Síndrome do Intestino Irritável (SII) - Guia Completo Nutro-Ten
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Síndrome do Intestino Irritável (SII)

Guia Completo de Estudo e Preparação Focada para a Prova de Título de Especialista em Nutrologia (ABN/CFM/AMB).

Síndrome do Intestino Irritável
Diretrizes Roma IV e ACG 2021 atualizadas
Simulado interativo com 7 questões reais comentadas (2022-2025)
Design 100% responsivo e menu dinâmico

1. ANÁLISE DO PADRÃO DE COBRANÇA DA BANCA (2022–2025)

Antes de estudar qualquer conteúdo, é essencial entender o que a banca efetivamente quer. A SII foi cobrada 7 vezes em 4 provas consecutivas — uma frequência extraordinária para um único tema. Isso não é coincidência: a SII é a intersecção perfeita entre nutrologia e gastroenterologia funcional, e a banca reconhece isso.

O mapa abaixo registra cada questão com seu foco conceitual e a armadilha central. Use-o como mapa de prioridades.

Prova Questão Tema Central Conceito Cobrado Armadilha Principal
2022 Q27 Dieta Low-FODMAP Mecanismo de ação + fase de reintrodução gradual Inverter o efeito osmótico: dieta REDUZ (não aumenta) água intraluminal
2022 Q28 Terapia nutricional SII Low-FODMAP superior à dieta padrão em sintomas e qualidade de vida Afirmar que Low-FODMAP causa deficiência de selênio e vitaminas do complexo B
2024 Q63 Classificação dos FODMAPs Frutose (M) + lactose (D) + frutanos + galactanos (O) + polióis (P) Incluir glicose, amido ou sacarose como FODMAPs
2025 Q26 Critérios de Roma IV — Adulto Dor >= 1 dia/semana nos últimos 3 meses; início >= 6 meses; 2 de 3 critérios "Desconforto" abolido no Roma IV; frequência "qualquer" está errada
2025 Q27 Manejo Farmacológico SII-C Pró-secretores (lubiprostone, linaclotida, plecanatida) = 1ª linha forte (ACG 2021) Probióticos têm recomendação CONTRÁRIA na ACG 2021
2025 Q35 Diagnóstico SII Pediátrico Dor >= 4 dias/mês por >= 2 meses + relação com evacuação (Roma IV) Confundir com constipação funcional quando há constipação concomitante
2025 Q36 Microbiota e Conduta Nutrológica Dieta mediterrânea + fibras solúveis + polifenóis + prebióticos para restaurar produtores de butirato Dieta cetogênica e Low-FODMAP prolongada REDUZEM produtores de butirato
Ponto de Prova
  • Frequência: 7 questões em 4 anos = tema de altíssima recorrência. Nenhum outro tema alcançou essa densidade.
  • Dieta Low-FODMAP: cobrada em TODAS as provas até 2024. Domine os mecanismos, a classificação e as fases, não apenas o nome.
  • Roma IV: cobrado explicitamente em 2025, tanto adulto quanto pediátrico. Os números 1-3-6 (adulto) e 4-2 (pediátrico) precisam estar na ponta da língua.
  • ACG 2021: referência farmacológica atual. Probióticos perderam indicação — essa contrarrecomendação foi cobrada diretamente.

2. DEFINIÇÃO E NOMENCLATURA

2.1 O que é a SII — e por que a linguagem importa

A Síndrome do Intestino Irritável (SII) é definida pelo Comitê de Roma IV (2016) como um Distúrbio de Interação Intestino-Cérebro (DIIC) — em inglês, Disorder of Gut-Brain Interaction (DGBI). Essa mudança de terminologia em relação ao Roma III, que usava o termo "doença funcional gastrointestinal", não é cosmética.

Pense no que "funcional" comunicava: ausente de doença orgânica, portanto, quase imaginária. O paciente chegava ao consultório com exames normais e saía com a impressão de que não tinha nada. "DIIC" comunica algo radicalmente diferente: há uma fisiopatologia real, documentada, que envolve uma comunicação distorcida entre o intestino e o cérebro. Não é ausência de doença — é uma doença sem marcador histológico ou bioquímico definitivo.

Para explicar a SII, devemos começar pelo problema clínico: por que um paciente com exames estruturais perfeitamente normais — colonoscopia sem lesões, biópsias sem inflamação visível e laboratoriais dentro dos limites — queixa-se de dores que ele descreve como "facadas" ou uma distensão que o impede de fechar as calças ao final do dia? A resposta não reside na "forma" do órgão, mas no seu "funcionamento" e na sua "comunicação".

A SII foi reclassificada de distúrbio funcional para Distúrbio da Interação Cérebro-Intestino (DGBI). Pense no sistema gastrointestinal como o hardware de um computador e no eixo cérebro-intestino como o software. Na SII, o hardware está intacto, mas há um erro de processamento de dados. Estímulos que deveriam ser silenciosos, como o peristaltismo normal ou a distensão por um pequeno volume de gás, são interpretados pelo software cerebral como sinais de perigo ou dor.

A implicação clínica direta: o médico que entende a SII como DIIC aborda o paciente de forma completamente diferente. Ele valida a dor (que é real, mesmo sem lesão demonstrável), explica o mecanismo (o que reduz ansiedade e melhora adesão), e não faz investigações excessivas de exames em jovens sem sinais de alarme.

Dica Clínica

O intestino tem seu próprio sistema nervoso com 100–500 milhões de neurônios — o Sistema Nervoso Entérico (SNE). Ele se comunica bidirecionalmente com o SNC via nervo vago e medula espinal. Na SII, essa comunicação está distorcida — não interrompida, mas amplificada em direções erradas.

3. EPIDEMIOLOGIA

3.1 Prevalência e Distribuição Global

A SII é o distúrbio gastrointestinal funcional mais comum, afetando 10–15% da população mundial segundo metanálises recentes. No Brasil, estima-se prevalência de 8–12%, com considerável variação regional. Na prática clínica, isso significa que 1 em cada 8–10 pacientes de consultório geral tem SII — um número que os médicos tendem a subestimar.

Fator Epidemiológico Dado Implicação Clínica
Prevalência global 10–15% da população Doença extremamente comum no consultório
Prevalência no Brasil 8–12% Equivale a 17–25 milhões de brasileiros afetados
Predominância de sexo Feminino 2:1 Hormônios sexuais modulam sensibilidade visceral e motilidade
Pico de incidência 20–45 anos Paciente jovem + dor abdominal crônica + exames normais = pensar SII
Comorbidade psiquiátrica ~50% ansiosa; ~30% depressiva Abordagem biopsicossocial é obrigatória, não opcional
Diagnóstico tardio médio 4–6 anos Muitos pacientes são diagnosticados com DII ou doença celíaca negativa antes da SII
SII pós-infecciosa 10–25% dos casos Gastroenterite aguda é um fator de risco bem estabelecido
Custo socioeconômico ~21 bilhões USD/ano (EUA) Absenteísmo, perda de produtividade, uso excessivo de serviços de saúde

3.2 Por que Mulheres São Mais Afetadas

A razão 2:1 (feminino:masculino) não é meramente estatística — ela reflete mecanismos biológicos documentados. O estrógeno e a progesterona modulam a motilidade intestinal (a constipação piora na fase lútea e na gravidez), a sensibilidade visceral (menor limiar de dor em mulheres, especialmente no período perimenstrual) e a resposta inflamatória da mucosa intestinal. Além disso, mulheres relatam mais sintomas gastrointestinais em geral, o que pode refletir tanto biologia quanto vieses de relato e busca por cuidados médicos.

3.3 SII Pós-Infecciosa

Uma das formas clínicas mais bem compreendidas e clinicamente relevantes. Após um episódio de gastroenterite aguda bacteriana ou viral, o risco de desenvolver SII é de 10–30% — número que surpreende a maioria dos médicos. Os fatores de risco para desenvolver SII após gastroenterite incluem: duração da infecção acima de 7 dias, sexo feminino, ansiedade prévia à infecção, e uso de antibióticos durante o episódio (que altera permanentemente a microbiota). O agente infeccioso altera de forma duradoura a composição microbiana e a permeabilidade intestinal, criando o substrato fisiopatológico para a SII.

Atenção

Sempre perguntar na anamnese: "Os seus sintomas começaram após um episódio de diarreia intensa ou gastroenterite?" Uma resposta positiva sugere SII pós-infecciosa, orienta o mecanismo e pode mudar a estratégia terapêutica (com ênfase em microbiota).

4. FISIOPATOLOGIA

A SII não tem uma causa única. Ela é melhor compreendida como uma doença multifatorial cujos pilares fisiopatológicos se reforçam mutuamente, formando um "triângulo disfuncional" entre intestino, cérebro e microbiota. Entender cada pilar não é memorizar fatos — é compreender por que cada intervenção terapêutica funciona.

4.1 Pilar 1: Hipersensibilidade Visceral e Sensibilização Central

O conceito técnico fundamental que responde à pergunta sobre a dor na SII é a hipersensibilidade visceral. Em indivíduos saudáveis, existe um limiar de dor para a distensão intestinal. Imagine que esse limiar funciona como uma torneira de segurança: ela só abre quando a pressão está muito alta. No paciente com SII, essa "torneira" está frouxa. Quantidades mínimas de gás geram sinais de dor que viajam pelas fibras aferentes até o corno posterior da medula e, de lá, para o córtex somatossensorial.

Isso faz sentido porque a SII envolve uma plasticidade neuronal. Experiências de vida precoces, traumas, estresse psicológico e episódios de infecção intestinal prévia atuam como "programadores" que tornam esses nervos mais sensíveis ao longo do tempo. O paradoxo aqui é que, quanto mais o paciente foca na dor, mais as vias neurais se fortalecem no sentido de amplificar esse sinal, criando um ciclo vicioso de dor e ansiedade. Uma dispersão banal de gases, que em uma pessoa saudável seria imperceptível, é percebida como dor intensa. Esse fenômeno se chama hipersensibilidade visceral e é considerado o mecanismo central da SII.

A Microinflamação e o Papel dos Mastócitos

Se dissermos que "não há inflamação na SII", estaremos tecnicamente errados. O que não há é inflamação macroscópica ou histológica clássica, como na Doença de Crohn. Entretanto, existe uma inflamação de baixo grau, caracterizada por um aumento no número e na ativação de mastócitos próximos às terminações nervosas da mucosa.

Esses mastócitos liberam substâncias como histamina e triptase, que "sensibilizam" os nervos entéricos. É como se o sistema imunológico estivesse constantemente "limpando o terreno", mantendo os nervos em estado de alerta máximo. A consequência clínica disso é que o intestino torna-se reativo a quase tudo: comida, estresse e até mudanças hormonais.

Em provas, lembre-se que a SII se caracteriza por um perfil pró-inflamatório com envolvimento de citocinas como IL-6 e IL-8, embora os marcadores sistêmicos como a PCR possam estar normais. Na mucosa colônica de pacientes com SII demonstra-se aumento na densidade de células enteroendócrinas (células EC) produtoras de serotonina (5-HT), que ativam fibras aferentes vagais e espinais. Além disso, mastócitos ativados se acumulam próximos às fibras nervosas e liberam histamina e triptase, reduzindo ainda mais o limiar de dor.

A sensibilização central amplifica esses sinais na medula espinal (corno dorsal) e no córtex insular: o cérebro "aprende" a antecipar a dor (hipervigilância), gerando um ciclo vicioso onde o estresse psicológico piora o limiar de dor intestinal, que por sua vez aumenta o estresse. Esse ciclo explica por que ansiedade e depressão são tão comuns na SII — não são apenas comorbidades, são parte do mecanismo.

4.2 Pilar 2: Dismotilidade Intestinal

O segundo pilar determina qual subtipo clínico o paciente vai apresentar. Pacientes com SII apresentam padrões motores anormais: espasmos de alta amplitude (responsáveis pela dor tipo cólica), velocidade de trânsito acelerada (diarreia) ou retardada (constipação), e resposta exagerada à refeição (reflexo gastrocólico amplificado). O subtipo clínico (SII-D, SII-C, SII-M) reflete predominantemente qual padrão motor predomina, embora haja variação temporal: um mesmo paciente pode alternar subtipos ao longo da vida.

O metano (CH4) merece destaque: produzido por Methanobrevibacter smithii no cólon, ele retarda especificamente o trânsito intestinal e está associado à constipação na SII. Pacientes com SII-C têm maior produção de CH4 nos testes respiratórios do que pacientes com SII-D. Isso tem implicação terapêutica: a rifaximina, que é eficaz para SII-D, pode ser combinada com neomicina em casos de SII-C com SIBO a metano.

4.3 Pilar 3: Disbiose e Barreira Intestinal

A microbiota de pacientes com SII difere da de controles saudáveis em composição e diversidade. Os achados mais consistentes incluem redução de Faecalibacterium prausnitzii e Lactobacillus spp. (anti-inflamatórios e produtores de butirato) e aumento de Clostridium perfringens e Ruminococcus (pró-inflamatórios). Essa disbiose leva a três consequências interligadas:

  • Produção aumentada de gases: H2, CH4 e CO2 respondem pela distensão, flatulência e dor.
  • Aumento da permeabilidade intestinal: tight junctions comprometidas (claudina, ocludina, ZO-1) permitem translocação de LPS bacteriano, gerando inflamação de baixo grau.
  • Ativação imune da mucosa: mastócitos ativados por LPS liberam mediadores inflamatórios próximos às fibras nervosas, reduzindo o limiar nociceptivo.

4.4 Pilar 4: O Eixo Intestino-Cérebro e os Neurotransmissores

A serotonina (5-HT) é o principal neurotransmissor do eixo intestino-cérebro: 95% do 5-HT corporal está no intestino (células enterocromafins). Na SII, há desregulação de dois receptores críticos: o 5-HT3, ligado à diarreia e ao desconforto pós-prandial, e o 5-HT4, ligado à motilidade e ao trânsito intestinal. Essa biologia é a base racional de fármacos como o alosetron (antagonista 5-HT3) e o tegaserode (agonista 5-HT4).

O GLP-1, PYY e outros peptídeos intestinais também modulam a motilidade e a sensação visceral via receptores no nervo vago. A comunicação é bidirecional: o intestino "fala" com o cérebro via nervo vago e via ação endócrina, e o cérebro "responde" via ramificações efetoras do sistema nervoso autônomo.

Resumo dos 4 pilares fisiopatológicos
  • 1. Hipersensibilidade visceral: limiar de dor reduzido + sensibilização central
  • 2. Dismotilidade: espasmos, trânsito acelerado ou retardado, reflexo gastrocólico exagerado
  • 3. Disbiose + barreira intestinal comprometida: inflamação de baixo grau, gases, permeabilidade
  • 4. Eixo intestino-cérebro desregulado: 5-HT, GLP-1, comunicação vagal distorcida

5. QUADRO CLÍNICO

5.1 O Sintoma Central: Dor Abdominal Recorrente

A dor é o pilar inegociável da SII — e entender suas características clínicas ajuda tanto a fechar o diagnóstico quanto a distingui-la de outras condições. A dor da SII é tipicamente periumbilical ou no quadrante inferior esquerdo, do tipo cólica (espasmódica), com variação ao longo do dia e piora pós-prandial (especialmente após refeições gordurosas ou volumosas). O fato de a dor se alterar com a defecação — seja melhorando, seja piorando — é um dos critérios diagnósticos do Roma IV.

Uma característica que confunde médicos menos experientes: a dor da SII não precisa melhorar com a evacuação. O critério do Roma IV é a RELAÇÃO da dor com a evacuação, independente da direção. Em SII-C, a dor frequentemente PIORA próxima à defecação e melhora após. Em SII-D, pode piorar durante o episódio de diarreia. O que importa é a ligação.

5.2 Alterações do Hábito Intestinal

A maioria dos pacientes com SII apresenta padrão misto ao longo da vida, alternando períodos de constipação e diarreia. Em SII-D, a diarreia é urgente, muitas vezes matinal (logo após acordar ou após o café da manhã), de pequeno volume, sem sangue. Em SII-C, as fezes são duras, em grumos ou pelotinhas (Bristol 1-2), com sensação de evacuação incompleta.

Atenção

DIARREIA NOTURNA É SINAL DE ALARME na SII. O paciente com SII dorme, porque durante o sono o eixo intestino-cérebro está menos ativo e os estímulos viscerais não são amplificados. Diarreia que acorda o paciente sugere doença orgânica (DII, má absorção, câncer).

5.3 Distensão e Flatulência Abdominal

A distensão é uma das queixas mais comuns e que mais impacta a qualidade de vida. Resulta da produção excessiva de gases (H2 e CH4 pela fermentação bacteriana) e da hipersensibilidade visceral à distensão (pacientes com SII percebem distensão como desconforto, enquanto saudáveis não percebem). A distensão abdominal (aumento visível do volume abdominal ao longo do dia) frequentemente acompanha e piora ao longo do dia.

5.4 Sintomas Extraintestinais

A SII raramente é uma doença só do intestino. Os sintomas extraintestinais são tão comuns que sua ausência deve chamar a atenção. Incluem: fadiga crônica (presente em até 60% dos casos), cefaleia tensional, dispareunia e sintomas urinários (bexiga hiperativa), fibromialgia (overlap documentado), e sintomas de pânico gastrointestinal (preocupação excessiva com os sintomas, evitação social). Esses sintomas refletem a natureza sistêmica do eixo intestino-cérebro distorcido.

5.5 Escala de Bristol — Classificação das Fezes

Escala de Bristol

6. CLASSIFICAÇÃO E SUBTIPOS

Para entender por que subclassificar a SII importa, comece pelo problema prático: dois pacientes chegam ao consultório com o mesmo diagnóstico de SII, mas um passa semanas sem evacuar e o outro vai ao banheiro seis vezes ao dia. Prescrever o mesmo fármaco para ambos não é apenas ineficaz — pode ser iatrogênico. A subclassificação existe exatamente para resolver essa heterogeneidade clínica e direcionar a escolha terapêutica com precisão.

O instrumento que torna essa classificação objetiva é a Escala de Bristol, um sistema visual de sete tipos de fezes validado internacionalmente. Bristol 1 e 2 representam fezes endurecidas, fragmentadas ou em cíbalos — padrão de trânsito lento. Bristol 6 e 7 são fezes amorfas, pastosas ou líquidas — padrão de trânsito rápido. Os tipos intermediários (3, 4 e 5) correspondem ao espectro normal. Essa escala é o ponto de ancoragem de toda a subclassificação.

A regra fundamental — e também a principal pegadinha de prova: a subclassificação é feita exclusivamente com base nos dias sintomáticos. Dias sem sintomas são desconsiderados por completo. O critério é que um determinado padrão de Bristol ocorra em mais de 25% das evacuações sintomáticas. Isso muda radicalmente a interpretação clínica: um paciente que tem fezes normais em três dias da semana e Bristol 6–7 nos quatro dias restantes não é "misto" — é SII-D, porque nos seus dias sintomáticos o padrão diarreico predomina.

Subtipo Padrão de Fezes Predominante Prevalência Farmacologia Específica
SII-C
Constipação predominante
Tipos 1 e 2 (> 25% das evacuações) ~33% Lubiprostone, linaclotida, plecanatida, tenapanor
SII-D
Diarreia predominante
Tipos 6 e 7 (> 25% das evacuações) ~33% Rifaximina, alosetron (mulheres), eluxadolina
SII-M
Misto (alternante)
Tipos 1/2 E 6/7 (cada um > 25%) ~20% Abordagem individualizada por sintoma predominante
SII-U
Indefinido
Não preenche nenhum acima ~15% Tratamento sintomático; reavaliação periódica

SII-C representa o paciente com trânsito colônico lento predominante. Os fármacos aprovados para esse subtipo atuam majoritariamente por duas vias: secreção luminal de fluido (lubiprostone, linaclotida, plecanatida) ou inibição do transportador de fosfato-sódio NHE3 com consequente retenção hídrica luminal (tenapanor). O ponto que a banca gosta de explorar é a distinção entre constipação funcional crônica e SII-C: a diferença está na presença obrigatória de dor ou desconforto abdominal associado às evacuações na SII-C — sem dor, pense em constipação funcional pura.

SII-D é o subtipo onde a escolha farmacológica é mais estratificada. A rifaximina atua sobre a microbiota luminal sem absorção sistêmica significativa e tem indicação baseada em evidências de nível A nos guidelines da AGA. O alosetron, antagonista seletivo 5-HT₃, é restrito a mulheres com SII-D grave refratária — sua eficácia é reconhecida, mas o risco de colite isquêmica limita seu uso a programas de prescrição controlada nos EUA. A eluxadolina é agonista misto μ/κ e antagonista δ opioide, com ação no plexo entérico; está contraindicada em pacientes sem vesícula biliar pelo risco de pancreatite.

SII-M é o subtipo clinicamente mais desafiador porque o paciente alterna entre constipação e diarreia dentro do mesmo mês — às vezes da mesma semana. Não existe uma única droga aprovada para esse perfil. A abordagem é necessariamente individualizada: identifique qual sintoma está causando maior impacto no momento e trate-o de forma prioritária, antecipando que o quadro vai oscilar.

SII-U é um diagnóstico de transição. Esses pacientes têm critérios clínicos para SII (dor abdominal associada à alteração do hábito intestinal), mas o padrão de fezes não se encaixa em nenhuma categoria. Na prática clínica, muitos SII-U evoluem para outros subtipos com o tempo — o que reforça a necessidade de reclassificação periódica.

O subtipo não é permanente — e isso tem implicação terapêutica direta

Estudos de seguimento demonstram que até um terço dos pacientes muda de subtipo em 12 meses, seja por evolução natural da doença, modificações dietéticas, uso de medicamentos ou alterações do eixo cérebro-intestino. Isso significa que a classificação feita na consulta inicial é um retrato momentâneo, não um diagnóstico definitivo. A implicação prática é direta: antes de iniciar um fármaco subtipo-específico — especialmente alosetron ou eluxadolina, que têm perfis de risco relevantes —, reavalie o padrão atual do paciente. Prescrever um secretagogo para um paciente que era SII-C mas virou SII-D nos últimos dois meses é um erro evitável.

Dica Clínica
  • A subclassificação se baseia APENAS nos dias com sintomas — não nos dias normais. Um paciente com SII-D que tem fezes normais 3 dias por semana e Bristol 6-7 nos outros 4 é classificado como SII-D com base nos dias sintomáticos.
  • O subtipo pode mudar ao longo do tempo: até 1/3 dos pacientes muda de subtipo em 12 meses. Reavalie periodicamente, especialmente antes de prescrever fármacos específicos.

7. DIAGNÓSTICO — CRITÉRIOS DE ROMA IV (ADULTO)

7.1 A Evolução dos Critérios de Roma

Os critérios de Roma foram desenvolvidos para padronizar o diagnóstico de distúrbios gastrointestinais funcionais em nível internacional. Surgiram em 1989 (Roma I), foram atualizados em 1999 (Roma II), 2006 (Roma III) e 2016 (Roma IV). Cada atualização refinou os critérios com base em evidências acumuladas.

A mudança mais importante do Roma III para o Roma IV foi a abolição do termo "desconforto abdominal". No Roma III, o critério central era "dor abdominal recorrente OU desconforto abdominal". O Roma IV eliminou o "desconforto" porque o termo é culturalmente ambíguo — em algumas línguas e culturas, "desconforto" é interpretado como sintoma trivial ou ausente de dor real. Para tornar o critério universal, o Comitê de Roma decidiu: se não é DOR, não é SII.

Armadilha da Banca
  • "Desconforto abdominal" no Roma IV = ERRADO. Qualquer alternativa de prova que use "dor ou desconforto" está descrevendo o Roma III, não o Roma IV. A banca cobrou isso diretamente na Q26/2025.
  • "Qualquer frequência de dor" = ERRADO. O Roma IV exige >= 1 dia por semana. "Frequência irregular" ou "esporádica" não preenche o critério.
  • Dor só melhora com evacuação = ERRADO. O critério é RELAÇÃO com a evacuação (pode piorar também).

7.2 Os Critérios de Roma IV — Adulto

Critérios de Roma IV — SII Adulto (Memorize)

Critério Obrigatório: Dor abdominal RECORRENTE, em média >= 1 dia por semana nos últimos 3 meses.

Associada a >= 2 dos 3 seguintes:

  • 1. Relacionada com a defecação (melhora OU piora após evacuar)
  • 2. Associada à alteração na FREQUÊNCIA das fezes
  • 3. Associada à alteração na FORMA (consistência) das fezes

Temporalidade: Sintomas presentes há pelo menos 6 MESES antes do diagnóstico.

7.3 O Mantra 1–3–6

Para não errar nunca na prova, use este mapa mental: o "1" representa a frequência mínima de dor (1 dia por semana), o "3" representa os últimos 3 meses em que os critérios devem estar presentes, e o "6" representa o início dos sintomas há pelo menos 6 meses.

Número Representa Armadilha Frequente da Banca
1 Dor >= 1 dia por SEMANA "Qualquer frequência" ou "pelo menos 3 dias por mês" — ambos ERRADOS
3 Nos últimos 3 MESES Não confundir com 3 anos, 6 meses ou "nas últimas semanas"
6 Início dos sintomas há >= 6 MESES Paciente com 2 meses de sintoma ainda não preenche Roma IV
Ponto de Prova
  • O diagnóstico de SII é POSITIVO (baseado em critérios, não apenas na exclusão de doença orgânica). Em pacientes jovens, sem sinais de alarme e com critérios de Roma IV preenchidos, exames extensos não são necessários.
  • Roma IV vs Roma III: O Roma III usava "dor OU desconforto". O Roma IV usa apenas DOR. Qualquer alternativa que use "desconforto" como critério está descrevendo o Roma III.

8. DIAGNÓSTICO — CRITÉRIOS DE ROMA IV (PEDIÁTRICO)

A Q35/2025 trouxe um caso de adolescente de 13 anos, cobrando critérios pediátricos especificamente. Existem diferenças importantes em relação aos critérios de adulto que a banca explorou.

Critérios de Roma IV — SII Pediátrico (4–18 anos)

Critério Obrigatório: Dor abdominal recorrente, em média >= 4 dias por MÊS por pelo menos 2 MESES.

Associada a >= 1 dos seguintes:

  • 1. Relacionada com a defecação
  • 2. Associada à alteração na FREQUÊNCIA das fezes
  • 3. Associada à alteração na FORMA (consistência) das fezes

Exclusão: Após avaliação apropriada, sintomas não atribuíveis a outra condição médica.

Nota: A constipação que acompanha o quadro NÃO explica completamente a dor. Se a dor persiste após normalizar o trânsito, é SII.

Parâmetro Adulto (Roma IV) Pediátrico (Roma IV)
Frequência mínima de dor >= 1 dia por SEMANA >= 4 dias por MÊS
Período de duração >= 3 meses (com início >= 6 meses) >= 2 meses
Número de critérios associados >= 2 de 3 >= 1 de 3
Termo "desconforto" Abolido Abolido
Abordagem de exclusão Sinais de alarme obrigam investigação Avaliação apropriada obrigatória

8.1 Diferenciando SII de Constipação Funcional na Criança

Esta é a diferença clínica mais importante do contexto pediátrico e foi exatamente o que a Q35/2025 testou. O enunciado foi preciso: "o alívio da dor não é completo mesmo com a melhoria do trânsito intestinal." Essa frase é a chave do diagnóstico diferencial.

Característica SII com predomínio de constipação Constipação Funcional
Dor abdominal OBRIGATÓRIA; frequente; não cessa com evacuação Secundária à retenção fecal; CESSA com evacuação
Resposta ao laxante Alívio PARCIAL da dor (ou nenhum) Alívio COMPLETO da dor após evacuação
Hipersensibilidade visceral Presente (mecanismo central) Ausente ou secundária
Alteração de consistência Sim; frequente (oscila entre dura e pastosa) Predominantemente fezes duras
Critério diagnóstico Roma IV para SII Roma IV para Constipação Funcional
Armadilha da Banca
  • Criança com constipação + dor abdominal NÃO é automaticamente constipação funcional. Se a dor persiste após evacuar, é SII.
  • As frequências são DIFERENTES: adulto (1 dia/semana) vs. pediátrico (4 dias/mês). A banca pode cobrar os dois no mesmo ano.
  • O período mínimo também difere: 2 meses no pediátrico vs. 3 meses no adulto (com início 6 meses atrás).

9. SINAIS DE ALARME E DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL

9.1 Por que os Sinais de Alarme Importam

O diagnóstico de SII é clínico — não há exame que "confirme" a SII. Isso cria um risco real: diagnosticar SII em um paciente que na verdade tem câncer colorretal, DII ou outra doença orgânica. Por isso, a presença de qualquer sinal de alarme obriga investigação adicional ANTES de fechar o diagnóstico funcional. A regra de ouro: ausência de sinais de alarme + critérios de Roma IV em jovens = diagnóstico clínico, sem exames extensivos.

Sinal de Alarme O que Pesquisar Exame Indicado
Sangramento retal (hematoquezia) Câncer colorretal, DII, angiodisplasia Colonoscopia
Perda de peso não intencional (> 5% em 6 meses) Neoplasia, DII, má absorção, doença celíaca Colonoscopia + bioquímica + anti-tTG
Anemia ferropriva inexplicada Câncer, DII, doença celíaca Colonoscopia + EDA + anti-tTG IgA
Febre persistente + diarreia DII, infecção, neoplasia Calprotectina + colonoscopia + culturas
Histórico familiar de CCR ou DII Rastreio oncológico Colonoscopia (antecipada)
Início dos sintomas após os 50 anos Rastreio oncológico obrigatório Colonoscopia + marcações tumorais
Diarreia noturna (acorda o paciente) Doença orgânica: DII, má absorção Colonoscopia + bioquímica + calprotectina
Massa abdominal ou linfonodomegalia Investigação oncológica Imagem (TC ou US abdome) + oncologia

9.2 O Papel da Calprotectina Fecal

A calprotectina fecal é o biomarcador mais custo-efetivo para diferenciar SII de DII. É uma proteína liberada por neutrófilos ativados na mucosa intestinal: está elevada na DII (Crohn, Retocolite Ulcerativa) e normal na SII. Valor de referência: abaixo de 50 mcg/g sugere SII; acima de 200 mcg/g orienta investigação de DII ativamente. Sensibilidade de 93% e especificidade de 96% para distinguir DII de SII em adultos. Pode estar transitoriamente elevada por AINEs, infecções agudas e câncer colorretal.

9.3 Tabela de Diagnóstico Diferencial Completa

Diagnóstico Dor Abdominal Exames Laboratoriais Endoscopia / Imagem Diferencial-Chave
SII Recorrente; funcional; varia com evacuação Normais Normais Diagnóstico clínico (Roma IV)
Doença Celíaca Variável; diarreia crônica Anti-tTG IgA elevado; anemia Atrofia vilosária no duodeno Melhora definitiva com dieta sem glúten
DII (Crohn/RCU) Intensa; pode ter sinais de alarme PCR elevada; calprotectina elevada; anemia Inflamação e ulcerações Marcadores inflamatórios alterados
Constipação Funcional Secundária à retenção fecal Normais Normais Dor CESSA completamente com evacuação
SIBO Distensão intensa + cólica Teste do hidrogênio alterado Normais Responde a rifaximina; recidiva frequente
Intolerância à Lactose Pós-prandial imediata após lácteos Teste de hidrogênio + lactose Normais Melhora com retirada de lactose; não há dor autônoma
SGNC Variável Anti-tTG negativo; IgG antigliadina pode ser + Normais Melhora com dieta sem glúten sem doença celíaca confirmada
Colite Microscópica Leve; diarreia aquosa crônica Normais Mucosa normal à colonoscopia; biópsia alterada Importante em mulheres > 50 anos com SII-D
Câncer Colorretal Progressiva; com sinais de alarme CEA elevado; anemia; sangue oculto + Lesão intraluminal Sinal de alarme; investigar >= 50 anos
Dica Clínica

Colite Microscópica: importante armadilha clínica. A colonoscopia parece normal macroscopicamente, mas a biópsia revela colite colágena ou linfocítica. Suspeitar em mulheres acima de 50 anos com diarreia aquosa crônica em uso de AINEs, IBPs ou ISRS.

10. AVALIAÇÃO LABORATORIAL

A SII é um diagnóstico positivo baseado em critérios clínicos. Portanto, a investigação laboratorial deve ser focada em excluir diagnósticos que mimetizam a SII, e não em confirmar a SII por exame. Em pacientes jovens sem sinais de alarme, a bateria inicial é mínima. Em pacientes com sinais de alarme, a investigação é ampla.

Exame Justificativa Resultado Esperado na SII
Hemograma completo Anemia (sinal de alarme), leucocitose (DII) Normal
TSH Hiper/hipotireoidismo pode simular SII-D ou SII-C Normal
Anti-tTG IgA + IgA total Excluir doença celíaca (prevalente; simula SII) Negativo
PCR e VHS Marcadores inflamatórios para DII Normais
Calprotectina fecal Diferencia SII de DII (sens. 93%, espec. 96%) Abaixo de 50 mcg/g
Glicemia de jejum Diabetes pode causar dismotilidade Normal
Parasitológico de fezes Giardia, Cryptosporidium podem simular SII-D Negativo
Lactoferrina fecal Alternativa à calprotectina para DII Negativa
Teste respiratório H2/CH4 Suspeita de SIBO ou intolerância a lactose/frutose Normal na SII pura
Colonoscopia + biópsia APENAS se sinais de alarme ou >= 50 anos Normal (exceto colite microscópica, que exige biópsia)
Ponto de Prova
  • Em jovens (< 50 anos) sem sinais de alarme com critérios de Roma IV: hemograma + TSH + anti-tTG IgA + calprotectina fecal é a bateria mínima razoável.
  • Segundo as diretrizes da American College of Gastroenterology (ACG), atualizadas em 2021, recomendam evitar a colonoscopia de rotina em pacientes com sintomas de SII com menos de 45 anos e sem sinais de alerta.
  • Além disso, sugerem que sejam verificados os níveis fecais de calprotectina ou lactoferrina e proteína C-reativa em pacientes sem sinais de alarme e com suspeita de SII e sintomas de diarreia, para descartar doença inflamatória intestinal.
  • Calprotectina > 200 mcg/g = investigar DII ativamente. Valores entre 50 e 200 mcg/g são zonas cinzentas e devem ser correlacionados com a clínica.

11. TRATAMENTO — VISÃO GERAL E ABORDAGEM BIOPSICOSSOCIAL

O tratamento da SII só funciona quando se abandona o modelo biomédico puro (doença = lesão = fármaco) e se adota o modelo biopsicossocial. Isso não é filosofia — é ciência. As intervenções psicológicas (TCC, hipnoterapia) têm evidência de GRAU A para SII. Neuromoduladores funcionam melhor do que laxativos em muitos pacientes. A aliança terapêutica (relação médico-paciente) prediz independentemente o desfecho.

A abordagem deve ser graduada, começando pelas intervenções de menor complexidade e avançando para as específicas conforme a resposta. Em termos gerais, a hierarquia é:

  1. Primeiro nível: Educação do paciente + modificações de estilo de vida + dietário geral.
  2. Segundo nível: Dieta Low-FODMAP supervisionada + fibras solúveis + exercício físico.
  3. Terceiro nível: Farmacologia específica por subtipo (SII-C ou SII-D).
  4. Quarto nível: Neuromoduladores + abordagem psicológica estruturada (TCC, hipnoterapia).

A educação do paciente é frequentemente subestimada. Explicar o mecanismo da SII (eixo intestino-cérebro, hipersensibilidade visceral) reduz ansiedade, melhora adesão e diminui o catastrofismo em relação aos sintomas. Pacientes que entendem "por que" têm melhores desfechos do que os que recebem apenas prescrições.

12. ABORDAGEM NUTRICIONAL GERAL — PRIMEIRO NÍVEL

Antes de prescrever Low-FODMAP ou qualquer dieta especializada, é essencial implementar as recomendações de primeiro nível. Essas são intervenções de menor complexidade, bem toleradas e com base de evidência razoável.

12.1 Regularização da Rotina Alimentar

Um dos modificadores de sintoma mais simples e mais negligenciados: refeições regulares, 3 vezes ao dia, sem pular refeições e sem grandes volumes em uma única refeição. Refeições grandes ativam o reflexo gastrocólico de forma exagerada em pacientes com SII. Refeições pequenas e frequentes reduzem esse reflexo.

12.2 Gordura Dietética

Refeições gordurosas amplificam o reflexo gastrocólico e podem desencadear cólicas intensas, especialmente em SII-D. A redução de frituras, gordura saturada e refeições hiperlipidêmicas é recomendada de forma prática como passo inicial.

12.3 Cafeína, Álcool e Bebidas Gasosas

A cafeína estimula a motilidade colônica (o que pode ser problemático em SII-D) e a secreção gastroduodenal. Pacientes com SII-D frequentemente relatam piora dos sintomas após café, chá preto ou energéticos. O álcool irrita diretamente a mucosa intestinal e altera a permeabilidade. Bebidas carbonatadas aumentam o CO2 intraluminal e exacerbam a distensão e flatulência.

12.4 Hidratação e Atividade Física

A hidratação adequada (mínimo 1,5–2 L de água por dia) é especialmente importante em SII-C, onde fezes duras agravam a constipação e a dor. A atividade física regular tem evidência sólida para SII-C: melhora o trânsito intestinal, reduz o estresse (que é um desencadeante major da SII) e melhora o eixo intestino-cérebro via modulação serotoninérgica.

12.5 Fibras na SII — O Paradoxo

A recomendação de fibras na SII é nuançada e contraintuitiva. Nem toda fibra funciona da mesma forma.

Tipo de Fibra Mecanismo Evidência em SII Indicação
Solúvel / Viscosa
(psyllium, pectina, aveia)
Forma gel; amolece fezes sem fermentar excessivamente; menor produção de gás POSITIVA — melhora SII-C; não piora SII-D Recomendada em SII-C; iniciar gradualmente (2–5 g/dia e titular)
Insolúvel
(farelo de trigo, celulose)
Aumenta volume fecal; acelera trânsito; não é substrato para butirato e dispersão em SII NEGATIVA / NEUTRA — pode piorar dor e distensão Evitar ou limitar em SII ativa; não é a fibra da escolha
Armadilha da Banca

Fibra insolúvel (farelo de trigo) foi cobrada na Q36/2025 como a escolha ERRADA para restaurar produtores de butirato e melhorar disbiose da obesidade. Fibra insolúvel não serve de substrato para Faecalibacterium prausnitzii e não estimula a produção de butirato.

13. DIETA LOW-FODMAP — O TEMA MAIS COBRADO

13.1 Origem e Conceito

FODMAP é uma sigla criada pela Monash University (Austrália), pioneira na pesquisa da dieta para SII. Ela reúne um grupo de carboidratos fermentáveis de cadeia curta com uma característica em comum: são pouco absorvidos no intestino delgado e altamente fermentados pelas bactérias intestinais. A sigla:

Letra Categoria Subtipos Exemplos de Alimentos NÃO são FODMAP (armadilha)
F Fermentável Propriedade comum Todos abaixo
O Oligossacarídeos Frutanos (FOS); Galactanos (GOS, rafinose) Trigo, centeio, cebola, alho, aspargo; feijão, grão-de-bico, lentilha, soja Amido e polissacarídeos (são digeridos)
D Dissacarídeos Lactose Leite, iogurte, sorvete, queijos frescos (ricota, cottage) Sacarose (hidrolisada normalmente)
M Monossacarídeos Frutose em excesso (> glicose) Maçã, manga, melancia, mel, HFCS (xarope de milho) Glicose (absorvida completamente via SGLT1)
P Polióis Sorbitol, manitol, xilitol, maltitol Ameixa, pêssego, abacate, cogumelo, adoçantes "sugar free" Sacarose (hidrolisada em glicose + frutose)
Armadilha da Banca
  • GLICOSE não é FODMAP: absorvida completamente no intestino delgado pelo transportador SGLT1. A banca colocou glicose como FODMAP em alternativas erradas (Q63/2024 e Q27/2022).
  • AMIDO não é FODMAP: é digerido por amilases antes de atingir o cólon. Alternativas incorretas em várias provas incluíam amido.
  • SACAROSE não é FODMAP: hidrolisada pela sacarase intestinal em glicose + frutose, absorvida normalmente. A alternativa D da Q63/2024 incluía sacarose — estava errada.
  • Frutose EM EXCESSO é FODMAP: o problema não é a frutose em si, mas o excesso em relação à glicose, que impede o co-transporte normal.

13.2 Mecanismo de Ação — Como os FODMAPs Causam Sintomas

Os FODMAPs causam sintomas por dois mecanismos principais que se somam:

  • Mecanismo 1: Efeito Osmótico. Carboidratos não absorvidos no intestino delgado criam um gradiente osmótico que ATRAI água para o lúmen intestinal. Isso acelera o trânsito, aumenta o volume intraluminal e contribui para fezes amolecidas e distensão abdominal. Portanto: a dieta Low-FODMAP REDUZ a água intraluminal (ao remover o substrato osmótico). Não aumenta — reduz.
  • Mecanismo 2: Fermentação Bacteriana. No cólon, as bactérias anaeróbicas fermentam os FODMAPs não absorvidos, produzindo principalmente: H2 (hidrogênio, mensurável no teste respiratório), CO2 (contribui para a distensão) e CH4 (metano, produzido por Methanobrevibacter smithii, associado especificamente à CONSTIPAÇÃO). A dieta Low-FODMAP REDUZ a fermentação e portanto REDUZ H2, CO2 e CH4. Também REDUZ a produção de AGCC (remove o substrato fermentável).
Ponto de Prova
  • A alternativa A da Q27/2022 afirmava que a dieta "levou ao AUMENTO da água intraluminal" — isso é o OPOSTO do mecanismo real. A Low-FODMAP DIMINUI a água intraluminal.

13.3 As 3 Fases da Dieta Low-FODMAP

A dieta Low-FODMAP NÃO é uma dieta permanente. Esse é um ponto crítico que a banca já cobrou diretamente. Ela é estruturada em 3 fases sequenciais obrigatórias:

Fase Duração O que Fazer Objetivo Erro Comum
1 — Restrição 4–6 semanas Eliminar TODOS os alimentos com alto teor de FODMAPs. Supervisão por nutricionista é essencial. Controlar os sintomas; confirmar que a dieta funciona para esse paciente. Manter a restrição indefinidamente (causa disbiose).
2 — Reintrodução 6–8 semanas Reintroduzir grupos de FODMAPs um a um, em quantidade crescente, com intervalo de 3 dias entre cada grupo. Identificar quais FODMAPs específicos causam sintomas naquele paciente. Pular esta fase e manter a restrição total.
3 — Personalização Longo prazo Manter restrição apenas dos FODMAPs não tolerados individualmente. Liberalizar ao máximo o restante. Dieta personalizada, o mais ampla possível, com controle de sintomas. Acreditar que todos precisam evitar todos os FODMAPs.
Ponto de Prova
  • A fase de reintrodução (Fase 2) é o ponto mais cobrado: a alternativa E da Q27/2022 era a CORRETA exatamente por descrever a reintrodução gradual para testar intolerâncias específicas.
  • Low-FODMAP mantida indefinidamente = erro clínico. Reduz a diversidade microbiana, Bifidobacterium e a produção de butirato. Cobrado na Q36/2025.

13.4 Evidência Clínica: Low-FODMAP vs. Dieta Padrão

A pergunta da Q28/2022 era simples: a Low-FODMAP é superior à dieta padrão? Sim, consistentemente. A metanálise de Schumann et al. (2018) demonstrou superioridade para alívio global de sintomas (RR 1,81; IC95% 1,35–2,43), com melhora específica em dor abdominal, distensão, flatulência e diarreia. A ACG 2021 dá recomendação condicional para o uso da Low-FODMAP para melhora dos sintomas globais de SII (evidência de qualidade moderada).

13.5 Riscos da Low-FODMAP Prolongada sem Reintrodução

Aspecto Low-FODMAP Curta (4–6 sem) Low-FODMAP Prolongada sem Reintrodução
Sintomas de SII Redução expressiva Manutenção do benefício a curto prazo
Diversidade microbiana Redução transitória Redução PERSISTENTE
Produção de butirato Redução transitória Redução PERSISTENTE
Bifidobacterium spp. Redução transitória Redução PERSISTENTE
Micronutrientes em risco Cálcio (laticínios), ferro e folato (leguminosas) Risco real se não supervisionada
Atenção

As deficiências de micronutrientes da Low-FODMAP são: CÁLCIO (retirada de laticínios), FERRO e FOLATO (retirada de leguminosas e grãos integrais).

A deficiência de SELÊNIO e VITAMINAS DO COMPLEXO B mencionada na alternativa D da Q28/2022 está ERRADA — não são as deficiências clássicas associadas à Low-FODMAP.

14. PROBIÓTICOS, PREBIÓTICOS E SIMBIÓTICOS NA SII

14.1 Probióticos — A Grande Virada da ACG 2021

Este é um dos pontos mais contraintuitivos e mais cobrados da prova atual. O médico nutrólogo estava acostumado a prescrever probióticos para SII. A ACG 2021 mudou isso.

Recomendação Contrária — ACG 2021 sobre Probióticos na SII

A diretriz da ACG 2021 recomenda CONTRA o uso de probióticos para o tratamento dos sintomas globais da SII.

Grau: Recomendação condicional contra; Evidência de baixa qualidade.

Justificativa: A literatura é heterogênea — diferentes estudos usam diferentes cepas, doses, durações e desfechos. Nenhum estudo individual tem evidência robusta de eficácia para sintomas globais.

Dica Clínica

Uso individualizado ainda é possível na prática clínica: a ACG diz "contra" para tratamento global, mas não proíbe o uso em subgrupos específicos (SII pós-infecciosa, SII com SIBO concomitante). Cepas como Lactobacillus plantarum DSM 9843 e Bifidobacterium infantis 35624 têm dados emergentes, mas não mudam a recomendação geral.

14.2 Prebióticos — O Paradoxo na SII

Os prebióticos (inulina, FOS, GOS) melhoram a microbiota, mas paradoxalmente são FODMAPs e podem PIORAR os sintomas de SII. Essa é a grande contradição: o tratamento que cura a disbiose pode piorar a SII. O clínico precisa saber manejar esse paradoxo:

  • Em doses elevadas (> 10 g/dia): prebióticos fermentáveis pioram a distensão e a dor em pacientes com SII ativa.
  • Em doses baixas (< 3 g/dia): alguns estudos mostram benefício em SII leve.
  • Na fase de manutenção (após o controle dos sintomas): a reintrodução gradual de prebióticos é parte da estratégia de diversificação da microbiota.
  • Para disbiose da obesidade SEM SII ativa: inulina (10–15 g/d) e GOS são seguros e indicados para restaurar Faecalibacterium prausnitzii.

15. MANEJO FARMACOLÓGICO — ACG 2021

A ACG 2021 (Lacy et al., Am J Gastroenterol 2021) é a referência farmacológica atual e foi cobrada diretamente na Q27/2025. Ela trouxe mudanças importantes: probióticos perderam indicação, pró-secretores têm recomendação FORTE com alta qualidade de evidência para SII-C. Vamos cobrir por subtipo.

15.1 SII-C — Agentes Pró-Secretores (RECOMENDAÇÃO FORTE)

A lógica dos pró-secretores é elegante: se o problema é constipação + dor visceral, precisamos de fármacos que tratem as duas frentes simultaneamente. Os agonistas do receptor GC-C fazem exatamente isso.

Fármaco Classe Mecanismo Recomendação ACG 2021
Lubiprostone Ativador ClC-2 Ativa canais ClC-2 na membrana apical; secreção de Cl- e H2O -> amolecimento das fezes. NÃO depende de cGMP. FORTE; alta qualidade — melhora global de SII-C
Linaclotida Agonista GC-C Liga-se ao receptor GC-C -> eleva cGMP -> secreção de Cl-/HCO3- + inibe nociceptores subepiteliais. Trata constipação E dor visceral. FORTE; alta qualidade — efeito dual (evacuação + analgesia visceral)
Plecanatida Agonista GC-C Similar à linaclotida, mas pH-sensível: ativa preferencialmente no jejuno/íleo proximal (fisiologicamente semelhante à guanilina endógena). FORTE; alta qualidade — similar à linaclotida
Tenapanor Inibidor NHE3 Inibe cotransportador Na+/H+ tipo 3 -> aumenta Na+ no lúmen -> aumenta H2O no lúmen. Também pode reduzir hipersensibilidade visceral. FORTE; qualidade moderada — aprovado FDA para SII-C

Mecanismo do Receptor GC-C em Detalhe (Linaclotida e Plecanatida)

A linaclotida e a plecanatida ativam o receptor guanilato ciclase-C (GC-C) na membrana luminal dos enterócitos. Quando ativado, o GC-C produz cGMP intracelular. O cGMP tem dois efeitos distintos que explicam a superioridade clínica desses fármacos sobre laxativos convencionais:

  • Efeito secretório: cGMP ativa a proteína quinase PKG, que fosforila o canal CFTR, abrindo-o e secretando Cl- e HCO3- para o lúmen. Na+ e H2O seguem pelo gradiente osmótico -> fezes amolecidas, trânsito acelerado.
  • Efeito analgésico visceral: o cGMP extracelular (exportado por transportadores de nucleotídeos) ativa receptores nas fibras aferentes subepiteliais, REDUZINDO a sensibilidade dos nociceptores -> menos dor visceral.
Ponto de Prova

Por que os agonistas GC-C são superiores a laxativos osmóticos em SII-C? Porque eles tratam DOIS problemas: constipação (via secreção) E dor visceral (via cGMP extracelular). Laxativos osmóticos (lactulose, macrogol) tratam apenas a constipação.

Lubiprostone usa mecanismo diferente: ativa ClC-2, NÃO depende de cGMP. É pró-secretório, mas sem o componente analgésico visceral característico dos agonistas GC-C.

15.2 Outros Fármacos para SII-C

Fármaco Classe Recomendação ACG 2021 Observação
Psyllium (fibra solúvel) Fibra viscosa Condicional; baixa qualidade Melhora constipação; bem tolerado; baixo custo; primeira opção simples
Polietilenoglicol (PEG/macrogol) Laxativo osmótico Condicional; melhora constipação NÃO melhora dor ou qualidade de vida global
Antidepressivo tricíclico (amitriptilina) Neuromodulador Condicional; evidência moderada Principalmente para dor visceral; 10–25 mg à noite; efeito anticolinérgico pode agravar constipação (usar com cautela em SII-C)

15.3 TRATAMENTO DA SII-D — Síndrome do Intestino Irritável com Diarreia Predominante

A SII com diarreia predominante (SII-D) é o subtipo que mais desafia o clínico, porque a diarreia funcional tem diagnóstico diferencial extenso e a sobreposição com outras condições — especialmente a má absorção de ácidos biliares e o supercrescimento bacteriano do intestino delgado (SIBO) — é subestimada na prática. Antes de iniciar qualquer fármaco, é preciso ter certeza de que o que se está tratando é SII-D e não outra condição que simplesmente se parece com ela.

O tratamento da SII-D é multimodal: abordagem dietética (Low-FODMAP), intervenção sobre a microbiota (rifaximina), modulação da motilidade e da sensibilidade visceral (alosetron, eluxadolina, antidepressivos) e, em casos específicos, tratamento da má absorção de ácidos biliares (colestiramina, colesevelam). Cada camada tem sua indicação e seus níveis de evidência distintos.

1. Diagnóstico Diferencial — O que excluir antes de tratar SII-D

A diretriz ACG 2021 é explícita: dois diagnósticos devem ser ativamente pesquisados antes de rotular diarreia funcional como SII-D, porque são tratáveis de forma específica e frequentemente coexistem ou mimetizam a SII-D.

1.1 Má Absorção de Ácidos Biliares (BAM — Bile Acid Malabsorption)

A BAM é uma causa orgânica tratável de diarreia crônica que é radicalmente subestimada. Estima-se que 25–33% dos pacientes diagnosticados com SII-D na atenção primária têm BAM como causa subjacente ou coexistente.

Os ácidos biliares não absorvidos no íleo terminal chegam ao cólon e estimulam diretamente a secreção de fluido (via ativação do receptor TGR5 e cAMP) e aceleram o trânsito colônico, produzindo diarreia aquosa de alta frequência — clinicamente idêntica à SII-D.

Tipo de BAM Causa Tratamento
Tipo 1 (Ileal) Ressecção ileal, doença de Crohn ileal Sequestradores de ácidos biliares (1ª linha)
Tipo 2 (Idiopática/Primária) Excesso de síntese de ácidos biliares; FGF19 reduzido Sequestradores de ácidos biliares
Tipo 3 (Secundária) Colecistectomia, radiação pélvica Sequestradores; considerar colesevelam

Investigação: O teste-padrão é o SeHCAT (selenium homotaurocholic acid test), disponível apenas em alguns centros. Na prática clínica brasileira, o diagnóstico é frequentemente clínico-terapêutico: diarreia aquosa matinal, urgência fecal intensa, resposta a colestiramina confirma BAM. O 7α-OH-4-colesten-3-ona sérico (C4) é o biomarcador mais específico quando disponível.

1.2 SIBO — Supercrescimento Bacteriano do Intestino Delgado

SIBO e SII-D têm sobreposição clínica significativa: distensão, flatulência, diarreia e dor abdominal. A prevalência de SIBO confirmado por teste respiratório em pacientes com diagnóstico prévio de SII-D é de 4–78% (variação enorme por critérios diagnósticos). O protocolo rifaximina + Low-FODMAP tem dupla indicação nesse contexto.

Dica Clínica

Quando suspeitar de SIBO sobreposto à SII-D: piora dos sintomas após alimentos fermentáveis (trigo, leguminosas, frutas), flatulência excessiva, melhora dramática com antibioticoterapia prévia, ou síndrome de intestino curto / dismotilidade prévia. Solicitar teste respiratório de hidrogênio e metano com glicose ou lactulose.

Fármaco Classe Mecanismo de ação Recomendação ACG 2021 Observações
Rifaximina Antibiótico não absorvível Reduz disbiose; diminui produção de gases; anti-inflamatório luminal FORTE; alta qualidade 550 mg 3x/dia por 14 dias; pode ser repetido em recidiva
Alosetron Antagonista 5-HT3 Bloqueia receptor de serotonina -> reduz motilidade colônica; reduz sensibilidade visceral FORTE; alta qualidade SII-D grave em MULHERES; uso restrito (programa REMS nos EUA); risco de colite isquêmica (1:700)
Eluxadolina Agonista mu/kappa e antagonista delta opioide Modula motilidade e sensibilidade via receptores opioides intestinais; reduz urgência e frequência FORTE; alta qualidade Contraindicado em pacientes sem vesícula biliar (risco de pancreatite), alcoólicos e constipação crônica
Loperamida Antidiarreico opioide Receptor mu-opioide na parede intestinal; reduz peristalse Condicional; baixa qualidade Melhora diarreia mas NÃO melhora dor ou qualidade de vida global

2.1 Dieta Low-FODMAP na SII-D — especificidades do subtipo diarreico

A Low-FODMAP foi validada para todos os subtipos de SII, mas é particularmente eficaz na SII-D porque o mecanismo osmótico dos FODMAPs é o principal gerador da diarreia funcional: carboidratos mal absorvidos puxam água para o lúmen e aceleram o trânsito intestinal. Remover esses carboidratos resolve diretamente o mecanismo.

Alimento de alto risco na SII-D FODMAP envolvido Substituto low-FODMAP
Leite, iogurte, sorvete Lactose (D) Leite sem lactose, bebida de amêndoa/arroz, queijos duros
Maçã, manga, melancia, mel Frutose em excesso (M) Mirtilo, morango, banana madura, kiwi
Cebola, alho, trigo, centeio Frutanos (O) Cebolinha (parte verde), azeite de alho, arroz, aveia
Feijão, lentilha, grão-de-bico Galactanos (O) Tofu firme, proteína de ervilha, edamame em pequena porção
Ameixa, pêssego, adoçantes "sugar free" Sorbitol, manitol (P) Uva, laranja, tangerina, morango

Na SII-D especificamente, a restrição de polióis e frutose em excesso tende a produzir a resposta mais rápida — são os FODMAPs com maior impacto osmótico direto. A lactose em indivíduos com hipolactasia (que coexiste em 15–20% dos adultos) tem efeito amplificado.

2.2 Fibras na SII-D — cuidado com a fibra insolúvel

Na SII-D, a recomendação de fibras deve ser cautelosa:

  • Fibra solúvel/viscosa (psyllium): pode ajudar a modular o trânsito — o gel formado retarda a passagem e melhora a consistência das fezes. Dose inicial de 3–5 g/dia, com titulação gradual.
  • Fibra insolúvel (farelo de trigo, casca de frutas): acelera o trânsito intestinal — pode PIORAR a diarreia na SII-D. Deve ser evitada ou usada com extrema cautela.

3. Tratamento Farmacológico da SII-D — ACG 2021 e Evidências Atuais

A ACG 2021 é a referência farmacológica principal para SII-D. Vamos percorrer cada classe com profundidade mecanística, porque a banca testa exatamente essa compreensão — não apenas o nome do fármaco.

3.1 Rifaximina — Recomendação FORTE, Alta Qualidade de Evidência

A rifaximina é um antibiótico rifamicínico com absorção sistêmica mínima (<0,4%). Age diretamente no lúmen intestinal, sem impacto sistêmico relevante — o que explica seu perfil de segurança excepcional para uso em doenças funcionais.

Mecanismo de Ação — por que funciona na SII-D:

A rifaximina bloqueia a RNA polimerase bacteriana dependente de DNA, inibindo a transcrição bacteriana. Seu efeito na SII-D vai além da simples "desinfecção luminal":

  1. Modulação da microbiota: reduz seletivamente bactérias produtoras de gás (especialmente Escherichia e Klebsiella) enquanto preserva relativamente Lactobacillus e Bifidobacterium. Esse efeito modulador, não apenas bactericida, diferencia a rifaximina de antibióticos sistêmicos.
  2. Redução da produção de H₂: ao diminuir a fermentação no intestino delgado, reduz o hidrogênio que chega ao cólon e gera distensão e dismotilidade.
  3. Efeito anti-inflamatório luminal: ativa o receptor pregnane X (PXR) nas células epiteliais intestinais, reduzindo NF-κB e a produção de citocinas pró-inflamatórias (TNF-α, IL-6). Isso melhora a permeabilidade da barreira e a hipersensibilidade visceral.
  4. Ação sobre o receptor de pregnano X (PXR): mecanismo único da rifaximina que não é compartilhado por outros antibióticos — reduz diretamente a neuroinflamação entérica.
Parâmetro Detalhe
Dose validada 550 mg 3x/dia por 14 dias
Início de efeito Melhora em 1–2 semanas; benefício persiste por 10–12 semanas após o curso
Recidiva Frequente (40–60% em 6 meses). Pode ser repetido — 2 cursos adicionais são seguros e mantêm eficácia (TARGET 3)
Resistência Rara — a absorção mínima evita pressão seletiva sistêmica. Resistência local transitória não clinicamente relevante na maioria dos casos.
Evidências-chave TARGET 1 e TARGET 2 (N=1260): rifaximina vs. placebo — NNT 10,2 para alívio global; NNT 9,1 para melhora de fezes sem consistência. TARGET 3: eficácia mantida em retratamento.
Perfil de segurança Excelente. Sem risco significativo de Clostridioides difficile. Sem interações sistêmicas relevantes.
Ponto de Prova
  • Rifaximina é especialmente indicada quando há suspeita de SIBO coexistente: o mecanismo de modulação da microbiota do intestino delgado justifica seu uso em SII-D mesmo sem confirmação formal de SIBO. Na prática, um curso empírico é parte do manejo.
  • Associação com Low-FODMAP pós-rifaximina: após o curso antibiótico, a Low-FODMAP prolonga o benefício ao reduzir o substrato disponível para repopulação das bactérias geradoras de gás.
3.2 Alosetron — Recomendação FORTE, Alta Qualidade de Evidência

O alosetron é o único antagonista 5-HT3 aprovado especificamente para SII-D pelo FDA. Sua história é a mais complexa da farmacologia gastrointestinal: foi aprovado em 2000, retirado do mercado no mesmo ano por casos de colite isquêmica, e reintroduzido em 2002 com um programa de uso restrito (REMS — Risk Evaluation and Mitigation Strategy).

Mecanismo de Ação — a via serotoninérgica intestinal:

Para entender o alosetron, é preciso entender o papel da serotonina (5-HT) no intestino. 95% do 5-HT corporal está nas células enterocromafins (células EC) da mucosa intestinal. O 5-HT é liberado em resposta a estímulos mecânicos e químicos e ativa fibras aferentes e neurônios entéricos via receptores 5-HT3 e 5-HT4.

Na SII-D, há hipersecreção de 5-HT pelas células EC — isso aumenta o reflexo de peristaltismo, a secreção intestinal, e amplifica os sinais de dor visceral via fibras aferentes do nervo vago e espinais. O alosetron bloqueia especificamente o receptor 5-HT3 em fibras aferentes extrínsecas e em neurônios entéricos colinérgicos. Os efeitos são:

  1. Redução da motilidade colônica: menos reflexo de propulsão → trânsito mais lento → fezes mais formadas.
  2. Redução da secreção intestinal: menos ativação de células secretoras via 5-HT3.
  3. Analgesia visceral: bloqueio da transmissão aferente de sinais de dor nas fibras C vagais → menos dor e urgência.
Parâmetro Detalhe
Indicação aprovada SII-D GRAVE em MULHERES que não responderam às terapias convencionais
Dose 0,5 mg 2x/dia por 4 semanas; se tolerado e sem melhora suficiente, aumentar para 1 mg 2x/dia
Eficácia NNT 7,5 para alívio global em SII-D grave (Ford et al., meta-análise Cochrane 2019). Redução de urgência e dor mais expressiva que qualquer outro agente para SII-D.
Evidências-chave Múltiplos RCTs (n > 3.000). Meta-análise ACG 2021: OR 1,79 (IC95% 1,42–2,25) para alívio global.
Atenção — Contraindicação
  • Colite Isquêmica: risco de ~1:700 pacientes tratados. Mecanismo: redução do fluxo sanguíneo colônico por vasoconstrição via 5-HT3 na musculatura vascular. Suspender imediatamente se dor abdominal nova, hematoquezia ou piora súbita dos sintomas.
  • Constipação grave: ocorre em ~10% dos pacientes. Se constipação intensa se desenvolver, suspender. Contraindicado em pacientes com histórico de constipação crônica, obstrução intestinal ou megacólon.
  • REMS: nos EUA, o prescritor e o paciente devem participar do Prescribing Program for Lotronex. Somente médicos registrados podem prescrever.
  • Sexo: aprovado apenas para MULHERES. Estudos em homens não demonstraram eficácia estatisticamente significativa — diferença possivelmente relacionada à diferente distribuição e densidade de receptores 5-HT3 no cólon masculino.
3.3 Eluxadolina — Recomendação FORTE, Alta Qualidade de Evidência

A eluxadolina é um fármaco de mecanismo único: age simultaneamente como agonista dos receptores µ (mu) e κ (kappa) opioides e antagonista do receptor δ (delta) opioide na parede intestinal. Esse perfil triplo é a chave para entender por que ela funciona onde a loperamida falha.

Mecanismo de Ação — o equilíbrio opioide intestinal:

Os receptores opioides (µ, δ, κ) são abundantes no sistema nervoso entérico e no músculo liso intestinal. Na SII-D, há desregulação do tônus opioide:

  • Receptor µ (agonismo): inibe a motilidade propulsiva e a secreção intestinal → antidiarreico e analgésico visceral.
  • Receptor κ (agonismo): analgesia visceral adicional; reduz sensação de urgência e desconforto pós-prandial.
  • Receptor δ (antagonismo): o receptor δ normalmente "freia" os efeitos µ. Ao bloqueá-lo, a eluxadolina potencializa o agonismo µ sem aumentar a dose e sem a tolerância/dependência característica dos opioides sistêmicos. Além disso, o receptor δ está ligado à ansiedade visceral — seu bloqueio reduz a hipersensibilidade visceral central.

O resultado clínico dessa tríade: melhora simultânea da consistência das fezes, redução da urgência, melhora da dor e redução da frequência evacuatória — sem os riscos sistêmicos dos opioides, pois a biodisponibilidade sistêmica é mínima (<1%).

Parâmetro Detalhe
Dose 100 mg 2x/dia com refeições (reduzir para 75 mg 2x/dia se intolerância)
Eficácia IBS-3001 e IBS-3002 (N=2.427): 26,5% de resposta composta (dor + fezes) vs. 16,7% placebo em 26 semanas (p<0,001). NNT ≈ 10.
Vantagem vs. loperamida Loperamida trata apenas a diarreia. Eluxadolina trata diarreia + dor + urgência simultaneamente — desfecho composto mais relevante clinicamente.
Atenção — Contraindicação
  • Contraindicação absoluta — sem vesícula biliar: pacientes colecistectomizados têm risco de pancreatite aguda por espasmo do esfíncter de Oddi (prevalência de ~0,3%). O mecanismo: agonismo µ induz espasmo do esfíncter de Oddi; na presença da vesícula biliar, esse espasmo é aliviado pelo fluxo biliar compensatório. Sem vesícula, o espasmo persiste e obstrui o ducto pancreático.
  • Outras contraindicações absolutas: alcoolismo (risco de pancreatite grave), constipação crônica, obstrução biliar conhecida, pancreatite crônica, história de obstrução intestinal. Dois casos fatais de pancreatite em etilistas crônicos levaram ao alerta do FDA. Perguntar sempre sobre consumo de álcool antes de prescrever.
3.4 Ondansetron — Evidência Emergente (Não aprovado especificamente para SII-D)

O ondansetron é um antagonista 5-HT3 de uso muito difundido como antiemético. Nos últimos anos, acumulou-se evidência do seu uso off-label na SII-D — especialmente relevante no contexto brasileiro, onde o alosetron não está disponível.

Estudo de referência: Garsed et al. (Gut, 2014) — RCT duplo-cego, cruzado, com 120 pacientes com SII-D. Ondansetron 4 mg (titulado até 8 mg) vs. placebo. Resultados: melhora significativa na consistência das fezes (escala de Bristol), redução da frequência evacuatória e da urgência. O desfecho de dor abdominal não atingiu significância estatística separadamente, mas o escore global de SII melhorou.

Parâmetro Detalhe
Dose 4 mg/dia; titular até 8 mg/dia conforme resposta e tolerância
Perfil de segurança Muito mais seguro que alosetron — sem REMS, sem casos de colite isquêmica documentados em doses de SII. Risco de constipação é o principal efeito adverso.
Posição nas diretrizes Não citado na ACG 2021 (evidência insuficiente à época). NICE 2022 menciona como opção a ser considerada. Consenso British Society of Gastroenterology 2021: opção razoável em SII-D com urgência fecal predominante.
Uso prático Particularmente útil para pacientes com urgência fecal intensa como sintoma dominante. Pode ser combinado com Low-FODMAP. Baixo custo e ampla disponibilidade no Brasil.
Dica Clínica

Para o médico nutrólogo brasileiro: o ondansetron é a opção prática quando o objetivo é reduzir urgência e melhorar consistência das fezes em SII-D, pois o alosetron e a eluxadolina não estão disponíveis no Brasil. Use com titulação gradual e monitore constipação.

3.5 Loperamida — Recomendação Condicional, Baixa Qualidade de Evidência

A loperamida é o antidiarreico mais prescrito no mundo. Na SII-D, ela ocupa um papel secundário — não porque não funcione para a diarreia, mas porque trata apenas um dos componentes do problema.

O que a loperamida faz — e o que não faz:

A loperamida é agonista µ-opioide periférico (biodisponibilidade central negligível). Age no plexo mioentérico reduzindo:

  • Peristaltismo propulsivo → trânsito mais lento → fezes mais formadas
  • Secreção intestinal via inibição da adenilato ciclase intestinal
  • Tônus do esfíncter anal interno → melhora da continência fecal

O problema: múltiplos estudos controlados (incluindo a meta-análise de Ford et al. 2008) demonstram que a loperamida melhora a consistência das fezes e reduz a frequência evacuatória, mas NÃO melhora a dor abdominal, a distensão, a urgência (de forma consistente) nem a qualidade de vida global. Na SII-D, o sintoma de dor é frequentemente o mais incapacitante — e a loperamida não o toca.

Sintoma Loperamida Eluxadolina / Alosetron
Frequência evacuatória ✓ Melhora ✓ Melhora
Consistência das fezes ✓ Melhora ✓ Melhora
Dor abdominal ✗ Sem efeito ✓ Melhora
Urgência fecal ✗ Sem efeito consistente ✓ Melhora
Qualidade de vida global ✗ Sem efeito ✓ Melhora
Posição ACG 2021 Condicional; baixa qualidade Forte; alta qualidade

Papel clínico da loperamida: uso pontual (episódios agudos de diarreia, situações sociais/profissionais), não como tratamento principal da SII-D. Útil como "resgate" enquanto se aguarda a resposta ao tratamento de base.

3.6 Sequestradores de Ácidos Biliares — Para BAM Coexistente

Se houver suspeita ou confirmação de má absorção de ácidos biliares (BAM) coexistente com SII-D, os sequestradores de ácidos biliares são o tratamento específico e podem produzir melhora dramática — 60–80% de resposta em pacientes com BAM confirmada.

Fármaco Dose Eficácia em BAM Limitação
Colestiramina 4 g 1–4x/dia 60–70% de resposta. Padrão histórico de referência para BAM. Sabor desagradável; constipação; interfere com absorção de outros fármacos e vitaminas lipossolúveis
Colesevelam 625 mg 3x/dia com refeições Evidência crescente (Wedlake et al. 2009); melhor tolerância que colestiramina Menos estudos em SII-D especificamente; disponibilidade limitada no Brasil
Colestipol 5–30 g/dia Dados mais limitados vs. colestiramina Perfil similar à colestiramina
Dica Clínica

Diagnóstico terapêutico com colestiramina: na ausência de SeHCAT ou C4, um teste empírico com colestiramina 4 g 1–2x/dia por 2–4 semanas pode confirmar BAM se houver resposta significativa. Resposta dramática com colestiramina em paciente com "SII-D refratária" deve levantar suspeita de BAM Tipo 3 pós-colecistectomia.

3.7 Neuromoduladores — Antidepressivos Tricíclicos e ISRS

Os neuromoduladores têm papel central no tratamento da SII-D, especialmente quando há componente de dor visceral intensa, ansiedade/depressão comórbida, ou resposta insuficiente às terapias direcionadas à diarreia. A ACG 2021 fornece recomendação condicional para ambas as classes.

Antidepressivos Tricíclicos (ATCs) — Preferência em SII-D:

Os ATCs são o neuromodulador de escolha na SII-D (em oposição à SII-C, onde são usados com cautela pelo risco de piorar constipação). O mecanismo é multifacetado:

  • Analgesia central: inibem a recaptação de noradrenalina e serotonina nas vias descendentes inibitórias da dor na medula espinal → reduzem a hipersensibilidade central.
  • Efeito periférico anticolinérgico: reduzem a motilidade colônica (benefício em SII-D) e diminuem a secreção intestinal.
  • Ação independente do humor: o efeito analgésico visceral ocorre em doses muito menores que as doses antidepressivas (amitriptilina 10–25 mg/noite vs. 75–150 mg para depressão). Funciona em pacientes SEM depressão.
ATC Dose para SII Evidência Perfil na SII-D
Amitriptilina 10–50 mg/noite Mais estudada; meta-análise positiva (Ford 2019) Preferencial em SII-D — efeito antidiarreico via anticolinérgico
Imipramina 10–25 mg/noite RCTs positivos para dor Alternativa à amitriptilina
Nortriptilina 10–75 mg/noite Dados menores que amitriptilina Melhor tolerância (menos sedação/boca seca)
Atenção

Efeito dos ATCs na SII-C: pelos mesmos mecanismos anticolinérgicos que os tornam úteis na SII-D, os ATCs podem AGRAVAR a constipação na SII-C. Quando indicar neuromodulador em SII-C, preferir ISRS (fluoxetina 10–20 mg/dia — efeito pró-cinético leve via 5-HT4).

ISRS — Papel Limitado na SII-D:

Os ISRS apresentam dados mais fracos que os ATCs na SII. O mecanismo de inibição da recaptação de serotonina pode ACELERAR o trânsito intestinal (efeito pró-cinético via 5-HT4), o que é benéfico na SII-C mas potencialmente prejudicial na SII-D. Por isso, os ISRS são uma opção secundária em SII-D, usados principalmente quando:

  • Há comorbidade ansiosa/depressiva que requer tratamento independentemente da SII.
  • O paciente não tolerou ATCs (sedação, xerostomia, constipação).
  • A dor visceral é o sintoma dominante sem diarreia de alta frequência.

4. Visão Comparativa — Todos os Fármacos da SII-D

Tabela consolidada para revisão rápida, ordenada por nível de evidência segundo ACG 2021:

Fármaco Mecanismo Rec. ACG Evidência O que trata Alerta principal
Rifaximina Antibiótico não absorvível; PXR; modula microbiota FORTE Alta Diarreia + distensão + dor (SIBO/disbiose) Custo; recidiva frequente; repetir se necessário
Alosetron Antagonista 5-HT3 FORTE Alta Diarreia + urgência + dor visceral Colite isquêmica; REMS; só mulheres
Eluxadolina Agonista µ/κ; antagonista δ FORTE Alta Diarreia + urgência + dor (desfecho composto) CI absoluta: sem vesícula biliar
Ondansetron (off-label) Antagonista 5-HT3 Não citado Moderada Urgência + consistência (dor: menor evidência) Constipação; não para SII-C
ATCs (amitriptilina) NRI; anticolinérgico; analgesia central COND. Moderada Dor visceral + diarreia (via anticolinérgico) Sedação; xerostomia; pode agravar SII-C
Loperamida Agonista µ periférico COND. Baixa Só diarreia — NÃO melhora dor nem QV global Não usar como monoterapia principal
Colestiramina Sequestrador de ácidos biliares SE (BAM) Moderada (em BAM) Diarreia por BAM — resposta dramática quando indicado Sabor; constipação; interações medicamentosas

5. Algoritmo de Tratamento — SII-D na Prática Clínica

Abordagem Sequencial da SII-D

PASSO 1 — Confirmar diagnóstico e excluir causas orgânicas:

  • Critérios Roma IV preenchidos; sinais de alarme ausentes ou investigados
  • Calprotectina fecal normal (excluir DII)
  • Sorologias de doença celíaca (anti-tTG IgA)
  • Considerar teste de hidrogênio se SIBO suspeito

PASSO 2 — Terapia não farmacológica de base (iniciar simultaneamente):

  • Dieta Low-FODMAP: restrição por 4–6 semanas com seguimento por nutricionista
  • Reduzir cafeína, álcool, refeições gordurosas; regularizar horários
  • Atividade física regular (30 min/dia, 5x/semana)

PASSO 3 — Farmacologia de primeira escolha (baseada no sintoma dominante):

  • Diarreia + distensão + SIBO suspeito: Rifaximina 550 mg 3x/dia por 14 dias
  • Dor visceral dominante: Amitriptilina 10–25 mg/noite (titular gradualmente)
  • Urgência fecal dominante (Brasil): Ondansetron 4 mg/dia (off-label)
  • BAM suspeita: Colestiramina 4 g 1–2x/dia como teste terapêutico

PASSO 4 — Casos graves/refratários (encaminhar ou considerar fármacos de uso restrito):

  • Alosetron: SII-D grave em mulheres sem resposta a outras terapias (uso restrito, REMS)
  • Eluxadolina: SII-D com urgência e dor — verificar vesícula biliar antes de prescrever
  • Psicoterapia (TCC): forte evidência (ACG 2021) para SII com componente psicossocial dominante
Pontos de Prova — Resumo Executivo para a SII-D
  • Rifaximina: único antibiótico com recomendação FORTE na SII-D (ACG 2021). Mecanismo duplo: modula microbiota + ativa receptor PXR (anti-inflamatório luminal). Pode ser repetida em recidiva. NÃO confundir "retratamento em recidiva" com "resistência antibiótica".
  • Alosetron: antagonista 5-HT3 com eficácia máxima em dor + urgência na SII-D grave. APENAS em mulheres. Risco de colite isquêmica (1:700). REMS obrigatório nos EUA. Não disponível no Brasil.
  • Eluxadolina: mecanismo triplo (µ↑ κ↑ δ↓). Superior à loperamida porque trata dor + urgência + diarreia. Contraindicação absoluta: sem vesícula biliar → pancreatite por espasmo do esfíncter de Oddi.
  • Loperamida: melhora diarreia e consistência das fezes, mas NÃO melhora dor nem qualidade de vida — não deve ser a monoterapia principal da SII-D.
  • ATCs em SII-D: amitriptilina em baixas doses (10–25 mg/noite) é o neuromodulador de escolha em SII-D (efeito anticolinérgico antidiarreico + analgesia visceral). ATCs podem AGRAVAR SII-C.
  • BAM coexistente: sempre suspeitar quando SII-D é refratária. Colestiramina como teste diagnóstico-terapêutico. Resposta dramática confirma o diagnóstico.
Armadilha da Banca
  • Loperamida como 1ª linha: tem recomendação CONDICIONAL com baixa qualidade de evidência — não é 1ª linha. A banca pode tentar confundi-la com rifaximina.
  • Alosetron em homens: não aprovado e sem eficácia demonstrada em estudos randomizados. Se a questão mencionar "alosetron em homem com SII-D grave", está errada.
  • Eluxadolina em colecistectomizado: contraindicação absoluta. Se a questão apresentar SII-D após colecistectomia e eluxadolina como tratamento, está errada.
  • ISRS em SII-D: podem PIORAR a diarreia pelo efeito pró-cinético serotoninérgico. Para SII-D com componente de dor e neuromodulação necessária, preferir ATC.

15.4 Antiespasmódicos — Para Todos os Subtipos

Os antiespasmódicos (hioscina, mebeverina, diciclomina) atuam na musculatura lisa intestinal, relaxando o espasmo responsável pela dor tipo cólica. São amplamente utilizados na prática clínica, mas a ACG 2021 é clara sobre o nível de evidência.

Atenção

ACG 2021 sobre antiespasmódicos: recomendação CONDICIONAL com evidência de BAIXA qualidade. Não são terapia de primeira linha isolada para SII — são adjuvantes para o controle da dor.

A alternativa A da Q27/2025 afirmava que antiespasmódicos são "terapia de primeira linha com evidências moderadas" — ERRADA exatamente por superestimar o grau de recomendação.

15.5 Neuromoduladores na SII

Fármaco Classe Uso Preferencial em SII Dose Recomendação ACG 2021
Amitriptilina Antidepressivo tricíclico (ADT) SII-D (efeito anticolinérgico reduz trânsito) e dor visceral intensa 10–25 mg à noite Condicional; evidência moderada
Nortriptilina ADT SII-D com dor; menos efeitos colaterais que amitriptilina 10–25 mg à noite Condicional; extrapola ADT
Fluoxetina ISRS SII-C (efeito pró-cinético acelera trânsito) 10–20 mg/dia Condicional; evidência fraca
Paroxetina ISRS SII-C com ansiedade significativa 10–20 mg/dia Condicional; evidência fraca
Dica Clínica

Neuromoduladores na SII são prescritos em doses menores que na depressão, pelo efeito no eixo intestino-cérebro e não pelo efeito psicotrópico. O ADT age na sensibilização central e nas fibras aferentes intestinais, não apenas no humor. Explique isso ao paciente para garantir a adesão.

16. MICROBIOTA INTESTINAL, DISBIOSE E SII

16.1 A Microbiota Normal e sua Relação com a SII

O intestino humano abriga aproximadamente 38 trilhões de bactérias, com predominância dos filos Firmicutes e Bacteroidetes. A razão Firmicutes/Bacteroidetes (F/B) é um marcador de saúde metabólica: F/B elevada se associa à obesidade, maior extração calórica da dieta e disbiose; F/B normal ou baixa se associa à microbiota saudável, diversidade e produção de AGCC.

Na SII especificamente, os achados de disbiose mais consistentes incluem: redução de Faecalibacterium prausnitzii e Lactobacillus spp. (anti-inflamatórios e produtores de butirato) e aumento de Clostridium perfringens e Ruminococcus gnavus (pró-inflamatórios, degradam mucina).

16.2 O Butirato — Por que é o Protagonista

O butirato (ácido butírico, AGCC de 4 carbonos) é o combustível preferencial dos colonócitos. Sua importância vai muito além da nutrição celular:

  • Trofismo dos colonócitos: 90% da energia dos colonócitos do cólon esquerdo/distal vem do butirato.
  • Integridade da barreira intestinal: regula a expressão de tight junctions (claudina, ocludina, ZO-1), reduzindo a permeabilidade intestinal.
  • Imunomodulação: induz células T regulatórias (Treg) na lâmina própria, reduzindo a inflamação de baixo grau.
  • Epigenética: é inibidor de histona deacetilase (HDAC); modifica a expressão gênica de células imunes e epiteliais.
  • Saciedade: estimula células enteroendócrinas do cólon a liberar GLP-1 e PYY, melhorando o metabolismo e a motilidade.
Ponto de Prova

BUTIRATO ORAL NÃO FUNCIONA: absorvido quase completamente no intestino delgado. Para elevar a concentração de butirato no cólon distal (onde ocorre a maior incidência de doenças e disbiose), deve-se fornecer substrato de fermentação no cólon (fibras solúveis, polifenóis, prebióticos) para as bactérias produtoras de butirato.

16.3 Estratégias Nutrológicas para Aumentar Produtores de Butirato

Para recuperar a população de Faecalibacterium prausnitzii e a produção de butirato, a conduta deve ser de base reconstrutiva:

  • Dieta Mediterrânea: base alimentar rica em polifenóis, fibras solúveis e gorduras monoinsaturadas (azeite). É a intervenção dietética com maior potencial reconstrutivo de microbiota e butirato a longo prazo.
  • Fibras solúveis (Psyllium, farelo de aveia): servem de substrato (alimento) para a fermentação que gera butirato.
  • Polifenóis (resveratrol, catequinas): estimulam o crescimento de bactérias benéficas (inclusive Akkermansia muciniphila) via modulação enzimática.
  • Prebióticos em baixa dose: Inulina e GOS (Galactooligossacarídeos) atuam como fertilizantes específicos para cepas butirígenas.

16.4 Dietas que Falham ou Reduzem Butirato

Dieta Por que Falha na Disbiose O que Pode Agravar
Cetogênica (<= 30 g CHO/dia) Remove fibras fermentáveis; reduz diversidade microbiana; reduz produção de butirato a longo prazo. Constipação; aumento de metabolismo proteolítico e produção de TMAO.
Low-FODMAP prolongada sem reintrodução Remove fibras fermentáveis (FODMAPs são prebióticos); reduz Bifidobacterium e butirato. Redução persistente de diversidade microbiana.
Hiperproteica animal + fibra insolúvel Proteína animal estimula bactérias proteolíticas; fibra insolúvel não é substrato para produtores de butirato. Aumento de TMAO (risco cardiovascular); aumento de amônia e compostos fenólicos.

16.5 Akkermansia muciniphila — O "Guardião" da Mucosa

A Akkermansia muciniphila merece destaque especial. Ela coloniza a camada de muco e produz proteínas que fortalecem as tight junctions (especialmente a Amuc_1100, seu principal ligante de TLR2), aumenta a espessura da camada de muco e está reduzida na obesidade, diabetes tipo 2 e SII. É estimulada por polifenóis — especialmente resveratrol, epigalocatequina do chá verde e elagitaninos das frutas vermelhas. Esse é mais um argumento para a dieta mediterrânea rica em polifenóis como intervenção de escolha.

Dica Clínica

TMAO (Trimetilamina-N-óxido): produzido pela metabolização hepática de TMA, derivado da lecitina e L-carnitina de carnes vermelhas. Está associado a aterosclerose acelerada. Dietas hiperproteicas de base animal aumentam TMAO — importante para a prova de título que cruza nutrologia e cardiologia.

17. ABORDAGEM PSICOLÓGICA E NEUROMODULAÇÃO CENTRAL

A abordagem psicológica não é "plano B" para pacientes que não respondem à dieta ou fármacos — é uma intervenção de primária eficácia baseada na fisiopatologia. A sensibilização central e o eixo intestino-cérebro são alvos terapêuticos exatamente da mesma forma que o receptor GC-C é alvo da linaclotida.

Intervenção Mecanismo Evidência Grau ACG 2021
Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) Modifica padrões de pensamento catastrófico sobre sintomas; reduz hipervigilância visceral; modula eixo HPA. Redução de até 50% dos sintomas; mantém efeito a 12 meses. Forte; qualidade moderada
Hipnoterapia dirigida ao intestino (IHT) Modifica percepção cortical dos sinais intestinais; reduz sensibilidade visceral via relaxamento profundo. 70–80% de resposta em centros especializados. Condicional; qualidade moderada
Mindfulness e redução de estresse Modula eixo intestino-cérebro; melhora tolerância à dor visceral; reduz reatividade ao estresse. Evidência emergente; bons dados de qualidade de vida. Condicional; baixa a moderada qualidade

A educação do paciente sobre o mecanismo da SII (eixo intestino-cérebro, hipersensibilidade visceral, não é "coisa da cabeça") é parte da abordagem psicológica mesmo sem psicólogo envolvido. Estudos mostram que a explicação do diagnóstico por si só reduz visitas de pronto-socorro, melhora satisfação e evita exames desnecessários.

Fluxograma de Abordagem da SII - Interativo

Fluxograma de Abordagem da SII

Baseado em Roma IV & ACG 2021

Paciente com Dor Abdominal Recorrente

PASSO 1: Anamnese e Triagem

Avaliar critérios diagnósticos de Roma IV e investigar sinais de alarme.

Há sinais de alarme?

Febre, perda ponderal inexplicada, anemia, sangramento intestinal, diarreia noturna, início > 50 anos ou histórico de CCR/DII.

Investigação por Sinal de Alarme
  • Sangramento / Diarreia Noturna: Colonoscopia + Calprotectina
  • Perda de Peso (>5% em 6m): Colonoscopia + Bioquímica + Anti-tTG
  • Anemia Ferropriva: Colonoscopia + EDA + Anti-tTG IgA
  • Febre + Diarreia: Calprotectina + Colonoscopia + Culturas
  • Idade >= 50 anos / Histórico Familiar: Colonoscopia de Rastreio
  • Massa Abdominal: Imagem (TC ou US Abdome)

*Confira a tabela completa de condutas no Painel Clínico à direita.

Preenche critérios de Roma IV?

Dor abdominal recorrente ≥ 1 dia/semana nos últimos 3 meses, com pelo menos 2 critérios associados à defecação.

Investigar Outras Causas

Avaliar diagnósticos diferenciais de dores abdominais recorrentes (ex: DII subclínica, intolerâncias, endometriose).

PASSO 2: Estratificação

Solicitar exames complementares direcionados conforme a apresentação clínica do paciente.

Suspeita SII-D

Diarreia Predominante

  • Hemograma, PCR, TSH
  • Anti-tTG IgA + IgA total
  • Calprotectina fecal
  • Parasitológico de fezes

Suspeita SII-C

Constipação Predominante

  • Hemograma, PCR, TSH
  • Anti-tTG IgA + IgA total
  • Avaliar trânsito intestinal

Suspeita SII-M

Padrão Misto

  • Hemograma, PCR, TSH
  • Anti-tTG IgA + IgA total
  • Calprotectina fecal
  • Excluir sinais de alarme

PASSO 3: Tratamento Gradual

Abordagem terapêutica escalonada em níveis de intervenção.

1
Nível 1: Educação e Medidas Gerais
Educação e validação da dor (eixo intestino-cérebro)
Fracionamento: refeições regulares e menor volume
Reduzir álcool, cafeína, gorduras e refrigerantes
Psyllium (se constipação predominante)
Evitar fibras insolúveis em excesso
2
Nível 2: Terapia Nutricional Avançada
Dieta Low-FODMAP Restrita (4-6 semanas)
Reintrodução orientada sistemática (6-8 semanas)
Personalização da dieta a longo prazo
Introdução de atividade física regular
Atenção: Não manter restrição severa prolongada
3
Nível 3: Farmacoterapia Específica
SII-C: Linaclotida, plecanatida, lubiprostone
SII-D: Rifaximina, eluxadolina, ondamsetrona, alosetrona
Dor Espasmódica: Hioscina, pinavério, mebeverina
4
Nível 4: Neuromodulação e Terapia Cognitiva
Indicado em casos refratários ou somatização
Amitriptilina / Imipramina (antidepressivos tricíclicos: preferir em SII-D)
Fluoxetina / ISRS (preferir em SII-C)
Encaminhar para TCC ou hipnoterapia dirigida ao intestino

18. BANCO DE QUESTÕES COMENTADAS (2022–2025)

Responda às questões da prova de título de nutrologia diretamente abaixo para testar seus conhecimentos. Seu progresso e pontuação serão atualizados no painel lateral em tempo real.

Questão 1 PROVA 2022 | Q27
Mulher de 32 anos queixa-se de dor abdominal há 6 meses e diarreia frequente, sem produtos patológicos. Nega perda de peso. Exames laboratoriais, endoscopia digestiva alta e colonoscopia sem alterações. Foi proposta como medida terapêutica dieta com redução de FODMAPS, com melhora dos sintomas. Diante do caso, é correto afirmar que:
Gabarito: E.
Após a fase inicial de restrição estrita (4-6 semanas), a reintrodução gradual (Fase 2) de grupos de alimentos contendo FODMAPs é obrigatória. Isso ajuda a testar a tolerância individual de cada paciente e evita o uso indefinido da dieta restritiva, que pode causar disbiose.

Por que as outras alternativas estão incorretas?
* A: A dieta levou à REDUÇÃO (não aumento) da água intraluminal.
* B: A Low-FODMAP REDUZ a produção de ácidos graxos de cadeia curta (AGCC) ao remover as fibras fermentáveis.
* C: O trigo é restrito na dieta por causa dos frutanos (FODMAPs), não pelo glúten.
* D: Glúten e lactose não precisam ser excluídos permanentemente; o glúten não é restrito na Low-FODMAP pura e a lactose é reintroduzida conforme a tolerância.
Questão 2 PROVA 2022 | Q28
Sobre a terapia nutricional na síndrome do intestino irritável (SII), assinale a alternativa correta.
Gabarito: B.
Múltiplas metanálises demonstraram que a dieta Low-FODMAP a curto prazo é superior à dieta padrão para o controle de sintomas globais e melhora da qualidade de vida dos pacientes com SII.

Por que as outras alternativas estão incorretas?
* A: A restrição total e cega de glúten e lactose não tem evidência robusta de benefício global na ausência de intolerância ou alergia.
* C: A Low-FODMAP é superior à dieta padrão.
* D: As deficiências clássicas da Low-FODMAP prolongada são cálcio, ferro e folato.
* E: A diretriz ACG 2021 recomenda CONTRA o uso de probióticos de forma global.
Questão 3 PROVA 2024 | Q63
A dieta Low-FODMAP é uma abordagem eficaz para o manejo da SII. Qual dos seguintes grupos de carboidratos fermentáveis deve ter sua ingestão reduzida ou evitada na dieta Low-FODMAP?
Gabarito: B (alternativa b no PDF original).
Esta alternativa agrupa perfeitamente os carboidratos fermentáveis de cadeia curta que definem a sigla FODMAP: Frutose (Monossacarídeos), Lactose (Dissacarídeos), Frutanos + Galactanos (Oligossacarídeos). Os polióis (como manitol e sorbitol) completam o grupo.

Por que as outras alternativas estão incorretas?
* Glicose, sacarose, amido e polissacarídeos digestíveis NÃO são FODMAPs. Eles são absorvidos ou hidrolisados de forma eficiente no intestino delgado e não causam fermentação excessiva ou efeito osmótico indesejado no cólon.
Questão 4 PROVA 2025 | Q26
Com base nos critérios de Roma IV, qual das alternativas representa corretamente os critérios diagnósticos para SII?
Gabarito: A (alternativa a no PDF original).
Esta alternativa transcreve perfeitamente os critérios de Roma IV. Lembre-se do "Mantra 1-3-6": dor recorrente pelo menos 1 dia por semana nos últimos 3 meses, associada a >= 2 de 3 critérios e início >= 6 meses atrás. Sinais de alarme sempre demandam exclusão.

Por que as outras alternativas estão incorretas?
* B: O termo "desconforto" foi explicitamente abolido no Roma IV. E sinais de alarme devem sempre ser investigados.
* C: Frequência mínima deve ser de pelo menos 1 dia por semana.
* D: A dor abdominal é um critério obrigatório e inegociável na SII.
Questão 5 PROVA 2025 | Q27
Segundo as diretrizes da American College of Gastroenterology (ACG), atualizadas em 2021, assinale a alternativa correta quanto ao manejo da SII-C:
Gabarito: B (alternativa b no PDF original).
Ativadores dos canais de cloro (como Lubiprostone) e agonistas do receptor de guanilato ciclase-C (como Linaclotida e Plecanatida) têm recomendação FORTE com alta qualidade de evidência para o manejo de SII-C.

Por que as outras alternativas estão incorretas?
* A: Antiespasmódicos têm recomendação condicional com evidência de BAIXA qualidade na diretriz de 2021.
* C: Probióticos receberam recomendação CONTRÁRIA (não a favor) na ACG 2021.
* D: A Low-FODMAP não é contraindicada na SII-C; com suporte de fibras solúveis adequadas, ela é uma ferramenta eficaz.
Questão 6 PROVA 2025 | Q35
Uma adolescente de 13 anos apresenta dor abdominal recorrente há cerca de cinco meses, referindo episódios em pelo menos quatro dias por mês. A dor é frequentemente aliviada após evacuação e acompanha alterações na consistência das fezes. Apesar de episódios de constipação, o alívio da dor não é completo mesmo com a melhoria do trânsito intestinal. Exames normais. Qual o diagnóstico mais provável?
Gabarito: D (alternativa d no PDF original).
A paciente preenche perfeitamente os critérios de Roma IV pediátricos para SII: dor recorrente >= 4 dias/mês por >= 2 meses, associada a alterações das fezes e relação com defecação, com exames normais. O fato de o "alívio da dor não ser completo mesmo com a melhoria do trânsito" afasta a constipação funcional pura, onde a dor cessa totalmente ao evacuar.
Questão 7 PROVA 2025 | Q36
Homem, 38 anos, obesidade grau I, fadiga persistente, distensão abdominal e constipação crônica. Análise de microbiota fecal por sequenciamento genético mostra redução acentuada de bactérias produtoras de butirato e aumento de espécies associadas à maior extração calórica da dieta. Qual conduta nutrológica apresenta maior potencial de corrigir o desequilíbrio microbiano descrito?
Gabarito: A (alternativa a no PDF original).
A dieta mediterrânea associada a fibras solúveis, polifenóis, inulina e GOS atua como excelente reconstrutor da microbiota butirígena (Faecalibacterium prausnitzii).

Por que as outras alternativas estão incorretas?
* B: Dieta cetogênica reduz as fibras solúveis e reduz drasticamente os produtores de butirato a longo prazo.
* C: Rifaximina + Low-FODMAP é indicada para SIBO/SII ativa, mas o uso prolongado de Low-FODMAP deprime os produtores de butirato.
* D: Proteína animal excessiva e fibra insolúvel não geram butirato no cólon distal e estimulam microrganismos proteolíticos deletérios.

19. MAPA MENTAL — REVISÃO RÁPIDA PARA A PROVA

Use esta seção nas 48h antes da prova. É uma compressão dos pontos mais cobrados.

DIAGNÓSTICO ROMA IV ADULTO: MANTRA 1-3-6
  • DOR (não desconforto) >= 1 dia/semana nos últimos 3 meses, com início >= 6 meses.
  • >= 2 de 3: relação com a defecação, alteração na frequência ou na forma das fezes.
  • Sinais de alarme: sempre investigar! Não há diagnóstico funcional com sinal de alarme inexplicado.
DIAGNÓSTICO ROMA IV PEDIÁTRICO (4-18 anos)
  • DOR recorrente em média >= 4 dias/mês por >= 2 meses.
  • >= 1 de 3 associados.
  • Dor que persiste mesmo normalizando a constipação com laxantes = SII, e não constipação funcional pura.
DIETA LOW-FODMAP
  • FODMAPs: Oligossacarídeos (frutanos + galactanos) | Dissacarídeos (lactose) | Monossacarídeos (frutose em excesso) | Polióis (sorbitol, manitol, xilitol)
  • NÃO são FODMAPs: glicose, sacarose, amido (são bem absorvidos no delgado)
  • Mecanismo: REDUZ osmose (menos água no lúmen) + REDUZ fermentação (menos H2, CO2, CH4)
  • 3 fases: Restrição (4-6 sem) | Reintrodução gradual (6-8 sem) | Personalização (longo prazo)
  • Superior à dieta padrão: SIM (meta-análises positivas)
  • Deficiências clássicas: cálcio, ferro, folato | NÃO selênio ou vit B (armadilha da Q28/2022)
FARMACOLOGIA ACG 2021
  • SII-C 1ª linha FORTE: lubiprostone (ClC-2) | linaclotida e plecanatida (GC-C -> cGMP -> trata constipação + dor visceral) | tenapanor (NHE3)
  • SII-D 1ª linha FORTE: rifaximina (550 mg 3x/d por 14 dias) | alosetron (mulheres, SII-D grave) | eluxadolina (sem vesícula biliar: contraindicado)
  • Antiespasmódicos: condicional; evidência BAIXA — não são 1ª linha
  • PROBIÓTICOS: RECOMENDAÇÃO CONTRÁRIA na ACG 2021 para sintomas globais de SII
MICROBIOTA E BUTIRATO
  • Disbiose da obesidade: reduz F. prausnitzii (produtor de butirato) + aumenta espécies de alta extração calórica.
  • Conduta de escolha: dieta mediterrânea + fibras solúveis + polifenóis + inulina/GOS + probióticos multicepas.
  • Falham em restaurar butirato: cetogênica, Low-FODMAP prolongada, hiperproteica animal + fibra insolúvel.
  • Akkermansia muciniphila: estimulada por polifenóis; fortalece a barreira intestinal.
  • Butirato oral não funciona: absorvido no delgado.
AS 5 ARMADILHAS RECORRENTES DA BANCA
  • 1. "Desconforto" no Roma IV = ERRADO: termo foi abolido; apenas DOR é válida.
  • 2. Low-FODMAP aumenta água intraluminal = ERRADO: ela reduz a água por reduzir a carga osmótica.
  • 3. Glicose, amido e sacarose são FODMAPs = ERRADO: são digeridos e absorvidos no delgado.
  • 4. Probióticos são 1ª linha com forte evidência = ERRADO: ACG 2021 faz recomendação contrária global.
  • 5. Dor + constipação em criança = constipação funcional = ERRADO: se a dor persistir após evacuar/normalizar trânsito, é SII.

20. REFERÊNCIAS E DIRETRIZES UTILIZADAS

Diretrizes Principais

  1. Lacy BE, Pimentel M, Brenner DM et al. ACG Clinical Guideline: Management of Irritable Bowel Syndrome. Am J Gastroenterol. 2021;116(1):17–44. doi:10.14309/ajg.0000000000001036
  2. Drossman DA, Hasler WL. Rome IV — Functional GI Disorders: Disorders of Gut-Brain Interaction. Gastroenterology. 2016;150(6):1257–1261.
  3. Hyams JS, Di Lorenzo C, Saps M et al. Functional Disorders: Children and Adolescents. Gastroenterology. 2016;150(6):1456–1468. [Roma IV Pediátrico]
  4. NICE Guideline [NG212]. Irritable bowel syndrome in adults: diagnosis and management. National Institute for Health and Care Excellence, UK. 2022.
  5. McKenzie YA et al. British Dietetic Association systematic review and evidence-based practice guidelines for the dietary management of irritable bowel syndrome in adults. J Hum Nutr Diet. 2016;29(5):549–575.

Metanálises e Estudos Fundamentais

  1. Schumann D, Klose P, Lauche R et al. Low fermentable, oligo-, di-, mono-saccharides and polyol diet in the treatment of irritable bowel syndrome: A systematic review and meta-analysis. Nutrition. 2018;45:24–31.
  2. Staudacher HM, Lomer MCE, Farquharson FM et al. A Diet Low in FODMAPs Reduces Symptoms in Patients With Irritable Bowel Syndrome and A Probiotic Restores Bifidobacterium Species: A Randomized Controlled Trial. Gastroenterology. 2017;153(4):936–947.
  3. Whelan K et al. The low FODMAP diet in the management of irritable bowel syndrome: an evidence-based review of FODMAP restriction, reintroduction and personalisation in clinical practice. J Hum Nutr Diet. 2018;31(2):239–255.

Microbiota e Fisiopatologia

  1. Tap J et al. Identification of an intestinal microbiota signature associated with severity of irritable bowel syndrome. Gastroenterology. 2017;152(1):111–123.
  2. Cryan JF et al. The Microbiota-Gut-Brain Axis. Physiol Rev. 2019;99(4):1877–2013.
  3. Plovier H et al. A purified membrane protein from Akkermansia muciniphila or the pasteurized bacterium improves metabolism in obese and diabetic mice. Nat Med. 2017;23(1):107–113.
  4. Dimidi E et al. Mechanisms of action of probiotics and the gastrointestinal microbiota on gut motility and constipation. Adv Nutr. 2017;8(3):484–494.
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