Apostila Digital Nutro-TEN | Terapia de Nutrição Parenteral

Contexto e Relevância para o TEN

1. CONTEXTO E RELEVÂNCIA PARA O TEN

Nutrição parenteral (NP) é um dos temas mais recorrentes nas provas de título de nutrologia. A banca explora esse tema de todas as direções possíveis: ela pode apresentar um caso de paciente crítico e perguntar quando iniciar a NP; pode descrever um erro técnico de formulação e perguntar qual complicação vai ocorrer; pode explorar a fisiopatologia da síndrome de realimentação de forma muito detalhada, testando se o candidato sabe quais eletrólitos caem e por quê. O tema é extenso, mas tem uma lógica interna muito clara, e quem domina essa lógica responde as questões mesmo em enunciados que não reconhece de imediato.

O padrão de cobrança do TEN em nutrição parenteral concentra-se em quatro eixos: (1) indicações e contraindicações com critérios precisos, incluindo os valores laboratoriais da A.S.P.E.N. que contraindicam o início; (2) diferença entre nutrição parenteral periférica (NPP) e central (NPC) com seus limites de osmolaridade; (3) complicações metabólicas, sobretudo hiperglicemia, síndrome de realimentação e complicações hepáticas; (4) populações especiais, com ênfase no paciente crítico e no oncológico.

🎯 PONTO DE PROVA

A definição de NP cobrada no TEN vem diretamente da Portaria 272/1998 da ANVISA: "solução ou emulsão composta de carboidratos, aminoácidos, lipídios, vitaminas e minerais, estéril e apirogênica, destinada à administração intravenosa, visando a síntese ou manutenção dos tecidos, órgãos e sistemas". Qualquer questão que apresente NP com bactérias, fungos ou sem ser estéril é uma alternativa errada.

A banca já cobrou explicitamente a diferença entre NP manipulada e NP industrializada, assim como o sistema 2-em-1 vs 3-em-1. Esses conceitos aparecem mais como alternativas distratoras do que como gabarito, então é fundamental saber diferenciar para não cair na armadilha.

2. FISIOPATOLOGIA — O MECANISMO QUE A PROVA COBRA

2.1 Por que a via parenteral altera o metabolismo?

Quando um paciente recebe NP, os nutrientes chegam diretamente à circulação sistêmica sem passar pelo trato gastrointestinal. Isso elimina o efeito de primeira passagem hepática dos nutrientes vindos da veia porta, rompe o ritmo fisiológico de absorção e elimina os sinais hormonais que o intestino normalmente envia ao pâncreas (incretinas). O resultado prático é que a NP produz respostas metabólicas distintas da nutrição enteral, com tendência maior à hiperglicemia e à disfunção hepática, que são as duas complicações metabólicas mais cobradas.

A infusão intravenosa contínua de glicose estimula a secreção pancreática de insulina de forma constante, diferente do padrão pulsátil fisiológico. Isso leva a hiperinsulinismo relativo, favorece a lipogênese hepática (síntese de triglicerídeos a partir do excesso de glicose), e inibe a lipólise periférica. Quando a oferta de glicose excede a capacidade oxidativa do paciente — especialmente nos críticos com resistência insulínica — o excedente é convertido em gordura, depositado no fígado (esteatose) e aumenta a produção de CO2 (elevação do quociente respiratório), o que pode dificultar o desmame de ventilação mecânica.

2.2 Fisiopatologia da Síndrome de Realimentação (SR)

A síndrome de realimentação é uma das complicações mais cobradas no TEN porque exige que o candidato entenda um mecanismo fisiopatológico preciso e não apenas uma lista de complicações. O raciocínio é o seguinte: durante o jejum prolongado ou a desnutrição grave, o organismo adapta-se a usar gordura e proteína como fontes energéticas. O metabolismo do fosfato, potássio e magnésio entra em equilíbrio com os baixos estoques corporais. Quando a realimentação começa — enteral ou parenteral — a oferta de carboidratos estimula a secreção de insulina, que por sua vez promove captação intracelular massiva de fosfato, potássio e magnésio.

O fosfato é o eletrólito mais crítico porque é o substrato do ATP. Com a realimentação, as células aumentam a demanda por ATP para metabolizar os novos substratos, mas o fosfato sérico cai rapidamente por captação intracelular. Hipofosfatemia grave (< 1 mg/dL) causa disfunção de eritrócitos (queda de 2,3-DPG, hemólise), insuficiência cardíaca por falha contrátil dos cardiomiócitos, insuficiência respiratória por fraqueza da musculatura acessória, e alterações neuromusculares. A hipomagnesemia contribui para disfunção enzimática e piora o controle eletrolítico. A hipocalemia predispõe a arritmias. A deficiência de tiamina surge porque ela é cofator indispensável para o metabolismo de carboidratos via piruvato desidrogenase — sem tiamina, o piruvato não entra no ciclo de Krebs e acumula-se como lactato, causando acidose e encefalopatia de Wernicke.

🩺 PÉROLA CLÍNICA

Quociente Respiratório (QR) na prova: CHO = 1,0 / Proteína = 0,8 / Lipídio = 0,7. Quando a glicose é ofertada em excesso (> 5 mg/kg/min ou > 25 kcal/kg/dia), ocorre lipogênese a partir de CHO, o QR ultrapassa 1,0 — o que eleva VCO2, piorando pacientes em ventilação mecânica. Por isso a oferta de CHO deve ser limitada a 4 mg/kg/min no crítico e < 7 mg/kg/min no estável (Tabela 68.1 do material base, baseada em Skipper, 1998, referenciada pela ASPEN).

🎯 PONTO DE PROVA

Sequência fisiopatológica da SR que a banca cobra: realimentação com CHO → insulina → captação intracelular de P, K, Mg → hipofosfatemia + hipocalemia + hipomagnesemia → falência cardíaca, respiratória e neurológica. Tiamina cai porque o metabolismo de CHO a consome. A triada eletrolítica (P-K-Mg) é o alvo de monitoramento.

⚠ ARMADILHA DIAGNÓSTICA

A banca pode apresentar a SR após nutrição enteral (não apenas parenteral). A síndrome ocorre independentemente da via — o gatilho é a reintrodução de carboidratos após jejum prolongado. Não é uma complicação exclusiva da NP.

O candidato confunde hipofosfatemia da SR com hiperfosfatemia. Na SR, o fosfato CAI (captação intracelular). Hiperfosfatemia é vista em insuficiência renal, não na síndrome de realimentação.

2.3 Fisiopatologia das Complicações Hepáticas da NP

As complicações hepáticas da NP têm mecanismo multifatorial que a prova explora em questões de caso clínico. O mais importante para o TEN é a esteatose hepática, que ocorre em 25 a 100% dos adultos em uso de NP — uma incidência muito alta que a banca usa para testar se o candidato sabe que essa é a complicação hepática MAIS FREQUENTE. Ela surge entre a 1ª e 4ª semana de tratamento e pode reverter após a suspensão da NP.

Os mecanismos principais são: (1) excesso de glicose → hiperinsulinemia → lipogênese hepática → acúmulo de triglicerídeos; (2) deficiência de colina (necessária para síntese de VLDL, que exporta triglicerídeos do fígado) — quando o fígado não consegue exportar TG, eles se acumulam; (3) fonte lipídica rica em ômega-6 (óleo de soja) sem contrapeso de ômega-3, favorecendo inflamação hepática; (4) fotoexposição das multivitaminas com geração de peróxidos, que causam estresse oxidativo hepatocítico; (5) jejum intestinal prolongado, que favorece translocação bacteriana e inflamação sistêmica via porta hepática.

🩺 PÉROLA CLÍNICA

A presença de emulsão lipídica na NP PROTEGE contra a esteatose por dois mecanismos: (1) substitui glicose como fonte calórica, reduzindo hiperinsulinemia; (2) a emulsão lipídica "captura" os peróxidos gerados pelas multivitaminas fotoexpostas, protegendo o hepatócito. Por isso a NP 3-em-1 (com lipídios) causa MENOS esteatose que o sistema glicídico 2-em-1. Isso é contra-intuitivo e a banca já explorou essa lógica.

3. NUTRIÇÃO PARENTERAL PERIFÉRICA vs CENTRAL — DIFERENCIAÇÃO OBRIGATÓRIA

3.1 Definição e base regulatória

A NP é definida pela Portaria 272/1998 da ANVISA como solução ou emulsão estéril e apirogênica destinada à administração intravenosa, composta de carboidratos, aminoácidos, lipídios, vitaminas e minerais. A lei brasileira é cobrada no TEN como âncora legal da prescrição de NP. A portaria também estabelece os critérios de boas práticas de manipulação e as exigências mínimas para os serviços que preparam e administram NP — ela é a base regulatória sobre a qual a ANVISA fiscaliza a terapia nutricional parenteral no Brasil.

A decisão entre usar a via periférica ou a via central não é apenas logística — ela é clínica e fisiopatológica. O fator determinante é a osmolaridade da solução, que por sua vez depende da concentração de glicose, aminoácidos e eletrólitos. Compreender esse princípio permite que o candidato derive as indicações, contraindicações e complicações de cada via sem precisar memorizar listas — basta entender a física do endotélio venoso.

3.2 Nutrição Parenteral Periférica (NPP)

O princípio físico que limita a NPP

A osmolaridade fisiológica do sangue é de aproximadamente 290 mOsm/L. Uma veia periférica — como a cubital, cefálica ou basílica — tem parede composta por endotélio delicado, com calibre reduzido e fluxo sanguíneo lento em comparação com a veia cava superior. Quando uma solução com osmolaridade muito superior à do sangue entra nessa veia, o gradiente osmótico causa desidratação das células endoteliais, inflamação local, espasmo venoso e, eventualmente, trombose e flebite. Uma solução com osmolaridade 3x maior que o plasma (~900 mOsm/L) já representa o limite tolerável para o endotélio periférico.

Esse mecanismo explica diretamente por que o limite aceito para NPP é de < 900 mOsm/L — com alguns guidelines aceitando até 900-1000 mOsm/L, mas a referência prática usada na prova é não ultrapassar 800-900 mOsm/L para prevenir flebite. Explica também por que concentrações elevadas de glicose (que aumentam muito a osmolaridade) e aminoácidos não podem ser usadas na NPP, e por que a emulsão lipídica, com sua baixíssima osmolaridade apesar de alta densidade calórica (9 kcal/g), é obrigatória na formulação da NPP — ela dilui a solução final mantendo o aporte energético dentro do limite tolerável.

🩺 PÉROLA CLÍNICA

Regra de ouro para a prova: osmolaridade da solução define a via. Se a osmolaridade é < 900 mOsm/L → pode usar veia periférica. Se é > 900 mOsm/L → obrigatoriamente via central. Toda a diferenciação NPP vs NPC deriva desse único princípio físico.

A emulsão lipídica na NPP — por que é obrigatória e qual concentração usar

A emulsão lipídica é obrigatória na NPP por dois motivos que frequentemente são cobrados em conjunto: (1) sem lipídio, não é possível atingir metas calóricas adequadas sem ultrapassar o limite osmótico da veia periférica, pois seria necessário concentrar muito mais glicose e aminoácidos; (2) a emulsão lipídica, por si mesma, tem osmolaridade muito próxima à do plasma (280-340 mOsm/L dependendo da formulação), exercendo também efeito protetor sobre o endotélio venoso ao "diluir" os componentes hiperosmolares da solução final.

A preferência é pela emulsão a 20% em vez de 10%. A emulsão 20% fornece a mesma quantidade de lipídios em metade do volume, o que é vantajoso para não sobrecarregar de fluidos o paciente. Além disso, a emulsão 10% tem proporcionalmente mais fosfolipídios de emulsificação em relação à quantidade de triglicerídeos, o que pode elevar o colesterol plasmático e a taxa de fosfolipídios — efeito indesejado que é minimizado com a emulsão 20%.

Heparina na NPP — evidência controversa

A adição de heparina (geralmente 1 U/mL) à solução de NPP foi historicamente usada para reduzir o risco de tromboflebite periférica. O raciocínio era que a heparina previne a formação de microtrombos no endotélio irritado, prolongando a patência do acesso venoso. Estudos mostraram que essa dose prolonga a duração do acesso periférico de 26,1 para 58,7 horas. A dose de 1 U/mL é baixa o suficiente para não afetar a coagulação sistêmica, agindo apenas localmente.

No entanto, consensos recentes não recomendam universalmente o uso de heparina na NPP, pelos seguintes motivos: (1) a evidência sobre eficácia real na prevenção de flebite é inconsistente entre os estudos; (2) pode haver incompatibilidade química com algumas emulsões lipídicas, desestabilizando a emulsão; (3) em pacientes com trombocitopenia induzida por heparina (TIH), mesmo a pequena dose pode ser problemática. A conduta atual é individualizar: a heparina pode ser considerada como medida adjuvante, não é obrigatória.

Cateter periférico para NPP — material e técnica

A escolha do cateter periférico influencia diretamente o risco de flebite. Os fatores relevantes são:

  • Material do cateter: cateteres de poliuretano ou silicone causam menor irritação mecânica e química ao endotélio do que os de teflon (PTFE) ou polivinilcloreto (PVC). Quanto mais biocompatível o material, menor o risco de flebite mecânica.
  • Calibre: regra geral "menor é melhor" — cateteres de menor calibre (22-24G) obstruem menos a luz venosa, permitem maior fluxo de sangue ao redor da ponta do cateter, diluindo a solução mais rapidamente e reduzindo o contato da solução hiperosmolar com o endotélio.
  • Sítio de inserção: veias do antebraço (cefálica, basílica, mediana cubital) são preferidas às veias do dorso da mão ou punho, pois têm calibre maior e melhor fluxo.
  • Rotação de acesso: o cateter periférico deve ser trocado a cada 48-72 horas, pois o risco de flebite aumenta exponencialmente após 72 horas de uso no mesmo sítio. A NPP periférica não deve exceder 7 dias no total — se o uso previsto for mais longo, indicar cateter central.

Indicações da NPP

A NPP está indicada quando todos os seguintes critérios estão presentes simultaneamente: o TGI não funciona ou está contraindicado; a estimativa de uso da terapia parenteral é de curto prazo (< 14 dias); não há necessidade de alta concentração de nutrientes ou restrição de volume; e não há acesso venoso central disponível ou ele está contraindicado. Os cenários clínicos mais frequentes são:

  • Paciente em preparo pré-operatório sem acesso ao TGI por obstrução de origem maligna, com cirurgia programada em até 2 semanas
  • Pós-operatório com dismotilidade prolongada (até 14 dias), sem necessidade de NPT prolongada
  • Paciente que necessita de complemento nutricional endovenoso por período curto enquanto aguarda a recuperação da função intestinal
  • Situações onde o CVC está contraindicado temporariamente (ex: distúrbio grave de coagulação, bacteremia ativa)

Contraindicações da NPP

Contraindicação Justificativa Fisiopatológica
Ausência de veias periféricas patentes Sem acesso venoso periférico não há como infundir a solução. Após múltiplas flebites, o leito venoso periférico pode estar esgotado.
Restrição de volume (ICC, IRenal, cirrose com ascite) A NPP requer volume maior que a NPC para atingir a mesma carga calórica — incompatível com pacientes que não toleram carga hídrica.
Intolerância/alergia a emulsão lipídica (alergia a ovo, soja) O lipídio é obrigatório na formulação da NPP. Sem ele, não há como formular a solução dentro do limite de osmolaridade periférica.
Uso previsto por > 14-15 dias O risco cumulativo de tromboflebite torna inaceitável o uso prolongado. Acima de 14 dias, o acesso central é mandatório.
Necessidade de alta concentração de nutrientes Hipermetabolismo grave, desnutrição proteico-calórica severa — a NPP não consegue fornecer calorias e proteínas suficientes dentro do limite osmótico.
Disfunção hepática importante Retardar início até diagnóstico e prognóstico estabelecidos — o metabolismo dos lipídios e aminoácidos está comprometido.
Instabilidade hemodinâmica grave (pH < 7,2) Acidose metabólica grave compromete a utilização dos substratos. Estabilizar hemodinâmica e corrigir acidose antes de iniciar.

🎯 PONTO DE PROVA

A contraindicação mais cobrada é: NPP por > 15 dias → usar acesso central. Outros valores que a banca usa: troca do acesso periférico a cada 48-72h (máximo 72h por sítio, máximo 7 dias de NPP no total). A flebite tem incidência estimada de 3-31% na NPP — variação alta porque depende dos critérios diagnósticos. A NPP periférica é usada em apenas 1 a 15% dos casos de NP, e em 84% dos casos a NP é usada por menos de 14 dias, e em 27% por menos de 7 dias.

3.3 Nutrição Parenteral Central (NPC) — Tipos de Cateter e Acessos

A NPC é administrada por cateter venoso central (CVC), cuja ponta deve estar posicionada na veia cava superior (preferencialmente na junção cavoatrial) ou, em alguns casos, na veia cava inferior. O grande volume de sangue que flui por essa região — de 2 a 6 litros por minuto — dilui rapidamente qualquer solução hiperosmolar infundida, evitando o dano endotelial que ocorreria na periferia. Isso permite o uso de soluções com osmolaridade de 1500 a 2000+ mOsm/L, glicose a 50-70% e aminoácidos a 10-15%, sem risco de tromboflebite local.

Cateter Venoso Central Não Tunelizado (CVC convencional)

É o CVC mais utilizado em ambiente hospitalar agudo e de UTI. Inserido por punção percutânea direta na veia alvo — subclávia, jugular interna ou jugular externa — com a ponta avançada até a veia cava superior. Não possui túnel subcutâneo entre o sítio de punção e o ponto de entrada na veia, o que o torna mais simples de inserir mas com maior risco de infecção em uso prolongado (sem barreira mecânica contra migração bacteriana ao longo do cateter).

Via de Acesso Vantagens Desvantagens / Riscos Específicos
Subclávia Menor taxa de ICSRC entre os acessos centrais; confortável para o paciente; menor risco de trombose que a femoral Maior risco de pneumotórax durante a inserção (1-3%); hemotórax; impossível compressão direta em caso de sangramento
Jugular interna Acesso mais fácil com guia ultrassonográfico; menor risco de pneumotórax que a subclávia; preferida na coagulopatia (compressível) Mais desconfortável para o paciente (movimento de cabeça); maior risco de ICSRC que a subclávia em alguns estudos; dificulta atividades básicas
Jugular externa Mais superficial, menor risco de pneumotórax e hemotórax Mais difícil de avançar o cateter até a posição correta; valvas venosas podem impedir progressão
Femoral Acesso rápido em emergências; útil quando outros acessos estão indisponíveis CONTRAINDICADA para NPC em adultos: risco de trombose 10x maior, altíssimo risco de ICSRC por proximidade com períneo

Cateter Venoso Central Tunelizado

O CVC tunelizado (exemplos: Hickman, Broviac, Groshong) tem um trecho do cateter que percorre um túnel subcutâneo entre o sítio de saída na pele (geralmente na parede anterior do tórax) e o ponto de entrada na veia (geralmente subclávia ou jugular). O túnel cria uma barreira mecânica contra a migração bacteriana ao longo do cateter, reduzindo significativamente o risco de ICSRC em comparação com CVCs não tunelizados. Além disso, tem um manguito de Dacron (cuff) que promove ingrowth fibroso ao redor do cateter após algumas semanas, fixando-o mecanicamente na posição.

O CVC tunelizado é o cateter de escolha para NP domiciliar e NP prolongada (> 30 dias), como em pacientes com síndrome do intestino curto, fístulas enterocutâneas de alto débito e outras causas de insuficiência intestinal crônica. Nesses pacientes, o cateter pode permanecer por meses a anos, e a redução do risco de ICSRC justifica o procedimento mais complexo de inserção (realizado em centro cirúrgico ou radiologia intervencionista).

⚠ ARMADILHA DIAGNÓSTICA

A veia femoral para NPC em adultos é CONTRAINDICADA de forma explícita pelas diretrizes: risco de trombose venosa 10x maior que o acesso superior E alto risco de contaminação extraluminal por proximidade ao períneo. A banca pode apresentar a femoral como "alternativa viável quando os outros acessos falham" — a resposta correta é que ela está contraindicada para NPC de rotina em adultos não críticos. Em situação de emergência absoluta pode ser temporariamente usada, mas deve ser substituída assim que possível.

Confirmar sempre a posição da ponta do cateter por radiografia de tórax ANTES de iniciar a infusão de NP. Cateter mal posicionado (ex: na subclávia contralateral, em veia cardíaca) com infusão de NP hiperosmolar = risco grave de lesão endotelial, arritmia e tamponamento pericárdico.

Característica CVC Tunelizado
Exemplos comerciais Hickman, Broviac, Groshong, Leonard
Indicação principal NP domiciliar; NP prolongada (> 30 dias); pacientes oncológicos em tratamento prolongado
Mecanismo de proteção Túnel subcutâneo + cuff de Dacron (ingrowth fibroso)
Risco de ICSRC Menor que CVC não tunelizado para uso prolongado
Inserção Centro cirúrgico ou radiologia intervencionista; não beira-leito
Remoção Procedimento cirúrgico (cuff fixado por fibrose)
Valva anti-refluxo Presente no Groshong (evita refluxo e embolia gasosa); ausente no Hickman/Broviac

Cateter Central de Inserção Periférica (PICC)

O PICC (Peripherally Inserted Central Catheter) é inserido em uma veia periférica do braço — geralmente a veia basílica (preferida por seu calibre maior e trajeto mais retilíneo), a veia cefálica ou a veia braquial — e avançado até a veia cava superior, com confirmação por radiografia de tórax. Apesar de ser inserido perifericamente, é um cateter central: sua ponta está na veia cava superior, o que permite infusão de soluções hiperosmolares com a mesma segurança que um CVC convencional.

O PICC combina as vantagens dos dois mundos: a inserção simples e sem riscos de punção central (sem pneumotórax, sem hemotórax, sem lesão arterial) com a capacidade de infundir soluções concentradas como qualquer cateter central. É particularmente útil em pacientes que necessitam de NPC por 1 a 6 semanas, sem indicação de cateter tunelizado, e em populações onde a punção central apresenta risco elevado (coagulopatia, obesidade grave, deformidade torácica).

Característica PICC
Sítio de inserção Veia periférica do braço (basílica preferida > cefálica > braquial)
Posição da ponta Veia cava superior (junção cavoatrial) — confirmada por RX tórax
Osmolaridade tolerada Igual ao CVC convencional (> 1500 mOsm/L)
Duraçao recomendada 1 a 6 semanas (pode ser mais em alguns centros com protocolo rigoroso)
Vantagem principal Sem riscos de punção central (pneumotórax, hemotórax, lesão arterial)
Desvantagem principal Maior distância de inserção; pode ocorrer mau posicionamento; fluxo mais lento por ser cateter mais longo e fino
Inserção Beira-leito por enfermeiro especializado ou médico, com guia ultrassonográfico
Risco de ICSRC Semelhante ao CVC não tunelizado; menor que CVC femoral
Indicação em NP NPC de duração intermediária (1-6 semanas); NP domiciliar em centros experientes

🩺 PÉROLA CLÍNICA

PICC na prova: é classificado como CATETER CENTRAL (não periférico), porque a ponta está na veia cava superior. Permite infusão de NP hiperosmolar igual ao CVC. O erro clássico é considerar o PICC como equivalente à NPP — são completamente diferentes. NPP = veia periférica com ponta na veia periférica + osmolaridade < 900 mOsm/L. PICC = inserção periférica com ponta na veia cava = NPC plena.

Porta Totalmente Implantável (Port-a-Cath)

O port-a-cath é um sistema totalmente implantado sob a pele, composto por um reservatório (câmara de titânio ou plástico com membrana de silicone autossigillante) conectado a um cateter cujo extremo distal está posicionado na veia cava superior. O reservatório é puncionado através da pele com uma agulha de Huber (especial, não cortante) sempre que for necessário administrar medicamentos ou NP.

Por ser totalmente implantável, o port-a-cath elimina a necessidade de cateter externo, o que reduz o risco de infecção extraluminal e permite ao paciente manter atividades cotidianas (inclusive natação) entre as sessões de infusão. É a escolha para pacientes oncológicos em quimioterapia cíclica de longa duração, e pode ser usado para NP domiciliar quando o paciente precisa de NP apenas em alguns dias da semana (NP cíclica).

⚠ ARMADILHA DIAGNÓSTICA

O port-a-cath NÃO é o cateter de escolha para NP contínua em UTI ou em paciente hospitalizado crítico — para esses cenários, o CVC não tunelizado (subclávia ou jugular) é o mais adequado pela facilidade de acesso rápido e manipulação frequente. O port é ideal para uso intermitente e domiciliar.

A agulha de Huber é obrigatória para o port-a-cath: agulhas convencionais cortam a membrana de silicone e destroem o reservatório. Questões que apresentam "punção do port com agulha comum" descrevem erro técnico grave.

Característica Port-a-Cath
Estrutura Reservatório subcutâneo + cateter central (totalmente implantável)
Acesso Punção percutânea do reservatório com agulha de Huber (não corta a membrana)
Indicação principal Quimioterapia cíclica; NP cíclica domiciliar; uso intermitente de longo prazo
Vantagem principal Totalmente implantado: menor risco infeccioso extraluminal; confortável; permite atividade normal
Desvantagem Cada uso requer punção percutânea; não adequado para uso contínuo intensivo diário
Manutenção Lavagem mensal com salina + heparina quando não em uso; curativos não necessários

Quadro Comparativo dos Cateteres para NPC

Tipo de Cateter Duração Ideal Melhor Cenário Clínico Risco Infeccioso Inserção
CVC não tunelizado (subclávia/jugular) Dias a semanas (< 4 semanas) UTI, hospital agudo, NPC de curto prazo Moderado a alto em uso prolongado Beira-leito, médico
PICC 1-6 semanas NPC intermediária; risco elevado de punção central Semelhante ao CVC não tunelizado Beira-leito, enfermeiro especializado
CVC tunelizado (Hickman/Broviac) Meses a anos NP domiciliar; insuficiência intestinal crônica Menor (túnel + cuff) Centro cirúrgico / radiologia intervencionista
Port-a-cath Anos (uso intermitente) QT cíclica; NP domiciliar cíclica Muito baixo (totalmente implantável) Centro cirúrgico
CVC femoral Horas (emergência) CONTRAINDICADO para NPC de rotina em adultos Muito alto Beira-leito — apenas emergência

3.4 NPP vs NPC — Tabela de Diferenciação Rápida

Critério NPP NPC
Osmolaridade máxima < 900 mOsm/L Sem limite prático (1500-2000+ mOsm/L)
Lipídeo na formulação Obrigatório (emulsão 20% preferida) Recomendado (3-em-1), mas não obrigatório
Duração máxima recomendada < 14-15 dias; trocar acesso 48-72h Sem limite (depende da indicação e do cateter)
Complicações de acesso Flebite (3-31% na NPP) Pneumotórax, trombose, ICSRC
Concentração de glicose Limitada (~20% — maior eleva osmolaridade) Pode usar 50-70%
Vantagem principal Sem risco de punção central; início rápido Pode oferecer 100% das necessidades; uso prolongado
Risco predominante Tromboflebite periférica ICSRC; complicações mecânicas da inserção
Confirmação pré-uso Visual (permeabilidade da veia) RX de tórax obrigatório para confirmar posição

🎯 PONTO DE PROVA

A banca diferencia NPP de NPC principalmente pelo limite de osmolaridade (< 900 vs sem limite) e pela duração (< 14 dias vs ilimitado). Mas o ponto mais sofisticado que pode aparecer é sobre o PICC: inserção periférica mas cateter CENTRAL, portanto permite soluções hiperosmolares e é NPC — não NPP. Outra pegadinha: o port-a-cath e o CVC tunelizado são para NP prolongada/domiciliar, não para UTI aguda.

Diagrama dos diferentes tipos de cateteres para Nutrição Parenteral

Figura 3.1: Diagrama ilustrativo comparativo dos diferentes tipos de cateteres venosos centrais (CVC não tunelizado, CVC tunelizado, PICC e Port-a-cath) e seus respectivos posicionamentos anatômicos.

3.5 Vantagens do Sistema Lipídico (3-em-1) vs Glicídico (2-em-1)

O sistema 2-em-1 (glicídico) administra aminoácidos + glicose sem lipídeos na mesma bolsa, com lipídeo sendo infundido separadamente 1-2x/semana. O sistema 3-em-1 (lipídico, all-in-one) mistura aminoácidos + glicose + lipídios na mesma bolsa. A diferença não é apenas logística — impacta osmolaridade, risco metabólico e complicações hepáticas:

Parâmetro Sistema 2-em-1 (Glicídico) Sistema 3-em-1 (Lipídico)
Osmolaridade Alta — impossibilita via periférica Menor (600-950 mOsm/L) — pode ser usado na periferia
Risco de hiperglicemia Maior (glicose é a única fonte calórica principal) Menor (lipídios dividem a carga calórica com a glicose)
Quociente Respiratório Tende a elevar (mais glicose → mais CO2) Menor (lipídios: QR = 0,7, dilui o QR final da mistura)
Manipulação de enfermagem Maior (múltiplos frascos/bolsas, mais conexões) Menor (1 bolsa de 3L, sistema fechado)
Risco de infecção (ICSRC) Maior (mais conexões = mais pontos de contaminação) Menor (sistema fechado com menos manipulações)
Armazenamento Necessita mais espaço (vários componentes separados) 1 bolsa de 3L por dia — mínimo espaço
Deficiência de AGE Risco real se lipídio não for infundido regularmente Sem risco — lipídeo é ofertado diariamente
Complicação hepática (esteatose) Mais frequente (excesso de glicose → lipogênese) Menos frequente (lipídio dilui a carga glicídica)
Proteção contra fotooxidação Nenhuma (multivitaminas expostas à luz) O lipídio protege as multivitaminas da fotooxidação
Via de administração Apenas central (osmolaridade muito alta) Pode ser periférica ou central (osmolaridade reduzida)

🎯 PONTO DE PROVA

Vantagens do sistema lipídico 3-em-1 que a banca cobra: (1) evita hiperglicemia; (2) reduz o QR e o estresse respiratório (fundamental em pacientes em VM); (3) garante oferta diária de AGE essenciais; (4) menor risco de infecção por menos manipulações; (5) pode ser usado na via periférica por ter osmolaridade menor; (6) protege o fígado contra esteatose; (7) protege multivitaminas da fotooxidação. Memorize: "o sistema 3-em-1 é superior em praticamente todos os desfechos clinicamente relevantes".

4. TERAPIA DE NUTRIÇÃO PARENTERAL (TNP) — INDICAÇÃO, CONTRAINDICAÇÃO E TIMING

4.1 A regra de ouro e o raciocínio de indicação

A regra de ouro da nutrição clínica é: "se o intestino funciona, use-o". A nutrição enteral é sempre preferida porque preserva a integridade da mucosa intestinal, mantém a microbiota, estimula a produção de IgA secretora, reduz a translocação bacteriana e tem menor custo e menos complicações que a NP. A TNP só se justifica quando essa regra não pode ser cumprida — ou seja, quando o TGI está incapaz de absorver nutrientes de forma segura e eficiente, quando o acesso enteral é impossível, ou quando a NE isolada não consegue suprir as necessidades do paciente mesmo sendo executada na sua capacidade máxima.

A decisão de indicar TNP deve responder a três perguntas sequenciais: (1) O TGI está funcionando? Se sim, usar via enteral. (2) Se não está funcionando ou está parcialmente funcionando, por quanto tempo? Se o período esperado for curto (menos de 5-7 dias), pode ser mais razoável aguardar do que arriscar complicações da NP. (3) O paciente tem risco nutricional que justifique a NP agora? A resposta a essas perguntas define não apenas se a NP está indicada, mas também quando iniciá-la e por qual via.

4.2 Indicações específicas — análise por cenário clínico

Grupo 1 — Insuficiência gastrointestinal funcional ou anatômica

Esse grupo engloba condições em que o TGI está estruturalmente incapaz de cumprir sua função absortiva, independentemente de quanto nutriente seja ofertado pela via enteral:

  • Síndrome do intestino curto (SIC): ressecção extensa do delgado deixa área absortiva insuficiente para manutenção da vida. A NP domiciliar é frequentemente definitiva nesses pacientes. O ponto crítico para a prova é que em SIC com menos de 100 cm de delgado remanescente sem cólon, ou menos de 50 cm com cólon preservado, a dependência de NP é quase certa a longo prazo.
  • Fístula enterocutânea de alto débito (> 500 mL/dia): a perda de grandes volumes de conteúdo intestinal proximal compromete a absorção distal e cria risco de desnutrição grave. A NP permite repouso intestinal para facilitar o fechamento espontâneo da fístula, que ocorre em 30-70% dos casos com suporte nutricional adequado.
  • Obstrução intestinal mecânica completa: nenhum nutriente enteral atravessa a obstrução de forma eficaz. A NP mantém o estado nutricional até que a cirurgia resolva a obstrução.
  • Ileostomia de alto débito com perdas maciças: perdas de mais de 1,5-2L/dia comprometem a absorção e causam depleção eletrolítica grave.
  • Íleo paralítico prolongado (> 5-7 dias) sem perspectiva de resolução rápida.

Grupo 2 — Intolerância à nutrição enteral

O TGI pode estar anatomicamente presente mas funcionalmente incapaz de receber nutrição enteral com segurança:

  • Isquemia mesentérica: a oferta de nutrientes por via enteral aumenta a demanda metabólica do intestino já isquêmico, podendo precipitar necrose intestinal — a NP é obrigatória até a resolução da isquemia.
  • Dismotilidade intestinal grave com intolerância documentada à NE (resíduo gástrico persistentemente elevado > 500 mL/6h, vômitos incoercíveis não relacionados a obstrução, diarreia osmótica intratável).
  • Pancreatite aguda grave com íleo adinâmico refratário e impossibilidade de posicionar sonda pós-pilórica para NE jejunal — nesse caso a NP é indicada após 1 semana do início da pancreatite se a NE for inviável (não antes de 1 semana, pois a NE precoce é preferida mesmo na pancreatite grave).

Grupo 3 — NP complementar/suplementar (NP + NE)

Esse cenário merece atenção especial porque é frequentemente cobrado: o paciente tolera NE mas não consegue atingir as metas calórico-proteicas pela via enteral isolada. A A.S.P.E.N./SCCM 2016 e a BRASPEN 2023 recomendam considerar TNP suplementar quando o paciente não atingir 60% ou mais da meta calórico-proteica após 7-10 dias de NE. Iniciar TNP suplementar antes desse período (nas primeiras 48-72h) não melhora desfechos e pode ser prejudicial — esse é o resultado do estudo EPaNIC, que demonstrou que NP suplementar precoce aumentou complicações infecciosas e prolongou internação em UTI.

Grupo 4 — Contraindicações temporárias à NE

  • Hemorragia digestiva alta aguda em curso: a infusão enteral pode aumentar o fluxo sanguíneo intestinal e dificultar a hemostasia endoscópica. Após controle do sangramento, retomar NE precocemente.
  • Perfuração intestinal ou peritonite em fase aguda: até cirurgia e estabilização.
  • Impossibilidade técnica de acesso enteral: estenose esofágica intransponível, tumores obstrutivos altos, traumas faciais graves impedindo passagem de sonda.

🎯 PONTO DE PROVA

A questão mais frequente sobre indicação: "Paciente com pancreatite aguda grave não tolerando NE jejunal — quando iniciar TNP?" Resposta: após 1 semana do início da pancreatite, se a NE for inviável. NÃO iniciar no dia 1 da pancreatite apenas porque a NE está indisponível — a NE precoce é preferida mesmo na pancreatite grave, e se a NE não for possível nas primeiras 24-48h, a TNP pode ser considerada somente nesse cenário específico.

Limiar de 60%: se o paciente consegue mais de 60% de suas necessidades calóricas pela via oral ou enteral, a TNP NÃO está indicada — esse é o critério de corte da ASPEN para todos os pacientes, incluindo cirúrgicos.

4.3 Contraindicações absolutas — análise detalhada de cada uma

Contraindicação Absoluta Raciocínio Clínico Completo
Ingesta oral/enteral > 60% das necessidades O critério quantitativo de 60% é cobrado literalmente. Abaixo de 60% pela via oral/enteral = NP pode ser indicada. Acima de 60% = NP contraindicada. Esse limiar se aplica a pacientes cirúrgicos e críticos.
Objetivo da terapia não definido A NP não deve ser iniciada sem objetivo claro e prognóstico mínimo favorável. Questões que descrevem pacientes em cuidados paliativos sem meta curativa devem responder com "não indicar NP".
Paciente em estado terminal (prognóstico < 3 meses) A TNP em terminais aumenta a carga de tratamento sem benefício em sobrevida ou qualidade de vida. As principais sociedades (ASPEN, ESPEN, BRASPEN) são explícitas: NP não prolonga vida em fase terminal. É questão ética, não apenas clínica.
Choque séptico ou instabilidade hemodinâmica ativa (MAP < 65 mmHg sem resposta a vasopressores) Na fase de choque ativo, as células não conseguem utilizar substratos energéticos adequadamente (disfunção mitocondrial, isquemia de mucosa intestinal, hipoperfusão tecidual). A NP força carga metabólica em tecidos que não conseguem processá-la, aumentando morbimortalidade.
Distúrbios hidroeletrolíticos graves não corrigidos Iniciar NP com hipocalemia grave (K < 3 mEq/L) aumenta o risco de arritmias pela síndrome de realimentação. Hipofosfatemia grave (P < 2 mg/dL) é contraindicação porque a NP piora a depleção por deslocar fósforo para dentro das células.
Hiperglicemia grave não controlada (glicose > 300 mg/dL) A carga de CHO da NP agravaria a hiperglicemia, podendo precipitar coma hiperosmolar. Controlar a glicemia primeiro.

4.4 Condições clínico-laboratoriais que exigem precaução — valores exatos da A.S.P.E.N. 2007

A A.S.P.E.N. (2007) codificou valores laboratoriais específicos que indicam necessidade de precaução antes de iniciar a NP. Esses valores são cobrados literalmente na prova, muitas vezes nas alternativas incorretas com pequenas variações dos números reais — portanto, memorizá-los é estratégico.

Parâmetro Valor de Precaução (A.S.P.E.N. 2007) Mecanismo do Risco Clínico
Glicemia > 300 mg/dL Risco de coma hiperosmolar hiperglicêmico não cetótico (CHHNC), especialmente nas primeiras 24-48h de NP quando a produção de insulina endógena ainda está se adaptando à carga de glicose.
Nitrogênio ureico sanguíneo (BUN) > 100 mg/dL BUN elevado indica que os rins não conseguem excretar os produtos do metabolismo proteico. Adicionar carga de aminoácidos piora a uremia e pode precipitar encefalopatia urêmica.
Osmolalidade sérica > 350 mOsm/kg A NP é hiperosmolar por definição. Administrá-la em paciente já hiperosmolar agrava a disfunção neurológica e o risco de hemorragia cerebral.
Sódio sérico > 150 mEq/L Hipernatremia grave: as soluções de NP têm sódio calculado para paciente com natremia normal; em hipernatremia, a carga adicional de sódio piora o quadro. Risco de hemorragia cerebral e edema cerebral na correção.
Potássio sérico < 3 mEq/L A NP (especialmente com carga de glicose) desloca K+ para intracelular, piorando a hipocalemia. Risco de arritmias ventriculares graves. Repor K+ antes de iniciar NP.
Cloro sérico > 115 ou < 85 mEq/L Hipercloremia grave indica acidose hiperclorêmica; hipocloremia indica alcalose metabólica. A NP agrava o distúrbio acidobásico subjacente se não ajustada.
Fósforo sérico < 2 mg/dL Hipofosfatemia pré-existente + carga de CHO da NP = Síndrome de Realimentação grave. O fósforo cai adicionalmente pela demanda de ATP para metabolizar os novos substratos.
pH arterial / acidobásico Alcalose ou acidose metabólica clinicamente significativa A NP contém tampões (acetato/cloreto) que podem agravar o desequilíbrio. Corrigir o distúrbio acidobásico antes de iniciar.

⚠ ARMADILHA DIAGNÓSTICA

A banca frequentemente usa variações nos números para criar distratores: "glicemia > 250" (errado — o critério é > 300), "K < 3,5" (errado — o critério é < 3,0), "P < 1,5" (errado — o critério é < 2,0). Memorize os valores exatos da A.S.P.E.N. 2007: 300 / 100 / 350 / 150 / 3 / 2.

O BUN > 100 mg/dL como critério de precaução não significa que a NP é contraindicada em todo paciente com insuficiência renal — significa que é necessário corrigir o distúrbio antes de iniciar, e que em pacientes em diálise, a oferta de proteínas deve ser ajustada às perdas e à capacidade de depuração.

4.5 Caso Clínico — Raciocínio de Indicação e Contraindicação

O caso clínico a seguir integra os conceitos de indicação de TNP, análise de critérios de precaução laboratoriais, risco de Síndrome de Realimentação (SR) e seleção da via de administração adequada.

CASO CLÍNICO TEN — Seção 4: Indicação de TNP

M.A.S., feminina, 58 anos, com adenocarcinoma gástrico submetida a gastrectomia total há 12 dias. No pós-operatório, evoluiu com deiscência de anastomose esofagojejunal e fístula enterocutânea de alto débito (800 mL/dia). Exames atuais: albumina 2,1 g/dL, proteínas totais 4,8 g/dL, glicemia 145 mg/dL, Na 138 mEq/L, K 3,2 mEq/L, P 2,8 mg/dL, pH 7,36. IMC atual estimado em 17,2 kg/m². Tentativa de nutrição enteral por sonda nasojejunal distal à fístula foi inviável por impossibilidade de posicionamento. Qual a conduta mais adequada?

🎯 PONTO DE PROVA

Esse caso integra quatro conceitos simultâneos que a banca usa nas questões mais difíceis: (1) fístula enterocutânea de alto débito = indicação de TNP; (2) verificar critérios de precaução laboratoriais um a um; (3) risco de SR em IMC < 18,5 com albumina baixa = iniciar hipocalórico; (4) NPC é preferida à NPP em desnutrição grave por impossibilidade de oferecer densidade calórica/proteica suficiente dentro do limite osmótico periférico.

5. POPULAÇÕES ESPECIAIS — METAS NUTRICIONAIS ESPECÍFICAS POR CENÁRIO

Cada população especial tem particularidades que alteram as metas energéticas, proteicas, a via de administração e os cuidados específicos. A prova do TEN cobra esse conhecimento de forma comparativa — apresenta um cenário e pergunta qual é a meta mais adequada, ou descreve uma conduta incorreta para um cenário específico. Dominar as particularidades de cada população é o que diferencia o candidato que acerta as questões difíceis.

5.1 Paciente crítico — A população mais cobrada

O paciente crítico internado em UTI é o cenário de NP mais explorado no TEN porque concentra múltiplas complexidades: risco nutricional heterogêneo, resistência insulínica, disfunção mitocondrial, catabolismo proteico acelerado e necessidade de estratificação pelo risco para definir o timing correto da NP.

Hierarquia de vias de administração no crítico

A hierarquia é: (1) dieta oral se o paciente consegue comer; (2) NE precoce (24-48h) se o paciente não consegue comer mas o TGI está acessível e funcionante; (3) NP se a NE é impossível ou insuficiente. A NE precoce é preferida porque preserva a mucosa intestinal, reduz translocação bacteriana, estimula motilidade e reduz ICSRC em comparação com NP. Entretanto, quando a NE não pode ser executada com segurança, aguardá-la por mais de 48-72h em um paciente de alto risco nutricional é prejudicial.

Metas energéticas e proteicas no crítico — evolução por fase clínica

Fase Clínica Meta Calórica Meta Proteica Justificativa
Fase aguda precoce (0-48h) ≤ 70% do GET medido; ou 12-15 kcal/kg/dia 0-1,2 g/kg/dia (progressão gradual) Disfunção mitocondrial; resistência à insulina; autofagia adaptativa. Sobrealimentação piora outcomes.
Fase aguda tardia (D3-D7) 70-80% do GET medido; ou 15-20 kcal/kg/dia 1,2-1,5 g/kg/dia Progressão gradual conforme tolerância metabólica e estabilização hemodinâmica.
Fase de recuperação (D7+) 100% do GET; ou 25-30 kcal/kg/dia 1,5-2,0 g/kg/dia (até 2,5 em catabolismo grave) Anabolismo e reconstrução de massa magra. Alta demanda proteica para recuperar perdas.
Fase de reabilitação > 100% do GET (hipernutrição anabólica) 2,0-2,5 g/kg/dia Maximizar síntese proteica e recuperação funcional.

Estratificação por risco nutricional e timing da TNP

Risco Nutricional Ferramenta de Triagem Timing da TNP se NE Impossível Referência
Baixo risco NUTRIC Score 0-5 (sem IL-6), NRS-2002 < 3 Aguardar 7 dias antes de iniciar TNP ASPEN/SCCM 2016; BRASPEN 2023
Alto risco / desnutrição grave NUTRIC Score ≥ 6 (sem IL-6), NRS-2002 ≥ 5, IMC < 18,5, perda > 10-15% em 6 meses Iniciar TNP imediatamente (D0-D1) se NE impossível ASPEN/SCCM 2016; ESPEN UTI 2023
TNP suplementar (NE presente mas insuficiente) Qualquer risco com meta calórica < 60% pela NE Iniciar TNP suplementar após D7-D10 — não antes Estudo EPaNIC; ASPEN/SCCM 2022

🩺 PÉROLA CLÍNICA

O NUTRIC Score é a ferramenta de triagem para risco nutricional no paciente crítico mais cobrada no TEN. Variáveis incluídas: idade, APACHE II, SOFA, número de comorbidades, dias de UTI até início da NE, e IL-6 (versão estendida). Score ≥ 6 sem IL-6 (ou ≥ 5 com IL-6) = alto risco nutricional = benefício comprovado da NE precoce e da TNP imediata quando a NE é impossível.

Metas lipídicas no crítico e tipo de emulsão

A primeira semana de TNP no crítico tem restrições específicas para lipídios de óleo de soja puro: máximo de 100 g/semana (divididos em 2 doses/semana), pois o óleo de soja é rico em ômega-6 pró-inflamatório e fosfolipídios que sobrecarregam o sistema reticuloendotelial já estressado. A preferência é por emulsões mistas (TCM/TCL, SMOF) ou contendo óleo de peixe (ômega-3), que modulam a resposta inflamatória. A ESPEN 2023 para UTI recomenda a infusão de emulsão lipídica contendo óleo de peixe como adjuvante em pacientes cirúrgicos críticos.

Controle glicêmico no crítico

Meta glicêmica no crítico em NP: 140-180 mg/dL (ASPEN/SCCM 2016, BRASPEN 2023). Abaixo de 110 mg/dL: aumento de hipoglicemia iatrogênica e mortalidade (estudo NICE-SUGAR). Acima de 180 mg/dL: aumento de infecções, falência de órgãos e mortalidade. A insulina pode ser adicionada na bolsa de NP (0,05-0,1 UI por grama de glicose como dose inicial) ou administrada em infusão IV contínua separada, com monitorização da glicemia capilar a cada 4-6 horas.

TEN — QUESTÃO MODELO: Paciente crítico e TNP

Paciente de 68 anos, internado há 5 dias em UTI por sepse de foco pulmonar, em ventilação mecânica. Apresenta APACHE II de 24 pontos e foi classificado como de alto risco nutricional pela triagem NUTRIC Score (≥ 6). Tentou-se nutrição enteral por sonda nasoenteral, mas o paciente apresentou resíduo gástrico elevado persistente e intolerância. Exames: glicemia 168 mg/dL, K 3,6 mEq/L, P 3,1 mg/dL, Na 140 mEq/L. A conduta mais adequada quanto à terapia nutricional parenteral é:

🎯 PONTO DE PROVA

O paciente é de ALTO risco nutricional (NUTRIC ≥ 6) e a NE é impossível. Nesses casos, a A.S.P.E.N./SCCM 2016 e a BRASPEN 2023 indicam iniciar TNP imediatamente (D0-D1) — não aguardar 7 dias (essa regra aplica-se ao BAIXO risco). Os critérios de precaução estão dentro dos limites (glicemia 168 < 300, K 3,6 > 3, P 3,1 > 2, Na 140 < 150). A estratégia hipocalórica na primeira semana reduz hiperglicemia, resistência à insulina, morbidade infecciosa e tempo de VM. Meta glicêmica: 140-180 mg/dL. Distrator clássico: "aguardar 7 dias para toda TNP em UTI" — ERRADO, esse prazo é apenas para baixo risco nutricional.

5.2 Paciente cirúrgico desnutrido — perioperatório

O paciente cirúrgico é cobrado no TEN principalmente em dois momentos: a avaliação nutricional pré-operatória para identificar quem se beneficia de TNP pré-operatória, e a conduta pós-operatória quando a NE não é possível. O estresse cirúrgico desencadeia uma resposta neuroendócrina com aumento de cortisol, glucagon e catecolaminas, que promovem gliconeogênese, lipólise e catabolismo proteico. O resultado é perda acelerada de massa magra, comprometimento da cicatrização e aumento de complicações infecciosas.

Quando indicar TNP pré-operatória?

O benefício da TNP perioperatória está demonstrado apenas em pacientes com grave risco nutricional pré-operatório submetidos a cirurgias do trato GI superior (gastrectomia, esofagectomia, pancreatectomia, colectomia extensa). Em pacientes eutróficos ou com desnutrição leve a moderada, a TNP pré-operatória não reduz complicações e aumenta riscos (hiperglicemia, ICSRC).

Critério de Grave Risco Nutricional Pré-operatório (necessário ao menos 1)

  • Perda de peso involuntária > 10-15% do peso corpóreo nos últimos 6 meses
  • IMC < 18,5 kg/m²
  • Avaliação Subjetiva Global (ASG) — classificação C (desnutrição grave)
  • Albumina sérica < 3 g/dL (sem evidência de disfunção renal ou hepática)
  • Peso atual < 75% do peso corpóreo ideal ou usual
  • Pré-albumina sérica < 10 mg/dL ou transferrina sérica < 100 mg/dL
  • Ingestão oral inadequada por mais de 7 dias

Metas energéticas e proteicas no perioperatório

A duração mínima da TNP pré-operatória para produzir benefício é de 7 dias — períodos menores não compensam os riscos. A TNP pós-operatória de rotina em pacientes eutróficos está CONTRAINDICADA. A decisão de continuar ou iniciar TNP no pós-operatório deve ser baseada em: expectativa de retorno à alimentação oral/enteral (se > 5-7 dias de jejum, iniciar TNP), estado nutricional pré-operatório e capacidade do TGI de tolerar NE.

Fase Meta Calórica Meta Proteica Observação
Pré-operatório (TNP quando indicada) 25-30 kcal/kg/dia 1,2-1,5 g/kg/dia Duração de 7-14 dias se possível antes da cirurgia em desnutridos graves
Pós-operatório imediato (D0-D3) Hipocalórico: 15-20 kcal/kg/dia 1,2-1,5 g/kg/dia Evitar sobrealimentação no estresse cirúrgico agudo
Pós-operatório tardio (D4+) 25-30 kcal/kg/dia 1,5-2,0 g/kg/dia Progredir conforme estabilização e tolerância

⚠ ARMADILHA DIAGNÓSTICA

A banca pode apresentar um paciente eutrófico no pós-operatório de apendicectomia ou colecistectomia e perguntar se deve iniciar TNP. A resposta é NÃO — uso rotineiro de TNP em pós-operatório de paciente eutrófico não é indicado. A TNP só está indicada no perioperatório se o paciente tiver grave risco nutricional pré-operatório ou se o pós-operatório tiver complicação que impeça a NE por mais de 5-7 dias.

5.3 Paciente oncológico — indicações precisas e limites éticos

O paciente oncológico recebe atenção especial na prova porque concentra questões éticas (quando não indicar TNP), questões práticas (quando indicar) e questões sobre as particularidades metabólicas do câncer. A regra mais importante: TNP não deve ser usada de forma rotineira em pacientes com câncer em tratamento quimioterápico ou radioterápico, pois está associada a aumento de complicações infecciosas e NÃO melhora sobrevida, resposta ao tratamento ou qualidade de vida.

Quando a TNP É indicada no oncológico

  • Mucosite grave por radioterapia de cabeça, pescoço ou esôfago, que impede totalmente a deglutição e o acesso enteral por período previsto > 7-10 dias
  • Enterite actínica grave por radioterapia abdominal/pélvica com diarreia intratável e impossibilidade de NE
  • Obstrução intestinal por tumor com expectativa de vida razoável (> 3 meses) e tratamento antineoplásico com perspectiva de resposta, enquanto aguarda resolução cirúrgica ou paliativa da obstrução
  • Pacientes com síndrome do intestino curto pós-ressecção por neoplasia intestinal
  • Pacientes em programas de transplante de células-tronco hematopoéticas (TCTH) com mucosite grave e impossibilidade de NE por mais de 7-10 dias

Quando a TNP NÃO é indicada no oncológico

  • Paciente em quimioterapia ambulatorial tolerando dieta oral (mesmo com apetite reduzido)
  • Paciente em radioterapia com NE viável e funcionante
  • Paciente em estado terminal com expectativa de vida < 3 meses e sem tratamento antineoplásico ativo — a TNP não prolonga vida e adiciona complicações e desconforto
  • Paciente com caquexia neoplásica avançada refratária — a caquexia oncológica é mediada por citocinas inflamatórias (TNF-alfa, IL-1, IL-6) e não responde adequadamente à reposição calórica por qualquer via

Metas no paciente oncológico em TNP

Parâmetro Meta Recomendada Fonte
Energia (paciente ativo em tratamento) 25-30 kcal/kg/dia ESPEN Guidelines on Cancer Nutrition 2021
Energia (paciente acamado/caquético) 20-25 kcal/kg/dia (não sobrealimentar) ESPEN 2021
Proteína 1,2-1,5 g/kg/dia (até 2,0 em perda grave) ESPEN 2021; BRASPEN 2019
Ômega-3 (EPA/DHA) Pode ser considerado para atenuar caquexia ESPEN 2021 — evidência moderada
Glicose Limitar CHO simples; controle glicêmico rigoroso Hiperglicemia favorece crescimento tumoral

🎯 PONTO DE PROVA

"TNP de rotina em paciente oncológico em Qt/Rt" = CONTRAINDICADA. A questão mais clássica apresenta um paciente em quimioterapia com anorexia moderada e pergunta se deve iniciar TNP — a resposta é NÃO, primeiro tentar suporte oral e depois NE.

"TNP para prolongar vida de paciente oncológico terminal" = CONTRAINDICADA por razões éticas e clínicas (sem benefício comprovado em sobrevida; aumenta desconforto e complicações). Esse é o ponto mais cobrado no contexto oncológico.

5.4 Paciente queimado — hipermetabolismo extremo

O paciente queimado representa o cenário de hipermetabolismo mais intenso da medicina. Queimaduras extensas (> 20% de superfície corporal queimada) desencadeiam uma resposta hipermetabólica que pode elevar o GET em 100-200% acima do basal, por mecanismos que incluem: perda maciça de calor por evaporação através da pele lesada, resposta inflamatória sistêmica intensa com elevação de TNF-alfa, IL-1 e IL-6, hipercortisolismo e hiperatividade simpatoadrenal com aumento de catecolaminas, e catabolismo proteico acelerado para fornecer substrato à gliconeogênese hepática.

Via de administração no queimado

A NE precoce (dentro de 4-6 horas da admissão) é fortemente recomendada e é a via de primeira escolha no queimado. Ela reduz a resposta hipercatabólica, preserva a barreira intestinal e diminui a incidência de complicações infecciosas em comparação com a NP. A TNP é reservada para quando a NE é inviável ou insuficiente — geralmente por íleo paralítico grave, lesão intestinal associada ao trauma ou impossibilidade de acesso enteral.

Metas energéticas no queimado — limitações das fórmulas preditivas

A calorimetria indireta é o método padrão-ouro e deve ser realizada com repetições semanais no queimado, pois o hipermetabolismo varia ao longo do curso: é máximo na primeira semana e vai declinando progressivamente com a cicatrização da ferida. A fórmula de Curreri superestima o GET em 25-50% em relação à calorimetria indireta e deve ser usada apenas quando a CI não está disponível, com cautela para não sobrealimentar — sobrealimentação no queimado aumenta a produção de CO2, dificulta o desmame da VM e agrava a esteatose hepática.

Fórmula / Método Cálculo Precisão vs Calorimetria Indireta Uso Clínico
Calorimetria indireta Medição direta de VO2 e VCO2 Padrão-ouro (100%) Primeira escolha; repetir semanalmente
Curreri (25 × peso kg) + (40 × %SCQ) Superestima em 25-50% Usar apenas quando CI indisponível; não em > 50% SCQ
Fórmula de Toronto Equação que inclui temperatura e dados clínicos Melhor precisão que Curreri Alternativa quando CI indisponível
Harris-Benedict × fator de estresse TMB × (1,5-2,5 conforme %SCQ) Subestima em 25-50% Menos utilizada em queimados — risco de subalimentação

Metas nutricionais específicas do queimado

Parâmetro Meta Recomendada Justificativa
Energia Conforme CI (padrão-ouro); Curreri como estimativa: (25 × kg) + (40 × %SCQ) Hipermetabolismo intenso; meta varia ao longo do internamento
Proteína 1,5-2,0 g/kg/dia em adultos; 2,5-4,0 g/kg/dia em crianças Perdas maciças de nitrogênio pela ferida; necessidade de cicatrização
Carboidratos Manter CHO < 4-5 mg/kg/min; não ultrapassar 55% da energia total Risco elevado de hiperglicemia e infecção por hiperglicemia (favorece crescimento bacteriano)
Lipídios 1-1,5 g/kg/dia; limitar ômega-6 (óleo de soja puro); preferir ômega-3 Ômega-3 reduz resposta inflamatória; ômega-6 em excesso é imunossupressor
Glutamina parenteral 0,3-0,5 g/kg/dia em queimados (exceção à contraindicação geral) Queimados e traumas: único cenário onde glutamina parenteral tem evidência favorável
Vitamina C (antioxidante) 1-2 g/dia IV (fase aguda) Reduz peroxidação lipídica; repõe perdas pela ferida
Zinco Suplementar: perdas pela ferida são significativas Essencial para cicatrização e função imune

🩺 PÉROLA CLÍNICA

Glutamina parenteral no queimado: EXCEÇÃO à regra geral. A glutamina parenteral NÃO deve ser usada de rotina em pacientes críticos, mas em queimados e traumas há evidência de benefício — reduz complicações infecciosas, tempo de UTI e mortalidade. A dose é 0,3-0,5 g/kg/dia. CUIDADO: ainda contraindicada se o queimado tiver insuficiência renal ou hepática grave concomitante.

⚠ ARMADILHA DIAGNÓSTICA

A fórmula de Curreri superestima o gasto calórico em queimados (25-50% a mais que a calorimetria indireta). Usar Curreri sem ajuste resulta em sobrealimentação — especialmente perigosa em queimados que já têm tendência a hiperglicemia grave. A prova pode apresentar um cálculo com Curreri e perguntar se a oferta está adequada — o candidato precisa saber que esse valor pode estar superestimado.

Em queimaduras > 50% SCQ, a suplementação com TNP para atingir o calculado pelo Curreri está associada a AUMENTO de mortalidade e alterações de função imune. Nesses casos, a calorimetria indireta é ainda mais crítica.

5.5 Paciente com insuficiência renal — modulação proteica e eletrolítica

A insuficiência renal é a população especial onde a manipulação da carga de proteínas é mais complexa e mais cobrada na prova. A lógica parece simples ("rim não funciona → reduzir proteína") mas é nuançada: a restrição proteica em pacientes com IRA crítica e catabólica piora os desfechos, porque esses pacientes catabolizam proteína rapidamente e precisam de aporte proteico para manter a função imune e a cicatrização. A restrição proteica para "poupar os rins" ou "postergar a diálise" está CONTRAINDICADA em IRA crítica.

Estratificação da oferta proteica por tipo de insuficiência renal e modalidade de diálise

A TCRR (terapia contínua de substituição renal) remove entre 15-25 g de aminoácidos por dia pelo ultrafiltrado, além de vitaminas hidrossolúveis como vitamina C (600 mmol/dia), folato e tiamina. Portanto, o paciente em TCRR necessita de maior oferta proteica que o paciente crítico sem IRA — meta de 1,7-2,5 g/kg/dia, chegando a 2,5 g/kg/dia nos mais catabólicos (ESPEN Guidelines on Parenteral Nutrition: Adult Renal Failure, 2009; KDIGO 2012). Essa é uma armadilha frequente na prova: o candidato acha que IRA = menos proteína — mas em IRA com TCRR o raciocínio é MAIS proteína.

Situação Clínica Meta Calórica Meta Proteica Justificativa
IRA sem terapia de substituição renal (TSR) 20-30 kcal/kg/dia 0,8-1,2 g/kg/dia Limitar proteína para reduzir acúmulo de ureia; mas não restringir excessivamente se catabólico
IRA com hemodiálise intermitente (HDI) 20-30 kcal/kg/dia 1,2-1,5 g/kg/dia HDI remove aminoácidos; repor as perdas dialíticas (aprox. 10-15 g de AA/sessão)
IRA com TCRR (hemodiafiltração contínua) 20-30 kcal/kg/dia 1,5-2,5 g/kg/dia (até 2,5 g/kg/dia) TCRR remove grandes quantidades de aminoácidos (15-25 g/dia); proteína deve ser aumentada significativamente
DRC conservadora (sem diálise, estável) 30-35 kcal/kg/dia 0,6-0,8 g/kg/dia peso ideal Reduzir carga de nitrogênio para retardar progressão da DRC
DRC em hemodiálise crônica (estável) 30-35 kcal/kg/dia 1,2-1,4 g/kg/dia Perdas dialíticas aumentam demanda proteica; NP dialítica suplementar pode ser indicada

Particularidades da NP na insuficiência renal

  • Eletrólitos: usar soluções com baixo teor de potássio, fósforo e magnésio (monitorar de perto — podem cair com TCRR ou subir com IRA oligúrica). Sódio: conforme natremia e balanço hídrico.
  • Vitaminas hidrossolúveis: repor diariamente, especialmente vitamina C, B1 e folato, perdidos na diálise.
  • Trace elements: zinco, selênio e cobre podem requerer suplementação adicional em TCRR prolongada.
  • Fórmulas de NP específicas para renal: disponíveis comercialmente com baixo teor de eletrólitos — mas em pacientes em TCRR pode ser necessária a fórmula padrão para não depletar eletrólitos que estão sendo removidos pelo filtro.
  • Glicemia: controle rigoroso (140-180 mg/dL). A IRA exacerba a resistência insulínica do paciente crítico.

⚠ ARMADILHA DIAGNÓSTICA

O erro mais frequente na prova: "paciente com IRA deve receber menos proteína para não sobrecarregar os rins". ERRADO em IRA crítica com TCRR — a meta proteica é de 1,5-2,5 g/kg/dia por causa das perdas pelo filtro. A restrição proteica é aplicada apenas na DRC conservadora estável (0,6-0,8 g/kg/dia), não em IRA crítica.

Em TCRR: repor vitaminas hidrossolúveis todos os dias — elas são perdidas no ultrafiltrado. Vitamina C, folato, B1, B6 e B12 precisam de suplementação adicional além do multivitamínico padrão da NP.

5.6 Paciente obeso crítico — hipocalórico com alta proteína

O paciente obeso crítico representa um paradoxo nutricional: tem excesso de reservas energéticas (gordura corporal) mas frequentemente tem depleção de massa magra (sarcopenia associada à obesidade, também chamada de "obesidade sarcopênica"). A estratégia nutricional para o obeso crítico é contraintuitiva: alimentá-lo com menos calorias do que o calculado (hipocalórico) mas com mais proteína do que o padrão (hiperproteico). Essa combinação permite utilizar parte das reservas de gordura para energia enquanto preserva a massa magra e suporta a síntese proteica.

Metas no obeso crítico — ASPEN/SCCM 2016

Parâmetro Meta para Obeso Crítico Base de Cálculo Justificativa
Energia 11-14 kcal/kg de peso atual/dia OU 22-25 kcal/kg de peso ideal/dia Peso atual ou peso ideal (nunca peso ajustado isoladamente) Hipocalórico: usar as reservas de gordura como fonte energética; evitar sobrealimentação (hiperglicemia, esteatose, CO2 excessivo)
Meta calórica alternativa 60-70% do GET calculado pelas equações preditivas Permissive underfeeding intencional Evidência de redução de complicações vs. alimentação eucalórica em obesos
Proteína (IMC 30-40) ≥ 2,0 g/kg de peso ideal/dia Peso ideal — NÃO usar peso atual (superestima) Alta proteína preserva massa magra durante a restrição calórica
Proteína (IMC > 40) ≥ 2,5 g/kg de peso ideal/dia Peso ideal Sarcopenia é mais grave; catabolismo é mais intenso; maior demanda proteica
Proteína máxima (referência ASPEN) 2,0-2,5 g/kg IBW/dia ou 1,3-1,5 g/kg peso atual Peso ideal ou atual Baseado em estudos de balanço nitrogenado em obesos críticos

Por que usar peso ideal e não peso atual para o cálculo proteico no obeso?

Porque o tecido adiposo em excesso não é metabolicamente ativo da mesma forma que a massa magra, e não gera a mesma demanda proteica. Calcular proteína pelo peso atual de um obeso de 150 kg resultaria em uma oferta de 300 g/dia de proteína (2 g × 150 kg) — inviável, potencialmente tóxico para os rins, e desnecessário. O cálculo pelo peso ideal (ex: 80 kg de peso ideal → 2 g × 80 kg = 160 g/dia de proteína) é mais adequado.

Cuidados específicos no obeso crítico em TNP

  • Monitorar piora da hiperglicemia: a resistência insulínica é mais intensa no obeso; controle glicêmico rigoroso 140-180 mg/dL.
  • Monitorar hiperlipidemia: a infusão de lipídios pode elevar triglicerídeos em obesos com dislipidemia pré-existente; verificar TG antes e durante a TNP.
  • Monitorar hipercapnia: o excesso de CHO aumenta a produção de CO2 (QR eleva-se); no obeso em VM, isso piora a hipercapnia e dificulta o desmame.
  • Acúmulo de gordura hepática: obesos já têm DHGNA frequentemente; a TNP com excesso de CHO/calorias agrava a esteatose hepática.
  • Paciente bariátrico com histórico de cirurgia: suplementar tiamina 100 mg IV ANTES de iniciar NP (risco de síndrome de Wernicke); avaliar deficiências de B12, vitaminas lipossolúveis (A, D, E, K), cálcio, ferro, selênio, zinco e cobre.

🎯 PONTO DE PROVA

A estratégia para o obeso crítico em TNP é HIPOCALÓRICA + HIPERPROTEICA — exatamente o oposto do que parece lógico para quem não conhece o tema. Meta calórica: 11-14 kcal/kg peso atual (ou 60-70% do GET calculado). Meta proteica: ≥ 2,0 g/kg peso IDEAL (não peso atual). Calcular proteína pelo peso IDEAL é a chave — a prova pode apresentar o cálculo errado (pelo peso atual) como distrator.

No paciente bariátrico que inicia TNP: tiamina 100 mg IV ANTES de qualquer solução contendo dextrose/glicose, independente de ter histórico de deficiência. A cirurgia bariátrica aumenta o risco de encefalopatia de Wernicke por depleção crônica de B1.

5.7 Paciente com insuficiência hepática — aminoácidos ramificados e restrições específicas

O paciente com insuficiência hepática avançada (IH) em TNP representa um desafio porque o fígado é o órgão central do metabolismo de aminoácidos, carboidratos e lipídios. A IH compromete a depuração de aminoácidos aromáticos (fenilalanina, tirosina, triptofano), que se acumulam no sangue e no SNC contribuindo para a encefalopatia hepática. Ao mesmo tempo, os aminoácidos de cadeia ramificada (leucina, isoleucina, valina — BCAA) são metabolizados predominantemente no músculo e estão relativamente preservados, sendo até deficientes em alguns pacientes com IH por uso aumentado pelos músculos como fonte energética.

Metas no paciente com insuficiência hepática

Parâmetro Meta no Hepatopata em TNP Justificativa
Energia 30-35 kcal/kg/dia (usar peso seco — sem ascite) Hipermetabolismo frequente em cirrose descompensada; usar peso seco para evitar superestimativa por ascite
Proteína 1,2-1,5 g/kg/dia (peso seco) NÃO restringir proteína na tentativa de prevenir encefalopatia — essa prática é obsoleta e piora o catabolismo
BCAA (aminoácidos ramificados) Fórmulas enriquecidas em BCAA: se encefalopatia hepática grau II-IV refratária à terapia padrão BCAA compete com aminoácidos aromáticos pelo transporte pela BHE; reduz substrato para síntese de falsos neurotransmissores
Carboidratos Limitar: risco de hipoglicemia (gluconeogênese comprometida) E hiperglicemia (resistência insulínica) Controle glicêmico cuidadoso; hipoglicemia é complicação grave em IH fulminante
Lipídios Usar com cautela; limitar se TG > 300 mg/dL Dislipidemia frequente em IH; colestase compromete metabolismo lipídico
Glutamina IV CONTRAINDICADA em IH grave Glutamina é precursora de glutamato; acúmulo cerebral de glutamato é neurotóxico na encefalopatia

🩺 PÉROLA CLÍNICA

A restrição proteica na encefalopatia hepática é um conceito ABANDONADO. A evidência atual (ESPEN 2019 guidelines on liver disease nutrition) é de que a restrição proteica piora a sarcopenia — que por si mesma é fator de risco independente para encefalopatia — e aumenta a mortalidade. O tratamento da encefalopatia hepática é com lactulose, rifaximina e correção dos fatores desencadeantes, não com restrição proteica. Na prova, a alternativa "restringir proteína para tratar encefalopatia" é ERRADA.

5.8 Paciente em choque séptico — contraindicação absoluta na fase ativa

O choque séptico ativo é a única condição clínica onde a TNP está absolutamente contraindicada independentemente do grau de desnutrição. O mecanismo é preciso: no choque séptico, há disfunção mitocondrial celular generalizada (as células não conseguem utilizar oxigênio adequadamente para metabolizar substratos energéticos), isquemia mesentérica relativa por redistribuição do fluxo sanguíneo, e incapacidade de sintetizar proteínas por falta de energia nas células. A NP nessa fase força a entrada de substrato (glicose, aminoácidos, lipídios) em células que não têm capacidade metabólica de processá-los — o resultado é aumento de produtos de metabolismo incompleto, agravamento da acidose lática, piora da resposta inflamatória e aumento documentado de morbidade e mortalidade.

Fases do Choque Séptico e Conduta Nutricional

Fase do Choque Séptico Conduta Nutricional Justificativa
Fase de ressuscitação (MAP < 65 sem resposta / vasopressor crescente) NÃO iniciar NP. Priorizar ressuscitação volêmica e vasopressores. Disfunção mitocondrial; isquemia mesentérica; células incapazes de metabolizar substratos
Fase de estabilização (MAP ≥ 65 com vasopressor estável) Pode considerar NE trófica (10-20 mL/h). TNP apenas se NE for impossível E paciente for de alto risco nutricional. Com estabilização hemodinâmica a perfusão intestinal melhora; NE trófica protege a mucosa
Fase de recuperação (vasopressores em desmame) Progressão da NE para meta. Iniciar ou manter TNP suplementar se < 60% meta pela NE após D7. Anabolismo necessário; catabolismo pós-séptico é intenso

⚠ ARMADILHA DIAGNÓSTICA

A armadilha mais comum: "paciente em choque séptico com desnutrição grave deve receber TNP imediatamente para reverter o catabolismo". ERRADO. O choque ativo é contraindicação absoluta. Nem o mais grave grau de desnutrição justifica TNP durante o choque ativo não revertido. Estabilizar hemodinamicamente primeiro, depois nutrir.

Glutamina IV em séptico com disfunção de múltiplos órgãos: CONTRAINDICADA (estudo REDOXS, NEJM 2013 — aumentou mortalidade em 28 dias). A proibição da glutamina IV em paciente séptico crítico com múltipla disfunção orgânica é explícita e é cobrada na prova.

6. FORMULAÇÃO E COMPOSIÇÃO DA NUTRIÇÃO PARENTERAL

6.1 Macronutrientes — metas e cálculo

A prescrição de NP começa pela estimativa das necessidades calórico-proteicas. A calorimetria indireta (IC) é o método mais preciso (padrão-ouro), mas quando indisponível usam-se equações preditivas. A Tabela 68.1 (baseada em Skipper, 1998, referenciada pela ASPEN) define as metas por população:

Macronutriente Paciente Crítico Paciente Estável
Proteína 1,2 a 2,0 g/kg/dia 0,8 a 1,5 g/kg/dia
Carboidratos (taxa infusão) < 4 mg/kg/min (máx 5 mg/kg/min) < 7 mg/kg/min
Lipídios 1 g/kg/dia (máx 1,5 g/kg/dia) 1 g/kg/dia (máx 1,5 g/kg/dia)
Calorias totais 25-30 kcal/kg/dia 30-35 kcal/kg/dia
Líquidos Mínimo necessário para macronutrientes 30-40 mL/kg/dia

🩺 PÉROLA CLÍNICA

A taxa de infusão de CHO é a mais cobrada: 4 mg/kg/min para o crítico (máx 5 mg/kg/min) e < 7 mg/kg/min para o estável. Converter para kcal/kg/dia: 4 mg/kg/min × 1440 min × 0,004 kcal/mg = ~23 kcal/kg/dia de CHO para o crítico. Se ultrapassar esse limite, o QR sobe, eleva VCO2 e dificulta o desmame da VM.

6.2 Eletrólitos — recomendações diárias

Eletrólito Taxa Parenteral Diária (Adulto) Obs. Clínica
Sódio 1-2 mEq/kg Ajustar conforme natremia e perdas GI
Cloreto Conforme necessidade para equilíbrio acidobásico Excesso causa acidose hiperclorêmica
Acetato Conforme necessidade para equilíbrio acidobásico Precursor de bicarbonato; usar em alcalose
Cálcio 10-15 mEq/dia Monitorar com fósforo (risco de precipitação)
Magnésio 8-20 mEq/dia Aumentar em SR, alcoolismo, perdas GI
Fosfato 20-40 mmol/dia Crítico na SR; monitorar diariamente ao início
Potássio 1-2 mEq/kg Essencial para evitar arritmias

6.3 Vitaminas — recomendações diárias parenterais (FDA)

Vitamina Dose Parenteral Diária Vitamina Dose Parenteral Diária
Vitamina A 3.300 UI B1 (Tiamina) 6 mg
Vitamina D 200 UI B2 (Riboflavina) 3,6 mg
Vitamina E 10 UI B6 (Piridoxina) 6 mg
Vitamina K 150 mcg B12 (Cianocobalamina) 5 mcg
Vitamina C 200 mg Niacina 40 mg
Ácido fólico 600 mcg Biotina 60 mcg
Ác. pantotênico 15 mg

🎯 PONTO DE PROVA

A dose de tiamina parenteral cobrada pelo FDA é 6 mg/dia. Para prevenção de encefalopatia de Wernicke antes de iniciar NP em pacientes com risco (bariátricos, alcoolistas), a dose é de 100 mg IV (não 6 mg). Essa distinção é explorada nas questões: dose de manutenção vs dose de repleção/profilaxia são diferentes.

6.4 Emulsões Lipídicas — tipos e indicações

As emulsões lipídicas injetáveis (EL) são classificadas pela sua composição de ácidos graxos. A escolha da EL impacta a modulação inflamatória, a função hepática e os desfechos clínicos:

Tipo de Emulsão Composição Característica Clínica Principal
Óleo de soja puro (TCL) 100% ácidos graxos ômega-6 Pró-inflamatória; risco hepático em uso prolongado
Emulsão mista TCM/TCL 50% TCM + 50% soja Menos disfunção hepática que soja puro; TCM é rapidamente oxidado
SMOF Soja + MCT + oliva + peixe (com ômega-3) Anti-inflamatória; menor colestase; preferida no prolongado
Óleo de oliva + soja (ClinOleic) 80% oliva + 20% soja Menos pró-inflamatório que soja puro; ômega-6 reduzido
Óleo de peixe Rico em EPA/DHA (ômega-3) Imunomodulador; adjuvante em crítico; ESPEN recomenda

A ESPEN recomenda a suplementação de AGPIs ômega-3 para pacientes cirúrgicos críticos e a infusão de EL contendo óleo de peixe como adjuvante no tratamento de pacientes críticos. A dose de lipídios (Tabela 72.3 do material base) é 20% do total de gordura para ômega-3, com contraindicações específicas.

Farmaconutriente Dose Recomendada Contraindicações
Ômega-3 (óleo de peixe) 20% do total de gordura Hiperlipidemia grave; distúrbio grave de coagulação; choque agudo; insuf. hepática grave; insuf. renal grave sem hemofiltração
Glutamina 0,3 a 0,6 g/kg/peso corporal/dia Insuficiência renal grave; insuficiência hepática grave
Arginina 30 a 35 g/dia SIRS (síndrome da resposta inflamatória sistêmica)

⚠ ARMADILHA DIAGNÓSTICA

Glutamina parenteral + paciente com disfunção de múltiplos órgãos = CONTRAINDICADA. O estudo REDOXS (NEJM 2013) mostrou aumento de mortalidade. A banca pode apresentar um caso de glutamina com falência múltipla de órgãos e perguntar se deve suplementar — a resposta é NÃO.

Arginina parenteral é contraindicada em SIRS/sepse porque, como precursora do óxido nítrico (potente vasodilatador), pode agravar a instabilidade hemodinâmica. A questão pode tentar confundir com arginina ENTERAL em imunonutrição pré-operatória (que tem indicações específicas).

6.5 Soluções industrializadas vs manipuladas

As NP industrializadas vêm em bolsas bicompartimentadas ou tricompartimentadas. Antes da administração, as câmaras são misturadas. Vitaminas e oligoelementos são adicionados em separado (não vêm nas bolsas industrializadas). As vantagens incluem: disponibilidade imediata, validade de 2 anos sem refrigeração, não requerem manipulação farmacêutica e reduzem erros de preparo.

As NP manipuladas são preparadas pelo farmacêutico individualmente para o paciente, com todos os macro e micronutrientes em uma única bolsa, seguindo a Portaria 272/98. Permitem personalização total mas exigem farmácia hospitalar especializada e têm menor validade.

7. INÍCIO, PROGRESSÃO E SUSPENSÃO DA NUTRIÇÃO PARENTERAL

7.1 Como iniciar a NP

Antes de iniciar a NP, avaliar: estabilidade hemodinâmica, perfusão tecidual adequada, tolerância a volume, proteínas, carboidratos e lipídios. Corrigir os distúrbios eletrolíticos e metabólicos graves (critérios de precaução A.S.P.E.N. 2007 listados na seção anterior).

📋 PROTOCOLO

Início da NP: passo a passo

PASSO 1: Calcular necessidades calórico-proteicas (calorimetria indireta ou equação preditiva)

PASSO 2: Verificar critérios de precaução (glicemia, K, P, Na, osmolalidade, acidobásico)

PASSO 3: Corrigir distúrbios críticos antes de iniciar

PASSO 4: Iniciar com 50% das necessidades calóricas nas primeiras 24 horas (não 100%)

PASSO 5: Aumentar gradualmente ao longo de 24-48h, monitorando tolerância

PASSO 6: Em pacientes com risco de SR (desnutridos graves): iniciar com 10-20 kcal/kg/dia, aumentar +5 kcal/kg a cada 24-48h conforme eletrólitos

PASSO 7: Monitorar glicemia a cada 4-6h nos primeiros dias

7.2 Síndrome de Realimentação — Prevenção e Manejo

A SR é uma das complicações mais cobradas porque reúne fisiopatologia precisa, critérios de risco definidos e protocolo de manejo específico. Ela ocorre nas primeiras 72 horas após reintrodução de nutrição após jejum prolongado.

Critérios de risco para SR (BRASPEN Journal 2019; NICE guidelines)

Risco ALTO (1 critério basta) Risco MODERADO (2 critérios)
IMC < 16 kg/m² IMC 16-18,5 kg/m²
Perda de peso > 15% em 3-6 meses Perda de peso 10-15% em 3-6 meses
Muito pouca ingestão calórica por > 10 dias Muito pouca ingestão calórica por > 5 dias
Hipocalemia, hipofosfatemia ou hipomagnesemia pré-NP História de abuso de álcool ou drogas

💊 PRESCRIÇÃO PRÁTICA

Protocolo de manejo da SR (baseado em BRASPEN 2019 e NICE):
  • DIA 1: Se IMC < 16 e ≥ 14: iniciar com 10 kcal/kg/dia. Se IMC < 14 ou jejum > 15 dias: 5 kcal/kg/dia.
  • Suplementos profiláticos DIA 1: Fósforo 0,5-0,8 mmol/kg/dia | Potássio 1-1,5 mEq/kg/dia | Magnésio 0,3-0,4 mmol/kg/dia | Sódio < 1 mmol/kg/dia | Volume = balanço zero.
  • Tiamina IV 100 mg + complexo B 30 minutos ANTES de iniciar a NP (obrigatório).
  • Checar bioquímica antes de iniciar e a cada 24h nas primeiras 72h.
  • DIAS 2-4: +5 kcal/kg/dia se eletrólitos estáveis. Corrigir eletrólitos antes de progredir.
  • DIAS 5-7: meta de 20-30 kcal/kg/dia | checar eletrólitos, minerais, função renal e hepática | balanço zero.
  • DIAS 8-10: 30 kcal/kg/dia ou necessidade calórica calculada. Considerar ferro no dia 7.

🎯 PONTO DE PROVA

O TEN já cobrou: "Qual eletrólito é o mais importante no monitoramento da SR?" — Fósforo. A hipofosfatemia é o evento central da SR e o indicador mais precoce. "O que administrar antes de iniciar a NP em paciente desnutrido grave?" — Tiamina 100 mg IV + complexo B. "A SR pode ocorrer pela via enteral?" — SIM, não é exclusiva da NP.

TEN — QUESTÃO MODELO: Síndrome de Realimentação

Paciente feminino, 42 anos, com anorexia nervosa grave, IMC 14,2 kg/m², internada em UTI por desnutrição grave. Iniciada nutrição parenteral total. Após 48 horas, a paciente evolui com fraqueza muscular progressiva, dificuldade respiratória e alteração do nível de consciência. Os eletrólitos revelam: P = 0,8 mg/dL, K = 2,8 mEq/L, Mg = 1,0 mg/dL. O diagnóstico mais provável e a conduta correta são:

7.3 Quando e como suspender a NP

O critério principal para suspender a NP é a recuperação da função normal do TGI. A diretriz A.S.P.E.N. 2016 para pacientes críticos: quando o paciente receber mais de 60% das necessidades energéticas pela NE, a NP pode ser suspensa. A transição deve ser gradual, usando NE por sonda como ponte quando o TGI está se recuperando.

Quanto ao desmame: a ESPEN (grau de evidência A) afirma que o desmame gradual da NP não é necessário. Estudos (Eisenberg e Nirula) mostraram que a NP pode ser interrompida abruptamente sem hipoglicemia, tanto em regime cíclico quanto contínuo. O cuidado clássico de "reduzir à metade por 1-2h antes de suspender" é uma prática histórica não mais apoiada pela evidência de alto nível. O risco de hipoglicemia reacional existe apenas se o paciente não tiver nenhuma outra fonte de glicose sendo ofertada simultaneamente.

⚠ ARMADILHA DIAGNÓSTICA

A questão pode afirmar que "é necessário fazer desmame gradual da NP para evitar hipoglicemia" — de acordo com a ESPEN com grau A de evidência, isso NÃO é necessário. A banca pode cobrar essa atualização como ponto de "novidade de guideline". Contudo, o desmame gradual ainda é prática aceitável e pode ser visto como cuidado adicional. A armadilha é apresentar o desmame como OBRIGATÓRIO — não é.

8. COMPLICAÇÕES DA NUTRIÇÃO PARENTERAL

8.1 Complicações Mecânicas do Cateter

Flebite (NPP)

Incidência de 3-31% na NPP. A variação é grande porque depende dos critérios diagnósticos. Os fatores de risco são: osmolaridade da solução, aditivos (heparina, lipídios em formulação inadequada), duração da infusão e tipo/calibre do cateter. A prevenção inclui: troca do acesso a cada 48-72h, osmolaridade < 900 mOsm/L e uso de cateter de poliuretano ou silicone de menor calibre.

Complicações do Cateter Venoso Central (NPC)

Tipo de Complicação Incidência Observação Clínica
Complicações de inserção (pneumotórax, hemotórax) 5-19% Confirmar posicionamento por RX tórax antes de usar
Trombose venosa central relacionada ao cateter 0,01-0,03 ep/cateter/ano Alta osmolaridade + cateter prolongado = fator trombogênico
Infecção da corrente sanguínea (ICSRC) 5-26% Maior complicação temida em UTI; maior com acesso femoral
Oclusão do cateter Variável Pode ser prevenida com flush regular e heparina no capping

🩺 PÉROLA CLÍNICA

Acesso femoral: risco de ICSRC aumentado + trombose 10x maior que acesso superior. NÃO inserir cateter central NÃO tunelizado em veia femoral em adultos fora de situações de emergência extrema. A banca usa esse ponto para testar conhecimento de segurança vascular.

8.2 Complicações Metabólicas

Hiperglicemia — A Complicação Mais Frequente

A hiperglicemia é a complicação metabólica mais frequente da NP. Sua origem é multifatorial: resistência insulínica do estresse metabólico, hiperinsulinemia compensatória inadequada, excesso de glicose na fórmula. A meta glicêmica para pacientes críticos (ASPEN/SCCM 2016) é 140-180 mg/dL — manter acima de 110 mg/dL (hipoglicemia iatrogênica aumenta mortalidade) e abaixo de 180 mg/dL.

💊 PRESCRIÇÃO PRÁTICA

Manejo da hiperglicemia na NP:
  • Iniciar NP com 50% das necessidades calóricas nas primeiras 24h
  • Não ultrapassar 150-200 g de glicose nas primeiras 24h de infusão
  • Taxa de CHO: máximo 4-5 mg/kg/min (ou 20-25 kcal/kg/dia)
  • Monitorar glicemia capilar a cada 4-6h nos primeiros dias
  • Adição de insulina na bolsa: dose inicial 0,05-0,1 UI por grama de glicose
  • Se hiperglicemia persistente: aumentar 0,05 UI/dia (não ultrapassar 0,2 UI/g de glicose)
  • Se não controlar com 0,2 UI/g: considerar bomba de insulina IV separada e avaliar deficiência de cromo
  • Meta: glicemia 140-180 mg/dL no crítico

Coma Hiperosmolar Hiperglicêmico Não Cetótico (CHHNC)

O CHHNC nas primeiras 24-48h da NP resulta do aumento lento da produção de insulina endógena frente à carga glicídica. Mortalidade de até 50%. Fatores precipitantes: excesso de NP com alta concentração de glicose, doenças que reduzem a utilização de glicose, combinação de NP com diálise peritoneal (absorção adicional de glicose do dialisato), uso de corticosteroides. Manejo: evitar queda rápida da glicemia (risco de edema cerebral), rehidratação gradual.

Hipoglicemia

Causas no contexto de NP: interrupção abrupta do sistema glicídico (hiperinsulinemia circulante rebate), diminuição do estresse metabólico com insulina ainda na fórmula, suspensão de medicamentos diabetogênicos. Tratamento: glicose 50% IV em bolus.

Hipercapnia por excesso calórico

O excesso de glicose (> 5 mg/kg/min ou > 25 kcal/kg/dia) aumenta a produção de CO2 (QR → 1,0 e além, podendo ultrapassar 1,0 na lipogênese ativa). Isso eleva VCO2, ventilação minuto e PaCO2, dificultando o desmame da ventilação mecânica. A solução é oferta energética mista (glicose + lipídios) e não ultrapassar os limites de CHO.

8.3 Complicações Hepáticas

A progressão cronológica das complicações hepáticas é cobrada no TEN:

Complicação Hepática Frequência / Timing Mecanismo Principal
Esteatose hepática 25-100% dos adultos; 1ª-4ª semana Lipogênese por excesso de glicose/insulina; deficiência de colina
Colestase Uso prolongado (semanas-meses) Ausência de estímulo enteral para bile; dismotilidade biliar
Lama biliar (sludge) Uso prolongado Estase biliar + alteração composição da bile
Colelitíase Uso prolongado (meses-anos) Cálculos por estase e supersaturação
Esteato-hepatite / Fibrose 15% dos casos de esteatose Progressão da esteatose com inflamação crônica
Cirrose / IH terminal Uso prolongado (anos) Progressão final; indicação de transplante hepatointestinal

A esteatose associada à NP reverte após suspensão da NP em adultos. As medidas preventivas incluem: evitar excesso de calorias, usar emulsão lipídica 3-em-1 (com ômega-3 quando possível), ciclar a NP (pausas noturnas quando indicadas), adicionar colina e lecitina quando possível, e proteger a bolsa de NP da luz (prevenção de foto-oxidação das multivitaminas).

TEN — QUESTÃO MODELO: Complicação Hepática da NP

Paciente, J.C.S., masculino, 52 anos, em uso de nutrição parenteral total há 2 semanas por obstrução intestinal. Exames laboratoriais revelam: AST 170 U/L, ALT 200 U/L, GGT 220 U/L, bilirrubina total 3,0 mg/dL. Ultrassonografia abdominal com aspecto esteatótico. A complicação mais provável e a conduta mais adequada são:

8.4 Deficiência de Ácidos Graxos Essenciais (AGE)

A NP sem lipídios por mais de 5 dias em crianças e 3 semanas em adultos resulta em deficiência bioquímica de AGE (ácido linoleico, araquidônico e linolênico). Manifestações clínicas: descamação de pele, queda de cabelo, dificuldade de cicatrização, maior suscetibilidade a infecções, eczema, hepatomegalia. A prevenção é simples: garantir oferta de lipídios (1 g/kg/dia suficiente para prevenir deficiência de AGE, segundo ASPEN/ESPEN).

8.5 Doença Metabólica Óssea

Ocorre em pacientes de todas as idades em NP prolongada, principalmente naqueles com síndrome do intestino curto. O estudo de Braga et al. (2015) mostrou doença óssea em 84% dos pacientes em NP domiciliar — osteomalacia em 36%, osteoporose em 46% (coluna) e 12,5% (fêmur). Fatores: fornecimento inadequado de cálcio, fósforo, magnésio e vitamina D pela via IV; desuso do TGI com atrofia intestinal; imobilidade; inflamação crônica.

9. MONITORAMENTO DA TERAPIA DE NUTRIÇÃO PARENTERAL

9.1 Frequência de monitoramento por fase clínica

Situação Clínica Frequência de Monitoramento
Início de NP (primeiros dias) Diário (mais frequente se SR ou alterações metabólicas)
Instabilidade clínica (crítico, pós-op recente) Diário até estabilização
Paciente estável internado — NP > 1 semana sem ajustes A cada 2 a 7 dias
NP domiciliar / cuidados prolongados estáveis A cada 1 a 4 semanas ou mais

9.2 Parâmetros a monitorar e sua interpretação

Para cada parâmetro monitorado, o candidato precisa entender por que ele é monitorado — não apenas a frequência:

  • Glicemia capilar: a cada 4-6h nos primeiros dias, espaçar se controlada (meta 140-180 mg/dL no crítico; < 180 mg/dL em geral).
  • Proteínas plasmáticas (albumina, pré-albumina, transferrina): interpretar sempre em contexto — albumina baixa pode refletir resposta de fase aguda (proteína negativa de fase aguda), não necessariamente estado nutricional.
  • Eletrólitos (Na, K, Cl, HCO3, Ca, Mg, P): diários ao início, com atenção especial ao fósforo em pacientes com risco de SR.
  • Triglicerídeos séricos: monitorar em pacientes recebendo NP com lipídios por períodos prolongados; reduzir taxa de infusão lipídica se TG > 400 mg/dL (ESPEN) e suspender se > 1.000 mg/dL.
  • Função hepática (AST, ALT, GGT, FA, bilirrubinas): semanal; elevação precoce pode indicar esteatose; colestase nas semanas/meses posteriores.
  • Função renal (ureia, creatinina): para ajuste de proteínas e eletrólitos.
  • Balanço hídrico: diário no crítico.
  • Contagem de nutrientes administrados vs necessidades estimadas: verificar se as metas calórico-proteicas estão sendo atingidas.

🩺 PÉROLA CLÍNICA

Pré-albumina (transtiretina) tem meia-vida curta (2-3 dias) e teoricamente é o melhor marcador de evolução nutricional a curto prazo. Porém, CUIDADO: ela também é proteína negativa de fase aguda — cai em inflamação, infecção e pós-operatório imediato. Interpretar sempre em conjunto com PCR. A banca pode explorar essa nuance.

10. CÁLCULO PRÁTICO DA NP — GUIA CLÍNICO COMPLETO

O cálculo de uma nutrição parenteral (NP) exige rigor matemático e raciocínio clínico. A prescrição deve atender às necessidades energéticas e proteicas do paciente sem sobrecarregar suas vias metabólicas. Esta seção detalha as etapas teóricas de planejamento de uma NP e oferece ferramentas interativas para simular e calcular prescrições na prática clínica.

10.1 Passos Clínicos para o Planejamento

Clinicamente, o cálculo de uma Nutrição Parenteral segue seis etapas fundamentais:

Etapa Objetivo Clínico Parâmetros e Fórmulas Comuns
1. Avaliação do Peso Definir o peso de cálculo (Real, Ideal ou Ajustado). Para obesos (IMC ≥ 30), utiliza-se o Peso Ideal para proteínas e calorias metabólicas para evitar sobrecarga (overfeeding).
2. Alvo Proteico Determinar a oferta de aminoácidos necessária. Geral: 1,2 - 2,0 g/kg/dia. Insuficiência renal em diálise: 1,5 - 1,7 g/kg/dia. Grande queimado: 1,5 - 2,5 g/kg/dia.
3. GET (Gasto Energético) Definir as calorias totais diárias do paciente. Calorimetria Indireta (padrão-ouro) ou Fórmulas Preditivas (Harris-Benedict, Mifflin, Penn State, Curreri) ou Regra de Bolso.
4. Distribuição das CNP Distribuir as Calorias Não-Proteicas entre carboidratos e lipídios. CNP = GET - Kcal Proteicas. Distribuição típica: 60-70% Carboidratos (Glicose) e 30-40% Lipídios.
5. Conversão em Volumes Converter gramas de macros para volumes de soluções clínicas. Aminoácidos 10% (0,1g/mL); Glicose 50% (0,5g/mL); Lipídios 20% (0,2g/mL; fornece 2 kcal/mL).
6. Parâmetros de Segurança Calcular Taxa de Infusão de Glicose (TIG) e Osmolaridade. TIG ≤ 4 mg/kg/min (UTI). Osmolaridade total para definir o acesso venoso (Periférico ≤ 900 mOsm/L; Central > 900 mOsm/L).

10.2 Fórmulas Preditivas de Gasto Energético

Harris-Benedict (HB)

Calcula a Taxa Metabólica Basal (TMB), que deve ser multiplicada pelo Fator de Estresse/Injúria (FE) e Fator de Atividade (FA) para obter o GET:

  • Homem: TMB = 88,362 + (13,397 × peso kg) + (4,799 × altura cm) − (5,677 × idade anos)
  • Mulher: TMB = 447,593 + (9,247 × peso kg) + (3,098 × altura cm) − (4,330 × idade anos)

Fatores de Estresse Usuais: Pós-operatório eletivo (1,1 - 1,2); Sepse/Infecção grave (1,2 - 1,4); Grande trauma (1,3 - 1,5); Queimaduras graves (1,5 - 2,0).

Penn State (UTI com Ventilação Mecânica)

Utiliza Mifflin-St Jeor como base, ajustando pela temperatura máxima do paciente e a ventilação minuto (VE) medida no ventilador:

  • Penn State 2003b (Eutróficos ou Obesos < 60 anos): GET = TMB(Mifflin) × 0,96 + (167 × Temp_max °C) + (31 × VE L/min) − 6212
  • Penn State 2010 (Obesos ≥ 60 anos): GET = TMB(Mifflin) × 0,71 + (85 × Temp_max °C) + (64 × VE L/min) − 3085

Mifflin-St Jeor (Preferível em Obesos Não Críticos)

  • Homem: TMB = (10 × peso kg) + (6,25 × altura cm) − (5 × idade anos) + 5
  • Mulher: TMB = (10 × peso kg) + (6,25 × altura cm) − (5 × idade anos) − 161

Fórmula de Curreri (Grande Queimado)

Calcula diretamente o GET com base na Superfície Corporal Queimada (SCQ):

GET: (25 × peso kg) + (40 × SCQ em m²)

🎯 PONTO DE PROVA

As fórmulas mais cobradas no TEN em NP são Harris-Benedict e Penn State. A Penn State é específica para UTI com ventilação mecânica — a banca pode perguntar qual fórmula usar num paciente em VM com queimaduras, e a Penn State é mais adequada. Para obesos, Mifflin é preferida. Para queimados, Curreri é a referência.

10.3 Relação Caloria Não-Proteica por Grama de Nitrogênio (CNP/N)

A relação CNP/N quantifica se a quantidade de energia fornecida fora das proteínas é adequada para poupar a utilização dos aminoácidos como fonte de energia. Para calculá-la:

  1. Calcular os gramas de Nitrogênio: Nitrogênio (g) = Proteína (g) ÷ 6,25
  2. Calcular a relação: Relação = CNP (kcal) ÷ Nitrogênio (g)

A interpretação clínica dessa relação varia conforme o grau de estresse metabólico:

  • Paciente sem estresse (estável): 150:1 a 200:1
  • Estresse moderado (cirurgias de médio porte, trauma leve): 100:1 a 150:1
  • Estresse grave (sepse severa, choque controlado, queimados): 80:1 a 100:1

🩺 PÉROLA CLÍNICA

Fornecer uma relação CNP/N inadequada (ex: excesso de glicose em relação ao nitrogênio) predispõe à hiperglicemia e esteatose. Inversamente, pouca energia não-proteica força o organismo a degradar os aminoácidos da NP para produção de calorias (gliconeogênese), anulando o efeito anabólico da terapia.

10.4 Parâmetros de Segurança e Acesso Venoso

Taxa de Infusão de Glicose (TIG)

Mede a velocidade de infusão de carboidrato na corrente sanguínea. Para evitar sobrecarga celular e hepática:

TIG (mg/kg/min) = [Glicose (g) × 1000] ÷ [Peso (kg) × 1440 (minutos)]

  • Limite no paciente crítico na UTI: Deve ser mantida ≤ 4 mg/kg/min (máximo absoluto 5 mg/kg/min).
  • Limite no paciente estável/ambulatorial: Deve ser mantida ≤ 7 mg/kg/min.

Cálculo da Osmolaridade e Via de Acesso

A osmolaridade estimada indica se a NP pode ser infundida em veia periférica ou se exige um cateter central (NPC):

Osmolaridade Estimada (mOsm/L) ≈ [(Glicose g × 5) + (Aminoácidos g × 10) + Eletrólitos (mEq)] ÷ Volume Total (L)

  • Acesso Periférico (NPP): Osmolaridade final ≤ 900 mOsm/L. Geralmente requer volumes maiores e baixa concentração de glicose. Duração de até 7 a 10 dias.
  • Acesso Central (NPC): Osmolaridade final > 900 mOsm/L. Obrigatória para soluções hiperconcentradas, com duração prolongada ou em pacientes com restrição hídrica severa.

10.5 Exemplo de Cálculo Completo

Caso Exemplo: Paciente de 70 kg, queimado com 30% de superfície corporal queimada (SCQ), em UTI, hemodinamicamente estável.

  1. Proteínas: 1,5 g/kg/dia × 70 kg = 105 g de proteína (fornece 105 × 4 = 420 kcal/dia). Nitrogênio = 105 ÷ 6,25 = 16,8 g.
  2. GET (Curreri, com 30% SCQ e 70kg): (25 × 70) + (40 × 30) = 1750 + 1200 = 2950 kcal/dia. (Nota: Para fins acadêmicos simplificados no simulador, pode-se usar a regra de bolso de 25 kcal/kg = 1750 kcal/dia na fase inicial estável).
  3. Calorias Não-Proteicas (CNP): 2950 − 420 = 2530 kcal.
  4. Distribuição das CNP (60/40):
    • Glicose (60%): 2530 × 0,6 = 1518 kcal ÷ 4 kcal/g ≈ 380 g/dia.
    • Lipídios (40%): 2530 × 0,4 = 1012 kcal ÷ 9 kcal/g ≈ 112 g/dia.
  5. Volumes das Soluções Clínicas:
    • Aminoácidos 10%: 105 g ÷ 0,1 = 1050 mL
    • Glicose 50%: 380 g ÷ 0,5 = 760 mL
    • Lipídios 20%: 112 g ÷ 0,2 = 560 mL
    • Volume Parcial dos Macronutrientes: 1050 + 760 + 560 = 2370 mL/dia.
  6. Parâmetros de Segurança:
    • TIG = (380 × 1000) ÷ (70 × 1440) = 380.000 ÷ 100.800 = 3,77 mg/kg/min (Seguro, ≤ 4).
    • Relação CNP/N = 2530 kcal ÷ 16,8 g N = 150:1 (Adequado para recuperação).
    • Osmolaridade total estimada ≈ [(380 × 5) + (105 × 10) + 150 (eletrólitos)] ÷ 2,4 L ≈ 1290 mOsm/L (> 900 mOsm/L, indicando Acesso Central).

10.6 Simulador e Desafio Interativo de Cálculo de NP

Coloque em prática os conhecimentos adquiridos. Utilize a aba "Desafio: Caso Clínico" para passar por um caso clínico simulado etapa por etapa e validar seus cálculos. Em seguida, use a aba "Calculadora Clínica de NP" para planejar a prescrição de qualquer paciente de forma automatizada com base em metas nutricionais customizadas.

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Caso Clínico de Estudo: Paciente masculino de 45 anos, peso 70 kg, no 3º dia pós-operatório de colectomia por diverticulite perfurada com sepse abdominal. Evoluiu com fístula enterocutânea de alto débito (1.200 mL/dia). Trato gastrointestinal proximal inviável. Sem disfunções hepática ou renal agudas. Hemodinamicamente estável no momento.

Etapa 1: Prescrição de Proteínas

Considerando o estado crítico hipercatabólico por sepse e fístula de alto débito, qual é a recomendação proteica ideal (g/kg/dia) e o total de gramas de proteína por dia?

Orientação Literária: Pacientes hipercatabólicos graves necessitam de 1,5 g/kg/dia.
g/kg/dia
g/dia
Sua Resposta

Etapa 2: Necessidade Calórica Total (GET)

Considerando que o paciente está crítico, porém estável hemodinamicamente na fase anabólica inicial, qual o GET recomendado usando a regra de bolso de 25 kcal/kg/dia?

Fórmula de Bolso: GET = peso (70 kg) × meta calórica (25 kcal/kg/dia).
kcal/dia
Sua Resposta

Etapa 3: Calorias Não-Proteicas e Macronutrientes

Calcule as Calorias Não-Proteicas (CNP = GET - Kcal Proteína). Distribua-as em: 60% Carboidratos (Glicose) e 40% Lipídios. Quantos gramas de cada um devem ser fornecidos?

Fórmula de Apoio:
Kcal Proteína = 105g × 4 kcal/g = 420 kcal.
CNP = 1750 − 420 = 1330 kcal.
Glicose fornece 4 kcal/g | Lipídios fornecem 9 kcal/g.
g/dia
g/dia
Sua Resposta

Etapa 4: Volumes de Soluções Padrão (mL)

Converta os macronutrientes calculados nos volumes correspondentes das soluções padronizadas no hospital:

  • Aminoácidos a 10% (0,1 g de proteína/mL)
  • Glicose a 50% (0,5 g de carboidrato/mL)
  • Lipídios a 20% (0,2 g de lipídio/mL)
mL/dia
mL/dia
mL/dia
Sua Resposta

Etapa 5: Parâmetros de Segurança e Via de Acesso

Calcule a Taxa de Infusão de Glicose (TIG) em mg/kg/min e a Osmolaridade total da solução (considere eletrólitos e aditivos adicionando 300 mOsm de carga osmótica ao volume total calculado).

Fórmulas de Apoio:
TIG (mg/kg/min) = (g Glicose × 1000) ÷ (70 kg × 1440 min)
Volume Total = Vol AA + Vol Glicose + Vol Lipídios (em Litros)
Osmolaridade total estimada (mOsm/L) = [(g Glicose × 5) + (g Aminoácidos × 10) + 300] ÷ Volume Total (L)
mg/kg/min
mOsm/L
Sua Resposta

Use esta ferramenta clínica para calcular rapidamente as necessidades nutricionais e volumes de prescrição de qualquer paciente.

kg
kcal/kg/dia
g/kg/dia
Prescrição Calculada
Gasto Energético Total: 1750 kcal
Proteína Total: 105 g
Vol. Aminoácidos 10%: 1050 mL
Vol. Glicose 50%: 398 mL
Vol. Lipídios 20%: 296 mL
Vol. Total Estimado (Macros): 1744 mL
TIG (Taxa Infusão Glicose): 1.97 mg/kg/min
Osmolaridade Estimada: 1340 mOsm/L
Acesso Venoso Indicado: Central (NPC)

11. PONTOS DE PROVA — CONSOLIDAÇÃO FINAL

11.1 Conceitos mais cobrados no TEN

  1. Definição de NP (ANVISA Portaria 272): estéril, apirogênica, intravenosa, composta de macros + vitaminas + minerais.
  2. NPP: osmolaridade < 900 mOsm/L, lipídio OBRIGATÓRIO (emulsão 20% preferida), duração máx 14-15 dias, trocar acesso a cada 48-72h.
  3. Critérios A.S.P.E.N. 2007 de precaução: glicemia > 300, BUN > 100, osmolalidade > 350, Na > 150, K < 3, P < 2, acidose/alcalose.
  4. No crítico baixo risco: aguardar 7 dias para TNP. No alto risco: iniciar TNP imediatamente se NE impossível.
  5. TNP hipocalórica no crítico de alto risco: ≤ 20 kcal/kg/dia com proteína ≥ 1,2 g/kg/dia na 1ª semana.
  6. Choque séptico ativo: NUNCA usar TNP (aumento de morbi-mortalidade).
  7. Oncológico terminal: TNP NÃO prolonga vida, NÃO deve ser usada.
  8. Esteatose hepática: complicação hepática MAIS FREQUENTE na NP adulto (25-100%), 1ª-4ª semana, reversível.
  9. SR: eletrólitos-chave são P (mais crítico) + K + Mg. Tiamina 100 mg IV ANTES de iniciar NP em desnutridos graves.
  10. Meta glicêmica no crítico em NP: 140-180 mg/dL (ASPEN/SCCM 2016).
  11. Desmame da NP: NÃO é necessário segundo ESPEN (grau A de evidência).
  12. Sistema 3-em-1 (lipídico): é superior ao 2-em-1 em quase todos os desfechos.
  13. Taxa segura de lipídios: 0,7-1,5 g/kg/dia em 12-24h; 1 g/kg/dia previne deficiência de AGE.
  14. Taxa de CHO: < 4 mg/kg/min no crítico; < 7 mg/kg/min no estável.
  15. Glutamina parenteral: CONTRAINDICADA em disfunção de múltiplos órgãos (mortalidade aumentada no REDOXS).

11.2 Armadilhas clássicas da banca

Armadilha Resposta Correta
"A NP deve ser iniciada imediatamente em todo paciente crítico" ERRADO. Baixo risco: aguardar 7 dias; choque ativo: contraindicada.
"A veia femoral é uma alternativa aceitável para NPC" ERRADO. Risco de ICSRC e trombose 10x maior; evitar em adultos.
"Desmame gradual da NP é obrigatório" ERRADO. ESPEN grau A: não é necessário. Pode ser feito, mas não é mandatório.
"A SR é exclusiva da NP" ERRADO. Ocorre por qualquer via de realimentação (oral, enteral ou parenteral).
"Hiperinsulinemia é a causa central da SR" PARCIALMENTE CORRETO. A insulina medeia o mecanismo, mas a causa é a reintrodução de CHO em depletado.
"TNP em oncológico prolonga sobrevida" ERRADO. Não prolonga sobrevida e aumenta infecções em Qt/Rt.
"Sistema 2-em-1 é preferível por conter menos lipídios" ERRADO. O sistema 3-em-1 com lipídios é superior.
"A esteatose hepática da NP é irreversível" ERRADO em adultos. Reverte após suspensão da NP.

11.3 Mnemônicos e atalhos de memorização

🩺 PÉROLA CLÍNICA

"P-K-Mg": os três eletrólitos da Síndrome de Realimentação. P (fósforo) é o mais crítico e o que cai primeiro. Associe: "Quando o doente Persiste com Kaos Metabólico após realimentação = SR".

"TIAMINA ANTES = SEMPRE": em qualquer paciente com risco de SR (desnutrido grave, alcoolista, bariátrico), tiamina 100 mg IV 30 minutos ANTES de iniciar a NP.

"3 > 2": o sistema 3-em-1 (lipídico) é sempre superior ao sistema 2-em-1 (glicídico). Menos hiperglicemia, menos esteatose, menos infecção.

Meta glicêmica no crítico: "140-180" — acima de 180 mata, abaixo de 110 também mata. O alvo é o meio.

"CHOQUE = PARE": choque séptico ativo é contraindicação absoluta à NP. Nenhum grau de desnutrição justifica NP durante o choque ativo não revertido.

12. SIMULADO DE PROVAS ANTERIORES (2022-2024)

Este simulado contém questões reais das provas de título de 2022, 2023 e 2024 sobre nutrição parenteral. Analise o gráfico interativo de incidência abaixo para compreender quais temas são mais exigidos e, na sequência, responda às questões para testar seus conhecimentos e consolidar os conceitos fundamentais.

Incidência de Temas de Nutrição Parenteral nas Provas (2022-2024)

Clique nos botões abaixo para filtrar os dados por ano e ver o percentual de questões de cada tema.

PROVA 2022

Questão 5 — Sobre a equipe multiprofissional de terapia nutricional (EMTN) e seus aspectos definidos na legislação, assinale a alternativa correta:
A. É obrigatória em sua constituição pelo menos um profissional médico, nutricionista, enfermeiro e farmacêutico, com treinamento específico para essa atividade.
B. É papel da EMTN a indicação da introdução à terapia nutricional, sendo a avaliação nutricional papel exclusivo da equipe assistente.
C. A constituição de EMTN é opcional para instituições hospitalares de atenção secundária e terciária.
D. Compete ao nutricionista participante da EMTN a prescrição da dieta enteral e parenteral, avaliando composição qualitativa e quantitativa da dieta.
E. As ações da EMTN se enquadram exclusivamente no ambiente de atendimento hospitalar e ambulatorial.
Questão 6 — A nutrição parenteral (NP) é procedimento terapêutico essencial no tratamento intra-hospitalar do recém-nascido pré-termo (RNPT). Assinale a alternativa INCORRETA.
A. RNPT menores de 1000g devem iniciar a NP com menos de 24 horas de vida.
B. RNPT maiores de 1500g pode-se considerar o uso de nutrição enteral exclusiva.
C. Os aminoácidos devem ser iniciados a partir do primeiro dia de NP.
D. As vitaminas e oligoelementos devem ser iniciados após o 5º dia de NP.
Questão 7 — Paciente masculino de 55 anos, previamente hígido, Índice de Massa Corpórea (IMC) 24,5 kg/m2, há 7 dias iniciou com quadro respiratório e foi confirmado COVID-19, no momento gravemente enfermo, internado em Unidade de Terapia Intensiva (UTI), recebendo sedação com fentanil e midazolam, entubado em Assistência Ventilatória controlada, curarizado e recebendo noradrenalina na dose de 1mcg/kg/min por 4 dias e hoje, no 5º dia de UTI manteve pressão arterial média (PAM) estável maior que 70mmHg com noradrenalina à 0,4mcg/kg/min. Mantém jejum enteral desde a admissão em UTI. Baseado nas últimas recomendações do Guideline de Paciente Crítico da Sociedade Americana de Nutrição Enteral e Parenteral (ASPEN) de 2022, marque a alternativa correta.
A. Devido ao jejum prolongado, a equipe deveria ter iniciado a nutrição parenteral nas primeiras 48 horas.
B. O uso da Nutrição parenteral deveria ter sido iniciado após estabilização hemodinâmica, por tratar-se de paciente com COVID-19.
C. Em paciente grave sem desnutrição prévia a indicação de nutrição parenteral poderia ser avaliada após o quinto ao sétimo dia em terapia intensiva, caso não seja possível iniciar terapia enteral.
D. A dificuldade em realizar endoscopia digestiva nos pacientes de COVID e colocar sonda em posição pós-pilórica, (obrigatória em pacientes em ventilação mecânica) nos indica uso precoce de nutrição parenteral.
E. A Posição Prona, muito utilizada em pacientes com COVID 19, impede o uso de dieta via sonda enteral e indica uso de nutrição parenteral precoce.
Questão 8 — Segundo os critérios da ASPEN (Sociedade Americana de Nutrição Enteral e Parenteral), para se identificar pacientes adultos sob risco de Síndrome de Realimentação, pode-se dizer que são considerados critérios necessários de risco significativo:
A. a perda de 5% do peso corporal em 1 mês.
B. IMC entre 17 e 18,5kg/m2.
C. nenhuma ou insignificante ingestão oral por 3-4 dias.
D. evidência de moderada perda de gordura subcutânea.
E. Menos de 50% de ingestão energética estimada durante mais de 1 mês.
Questão 9 — Em relação às estratégias para terapia nutricional em pacientes dialíticos, pode-se afirmar que a nutrição parenteral intradialítica é:
A. Indicada para todos os pacientes em diálise para profilaxia de desnutrição.
B. Iindicada como profilaxia de deficiência de micronutrientes durante o período dialítico.
C. Superiores uso de estratégias de suplementação parenteral, devido à alta taxa de retenção de nutrientes.
D. Fornecida ao longo de 6 a 12 horas, prolongando o tempo de internação e de diálise desses pacientes.
E. Suficiente para fornecer, aproximadamente, 3.000 kcal por semana, com principal benefício em pacientes desnutridos graves.

PROVA 2023

Questão 10 — Em relação à terapia nutricional parenteral, assinale a alternativa correta:
A) Cateteres venosos centrais não tunelizados, cateteres centrais de inserção periférica (PICC) e cateteres periféricos são utilizados para nutrição parenteral domiciliar.
B) Nutrição parenteral periférica deve ter osmolaridade menor que 700 mOsm/L.
C) Recomenda-se infundir emulsão lipídica pelo menos 2 vezes por semana para evitar deficiência de ácidos graxos essenciais.
D) Prevenção da doença hepática associada à nutrição parenteral inclui evitar a hiperalimentação, controlar a infusão de carboidratos e lipídios e a administração tardia da nutrição enteral.
Questão 11 — Paciente obesa do sexo feminino, em terapia intensiva, entubada sob ventilação mecânica, hemodinamicamente estável, sem drogas vasoativas, sedada com propofol 25ml/h, pós-operatório de ressecção de tumor intestinal, evoluiu com fístula entero-cutânea, débito de 1300mL nas 24h. Em relação à terapia nutricional, assinale a alternativa correta:
A) Iniciar dieta via oral associada à nutrição parenteral, sendo que a velocidade de infusão de glicose na nutrição parenteral não deve exceder 5 mcg/kg/min.
B) Iniciar nutrição enteral com sonda distal à fístula, se possível. Caso não seja possível passagem de sonda pós-fístula, iniciar nutrição parenteral central.
C) A densidade energética do propofol é 1,25 Kcal/mL e há necessidade de dosar triglicerídeos.
D) A oferta proteica diária recomendada para esta paciente é de 2 g por kg de peso ideal (IMC entre 30 e 40 kg/m2) e a oferta calórica diária de 11 a 18 kcal por kg de peso real (IMC: 30-50 kg/m2).
Questão 12 — Sobre terapia nutricional no paciente crítico marque a alternativa correta?
A) Pacientes neurológicos submetidos à drenagem de hematoma subdural em pós operatório receber terapia nutricional enteral precoce com sonda em posição pós pilórica.
B) O Estudo Nutrirea-2 demonstrou superioridade do uso de nutrição enteral precoce em pacientes com disfunção intestinal e uso de drogas vasoativas, para evitar isquemia intestinal.
C) O uso de nutrição parenteral suplementar deve ser indicado em paciente eutrófico previamente ao trauma após 3 dias de nutrição enteral trófica, na primeira semana de internação em uti para atingir meta calórica e proteica alvo.
D) O uso de nutrição parenteral deve ser recomendado no terceiro dia de internação na uti em pacientes eutróficos antes da doença crítica.
Questão 13 — A terapia nutrológica parenteral do tipo periférica possui limitada osmolaridade; Desta forma, os nutrientes que contribuem para esta osmolaridade e o valor limite aceitável são:
A) Vitaminas, glicose e 700 mosm/l.
B) Lipídeos, glicose e 800 mosm/l.
C) Aminoácidos, glicose e 900 mosm/l.
D) Glicose, lipídeos e 900 mosm/l.
Questão 14 — A síndrome de realimentação pode ser considerada uma complicação do uso de dieta enteral. Segundo as Recomendações do Consenso ASPEN (American Society for Parenteral and Enteral Nutrition) para Síndrome de Realimentação (ano de publicação 2020) as medidas para prevenção de síndrome de realimentação em adultos em risco
A) Limitar a dextrose a 100-150 gramas ao dia (incluindo dextrose de outras fontes) ou 10-20 kcal/ kg (quilocalorias por quilo) nas primeiras 24 horas. Realizar sinais vitais a cada 4 horas durante as primeiras 24 horas após o início da terapia nutricional.
B) Limitar a dextrose a 150-200 gramas ao dia (incluindo dextrose de outras fontes) ou 10-15 kcal/ kg (quilocalorias por quilo) nas primeiras 24 horas. Realizar sinais vitais a cada 4 horas durante as primeiras 24 horas após o início da terapia nutricional.
C) Limitar a dextrose a 100-150 gramas ao dia (incluindo dextrose de outras fontes) ou 10-15 kcal/ kg (quilocalorias por quilo) nas primeiras 24 horas. Realizar sinais vitais a cada 6 horas durante as primeiras 24 horas após o início da terapia nutricional.
D) Limitar a dextrose a 150-200 gramas ao dia (incluindo dextrose de outras fontes) ou 10-20 kcal/ kg (quilocalorias por quilo) nas primeiras 24 horas. Realizar sinais vitais a cada 6 horas durante as primeiras 24 horas após o início da terapia nutricional.

PROVA 2024

Questão 15 — Pacientes internados em UTIP (Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica) que estão em uso de infusão contínua para sedação, deve-se lembrar que existe um medicamento que é considerado uma emulsão lipídica a 10%, e isto deve ser considerado no cálculo da Nutrição Parenteral. Qual é o medicamento?
a) Cetamina.
b) Midazolam.
c) Propofol.
d) Fentanil.
Questão 16 — Paciente obeso do sexo masculino, IMC 39 kg/m2 , em terapia intensiva, entubado sob ventilação mecânica, hemodinamicamente estável, sem drogas vasoativas, sedado com propofol 30ml/h, pós operatório de ressecção de tumor intestinal, evoluiu com fístula enterocutânea, débito de 1500mL nas 24h. Em relação à terapia nutricional, assinale a alternativa correta.
a) Iniciar dieta via oral associada à nutrição parenteral, sendo que a velocidade de infusão de glicose na nutrição parenteral não deve exceder 5 mcg/kg/min.
b) A densidade energética do propofol é 1,25 Kcal/mL e há necessidade de dosar triglicérides.
c) A oferta proteica diária recomendada para este paciente é de 2,5 g por kg de peso ideal e a oferta calórica diária de 14 a 18 kcal por kg de peso real.
d) Iniciar nutrição parenteral central caso não seja possível locar sonda enteral distal à fístula e o débito não reduzir.
Questão 17 — A terapia nutrológica parenteral do tipo periférica tem como características fundamentais:
a) osmolaridade limitada, oferta calórica desejada e duração acima de 07 dias.
b) osmolaridade ilimitada, oferta calórica inferior à desejada e duração inferior à 07 dias.
c) osmolaridade limitada, oferta calórica inferior à desejada e duração acima de 07 dias.
d) osmolaridade limitada, oferta calórica inferior à desejada, duração inferior à 07 dias.

13. REFERÊNCIAS

  1. ANVISA. Portaria n. 272, de 8 de abril de 1998. Aprova o Regulamento Técnico para Fixar os Requisitos Mínimos Exigidos para a Terapia de Nutrição Parenteral. Brasília: Ministério da Saúde, 1998.
  2. Compher C, Bingham AL, McCall M, et al. Guidelines for the provision of nutrition support therapy in the adult critically ill patient: The American Society for Parenteral and Enteral Nutrition. JPEN J Parenter Enteral Nutr. 2022;46(1):12-41. DOI: 10.1002/jpen.2267. [ASPEN/SCCM 2022]
  3. Pironi L, Boeykens K, Bozzetti F, et al. ESPEN practical guideline: Home parenteral nutrition. Clin Nutr. 2023;42(3):411-430. DOI: 10.1016/j.clnu.2022.12.003. [ESPEN 2023]
  4. Castro MG, Ribeiro PC, Souza IAO, Cunha HFR, et al. Diretriz BRASPEN de Terapia Nutricional no Paciente Grave. BRASPEN Journal. 2023;38(2° Supl 2):2-46. [BRASPEN 2023]
  5. McClave SA, Taylor BE, Martindale RG, et al. Guidelines for the Provision and Assessment of Nutrition Support Therapy in the Adult Critically Ill Patient: SCCM and ASPEN. JPEN J Parenter Enteral Nutr. 2016;40(2):159-211. [ASPEN/SCCM 2016]
  6. Da Silva JSV, Seres DS, Sabino K, et al. ASPEN Consensus Recommendations for Refeeding Syndrome. Nutr Clin Pract. 2020;35(2):178-195. DOI: 10.1002/ncp.10474.
  7. Skipper A. Dietitian's Handbook of Enteral and Parenteral Nutrition. 2nd ed. Gaithersburg: Aspen, 1998. [Base tabela de macronutrientes]
  8. ASPEN. 2012 Core Curriculum. [Considerações prévias às indicações de TNP — Quadro 68.1]
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  10. Braga CB, Baddini-Martinez JA, et al. Metabolic bone disease in patients with short bowel syndrome. Clin Nutr. 2015.
  11. Van Zanten ARH, et al. High-protein enteral nutrition enriched with immune-modulating nutrients vs standard high-protein enteral nutrition and nosocomial infections in the ICU: a randomized clinical trial. JAMA. 2023.
  12. Heyland DK, et al. REDOXS study: effect of glutamine and antioxidants in critically ill patients. NEJM. 2013;368(16):1489-1497.
  13. BRASPEN Journal. Manejo nutricional em pacientes com risco de síndrome de realimentação. BRASPEN J. 2019;34(4):414-417.
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FIM DO MÓDULO — NUTRIÇÃO PARENTERAL

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