. Comentário: TERCEIRA vez em três anos consecutivos que a prova cobra os valores de handgrip 27/16. Isso confirma que são os dados mais importantes do tema sarcopenia para o TEN. A B está correta. A A está errada: >2% em 1 mês é perda moderada (grave é >5%/mes ou >10%/6 meses). A C usa 34 cm em vez de 31 cm. A D repete o erro clássico: CB medida com braço FLETIDO.

Questão TEN 2022 Q.97

Homem de 69 anos, após episódio depressivo grave, evolui com hiporexia e perda ponderal. Dados: IMC 20 kg/m², CP 28 cm, CC 76 cm, força de preensão palmar 25 kgf, DCT 3mm. É correto afirmar que:

Justificativa do Gabarito (Letra D)

GABARITO: Letra D. Comentário: Questão de caso clínico que integra vários tópicos. A D é correta: dinamometria faz três medições e considera o MENOR valor. A A é errada porque o ponto de corte de IMC para baixo peso é o mesmo para todas as idades (<18,5). A B é errada: circunferência da cintura é medida no ponto mais ESTREITO entre crista ilíaca e costelas, não no ponto mais ALTO da crista. A C é errada: CP PODE e DEVE ser aferida em pacientes acamados (e é especialmente útil nesse contexto). CP de 28 cm neste paciente confirma risco de sarcopenia.

Questão TEN 2024 Q.24

Em relação ao uso da ultrassonografia para avaliação de composição corporal em pacientes críticos, assinale a alternativa correta:

Justificativa do Gabarito (Letra C)

GABARITO: Letra C. Comentário: A ecogenicidade avalia a infiltração de gordura e tecido fibroso no músculo (mioesteatose), sendo uma medida de qualidade muscular. A A é errada porque os valores de referência para pacientes críticos ainda NÃO são bem definidos. A B é errada: as medidas mais estudadas são do reto femoral e do quadríceps total, não vasto medial/lateral. A D é errada: usa-se o transdutor LINEAR (maior resolução para estruturas superficiais), não o convexo.

Capítulo 5

Tratamento da Sarcopenia

5.1 Exercício Físico

O exercício físico é a intervenção com maior evidência para prevenção e tratamento da sarcopenia. A banca cobra dois aspectos: (a) qual modalidade é mais eficaz e (b) como prescrever. A resposta para o primeiro ponto é: programa MULTICOMPONENTE (resistido + aeróbico + equilíbrio), porque nenhuma modalidade isolada cobre todos os mecanismos da sarcopenia.

  • Exercício Resistido: é considerado o de efeito mais importante para sarcopenia. Mecanismo: estimula a via mTOR (anabolismo proteico), aumenta a expressão de IGF-1 local, reduz miostatina, aumenta folistatina, recruta células satélites para reparação e hipertrofia. Recomendação: 2-3 vezes por semana, 8-10 exercícios envolvendo grandes grupos musculares, 1-3 séries de 8-12 repetições, iniciando com 20-30% de 1RM e progredindo até 80% de 1RM.
  • Exercício Aeróbico: atua principalmente na disfunção mitocondrial, aumentando a biogênese mitocondrial e a produção de ATP. Melhora a capacidade aeróbica, a regulação metabólica e a função cardiovascular. Reduz genes catabólicos e aumenta a síntese proteica muscular. Recomendação: 3-5 vezes por semana, 10-30 minutos por sessão, intensidade moderada a alta (12-14 na escala de Borg).
  • Exercício de Equilíbrio: fundamental para redução de quedas em sarcopênicos, que é o desfecho clínico mais importante na prática. Exemplos: caminhada em linha, ficar em uma perna, marcha em tandem.
Modalidade Frequência Séries / Repetições Intensidade
Resistido 2-3x / semana 1-3 séries de 8-12 reps, 8-10 exercícios Iniciar 20-30% 1RM, progredir até 80% 1RM
Aeróbico 3-5x / semana 10-30 minutos contínuo Moderada a alta (Borg 12-14)
Equilíbrio Diário ou 3x / semana Progressivo conforme tolerância Progressivo conforme tolerância
🩺 PÉROLA CLÍNICA

Idoso hospitalizado também pode e DEVE fazer exercício resistido.

O repouso no leito é uma das maiores ameaças à massa muscular do idoso: em apenas 10 dias de imobilização, pode-se perder >10% da massa muscular dos membros inferiores. O treinamento resistido na internação previne o descondicionamento e reduz o tempo de recuperação pós-alta. Mesmo exercícios de baixa intensidade (ex: contração isométrica, levantar da cama) têm impacto clínico relevante.

5.2 Terapia Nutricional: Proteína

A terapia nutricional é indissociável do exercício no tratamento da sarcopenia. A sinergia entre exercício e proteína gera resultados superiores a qualquer intervenção isolada. As recomendações de ingestão proteica variam conforme o estado clínico:

População Meta Proteica Fonte
Idosos saudáveis (> 65 anos) 1,0 a 1,2 g/kg/dia ESPEN 2018
Idosos cronicamente doentes ou desnutridos 1,2 a 1,5 g/kg/dia ESPEN 2018
Idosos em intervenção com exercício físico 1,2 a 1,5 g/kg/dia ESPEN (Clinical Nutrition, 2018)
Idosos com baixo peso (IMC < 22 kg/m²) 1,2 to 1,5 g/kg/dia + 32-38 kcal/kg/dia ESPEN 2018
Distribuição ideal por refeição 25-30 g de proteína de alta qualidade por refeição Moore et al.; ESPEN

Whey Protein: é a fonte proteica preferencial para idosos sarcopênicos por quatro razões:

  1. Alto teor de leucina (aminoácido que ativa o mTOR mais potentemente);
  2. Digestão e absorção rápidas, resultando em alta disponibilidade pós-prandial de aminoácidos;
  3. Maior estímulo de síntese proteica muscular em comparação com caseína ou proteínas vegetais;
  4. Proteínas em forma líquida são mais eficientes do que proteínas sólidas (menor resistência anabólica).

Leucina: a quantidade de leucina na dieta é um fator crítico para superar a resistência anabólica do idoso. É o aminoácido que mais potentemente ativa a via mTOR no músculo esquelético. Por isso, a suplementação de leucina (ou de fontes ricas em leucina como whey) é especificamente recomendada.

🩺 PÉROLA CLÍNICA

Estratégia para superar a resistência anabólica:

  1. Distribuir 25-30 g de proteína por refeição (em vez de concentrar tudo no jantar)
  2. Priorizar whey protein ou outras fontes ricas em leucina
  3. Consumir proteína APOS o exercício resistido (janela anabólica)
  4. Em proteínas vegetais: combinar múltiplas fontes para obter perfil completo de aminoácidos essenciais

5.3 Suplementos Nutricionais Específicos

  • HMB (beta-hidroxi-beta-metilbutirato): o HMB é um metabólito ativo da leucina. Seu principal mecanismo é a redução do catabolismo proteico (inibe a via ubiquitina-proteassoma) e, em menor grau, o estímulo ao anabolismo. É indicado em idosos desnutridos ou em risco nutricional, associado a exercício resistido e dieta hiperproteica. Dose: 3 g/dia (2 g de HMB livre ou 3 g de HMB-Ca), divididos em 1-3 tomadas. A combinação HMB + aminoácidos essenciais mostrou, em estudos de 12 meses, ganhos na composição muscular superiores ao grupo que recebeu apenas aminoácidos. Atenção: os benefícios do HMB não são robustamente demonstrados quando usado ISOLADO sem exercício e sem dieta adequada.
  • Creatina: a creatina é um ácido orgânico nitrogenado que funciona como reserva rápida de energia (sistema ATP-CP) durante exercícios de alta intensidade. Nos idosos, a suplementação de creatina atua em três frentes: (a) melhora a disponibilidade de ATP para o exercício resistido, potencializando os ganhos; (b) estimula a cinética das proteínas musculares; (c) pode influenciar fatores de crescimento locais. Meta-análises (Chilibeck et al.; Devries e Phillips) mostraram que creatina + treinamento resistido (7-52 semanas) aumenta significativamente massa magra e força em membros superiores e inferiores de idosos, com efeito maior nos membros inferiores (que são mais afetados pela sarcopenia). Dose típica: 0,3 g/kg/dia (fase de carga) ou 3-5 g/dia (manutenção).
  • Beta-alanina: a beta-alanina é um aminoácido que aumenta a concentração de carnosina muscular. A carnosina atua como buffer de pH intracelular, retardando a fadiga muscular durante exercícios de alta intensidade. Estudo de Del Favero et al. demonstrou que suplementação de beta-alanina em idosos (60-80 anos) aumentou carnosina muscular e melhorou a tolerância ao exercício, sem efeitos adversos significativos. Dose: 4-6 g/dia.
  • Vitamina D: a vitamina D tem papel direto na fisiologia muscular: receptores de vitamina D (VDR) estão presentes nas células musculares e, quando ativados, estimulam a síntese proteica e previnem a atrofia das fibras Tipo II. A deficiência de vitamina D está associada a fraqueza proximal, maior risco de quedas e pior performance muscular. A EWGSOP2 reconhece a vitamina D como parte do tratamento da sarcopenia, especialmente na correção de deficiência documentada. Evidências sugerem que doses de 800-2000 UI/dia melhoram a função muscular em idosos deficientes. Entretanto, as evidências de benefício na força muscular e na sarcopenia são mais modestas quando a vitamina D é usada como intervenção ISOLADA em pacientes sem deficiência documentada.
  • Ômega-3: evidências emergentes sobre síntese proteica e anti-inflamação; resultados ainda inconsistentes.
💊 PRESCRIÇÃO PRÁTICA

Resumo das doses dos suplementos para sarcopenia (baseado em ESPEN e evidências):

  • Proteína total: 1,2-1,5 g/kg/dia
  • Proteína por refeição: 25-30 g, preferencialmente whey protein
  • Leucina: enriquecimento de refeições para ativar mTOR
  • HMB: 3 g/dia, associado a exercício + dieta hiperproteica
  • Creatina: 3-5 g/dia (manutenção) ou 0,3 g/kg/dia, associado a treino resistido
  • Beta-alanina: 4-6 g/dia, associado a exercício (pode causar parestesia transitória)
  • Vitamina D: corrigir deficiência; 800-2000 UI/dia em idosos
  • Ômega-3: evidências emergentes sobre síntese proteica e anti-inflamação (inconsistentes)

5.4 Tratamento Farmacológico

Testosterona: a suplementação de testosterona é indicada em HOMENS com hipogonadismo confirmado (testosterona sérica < 200-300 ng/dL) e fraqueza muscular clínica. Nesse contexto, há efeito positivo na massa muscular (mais robusto) e na força muscular (mais modesto). O efeito no desempenho físico é ainda menor.

Formulações e doses: testosterona intramuscular 100-200 mg a cada 2-4 semanas ou gel transdérmico 50-100 mg/dia.

Monitoramento obrigatório: hematócrito (risco de policitemia), perfil lipídico, eventos prostáticos (PSA, exame digital), avaliação de apneia do sono.

Eventos adversos descritos: retenção de líquidos, ginecomastia, policitemia, agravamento da apneia do sono, progressão de tumores prostáticos. Em doses fisiológicas em idosos hipogonádicos comprovados, a maioria dos estudos encontrou apenas policitemia leve, sem aumento de eventos prostáticos ou cardiovasculares (estudos TEAAM e TTrials).

⚠ ARMADILHA DIAGNÓSTICA
  • Testosterona para MULHERES com sarcopenia: NÃO há indicação estabelecida.
  • Testosterona para TODOS os idosos (mesmo sem hipogonadismo): NÃO recomendado. A indicação é restrita a homens com níveis séricos baixos documentados (< 200-300 ng/dL) + fraqueza clínica.
  • GH (hormônio do crescimento): NÃO é recomendado para sarcopenia. Ele aumenta massa mas NÃO melhora força nem desempenho, e tem alta incidência de eventos adversos (retenção de líquidos, compressão do túnel do carpo, hiperglicemia, artralgias).
Capítulo 6

Obesidade Sarcopênica

6.1 Definição e Relevância Clínica

A obesidade sarcopênica (OS) é uma condição clínica caracterizada pela COEXISTÊNCIA de excesso de adiposidade e baixa massa e função muscular. Ela combina os riscos metabólicos da obesidade (resistência à insulina, inflamação crônica, DM2, doença cardiovascular) com as consequências da sarcopenia (redução de força, mobilidade, risco de quedas). Essa interação cria um ciclo vicioso: gordura em excesso contribui para perda muscular (via inflamação, resistência à insulina, inatividade) e a perda muscular favorece acúmulo de gordura (redução do gasto energético basal).

A OS não é exclusivamente geriátrica. Pode afetar indivíduos de meia-idade e até mais jovens, especialmente na presença de: doenças inflamatórias crônicas, resistência à insulina, episódios de hospitalização, ciclos de perda e ganho de peso (efeito ioiô). Em um estudo com 727 indivíduos obesos com idade média de 45 anos, a prevalência de OS foi de 34,8% em homens e 50,1% em mulheres.

6.2 Diagnóstico da Obesidade Sarcopênica

O consenso ESPEN-EASO propõe um algoritmo de dois passos para o diagnóstico:

  1. 1º passo - Função muscular: avaliar força muscular (handgrip ou chair stand test) e desempenho físico. A força é o parâmetro de escolha. A velocidade de marcha NÃO é recomendada como teste primário em obesos porque a osteoartrite (comum nessa população) pode interferir no resultado.
  2. 2º passo - Composição corporal: avaliar massa muscular (DXA ou BIA) e percentual de gordura. Para obesidade sarcopênica, recomenda-se normalizar a massa muscular pelo PESO CORPORAL (ALM/W = appendicular lean mass dividida pelo peso), e não pela altura, porque obesos podem ter ALM em valores absolutos aparentemente normais ou elevados.

6.3 Normalização ALM/Peso (ALM/W)

O índice ALM/W é calculado pela fórmula: ALM (kg) dividida pelo peso corporal total (kg). É expresso como proporção (geralmente entre 0,25 e 0,40). O uso desse índice é fundamental no diagnóstico da OS porque:

  • Pacientes obesos podem ter ALM elevada em valores absolutos (mais massa muscular total para carregar o peso), mascarando a sarcopenia.
  • O ALM/W revela se a quantidade de músculo é PROPORCIONAL ao peso do indivíduo.
  • Pacientes com ALM alta mas ALM/W baixo estão sarcopênicos em relação ao seu peso, e são os mais prejudicados em termos de funcionalidade.
  • Estudos mostram que ALM/W tem correlação superior com desempenho físico e força muscular em comparação com ALM absoluta.

6.4 Triagem para Obesidade Sarcopênica

Os critérios de triagem para OS incluem a coexistência de:

  • Parâmetros de obesidade: IMC >= 30 kg/m² (OMS) OU circunferência da cintura >= 102 cm (homens) ou >= 88 cm (mulheres) OU percentual de gordura corporal elevado por BIA/DXA.
  • Indicadores de sarcopenia: redução de força muscular (handgrip ou chair stand) OU baixa performance física (velocidade de marcha < 0,8 m/s, com ressalva acima) OU questionário SARC-F positivo (>=4 pontos).
🎯 PONTO DE PROVA

Questão clássica cobrada: qual a sequência de risco crescente para demência segundo a composição corporal?

Resposta (TEN 2024, Q.65): Normal < Obesidade < Sarcopenia < Obesidade Sarcopênica

A obesidade sarcopênica tem o MAIOR risco de demência porque soma os efeitos inflamatórios e metabólicos da obesidade com as alterações funcionais e metabólicas da sarcopenia.

Questões de Prova - Obesidade Sarcopênica

Questão TEN 2024 Q.65

A prevalência de demência por todas as causas aumenta acentuadamente com a idade. Indique a sequência de risco crescente para demência:

Justificativa do Gabarito (Letra C)

GABARITO: Letra C - Normal, obesidade, sarcopenia, obesidade sarcopênica. Comentário: A sequência lógica é baseada na carga inflamatória e metabólica progressiva: Normal não tem carga adicional. Obesidade adiciona inflamação crônica, resistência à insulina, estresse oxidativo. Sarcopenia adiciona perda funcional, comprometimento metabólico (menos músculo = menos captação de glicose), inflamação. Obesidade sarcopênica é a soma das duas, resultando no maior risco. A alternativa D é o distrator mais perigoso: inverte sarcopenia e obesidade sarcopênica, e seria correta se a obesidade sarcopênica tivesse risco menor que a sarcopenia isolada.

Capítulo 7

Populações Especiais e Considerações Clínicas

7.1 Sarcopenia em Pacientes Hospitalizados

A sarcopenia é altamente prevalente em pacientes hospitalizados (20-47%) e é um preditor independente de piores desfechos: maior tempo de internação, mais complicações infecciosas, maior mortalidade, maior probabilidade de institucionalização pós-alta.

O repouso no leito representa uma ameaça potente ao tecido muscular, especialmente em idosos. Em 10 dias de imobilização, a perda de massa muscular pode ultrapassar 10% nos membros inferiores. A prescrição de exercício resistido durante a internação (adaptado ao quadro clínico) é recomendada para atenuar esse processo.

7.2 Sarcopenia em Doenças Crônicas

  • Câncer (Caquexia Cancerosa): a sarcopenia no câncer é mediada por produção tumoral de citocinas pró-inflamatórias (IL-6, TNF-alfa), TGF-beta e miostatina, que amplificam o catabolismo muscular. A TC de L3 é usada para quantificar a massa muscular em pacientes oncológicos que já realizam exames de estadiamento. A sarcopenia cancerosa aumenta a toxicidade da quimioterapia e piora o prognóstico.
  • Doença Renal Crônica: a sarcopenia pode estar presente em até 60% dos pacientes com DRC. O ambiente urêmico promove catabolismo, acidose metabólica (que ativa proteólise muscular), redução de IGF-1 e hormônio do crescimento. A correção da acidose metabólica tem efeito anabólico demonstrado.
  • Diabetes Mellitus Tipo 2: a resistência à insulina prejudica a via mTOR muscular e favorece a mioesteatose. A sarcopenia e o DM2 têm relação bidirecional: a perda muscular reduz a captação de glicose (piorando o controle glicêmico) e a hiperglicemia cronica amplifica o catabolismo.

7.3 Sarcopenia em Jovens

A sarcopenia não afeta apenas idosos. Pode ocorrer em qualquer faixa etária na presença de: doenças inflamatórias crônicas, disfunções hormonais (hipotireoidismo, hipogonadismo), desnutrição severa, sedentarismo extremo, corticoterapia crônica. Em jovens, a abordagem precisa identificar a causa secundária e tratá-la especificamente.

Capítulo 8

Consolidação Final e Atalhos

8.1 Os Valores Numéricos Mais Cobrados

Parâmetro Valor Fonte / Observação
Handgrip - homens (baixa força) < 27 kg EWGSOP2 2019 - cobrado 3x seguidas (2022, 2023, 2024)
Handgrip - mulheres (baixa força) < 16 kg EWGSOP2 2019 - cobrado 3x seguidas
Levantar da cadeira (baixa força) > 15 segundos para 5 subidas EWGSOP2 2019
ASM/h² - homens (baixa massa, DXA) < 7,0 kg/m² (EWGSOP2) ou < 7,5 kg/m² (BR) EWGSOP2 / Barbosa-Silva 2016
ASM/h² - mulheres (baixa massa, DXA) < 5,5 kg/m² EWGSOP2 / Barbosa-Silva 2016
CP - baixa massa (diagnóstico) <= 31 cm (homens e mulheres) Barbosa-Silva 2016 / população brasileira
CP - triagem SARC-CalF <= 34 cm (homens) / <= 33 cm (mulheres) SARC-CalF (triagem, não diagnóstico)
Velocidade de marcha (sarcopenia grave) <= 0,8 m/s (não completa 4m em < 5s) EWGSOP2 2019 - critério de GRAVIDADE
SPPB (baixo desempenho) <= 8 pontos EWGSOP2 - critério de GRAVIDADE
TUG (comprometimento de mobilidade) > 12 segundos Referência para idosos na comunidade
Proteína - idosos saudáveis 1,0 - 1,2 g/kg/dia ESPEN 2018
Proteína - idosos doentes/desnutridos 1,2 - 1,5 g/kg/dia ESPEN 2018
Proteína por refeição 25 - 30 g Moore et al. / ESPEN
Meta calórica - idosos com baixo peso + exercício 32 - 38 kcal/kg/dia ESPEN 2018
Testosterona indicada para homens Testosterona sérica < 200-300 ng/dL Meta-análise referenciada na EWGSOP2

8.2 Armadilhas Clássicas da Banca

  • HANDGRIP: os valores corretos são 27 kg (H) e 16 kg (M). A banca usa 26/17 ou 27/17 ou 26/16 como distratores.
  • CIRCUNFERÊNCIA DA PANTURRILHA: 31 cm para diagnóstico vs 33/34 cm para triagem SARC-CalF. Confundir os contextos é o erro mais frequente.
  • DESEMPENHO FÍSICO (velocidade de marcha): é critério de GRAVIDADE no EWGSOP2 2019, não de diagnóstico. Antes era critério diagnóstico no EWGSOP1 2010.
  • DINAMOMETRIA: o protocolo correto é TRÊS medições considerando o MENOR valor. A banca já cobrou o candidato que não sabe essa técnica.
  • CIRCUNFERÊNCIA DO BRAÇO: medida com o braço RELAXADO e estendido, no ponto médio acrômio-olecrano. NÃO com o braço fletido.
  • CIRCUNFERÊNCIA DA CINTURA: medida no ponto mais ESTREITO entre crista ilíaca e costelas. NÃO no ponto mais alto da crista ilíaca.
  • GH em sarcopenia: NÃO recomendado (aumenta massa, mas não força, e tem muitos eventos adversos).
  • Testosterona: restrita a homens COM HIPOGONADISMO DOCUMENTADO. NÃO para mulheres nem para homens sem deficiência hormonal confirmada.
  • Sarcopenia e perda de fibras: afeta preferencialmente fibras Tipo II (não fibras Tipo I).
  • Miostatina: DIMINUI com exercício resistido. Folistatina: AUMENTA com exercício resistido.

8.3 Regras Mnemônicas e Atalhos

  • Para lembrar o handgrip: "27/16 = Homem Vinte-e-Sete, Mulher Dezesseis" - os dois somam 43.
  • Para lembrar o desempenho físico: "desempenho é GRAVIDADE, não diagnóstico" - a "piora de performance" confirma que a sarcopenia é GRAVE, mas sem ela ainda pode ser CONFIRMADA com força + massa.
  • Para lembrar a ordem do algoritmo EWGSOP2: "FORÇA confirma SUSPEITA, MASSA confirma DIAGNÓSTICO, DESEMPENHO confirma GRAVIDADE".
  • Para lembrar proteína: "1,0-1,2 saudável, 1,2-1,5 doente, 25-30 por refeição" - a escalada é de baixo para cima conforme o risco.
  • Obesidade sarcopênica: "gordura mais fraqueza = pior de dois mundos" - risco de demência, quedas e mortalidade é o mais alto de todos os fenótipos.

8.4 Conceitos que Mudaram Entre EWGSOP1 (2010) e EWGSOP2 (2019)

Aspecto EWGSOP1 (2010) EWGSOP2 (2019) - versão atual da banca
Critério primário de diagnóstico MASSA muscular (critério central) FORÇA muscular (novo critério primário)
Papel da massa muscular Critério diagnóstico obrigatório Critério CONFIRMATÓRIO (não obrigatório para tratar)
Desempenho físico Parte do critério diagnóstico Critério de GRAVIDADE
Sarcopenia "provável" Conceito inexistente Definida: apenas baixa força = suficiente para iniciar tratamento
Foco Quantidade de músculo Qualidade E função muscular
Capítulo 9

Referências Bibliográficas

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Capítulo 10

Resumo do TEN & Simulado Geral

10.1 Resumo Temático do que mais caiu na Prova de Título (TEN)

Com base na análise retrospectiva das provas de 2022 a 2025, a banca do Título de Especialista em Nutrologia (TEN) apresenta um padrão de cobrança muito bem definido para a Sarcopenia. Dominar estes tópicos e seus valores numéricos precisos garante uma pontuação crucial:

  • Força de Preensão Palmar (EWGSOP2 2019): O ponto de corte mais cobrado da história da prova. Lembre-se: < 27 kg para homens e < 16 kg para mulheres. Qualquer alternativa contendo 26/17 ou 28/15 é distritora. A técnica exige realizar três medições e considerar o menor valor obtido.
  • Circunferência da Panturrilha (CP): Diferenciação estrita de contextos. Para diagnóstico de baixa massa muscular, o corte é de <= 31 cm para ambos os sexos (população brasileira / Barbosa-Silva). Para triagem no questionário SARC-CalF, os limites sobem para <= 34 cm em homens e <= 33 cm em mulheres.
  • Fatores de Correção em Obesos (Prado et al., 2022): Para estimar a massa muscular pela circunferência da panturrilha em pacientes obesos, deve-se aplicar o desconto do panículo adiposo: subtrair 7 cm se IMC entre 30 e 39,9 kg/m² e subtrair 12 cm se IMC >= 40 kg/m².
  • Cirrose Hepática (ESPEN 2020 / 2023): Necessidades elevadas para reverter o "jejum acelerado" e a degradação proteolítica de BCAAs. Recomendam-se 30 a 35 kcal/kg/dia e 1,2 a 1,5 g/kg/dia de proteína. O fracionamento com o lanche noturno (Late Evening Snack) rico em carboidratos e aminoácidos é mandatório. Em obesos com cirrose, intervenção no estilo de vida com dieta hipocalórica estruturada e exercício supervisionado reduzem a hipertensão portal.
  • Mioquinas (Miostatina e Folistatina): A miostatina inibe o crescimento muscular (seus níveis diminuem com o exercício resistido). A folistatina inibe a miostatina (seus níveis aumentam com o exercício resistido).
  • Qualidade Muscular vs Massa: A função e a qualidade muscular (avaliadas pela velocidade da marcha e pela ecogenicidade no ultrassom) são preditores de sobrevida mais fortes do que a massa magra bruta por DXA.
  • Sequência de Risco para Demência: Conforme a composição corporal: Normal < Obesidade < Sarcopenia < Obesidade Sarcopênica (pior cenário devido à carga inflamatória e lipotoxicidade).

10.2 Distribuição de Assuntos Cobrados (Gráfico Interativo)

O gráfico abaixo exibe a contagem de incidência e relevância dos tópicos de sarcopenia nas provas de 2022 a 2025. Passe o mouse sobre as barras para ver a quantidade de vezes que cada assunto foi diretamente cobrado ou integrou distratores fundamentais nas questões.

10.3 Simulado Completo de Sarcopenia (Por Anos)

Realize o simulado completo com todas as 15 questões que caíram na prova do TEN de 2022 a 2025. Suas respostas serão persistidas no navegador e somadas ao progresso na barra lateral.

PROVA 2022

Questão TEN 2022 Q.18

Com relação à avaliação do estado nutricional, assinale a alternativa incorreta:

Justificativa do Gabarito (Letra C)

GABARITO: Letra C. De acordo com o último consenso europeu, Sarcopenia: revised European consensus on definition and diagnosis, publicado em 2019, o diagnóstico de sarcopenia se dá quando a força de preensão manual é menor do que 26kg para homens e menor do que 17 kg para mulheres.

As outras alternativas estão corretas pelos seguintes motivos:
A. Uma perda de peso maior que 7,5% em 3 meses é considerada uma perda ponderal grave, pois indica que a pessoa está perdendo peso rapidamente.
B. Os critérios do GLIM consideram índice de massa livre de gordura abaixo de 17 kg/m² em homens e 15 kg/m² em mulheres como ponto de corte para identificar indivíduos em risco de desnutrição pela perda de massa muscular.
D. A circunferência da panturrilha é importante para estimar a massa muscular em idosos, sendo valores iguais ou superiores a 31 cm adequados para ambos os sexos.
E. A circunferência do braço reflete a composição corporal total por considerar massa muscular e gordura.

Questão TEN 2022 Q.97

Homem de 69 anos, após episódio depressivo grave, evolui com hiporexia e perda ponderal não aferida no período. Ao exame físico paciente apresentava os seguintes dados: Índice de Massa Corpórea (IMC) 20 kg/m2, circunferência da panturrilha de 28 cm, circunferência da cintura 76 cm, força de preensão palmar 25 kgf, dobra cutânea tricipital 3mm. A respeito do caso, é correto afirmar que:

Justificativa do Gabarito (Letra D)

GABARITO: Letra D. A dinamometria é um teste funcional indicador de desnutrição. Para sua mensuração devem ser feitas três medidas e considerado o menor valor obtido.

Explicação:
A. O ponto de corte para baixo peso em idosos é igual ao da população geral (< 18,5 kg/m²).
B. A circunferência da cintura deve ser realizada no ponto mais estreito entre a crista ilíaca e as costelas.
C. A circunferência da panturrilha pode e deve ser aferida em pacientes acamados.
E. A dobra cutânea tricipital é um parâmetro válido para diagnóstico de desnutrição em idosos.

Questão TEN 2022 Q.54

Mulher de 65 anos com adenocarcinoma de pâncreas refere perda ponderal de 15 kg em 1 ano, principalmente devido à queixa de redução do apetite. Em relação aos mecanismos que explicam a queixa e o estado nutricional da paciente, pode-se afirmar que:

Justificativa do Gabarito (Letra C)

GABARITO: Letra C. A neoplasia pode produzir fatores catabólicos, como miostatina e TGF-beta, com impacto na perda de peso, associado a outros fatores inflamatórios.

Explicação:
Neoplasias (como adenocarcinoma de pâncreas) secretam mediadores catabólicos diretos e ativam vias proteolíticas. As citocinas como IL-1, IL-6 e TNF estão geralmente elevadas (e não reduzidas) e atuam no SNC gerando anorexia. O branqueamento (browning) do tecido adiposo na verdade aumenta o gasto energético (termogênese). O adiposo participa ativamente liberando citocinas pró-inflamatórias.

Questão TEN 2022 Q.96

Muito se discute sobre a quantidade ideal de ingestão proteica para maximizar a síntese muscular em idosos. Recente metanálise em indivíduos idosos saudáveis e não obesos, mostrou que a ingestão ideal de proteína, para este grupo, se situa em g/kg/dia em:

Justificativa do Gabarito (Letra B)

GABARITO: Letra B - 0,8 - 1,2 g/kg/dia.

Explicação:
Esta faixa de ingestão de proteína é a recomendada especificamente para idosos saudáveis e não obesos pela metanálise referenciada, visando equilibrar a biossíntese muscular e a saúde renal. A faixa de 0,8 a 1,1 g/kg/dia é a recomendação geral de manutenção para a população adulta geral, enquanto 1,2-1,5 g/kg/dia aplica-se a idosos cronicamente doentes ou desnutridos.

PROVA 2023

Questão TEN 2023 Q.25

Assinale a alternativa correta com relação à avaliação antropométrica.

Justificativa do Gabarito (Letra C)

GABARITO: Letra C - De acordo com o consenso europeu de sarcopenia, publicado em 2019, o ponto de corte para caracterizar baixa força, pela força de preensão manual, é menor do que 27 kg para homens e menor do que 16 kg para mulheres.

Explicação:
O consenso EWGSOP2 definiu os cortes para força de preensão manual como <27 kg para homens e <16 kg para mulheres.
A. Perda de >5% em 3 meses é moderada; grave é >10% em 6 meses (ou >5% em 1 mês).
B. A circunferência do braço não reflete gordura visceral ou massa magra apendicular, e a aferição correta exige o braço relaxado e estendido.
D. O ponto de corte correto da panturrilha para inadequação é <= 31 cm (e não 33 cm).

Questão TEN 2023 Q.26

Assinale a alternativa correta:

Justificativa do Gabarito (Letra A)

GABARITO: Letra A. A creatinina urinária de 24 horas ideal para homens é 23mg/kg de peso ideal e para mulheres é 18mg/kg de peso ideal.

Explicação:
A creatinina é proporcional à massa muscular corporal total e a sua taxa de excreção urinária de 24 horas correlaciona-se fortemente com a massa magra. As estimativas ideais são 23 mg/kg (homens) e 18 mg/kg (mulheres). A transferrina tem meia-vida de 8-10 dias (não 2 dias). A desnutrição grave manifesta-se tipicamente com linfócitos totais menores do que 800/mm³ (e não maiores).

Questão TEN 2023 Q.98

Consideradas como as principais reguladoras da massa muscular, sendo que a primeira diminui e a segunda aumenta com a atividade física resistida, essas substâncias também são propostas como possíveis marcadores da sarcopenia. São elas:

Justificativa do Gabarito (Letra B)

GABARITO: Letra B - Miostatina e Folistatina.

Explicação:
A miostatina é um inibidor clássico do desenvolvimento e crescimento muscular; seus níveis celulares caem com exercícios resistidos para possibilitar hipertrofia. A folistatina atua neutralizando e bloqueando a ação da miostatina; ela aumenta significativamente com exercícios resistidos, promovendo anabolismo.

PROVA 2024

Questão TEN 2024 Q.23

Assinale a alternativa correta:

Justificativa do Gabarito (Letra B)

GABARITO: Letra B - De acordo com o consenso europeu de sarcopenia, publicado em 2019, o ponto de corte para caracterizar baixa força pela força de preensão manual é menor do que 27 kg para homens e menor do que 16 kg para mulheres.

Explicação:
Os valores oficiais do consenso de 2019 (EWGSOP2) são <27 kg para homens e <16 kg para mulheres.
A. A perda de peso >2% em 1 mês é classificada como moderada; perdas graves no mês são >5%.
C. O ponto de corte no diagnóstico é >= 31 cm (e não 34 cm).
D. A medida da circunferência do braço deve ser realizada com o braço relaxado e estendido.

Questão TEN 2024 Q.24

Avaliar a composição corporal de pacientes críticos é crucial para uma melhor conduta nutricional. Em relação ao uso da ultrassonografia para este fim, assinale a alternativa correta:

Justificativa do Gabarito (Letra C)

GABARITO: Letra C - A ecogenicidade dos músculos da coxa é uma das ferramentas do ultrassom que pode nos ajudar a determinar a qualidade muscular.

Explicação:
A ecogenicidade reflete a qualidade muscular ao rastrear a infiltração de gordura e tecido conjuntivo fibroso (mioesteatose e miofibrose).
A. O método carece de pontos de referência bem estabelecidos para críticos.
B. As medidas mais utilizadas são as do reto femoral e do quadríceps total.
D. O transdutor indicado para a musculatura esquelética superficial é o linear (maior resolução), e não o convexo.

Questão TEN 2024 Q.64

Estimativas de sobrevivência ajudam a individualizar objetivos pessoais bem como de tratamento para pacientes geriátricos, além de que, a maior expectativa de vida é um dos objetivos de um bom estado de saúde. Entretanto, as tabelas de vida falham em levar em conta a grande variabilidade na sobrevivência. Há parâmetros que visam avaliar essa condição com características individuais, gerando estimativas mais precisas, sendo que um estudo relacionou o resultado nessa avaliação, realizada aos 65 anos ou mais, com a chance de sobrevida, para ambos os gêneros sendo, portanto, um bom índice para a estimativa de sobrevivência. Essa avaliação foi:

Justificativa do Gabarito (Letra D)

GABARITO: Letra D - Velocidade da marcha.

Explicação:
A velocidade da marcha reflete o estado funcional integrado de múltiplos sistemas e é um forte preditor isolado e independente de sobrevida em idosos. Estudos clássicos (JAMA) confirmaram que a funcionalidade muscular dinâmica tem poder preditivo de sobrevivência maior do que a simples quantificação de massa muscular ou adiposidade.

Questão TEN 2024 Q.65

A prevalência de demência por todas as causas aumenta acentuadamente com a idade e espera-se que triplique nos próximos 50 anos. As evidências sugerem que há fatores que aumentam o risco de demência, muitos dos quais são modificáveis e podem desempenhar um papel importante na prevenção, sendo que um deles é a composição corporal. Indique nas alternativas abaixo qual a sequência de risco crescente para demência.

Justificativa do Gabarito (Letra C)

GABARITO: Letra C - Normal, obesidade, sarcopenia, obesidade sarcopênica.

Explicação:
A sequência reflete o acúmulo de estresse inflamatório e desequilíbrio metabólico. O risco é menor no perfil normal. A obesidade visceral adiciona inflamação crônica. A sarcopenia agrava o déficit pela perda metabólica muscular (captação de glicose diminuída). A obesidade sarcopênica reúne ambos os defeitos sinergicamente, gerando a maior neuroinflamação e o maior risco de demência.

PROVA 2025

Questão TEN 2025 Q.01

De acordo com a publicação mais recente da European Society for Clinical Nutrition and Metabolism - Practical Guideline 2020 sobre nutrição clínica em doenças hepáticas, quais são os valores recomendados de energia e proteína para pacientes desnutridos ou sarcopênicos com cirrose hepática?

Justificativa do Gabarito (Letra B)

GABARITO: Letra b) 30 a 35 kcal/kg/dia e 1,5 g/kg/dia de proteína, com refeições frequentes e lanche noturno.

Fisiopatologia:
A conduta visa reverter o estado de "jejum acelerado", no qual o organismo consome rapidamente as reservas de glicogênio hepático e passa a oxidar aminoácidos musculares (especialmente BCAAs) para sustentar a gliconeogênese, gerando a sarcopenia secundária no cirrótico. A recomendação da ESPEN 2020 é de 30-35 kcal/kg/dia e 1,2 a 1,5 g/kg/dia de proteína. O lanche noturno (Late Evening Snack) reduz o jejum da madrugada e evita a proteólise muscular. Restrição proteica na encefalopatia é um conceito obsoleto (o músculo ajuda na detoxificação da amônia convertendo-a em glutamina).

Questão TEN 2025 Q.02

Segundo as diretrizes da European Society for Clinical Nutrition and Metabolism/United European Gastroenterology (ESPEN/UEG guideline 2023), qual alternativa descreve a abordagem recomendada para pacientes com cirrose hepática e obesidade?

Justificativa do Gabarito (Letra B)

GABARITO: Letra b) Iniciar intervenção no estilo de vida com dieta hipocalórica prescrita e atividade física supervisionada, para reduzir peso corporal e hipertensão portal.

Fisiopatologia:
O manejo do cirrótico obeso (IMC >= 30 kg/m²) foca na obesidade sarcopênica. A diretriz ESPEN/UEG 2023 preconiza uma dieta hipocalórica prescrita aliada a exercício físico supervisionado. A perda ponderal está correlacionada com a queda do gradiente de pressão venosa hepática (HVPG) e da hipertensão portal, por atenuar a resposta inflamatória intra-hepática. Para evitar agravamento da sarcopenia, mantém-se a oferta proteica de 1,2 a 1,5 g/kg/dia.

Questão TEN 2025 Q.03

Um paciente do sexo masculino, 62 anos, com índice de massa corporal de 42 kg/m², diagnóstico prévio de diabetes mellitus tipo 2 e hipertensão arterial sistêmica, procura seu consultório para avaliação nutrológica de rotina. Ao exame físico, apresenta força de preensão palmar diminuída e circunferência da panturrilha de 37 cm. Exames laboratoriais revelam albumina sérica de 3,5 g/dL e proteína C reativa discretamente aumentada. Considerando o quadro clínico e as recomendações de Prado e cols, "Advances in muscle health and nutrition: A toolkit for healthcare professionals" (Clinical Nutrition, 2022), a interpretação adequada da medida da circunferência da panturrilha nesse paciente com obesidade é:

Justificativa do Gabarito (Letra C)

GABARITO: Letra c) Corrigir a medida subtraindo 12 cm.

Raciocínio Clínico:
A precisão da panturrilha é severamente comprometida pela gordura subcutânea no paciente obeso. Para rastrear a obesidade sarcopênica, Prado et al. (2022) e Gonzalez et al. (2021) validaram fatores de correção de acordo com a faixa de IMC:
- IMC 30 a 39,9 kg/m²: Subtrair 7 cm.
- IMC >= 40 kg/m²: Subtrair 12 cm.

O paciente apresenta IMC de 42 kg/m² (Obesidade Grau III). A panturrilha corrigida é:
$$\text{CP corrigida} = 37\text{ cm} - 12\text{ cm} = 25\text{ cm}$$Como o valor de 25 cm está muito abaixo dos pontos de corte de suspeita (<34 cm em homens), confirma-se a depleção muscular grave (Obesidade Sarcopênica).

Questão TEN 2025 Q.04

Homem, 72 anos, mora sozinho, come habitualmente de marmita, que contém arroz, feijão, carne, legumes cozidos e salada de folhas. Paciente previamente com obesidade grau 1 e diabetes mellitus e faz uso regular de metformina. Ele faz as atividades diárias de vida de forma independente. Levado ao atendimento médico por sobrinho que relata que há 3 semanas o paciente se tornou apático e que há 1 semana reduziu a ingestão alimentar e mantém-se deitado na maior parte do tempo, com perda de peso estimada de 2 kg. Apresenta índice de massa corporal (IMC) de 29,3 kg/m² e encontra-se sonolento, fala desconexa, mucosas descoradas, desidratado (+/4), edema em dorso e membros inferiores (++/4). PA: 130/80 mmHG, FC: 110 bpm, sem sopros. Os exames complementares afastaram hipótese de insuficiência cardíaca ou doença respiratória. Foi confirmado o diagnóstico de infecção do trato urinário (ITU). A avaliação laboratorial mostrou: proteínas totais = 5,1 mg/dL; albumina = 2,6 mg/dL; transferrina = 55 mg/dL; ferritina = 378 ng/mL; proteína C reativa = 18,0 mg/dL. Internado para tratamento da ITU. Com base no quadro clínico, antropométrico e laboratorial do paciente, e aplicando os critérios de diagnóstico de subnutrição (malnutrition) em idosos recomendados pela European Society for Clinical Nutrition and Metabolism (ESPEN), qual é a avaliação nutrológica mais precisa?

Justificativa do Gabarito (Letra A)

GABARITO: Letra a) Depleção proteica visceral, secundária à inflamação sistêmica.

Raciocínio Clínico:
A infecção aguda bacteriana (ITU) provoca elevação maciça da PCR (18,0 mg/dL). Sob estresse inflamatório agudo, a síntese hepática de proteínas de fase aguda negativa (como albumina e transferrina) é suprimida prioritariamente em favor das proteínas de fase aguda positiva (PCR, ferritina). A queda da albumina para 2,6 mg/dL e da transferrina para 55 mg/dL, acompanhada de edema por escape capilar, reflete a resposta metabólica à inflamação aguda (depleção visceral temporária), e não um processo crônico consumativo puro como a caquexia (que exige longo prazo de evolução) ou subnutrição leve.

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